Leitura dominical

Liberdade, igualdade, normalidade, a crónica de Alberto Gonçalves.

Alguns vultos do premiadíssimo cinema português juntaram-se à porta do Parlamento em protesto. A razão do protesto? Os vultos querem verba. O modo de protesto? A projecção de uma peça com 90 minutos e 400 pedacinhos de filmes indígenas.

É estranho que alguém tente legitimar as suas reivindicações através de uma prova cabal de que essas reivindicações não fazem sentido. Quanto menos o cinema português for visto, maiores são as possibilidades de alguém o financiar. Aliás, é isso que costuma acontecer, embora na ordem inversa: primeiro chega o financiamento (adivinhem de onde), depois a obscuridade.

Um artista comum, ávido de comunicar, talvez se incomodasse face a semelhante fatalidade. Os cineastas pátrios acolhem-na sem problemas. Um deles, Miguel Gomes, explicou a atitude: “O financiamento do Estado é condição para que os agentes culturais criem em total liberdade” e produzam “um cinema que não esteja sujeito do mínimo denominador comum”.

Por outras palavras, os cineastas dispensam a admiração ou a mera atenção do público, que é definitivamente imbecil e prefere o sr. Spielberg ao sr. Gomes. A única coisa que os cineastas desejam da ralé é dinheiro. Não admira que a grande ovação da vigília em S. Bento tenha ido direitinha para João César Monteiro, autor da perfeita metáfora do nosso cinema (Branca de Neve, uma fita que literalmente não se consegue ver) e da imortal frase “Eu quero que o público português se foda.”

Seria estranho que os cineastas se ofendessem com uma reacção recíproca. Mas, desde que lhes paguem a repugnância pelo materialismo, eles não se ofendem.

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