O buraco que a “direita” cavou para si

Como alguns repararam nos últimos tempo o meu número de postas reduziu significativamente. Uma das principais razões que contribuiu para esse facto foi eu estar constantemente a repetir-me, achei que depois de tanto tempo a dizer a mesma coisa não haveria muito a ganhar com continuar a dizê-lo. Ora um dos temas recorrentes nos meus artigos de há 2 ou 3 anos atrás era precisamente a impossibilidade de países como Portugal ou Grécia (ou Espanha, ou Itália, ou …) pagarem as suas dívidas. Isto, para mim, não é um ponto de vista é um facto da vida inerente ao sistema monetário que impera pelo mundo inteiro. Como bem dizia Sócrates sobre este assunto (ironicamente, prontamente crucificado pela “direita” na  única vez em que falou verdade): as dívidas (soberanas) não se pagam, rolam-se.

E a verdade é que a social-democracia e os democratas-cristãos por essa Europa fora (e em Portugal também) tem insistido nesta ideia que as dívidas são para pagar. Não estou obviamente a falar da realidade em que muito pouco continua a ser feito se houvesse realmente intenção de pagar, estou sim a falar da retórica política. O campo divide-se em dois lados: os irresponsáveis que nos enfiaram neste buraco e os bonzinhos, responsáveis que agora vão tomar conta da casa e pagar tudo a todos os credores apesar dos grandes sacrifícios exigidos.

Cá, como na Grécia, o discurso à volta deste ponto é bastante semelhante. Ora acontece que, como eu disse em cima, a impossibilidade de pagar é um facto e não  uma retórica política para se usar ou deixar de usar quando nos apetece. E portanto, o que esta suposta “direita” faz é cavar um buraco para si própria porque, mais cedo ou mais tarde, chega-se a um ponto em que a incapacidade de pagar é evidente para todos (excepto governantes). Obviamente quando isto acontece os eleitores dão créditos a quem sempre assumiu a postura de que pagar estava fora de questão e de que a dívida deveria ser renegociada o mais rapidamente possível para se evitar um aumento dos custos financeiros e políticos. E aqueles que persistem em fazer de conta que vão pagar só são desacreditados de dia para dia, até Mário Soares que está no estado intelectual que todos nós sabemos já se apercebeu disto e quer obviamente conduzir o PS para a esquerda para capitalizar deste fenómeno quando ele acontecer em terras lusas. Ironicamente, pode mesmo vir a ser Mário Soares que, mais uma vez, evita que o país fique nas mãos da extrema-esquerda.

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26 pensamentos sobre “O buraco que a “direita” cavou para si

  1. puddy

    Concordo (eu e a minha calculadora). Só acho que a negociação devia ser feita nos bastidores e que o Governo devia mesmo evitar fazer declarações (infelizes) sobre o pagar ou não pagar, como se tivéssemos opção.

    Porque dizer que os juros são “assassinos” e na frase seguinte que não vamos pagar, como faz o BE e o PCP também não dá com nada.

  2. Paulo Pereira

    Muito bem.

    A divida publica é apenas o gasto publico não retornado em impostos, e é por definição um activo do sector privado.

    A fantasia “neoliberal/neotonta” de que a divida publica tem de ser paga é uma impossibilidade lógica, a menos que todos os paises exportassem para Marte !!

  3. Pi-Erre

    Os credores (FMI, BCE, etc.) não emprestam dinheiro próprio, mas sim dos estados membros, que por sua vez o obtêm dos impostos extorquidos aos seus contribuintes. Por isso não se importarão de perdoar as dívidas visto que, de qualquer modo, já estão pagas (não por uns, mas por outros…, vai dar ao mesmo… se não é o mexilhão é o caranguejo).

  4. Miguel Noronha

    Paulo Pereira, não sei se reparou que a segunda e a terceira frase são contraditórias. Qual é o valor de Um activo sem liquidez?
    Mais cuidado da próxima vez.

  5. Paulo Pereira

    Miguel Noronha, explique lá onde está a contradição , em vez de falar por enigmas.

    Já reparou que os titulos de divida publica são normalmente os que têm mais liquidez em qualquer mercado ?

    Ora pense lá porque será ?

  6. Miguel Noronha

    Porque à partida serão sempre redimidos. Mas isso já não é verdade para a dívida dos países em bancarrota. Qual é a liquidez dos títulos dos periféricos?

    Se para si a ligação entre a liquidez de um activo e o seu valor é um enigma então estamos conversados.

  7. JS

    Este “Nuno Branco” será mais um dos heterónimos, que por aí abundam, de Sócrates ou de Mário Soares?

  8. GriP

    Este “Nuno Branco” será mais um dos heterónimos, que por aí abundam, de Sócrates ou de Mário Soares?

    Q.E.D.

    Se é para não se pagar tem que ser de esquerda como é óbvio… 😛

  9. Miguel Noronha

    (solicito a administração de um correctivo ao Nuno – pode ser um ou dois calduços – para ver se ele se deixa de esquerdices e se faz homem)

  10. Paulo Pereira

    Miguel Noronha,

    O que está em causa neste post é que a divida publica não é para ser paga no caso geral, só o é em paises com fortes excedentes comerciais.

    isso é válido sempre , e muito mais se o país está em bancarrota.

    A fantasia austeritária é apenas isso mesmo uma fantasia adolescente sem qualquer base lógica nem historica.

  11. hcl

    A confusão que vai nas cabeças do Sr. Pi-Erre e Paulo Pereira deixam, de facto, a dúvida sobre qual deles é o mexilhão e qual é o caranguejo.

  12. Miguel Noronha

    O que está em causa no post do Nuno é que os países endividaram-se tanto que já não têm possibilidade de pagar a dívida pelo que mais vale assumir já que vão entrar (quase) todos em default. É claro que isto vai ter óbvias consequências para a capacidade de colocação de dívida durante um longo periodo. De uma forma ou de outra vamos dar à austeridade.

    O Rogoff e a Reinhart explicam isso, e com recurso a dados históricos, muito bem no seu livro.

  13. Rui

    o mais giro disto tudo é que ainda se vai chegar à conclusão que o forte endividamento gerado pelas energias renováveis do socrates foi das melhores jogadas a nível do interesse nacional… enfim…

  14. Paulo Pereira

    Todos os países sem excedente comercial crónico têm uma divida publica crescente que nunca é paga.

    A divida publica num regime de moeda-fiat e emitida nessa moeda é apenas o gasto do estado não retornado em impostos e é um activo do sector privado, como é óbvio.

    Isto é um facto contabilistico e de lógica elementar sem possibilidade de contestação.

    Dado que num sistema capitalista os consumidores em geral não consomem todo o rendimento que recebem isso implica que existe sempre deficit publico, a menos que o credito cresça pelo menos no valor da poupança.

    O crédito privado só pode crescer até um valor a partir do qual os credores deixam de refinanciar os devedores. A partir daí o deficit publico é inevitável.

  15. Miguel Noronha

    “deficit publico é inevitável”
    Fantástico. Pelos vistos a poupança privada só pode ser aplicada em dívida pública e o estado tem sempre de gastar mais do que aquilo que recebe. O Sócrates afinal é um vítima, descobre-se agora.

    “O crédito privado só pode crescer até um valor a partir do qual os credores deixam de refinanciar os devedores”
    Muitos governos (re)descobriram recentemente que isso também se aplica à divida pública.

  16. Paulo Pereira

    Miguel Noronha, moralismos não alteram a realidade.

    Num regime de moeda-fiat como o que existe um todo o mundo , a poupança implica deficit, é assim e está muito bem.

    Com os computadores são só uns bits que circulam de uns computadores para outros.

    Dantes a poupança implicava extração de prata e ouro , ou seja deficits de prata e ouro nas minas !

  17. Miguel Noronha

    “Miguel Noronha, moralismos não alteram a realidade.”
    Ok. Constantar que o défice e o endividamento público não são fatalidades e que podem ser evitados é agora um “moralismo”. Está certo. Fiquemos por aqui.
    (esta linha de argumentação recorda-me alguém)

  18. Paulo Pereira

    O deficit e a divida publica não podem em geral ser evitados. É contabilidade elementar e não tem nada de mal.

    Toda a historia económica dos ultimos 80 anos demonstra isso .

  19. lucklucky

    Patetice pegada.
    Primeiro ninguém está pagar dívidas estão todos a aumentá-las só que mais devagar. Nem sequer a zeros estão…

    Segundo é impossível não pagar as dívidas uma vez que as dívidas vão ser sempre pagas, seja pelos credores, devedores ou os dois…A questão é sempre quem paga.

    O resto são fantasias.

    O estado Português teve gastos de 52 mil milhões de Euros em 2000. Isto com inflação em 2010 daria à volta de 70 mil milhões. Ora em 2010 o Estado gastou 88 mil milhões e teve receita de 71 mil milhões. Ou seja se o Estado tivesse mantido os gastos então andaria no valor.

  20. Pi-Erre

    O FMI é uma organização keynesiana financiada pelos estados membros que por sua vez obrigam os seus contribuintes a pagar via impostos. Portanto, são sempre os contribuintes que pagam, quer seja a montante, quer a jusante.
    Mas o calhau hcl não entende isto.

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  22. macamelo

    «O deficit e a divida publica não podem em geral ser evitados. É contabilidade elementar e não tem nada de mal.

    Toda a historia económica dos ultimos 80 anos demonstra isso .»

    LOOOOOOOOL

    Para algumas pessoas o mundo foi criado em 1920…

  23. Joaquim Amado Lopes

    Paulo Pereira (18),
    “O deficit e a divida publica não podem em geral ser evitados.”
    Mas o Paulo não insiste em que, com moeda-fiat, os Estados podem imprimir quando dinheiro quiserem?
    Se é assim, o deficit e a dívida pública são facilmente evitados. Basta imprimir o dinheiro para pagar a dívida pública existente e ir imprimindo o equivalente ao deficit. Ou não?

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  25. André Crespo

    De acordo com a análise. Mas, o que tem mostrado o PS nos seus anos de governação? Isenção ou associação permanente aos lobbies? Mostrou uma atitude de luta pelo País ou uma completa falta de respeito pelo povo? Provavelmente a extrema esquerda não teria uma política concreta para Portugal, mas o máximo que poderia ocorrer era ser mais um fracasso político como todos os governos PS; PSD e PSD/CDS foram para o país. Uma coisa seria certa, é que o grande capital que anda a sugar o sangue ao país seria taxado e o mercado especulativo seria regulado e “controlado”.

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