Se o ridículo pagasse imposto, já tínhamos cinema

Alguns cineastas que, por fazerem filmes que poucos querem ver, precisam do dinheiro do Estado, decidiram fazer um ultimato ao governo. Entre múltiplas coisas, querem meios financeiros para continuar a filmar, alegando que só assim se concretizará um projecto ambicioso de relançamento consistente do cinema em Portugal. Como é que um projecto que começa a pedir, pode ser ambicioso já são outros quinhentos. Da mesma forma, não se percebe onde se encontra a ambição de quem não quer vencer o maior dos desafios: conseguir que o público esteja disposto a pagar um bilhete pela sua obra.

Mas o mais engraçado nem são estas incongruências, mas a expressão pomposa e ameaçadora do ultimato. É que lendo a dita petição, só encontramos exigências e nenhuma ameaça. Nenhuma consequência. Talvez porque quem nunca se preocupou em agradar um público suficientemente vasto para não depender do poder político, não tenha agora muita margem de manobra. E talvez seja isso que explique o desespero que os traz a esta posição de força ridícula: não podem filmar porque não têm meios e se não lhes derem dinheiro não filmam. Ora, quem é que mais perde com isto?

58 pensamentos sobre “Se o ridículo pagasse imposto, já tínhamos cinema

  1. Ricardo Campelo de Magalhães

    “É hoje em dia indiscutível o reconhecimento do cinema português, tanto nacional como internacionalmente.”
    A presunção, o snobismo, o atrevimento.

    Ridículo!

    Se fosse bom, tinha clientes…

  2. Luís Lavoura

    Como é que um projecto que começa a pedir, pode ser ambicioso

    Hae-Joon Chang relata que a Toyota teve prejuízos no seu setor automóvel durante 17 (salvo erro) anos a fio antes de se tornar competitiva nessse setor. Ou seja, durante 17 anos o setor automóvel da Toyota pediu dinheiro ao resto da empresa para poder sobreviver. Foi, inegavelmente, um projeto ambicioso. Os primeiros carros que a Toyota colocou no mercado foram perfeitos flops.

  3. Luís Lavoura

    Se fosse bom, tinha clientes…

    Esse é um ponto de vista algo redutor.

    Muitos (hoje considerados) grandes artistas morreram na miséria devido à falta de clientela. Segundo este ponto de vista, não seriam bons.

  4. PedroS

    “Hae-Joon Chang relata que a Toyota teve prejuízos no seu setor automóvel durante 17 (salvo erro) anos a fio antes de se tornar competitiva nessse setor. Ou seja, durante 17 anos o setor automóvel da Toyota pediu dinheiro ao resto da empresa para poder sobreviver. Foi, inegavelmente, um projeto ambicioso. ”

    A esmagadora maioria dos filmes portugueses dá prejuízo há bem mais de 17 anos… Quando se pode então decidir que algo é dinheiro mal gasto?

  5. PedroS

    “Muitos (hoje considerados) grandes artistas morreram na miséria devido à falta de clientela”

    Também muitos artistas medíocres morreram na miséria devido à falta de clientela 🙂

  6. Miguel Noronha

    “Ou seja, durante 17 anos o setor automóvel da Toyota pediu dinheiro ao resto da empresa para poder sobreviver”
    Pediu à empresa, não aos contribuintes. Se alguém benfeitor (ou genericamente, algum individuo ou instituição privada que o façam voluntariamente) quiser fazer o mesmo nada tenho a ver com isso. Obrigaram os contibuirem a fazê-lo é que não é nada apropriado.

  7. Para o público da altura não foram bons. Assim como muitos do que foram agraciados pela crítica “esclarecida” da época e tidos na altura como “brilhantes” hoje se calhar estariam remetidos a essa miséria e não são considerados hoje em dia “bons”.

  8. Luís Lavoura

    Pediu à empresa, não aos contribuintes.

    Não me recordo no caso explícito da Toyota, mas em muitos casos isso não foi verdade: foi mesmo dinheiro pedido aos contribuintes. A Coreia do Sul industrializou-se em grande parte graças a dinheiro pedido aos contribuintes para projetos que, em termos de mercado, pareceriam perdedores óbvios.

  9. Luís Lavoura

    De qualquer forma, o que o exemplo da Toyota mostra é que, muitas vezes (para não dizer quase sempre), um projeto ambicioso começa, precisamente, por pedir. Pode pedir ao contribuinte, a um benemérito mecenas, ou a uma empresa, mas pede.

  10. Não se pode falar de pedir ao Estado e pedir a accionistas ou a beneméritos como se se tratassem de casos comparáveis Como se os modelos de governança, de tomada de risco, os problemas de agência e de risco moral fossem os mesmos. É mesmo vontade de fazer filmes.

  11. Se vocês se informassem melhor sobre o financiamento ao cinema em Portugal, não escreveriam tantas asneiras comprometidas pela cegueira ideológica. Não vou fazer o trabalho que o André (e antes o outro André) já deveriam ter feito, mas deixo aqui uma achega: os filmes que em Portugal deram mais prejuízo foram precisamente os mais “comerciais”, os que chegaram a um público mais vasto. Precisamente porque tiveram orçamentos mais elevados, grande parte financiados pelo ICA, e não resultaram. Houve várias tentativas de internacionalização desses filmes (alguns chegaram a ser falados em inglês) e foram um fracasso. De acordo com as regras de atribuição dos subsídios, esses realizadores não voltaram a ser financiados. Os que têm sucesso e muitas vezes lucros são as produções mais baratas, filmes que aparentemente ninguém aqui no Insurgente terá visto, mas que recebem prémios nos principais festivais e estreiam em dezenas de países. Por exemplo, os filmes do Manoel de Oliveira são sempre lançados em várias salas francesas, e só o público que vê os filmes dele paga os filmes (de outro modo, há muito que ninguém o produzia) . O “Sangue do Meu Sangue”, do João Canijo, tem prevista a estreia em vários países, incluindo Inglaterra e França. O Pedro Costa (este sem financiamento do ICA) consegue que os seus filmes tenha uma carreira comercial prolongada nos EUA, e várias listas dos melhores das décadas passada (da New Yorker, do New York Times, da Sight & Sound, dos Cahiers du Cinéma) incluem pelo menos um filme dele (Juventude em Marcha). E agora aparecem vários novos realizadores na senda desta geração mais velha: Miguel Gomes, João Salaviza, João Nicolau, João Pedro Rodrigues (este há mais tempo), Sandro Aguilar e até Manuel Mozos, mais velho mas que obteve um grande reconhecimento internacional com o filme “Ruínas”. E ainda há a geração de documentaristas (e um documentário tem sempre um orçamento mais baixo) que recebem prémios em festivais e vêem os seus filme serem mostrados em conferências e universidades no estrangeiro como exemplo do que é Portugal, agora e no passado. Estão neste grupo por exemplo a Susana Sousa Dias (“48”, sobre a PIDE, a vossa polícia política favorita) ou Gonçalo Frota (este ainda tem em cartaz o seu documentário premiado sobre a ilha do Corvo, podem procurar, não custa nada). E depois ainda há o “Filme do Desassossego” do João Botelho, que estreou no Brasil e foi um êxito de público em Portugal, apesar de não ser um filme fácil. A sério, saiam da vossa zona de conforto e vejam cinema português, uma das principais exportações do nosso país. Talvez as asneiras que agora escrevem (“o público esteja disposto a pagar um bilhete pela sua obra”) soem como infantilidades próprias de quem não conhece o mundo que o rodeia. Porque, surpresa das surpresas, o público vê, cá dentro ou lá fora. E gosta.

  12. Fernando S

    O Japão e a Coreia do Sul industrializaram-se porque existiam uma série de condições favoraveis ao investimento. Inicialmente e sempre principalmente privado. A começar por uma economia de mercado suficientemente dinamica. Os respectivos Estados e governos tiveram sobretudo o mérito de garantir a existencia e a manutenção destas condições. Esta foi a principal diferença relativamente a outros paises na região, onde a acção dos Estados fez praticamente desaparecer o mercado e a propriedade privada. E que sobretudo por isso não se industrializaram. Ou se industrializaram mal, com uma enorme desperdicio de recursos, e em prejuizo da prosperidade e bem estar das respectivas populações. A razão principal da industrialização no Japão e na Coreia do Sul não foi mais Estado mas sim menos Estado. Num contexto de industrialização é natural que os governos não tenham resistido à tentação de procurar canalizar recursos financeiros para novas actividades produtivas. Nalguns casos com alguma clarividencia e algum sucesso. Noutros, tão ou mais frequentes, bem menos. Muito do dinheiro publico metido na economia foi-no sem verdadeira necessidade, inutilmente, com grande desperdicio. Teria sido preferivel que os Estados o tivesse deixado nas mão dos privados. Alguns dos projectos industriais feitos com a “ajuda” do Estado poderiam ter sido igualmente realizados sem ela, pelos mesmos ou por outros, do mesmo modo ou, provavelmente, de modo diferente, porventura ainda mais criterioso e eficiente. A tese de que as industrializações virtuosas existiram graças à intervenção directas dos governos nos projectos e nos mercados é um grande mito da historia economica. Não foram os subsidios e os capitais publicos que determinaram as industrializações. Antes pelo contrario. Quando muito foram as industrializações e os seus resultados que permitiram a certos Estados a captação e a utilização de recursos publicos em projectos não completamente privados ou totalmente publicos.

  13. Miguel Noronha

    “cinema português, uma das principais exportações do nosso país”
    Pelos vistos é um sucesso tão grande que nem se percebe que andem a pedinchar subsídios.

  14. ruicarmo

    ” sobre a PIDE, a vossa polícia política favorita”
    Que telenovela manhosa. A minha polícia política favorita é o KGB que durante décadas impediu que o capitalismo destruísse o comunismo, levando felicidade e humanismo aos povos do mundo..

  15. Migue: pois, as empresas exportadoras exemplares do capitalismo também não recebem subsídios do Estado, seja directamente (o tal plano de fomento ao emprego de que fala o Álvaro) seja indirectamente, através de benefícios fiscais pagos por todos nós. Sem falar dos bilhões de subsídios dados à banca. E sem concurso público, às cegas. A gente do cinema pedincha. E os empresários e banqueiros, fazem o quê?

  16. Também há muitos filmes sobre a Stasi e a KGB, se é esse o problema. Olhem estou a lembrar-me de “O Gosto dos Outros”, uma fitazinha alemã subsidiada pela Merkel. De certeza que ninguém terá comprado bilhete para ver tal porcaria subsidiada, mas eu aconselho vivamente: é um grande filme!

  17. Peço desculpa, é “As vidas dos Outros” e não “O gosto dos outro”. Esta última é uma fita francesa dos anos 90 subsidiada pelo Chirac que também é excelente.

  18. Miguel Noronha

    Presumo que esteja de acordo com os restantes subsidios dados à banca(?) e às empresas. Uma vez que os usa para justificar os subsídios dados à produção de filmes. Eu estou contra todos.
    Sabe-me informar quais os subsídios dados à banca pelo estado português?

  19. ruicarmo

    João, tens toda a razão. Sou um adepto dos clássicos e há demasiado tempo que não passo por um campo de reeducação.
    Se não fossem os subsídios, a Terra não rodaria, não existiria cultura, nem leríamos o Lavos a abençoar as políticas culturais de Merkel e Chirac.

  20. mau

    Para os insurgentes, quem vê cinema são clientes, quanto mais clientes, melhor é o filme.
    Continuem a ver novelas, tem óptimas audiências, o melhor que se faz em televisão.

  21. Miguel Noronha

    “uma fitazinha alemã subsidiada pela Merkel.”
    Nós gostamos é quando o contribuintes estrangeiros nos subsidiam. Isso é que é.

  22. ruicarmo

    Proponho o Lavos e o mau como os Provedores do Cinema Subsidiado Para o Povo Insurgente. As fitas serão subsidiadas por contribuintes nacionais e estrangeiros, pois estamos num mercado global..

  23. Ui, contra todos os subsídios. Só espero que nunca tenha recebido uma bolsa do Estado, para não cair na incoerência. Ah, e os subsídios à banca têm o nome de “recapitalização”, caso não saiba. Se deixássemos o mercado funcionar por si, só nos últimos 4 anos metade dos bancos tinha ido à falência. E quase todos os “empreendedores” e empresários nõa teriam chegado a começar os seus negócios. Mas enfim, acredito que, por uma questão de cierência, o Miguel seja contra o QREN e todos os outros programas de incentivo ao investimento, europeus ou portugueses. Saber que tudo isto não funcionaria, se não existissem estes programas de subsídios à economia, deve ser um pormenor para si. Os puros são assim, não deixam que a realidade lhes tolde a clarividência.

  24. E sim, claro que elogio a Merkel, o Chirac e até a Sarkozy no que diz respeito às políticas culturais. Porquê? Nunca cortaram o financiamento a 100% nestas áreas, como este Governo fez. Porque são mais inteligentes do que os nossos políticos e sabem que a produção cultural de um país é o cimento da identidade de um povo.

  25. Não paguei bilhete, comprei o DVD. De forma livre e de minha iniciativa e escolha, sem ter de me preocupar com Merkels nem com cliques de subsidio-dependentes.

    Ofereceram-me um produto desejável, eu comprei-o. Não tive que o pagar à cabeça quer gostasse ou não, quer fosse bom, quer fosse a maior trampa dos últimos tempos.

  26. Agora lembrei-me que o “Tabu”, do Miguel Gomes, é uma co-produção internacional financiada pelo Estado brasileiro, francês e alemão. É portanto uma co-produção Dilma-Sarkozy-Merkel. E ainda dizem que os nossos empresários (neste caso, o produtor do filme) não conseguem internacionalizar-se…

  27. mau

    Eu não proponho nada ao Rui Carmo, ele sabe já sabe o que é bom, basta seguir os outros.

  28. João Luís Pinto: não percebe que nunca poderia ter comprado o DVD se não tivesse havido um subsídio na origem? É assim tão difícil de entender?

  29. ruicarmo

    Registo os elogios às políticas e inteligência de Merkel, Chirac e Sarkozy. Como sou um bocadinho rústico, associo a “inteligência” que refere ao facto de terem mais dinheiro na carteira (retirado das dos contribuíntes) do que os governantes cá do burgo. Presumo que em bancarrota, o ideal seria imprimir mais notas para subsidiar não só o cinema mas tudo o que o Lavos entende como “cimento da identidade de um povo”.

  30. Miguel Noronha

    “Só espero que nunca tenha recebido uma bolsa do Estado, para não cair”
    Nunca. E mesmo que tivesse recebido não estaria a ser incoerente. Presumo que também tenha comprado nada no Pingo Doce ou noutros cadeias onde se explora a mão-de-obra barata.

    “Ah, e os subsídios à banca têm o nome de “recapitalização”
    Quantas operações dessas é que já se efectuaram? Sabe? Não concordo que os contibuintes metam dinheiro nos bancos mas, mesmo assim, o dinheiro vai ter que ser reposto.

    “Saber que tudo isto não funcionaria,(…)”
    O que é que deixava de funcionar?

  31. Miguel Noronha

    “E sim, claro que elogio a Merkel, o Chirac e até a Sarkozy no que diz respeito às políticas culturais”
    Os subsídios dos outros a mim não me afectam. Não sou eu que os tenho que pagar. Os contruibuintes alemães e franceses que se preocupem com isso.

  32. O que é que lhe permite afirmar com essa leviandade esse “nunca”? Acha que todos os filmes publicados em DVD não existiriam se não fossem subsidiados? Que o subsídio é uma condição necessária para a publicação em DVD de filmes?

    Além disso, como bem disso o Miguel, com a possibilidade de ter contribuintes franceses ou alemães a subsidiarem o meu cinema posso eu bem.

  33. Miguel: olhe, neste momento, como sabe, não compro na cadeia do merceeiro Santos. Mas julgo que caiu no equívoco de comparar coisa não-comparáveis: eu nunca me afirmei contra essa cadeia (ou outra qualquer) como você fez em realação aos subsídios estatais. Simplesmente acho que poderiam pagar melhor. É uma questão de negociação, não de negação. O Soares dos Santos não é diabo na terra (para mim), ao contrário dos subsídios do Estado (para si).

    Não sei quantas operações foram feitas, mas já foram algumas. E aquele pequnino pormenor do BPN, claro. O dinheiro vai ser reposto? Ah, ah, ah, essa é boa.

    Tudo, a economia global. Peguemos no exemplo dos EUA, supostamente o país do capitalismo em estado puro. O laissez faire lá não existe,simplesmente. O proteccionismo a produtos americanos é regra, a balança comercial é controlada pelo Governo federal, o banco central está sempre a injectar dinheiro na economia. Não há, nem nunca houve, nenhum país que aplicasse um liberalismo económico tal como vocês oddefendem. E sabe porquê? Porque é tão impraticável e radical como o economismo. Não admira que vocês venerem o “Road to Serfdom” como os comunistas fazem com “O Capital”: aquilo é uma Bíblia, uma utopia que nunca será aplicada no terreno. Apenas em ditadura se consegue aplicar o liberalismo total na economia. Uma doutrina que ignora (ou minimiza) o contrato social entre patronato e proletariado (sim, estou a usar os termos marxistas) está condenada a falhar. Por isso é que, mesmo nas economias mais liberais, o peso do Estado continua a ser grande.

  34. João Luís Pinto: julgo que se estaria a referir ao filme “As vidas dos outros”. esse em concreto não teria sido feito sem subsídio estatal. Sabe bem (ou deveria saber) que o único cinema que consegue financiar-se a si próprio é o produzido em Hollywood (Bollywood também consegue). É uma questão de opinião, claro, mas tem consciência de que tudo o que é cinema europeu (incluindo inglês) nunca teria sido feito?

  35. Fernando S

    13. Sérgio Lavos : “… os filmes que em Portugal deram mais prejuízo foram precisamente os mais “comerciais”, os que chegaram a um público mais vasto. Precisamente porque tiveram orçamentos mais elevados, grande parte financiados pelo ICA,…”

    Os filmes subsidiados por dinheiros públicos, mesmo que “cheguem a um vasto público”, nunca são “comerciais”. São subsidiados !
    Ser “comercial” não é simplesmente “chegar a um público mais vasto”. É acima de tudo ser rentável. A rentabilidade é o sinal de que o dinheiro gasto correspondeu a uma verdadeira procura social e de que foi gasto de forma criteriosa e eficiente tendo em conta o resultado procurado. Gastar muito dinheiro num filme que é visto por muita gente mas no final este investimento não é recuperado através da comercialização do filme … então isto significa que algo foi mal feito, que houve desperdicio de recursos. Ou foi gasto dinheiro a mais e mal gasto. Ou o produto foi vendido ao desbarato para poder ser mostrado a muita gente porque, de outro modo, não teria sequer tido esse “público mais vasto”. Provavelmente as duas coisas.

  36. Miguel Noronha

    “julgo que caiu no equívoco de comparar coisa não-comparáveis:”
    Pois, pois… Quer dizer que já andou a ajudar o “merceeiro santos” e outros a perpetuar o seu sistema de exploração.

    “Não sei quantas operações foram feitas, mas já foram algumas.”
    Quais? Eu não tenho conhecimento de nenhuma. Ok, a CGD já teve que sere recapitalizada n vezes nos ultimos 2/3 anos.

    ” E aquele pequnino pormenor do BPN, claro. O dinheiro vai ser reposto? Ah, ah, ah, essa é boa.”
    Não é boa. È muitissimo má. Deviam ter deixado o banco falir e, dado que tudo indique que houve fraudes em cadeia, julgado e condenado os seus autores. Nem uma coisa nem outra. Sempre fui contra todo o tipo de nacionalizações e “bailouts” a bancos.

    “Peguemos no exemplo dos EUA, supostamente o país do capitalismo em estado puro”
    Boa piada. A sério.E sempre gostei das defesas do status quo como prova que não podia ser de outra forma. Presumo que esteja conformo com ele.

  37. Fernando S

    Sérgio Lavos : “… mesmo nas economias mais liberais, o peso do Estado continua a ser grande.”

    E os problemas também continuam a ser grandes …
    Significa que ha ainda muito a fazer para as tornar ainda mais liberais !

  38. Fernando S: é incrível como não percebe como essa posição se assemelha à atitude de Stalin durante as Grandes Purgas: “é preciso tornar a União Soviética ainda mais comunista! É preciso fazer mais!”. Porque, repare, se há modelo que resulte, tanto a nível económico como social, é o modelo nórdico. E como sabe, o Estado tem um peso enorme na economia. Mas repito: que a realidade não lhe manche a pureza ideológica…

  39. “É uma questão de opinião, claro, mas tem consciência de que tudo o que é cinema europeu (incluindo inglês) nunca teria sido feito?”

    Isto é com certeza um testemunho de fé, porque não tem nenhuma garantia que tal não aconteceria.

    Aliás, a começar pelo UK, a coisa não será bem assim. Não serão é se calhar filmes que se enquadrem no seu “livro de gosto”.

    Lembro-me, por exemplo, dos filmes do Guy Ritchie.

    Lembro-me também (estou-me a lembrar de alguns asiáticos – e sim, sei que muitos deles também são além disso, infelizmente para os contribuintes locais, subsidiados) dos filmes produzidos em grande parte recorrendo a sociedade de capitais de risco.

    Veja-se lá que os Monty Python, na altura, até tiveram que recorrer à Playboy para o “Life of Brian”.

    O que não lhe falta são produções europeias, em Espanha, nos países nórdicos, no UK, na Alemanha (e até em França) feitas fortemente orientadas para a bilheteira e para satisfazer o espectador, muitas vezes com orçamentos reduzidos. Se muitos deles não conseguem escapar ao subsídio público, este acaba por ser muitas vezes marginal e pouco determinante na viabilidade financeira do filme.

    A diferença é que fazem filmes para agradar a um publico, não obras “de autor” em grande parte masturbatórias e em que é tabu falar sequer em qualquer preocupação comercial ou de viabilidade financeira.

    A diferença, se calhar, é que enquanto outros recorreram a subsídios (infelizmente) e os utilizaram para fazer filmes apetecíveis de ser vistos, por cá ainda insistimos em que se subsidiem filmes para alimentar uma clique e para serem vistos (e elogiados) pelo grupo de amigos da produção.

  40. mau

    “Veja-se lá que os Monty Python, na altura, até tiveram que recorrer à Playboy para o “Life of Brian”.”

    Pois não foi “life of brian” foi “And Now for Something Completely Different “, para entrar no mercado dos EUA, e aparentemente sem sucesso (in wikipedia). Como não teve sucesso nos EUA, depreendo que para o João Luís Pinto, é uma obra de autor masturbatória.

    Os exemplos que o João Luís Pinto dá, eu pessoalmente gosto, mas assim de cabeça, sem a BBC, subsidiada, os Monty Python não teriam feito a obra que fizeram.

    Aparentemente quem tem “livro de gosto” são vocês, no vosso caso o critério é a bilheteira.

    Eu aprecio um filme subsidiado da mesma forma que um filme financiado, o que importa é a obra.

    O Sérgio Lavos tem razão num ponto, vocês são mais papistas que o Papa. Como disse anteriormente, acredito na social-democracia, para mim existe a necessidade de estado assim como da iniciativa privada, mas para vocês isso é comunismo. Fundamentalistas aqui, são vocês.

  41. Fernando S

    Sérgio Lavos,

    “Staliniano” talvez é o seu desconforto face a uma opinião diferente da sua !
    Eu penso que mesmo as sociedades mais liberais ganhariam em continuar a fazer recuar a fronteira do intervencionismo estatal em muitas areas, em particular na economia. O Sérgio terá uma opinião contrária. Está no seu direito, que eu respeito.
    Mas nunca pretendi que tal fosse conseguido através de métodos anti-democráticos e totalitários. O seu paralelo com as Grandes Purgas de Staline é completamente descabido e gratuito. Não conheço o seu percurso intelectual anti-comunista e anti-staliniano mas nesta matéria julgo não ter lições a receber de si.

    O “modelo nórdico” não é o de “um Estado com um peso enorme na Economia”. Os paises escandinavos, com economias essencialmente de mercado, benificiaram a certa altura de vantagens competitivas na divisão internacional do trabalho e souberam tirar partido delas. Foram sobretudo empresas privadas a concorrer em mercados concorrenciais que permitiram a properidade destes paises. Não foram os Estados. Esta prosperidade permitiu sim aos governos a captação no sector privados de recursos que foram aplicados em politicas públicas. Por sinal, quase exclusivamente de caracter social. Com maior ou menor sucesso. Mas foram também governos destes paises, incluindo alguns “sociais-democratas”, que, desde os anos 90, percebendo os limites do modelo face a um mundo em rápida evolução, começaram a fazer reformas estruturais destinadas a preservar a competitividade das respectivas economias. O peso do Estado na economia diminuiu, o “Estado Social” foi restruturado, o mercado de trabalho foi mais liberalizado, etc,etc. Os paises escandinavos de hoje, começando pela Dinamarca e sem excluir a Suécia e a Noruega (juntando a Finlândia), não são exactamente os mesmos dos “modelos sociais-democratas” dos anos 60, 70, 80. Mesmo assim, estes paises nunca foram nem são o paraiso terrestre. Não são certamente um “modelo” a seguir à risca por paises, como o nosso, que não teem nem a mesma historia nem as mesmas caracteristicas. E se quizermos seguir alguma coisa não são as políticas passadas de reforço do “Estado Social” (nisso já seguimos, nalguns casos ultrapassando inclusivamente os “modelos” !) mas antes a lucidez que revelaram nas últimas duas décadas ao fazerem reformas em sentido contrário (quando nem sequer estavam em situação crítica e desesperada). De resto, mesmo do ponto de vista destes paises, se quizerem manter e aumentar o nivel de prosperidade que alcançaram, é recomendavel que os respectivos governos continuem a reformar no sentido de uma economia mais livre e de uma redução da carga fiscal.

    Sobre o assunto da produção cinematografica, é inaceitável que o Estado utilize o dinheiro de todos contribuintes para subsidiar filmes e documentários que serão vistos apenas por uma infima parte, por sinal quase exclusivamente constituida por pessoas pertencentes a uma elite cultural e economicamente favorecida.

  42. Miguel Noronha

    “Depois disto tudo não percebi ainda onde está o neoliberalismo”
    Eu tambémm não. Mas até fico contente. Diziam eles que a crise era obra do neoliberalismo. Afinal os EUA são proteccionista e distribuem subsidios a torto e a direito. O que falhou parece-me mais proximo de um modelo socialista

  43. APC

    “Não sei quantas operações foram feitas, mas já foram algumas. E aquele pequnino pormenor do BPN, claro. O dinheiro vai ser reposto? Ah, ah, ah, essa é boa.”

    Atenção que aí vêm os neoliberais, uuuuuhhhhh…. esta malta cai toda na mesma esparrela de achar que os “neoliberais” são todos a favor dos bailouts, é gente mesmo cega e limitada, depois os fundamentalistas são os daqui…. giro!

    “Fernando S: é incrível como não percebe como essa posição se assemelha à atitude de Stalin durante as Grandes Purgas: “é preciso tornar a União Soviética ainda mais comunista! É preciso fazer mais!”. Porque, repare, se há modelo que resulte, tanto a nível económico como social, é o modelo nórdico. E como sabe, o Estado tem um peso enorme na economia. Mas repito: que a realidade não lhe manche a pureza ideológica…”

    *Yawn*…. sempre a mesma história do medo, do terror, o mercado livre esse malfadado destino… Não sei se tem reparado que os Nórdicos têm o estado social e os investimentos megalómanos parados há uns anos… e que a tendência será mesmo de baixar impostos e afastar o Estado da economia, mas enfim, fundamentalismos!

    É preciso é mais investimento público, mais impostos, mais merda socialista. É isso que nos tem para dizer? Regule-se e gaste-se que a coisa se resolverá sozinha.

  44. mau

    Peço desculpa ao Fernando S. calculo que também não terá lições a receber de mim, mas ainda assim, arrisco.

    A luta contra o comunismo e o estalinismo não é obrigatóriamente a defesa do liberalismo.
    Nesses países nórdicos se procurar, talvez encontre muita intervenção estatal nessas empresas “privadas”.

    “Mesmo assim, estes paises nunca foram nem são o paraiso terrestre.”
    Assim de repente não me ocorrem muitos países que ofereçam melhor qualidade de vida.

    “Não são certamente um “modelo” a seguir à risca por paises, como o nosso, que não teem nem a mesma historia nem as mesmas caracteristicas. ”
    Por outro lado acha que devemos adoptar o modelo dos EUA, mesmo não tendo nem a mesma história nem as mesmas características.

    “De resto, mesmo do ponto de vista destes paises, se quizerem manter e aumentar o nivel de prosperidade que alcançaram, é recomendável que os respectivos governos continuem a reformar no sentido de uma economia mais livre e de uma redução da carga fiscal.”
    Uma verdade inquestionável? não. Nem mesmo dentro dos próprios países.

    “…por pessoas pertencentes a uma elite cultural e economicamente favorecida.”
    A cultura é per si negativa?
    Devemos ter todos o mesmo “nível cultural”?
    São as condições económicas que oferecem espírito crítico?
    Conhece verdadeiramente essa “elite cultural” e a sua situação económica?
    Esse chavão não poderá ser aplicado aos insurgentes?
    Terão os insurgentes baixas qualificações e uma fraca situação económica?

  45. Fernando S

    mau : “A luta contra o comunismo e o estalinismo não é obrigatóriamente a defesa do liberalismo.”
    Certamente que não.
    Referia-me ao paralelo feito pelo Sérgio Lavos entre o que eu disse e as purgas stalinistas.

    mau : “Nesses países nórdicos se procurar, talvez encontre muita intervenção estatal nessas empresas “privadas”.”
    Olhe que não, olhe que não !…

    mau : “Assim de repente não me ocorrem muitos países que ofereçam melhor qualidade de vida.”
    Muitos dos considerados “mais liberais” teem rendimentos per capita equivalentes.
    De qualquer modo, como ja o disse, é sempre possivel fazer mais para manter e melhorar essa qualidade de vida.
    E, como também ja o disse, os paises escandinavos são hoje bons exemplos de paises que nas ultimas duas décadas fizeram reformas de cariz liberal para redimensionar o “Estado Social”.

    mau : “… acha que devemos adoptar o modelo dos EUA, mesmo não tendo nem a mesma história nem as mesmas características.”[?]
    Não acho que devamos adoptar nenhum “modelo” nacional à risca.
    Acho que devemos reformar a nossa economia, reduzir o peso do Estado, introduzir mais liberdade e concorrencia.
    Neste sentido, podemo-nos inspirar nas experiencias bem sucedidas dos outros paises adaptando-as à nossa realidade. Incluindo os EUA e os paises escandinavos (como refiro acima).

    mau : “Conhece verdadeiramente essa “elite cultural” e a sua situação económica?”
    Sim. Faço modestamente parte dela. E o “mau” também. E “os insurgentes” também.
    E acho muito bem que existam “elites” e que estas consumam os produtos culturais que desejam.
    Não acho é bem que os produtos consumidos por umas pessoas sejam subsidiados por outras pessoas que não consomem os mesmos produtos.
    Ainda acho menos bem quando, como é o caso, os contribuintes são também pessoas com rendimentos mais baixos e quando os produtos subsidiados não correspondem aos gostos dessas pessoas pelo facto do Estado, influenciado e pressionado por uma parte dessa “elite cultural”, considerar que não é “verdadeira ou boa cultura”.

  46. Marco

    Já agora alguém me quer subsidiar a mim também ? Começo já a fazer uns filmes … mesmo que ninguém os veja. Afinal o meu telemóvel também filma.

    “Ninguém” vê os filmes portugueses … porque regra geral … são horriveis … se os “artistas” não conseguem captar investimento para financiar as suas “obras” … não o façam à custa da corrupção existente, batalhem pelo financiamento.

    Ou então adicionem-se a umas listas partidárias e ensaboem uns quantos que passado uns tempos estão a fazer 1 filme ao mês …

  47. mau

    “Olhe que não, olhe que não !…”
    Um auto de fé?

    “Muitos dos considerados “mais liberais” teem rendimentos per capita equivalentes.”
    Ambos conhecemos os números, sendo que o GDP alto não se traduz automáticamente em qualidade de vida. Sendo o GDP equivalente prefiro um modelo com estado social forte.

    “…fizeram reformas de cariz liberal para redimensionar o “Estado Social””
    Sendo que quando o fizeram já tinham elevados níveis de desenvolvimento, ainda assim mantém dos estados sociais mais fortes do mundo desenvolvido. ( não vale a pena perder tempo com a Coreia do Norte e com Cuba).

    “Não acho é bem que os produtos consumidos por umas pessoas sejam subsidiados por outras pessoas que não consomem os mesmos produtos.”
    Percebo o seu ponto de vista, no entanto, como se verifica em países com uma forte apoio à cultura, esse dinheiro é gerador de riqueza, não só de cultura.
    No entanto consegue apreciar conteúdos subsidiados.

    O papel do estado, aqui, não é decidir o que é cultura e o que não é. O papel do estado é criar oportunidade à criação de obras que não teriam condições de ser produzidas porque o gosto das “massas” não aprecia. Se só se produzisse o que é rentável, só teríamos blockbusters.

    Numa coisa concordo consigo, é preciso melhorar o sistema, existem muitos compadrios e corrupção, e não é só na cultura.

    Não estamos é de acordo acerca do caminho que deve ser feito.

  48. “Pois não foi “life of brian” foi “And Now for Something Completely Different “”

    Tem razão. Misturei com o facto de ter sido o George Harrison a produzir, isso sim, o “Life of Brian”. Fica a correcção feita mas não há grande diferença em termos de argumento.

    “Como não teve sucesso nos EUA, depreendo que para o João Luís Pinto, é uma obra de autor masturbatória.”

    Não me viu referir essa mutualidade exclusiva. De qualquer modo, arrisco-me a dizer que terá tido na sua carreira (incluindo vendas de DVD) mais receita do que qualquer filme português. Independentemente de, a ser avaliado qualitativamente (pelo menos por mim), ser um produto relativamente medíocre no historial dos Monty Python.

    “sem a BBC, subsidiada, os Monty Python não teriam feito a obra que fizeram”

    Mais uma vez, estamos no domínio do “wishful thinking” ou no da “história alternativa”?

    “Aparentemente quem tem “livro de gosto” são vocês, no vosso caso o critério é a bilheteira.”

    Nada disso. O argumento é tão somente que quem tem “livros de gosto” os alimente com os seus recursos, quer a fazer quer a ver filmes.

    Já agora, coloco-lhe a pergunta ao contrário: não acha “estranho” que a generalidade dos filmes portugueses subsidiados (sim, eu sei, é um pleonasmo) sejam sistematicamente ignorados pelo público e que tenham, salvo muito honrosas excepções, valores miseráveis de bilheteira, mesmo inferiores a filmes europeus que estreiam em Portugal – muitos deles com orçamentos inferiores? Acha que a bilheteira, em contrapartida a ser o critério, deve ser ignorada e não é indicadora de nada? Acha portanto que o problema do cinema português se resolve regando os mesmos autores com ainda mais dinheiro dos contribuintes?

    “Aparentemente quem tem “livro de gosto” são vocês, no vosso caso o critério é a bilheteira.

    Eu aprecio um filme subsidiado da mesma forma que um filme financiado, o que importa é a obra.”

    Não sei onde leu algo que lhe tenha merecido essa conclusão. Eu também sei apreciar filmes independentemente de terem sido subsidiados (pelo meu dinheiro ou pelo de outros) ou não. O que não me impede de me sentir brutalizado por saber que ando a pagar sonhos de noite de Verão de “criadores” que produzem mau ou irrelevante para mim.

    Fundamentalismo é sim quererem tirar-me dinheiro no bolso sem me oferecerem nada em troca, inclusivé qualquer forma de escrutínio objectivo sobre com o que ele é feito, e ainda me virem apelidar de ignorante por não perceber os grandes bens que daí supostamente viram, mas que tardam em ser visíveis depois dos milhões que já foram gastos.

  49. Fernando S

    mau : “Um auto de fé?”
    Decididamente, hoje não posso abrir a boca – um ve-me stalinista, outro inquisidor !!… -:)

    mau : “… o GDP alto não se traduz automáticamente em qualidade de vida. Sendo o GDP equivalente prefiro um modelo com estado social forte.”
    “Qualidade de vida” é muito subjectivo. O rendimento per capita é um indicador bem mais objectivo. De qualquer modo, é o que tem directamente a ver com a economia. Quanto ao “Estado Social”, o que é preciso é que este seja ajustado às condições economicas do pais e não prejudique o crescimento da riqueza.

    mau : “Sendo que quando o fizeram já tinham elevados níveis de desenvolvimento, ainda assim mantém dos estados sociais mais fortes do mundo desenvolvido. ( não vale a pena perder tempo com a Coreia do Norte e com Cuba).”
    Ja me referi a este aspecto historico. Estes paises puderam ter elevados niveis de desenvolvimento e politicas sociais ousadas por terem economias de mercado dinamicas e competitivas. E teem podido preservar esta condição fazendo reformas liberais corrigindo os aspectos mais estatalistas dos seus sistemas sociais.
    Os paises escandinavos sempre tiveram economias capitalistas e os resultados devem ser sobretudo comparados com os dos vizinhos paises de leste que seguiram durante décadas a via do socialismo e do comunismo.

    mau : “em países com uma forte apoio à cultura, esse dinheiro é gerador de riqueza, não só de cultura.”
    Bom … não conheço nenhum caso em que os subsidios ditos culturais estão na origem de sucessos comerciais. Normalmente os subsidios são precisamente dados a produções que não são em si comercialmente competitivas, nem no mercado interno nem na exportação. Os subsidios não são criadores de valor mas sim destruidores de valor. Os produtos culturais que geram riqueza não precisam de subsidios. Mas, como é obvio, os seus produtores nunca recusam ajudas publicas !…

    mau : “No entanto consegue apreciar conteúdos subsidiados.”
    Naturalmente que aprecio alguns conteudos subsidiados. Até por fazer parte de uma categoria social que é priviligiada por estas produções. E aprecio ainda mais o facto de ter acesso a estes produtos a preços inferiores aos que existiriam se não fossem subsidiados.
    Mas não acho bem. Por duas ordens de razões éticas.
    A primeira é de caracter mais altruista. Ja a expliquei. Não acho bem estar a benificiar de um produto ou serviço em parte graças ao dinheiro que outros que não o consomem são forçados a pagar por via dos impostos.
    A segunda é mais interessada. Não aprecio muitos dos produtos subsidiados e preferiria que o Estado me deixasse mais dinheiro no bolso para poder consumir outros produtos que aprecio mas não são subsidiados.
    Repare que não discuto sequer a qualidade dos produtos subsidiados. Que, nalguns casos, convenhamos serem autenticas aldrabices.

    mau : “O papel do estado é criar oportunidade à criação de obras que não teriam condições de ser produzidas porque o gosto das “massas” não aprecia. Se só se produzisse o que é rentável, só teríamos blockbusters.”
    Não concordo. Como ja referi, essas “obras” que não são “blockbusters” são consumidas quase exclusivamente por uma “elite” que tem rendimentos suficientemente elevados para poder pagar um preço de mercado e, consequentemente, a respectiva produção sem subsidios.
    Em praticamente todas as areas de produção de bens e serviços, quando ha uma procura solvavel ha sempre condições para a respectiva produção. Nalguns casos são “nichos” de mercado.
    Posso admitir que nalguns casos alguns projectos “culturais” poderiam ficar por realizar por falta de rentabilidade ou subsidio. Vou mesmo mais longe – mesmo nos paises onde a “cultura” é largamente subsidiada ficam por realizar inumeros projectos “culturais e por satisfazer inumeras aspirações “culturais”. O ideal seria naturalmente que houvesse dinheiro suficiente para financiar todos esses projectos e aspirações. Mas não ha. Quem decide então o que é ou não financiavel com os dinheiros publicos ? Com que critério “cultural” ? Qual é a moral de financiar apenas as obras do gosto de uma elite deixando de fora o que pode satisfazer o gosto das “massas” ? E qual é a moral de canalizar dinheiro de todos os contribuintes para o financiamento de produtos culturais que se sabe serem sobretudo consumidos por uma “elite” sabendo-se que ha imensas necessidades materiais basicas ao nivel da população mais desfavorecidas (“as massas”) e que poderiam ser em parte satisfeitas com esse mesmo dinheiro ?
    No sector cultural, como em todos os sectores de actividade, o papel fundamental do Estado é criar as condições para que os mercados possam livremente ajustar as ofertas às procuras sociais existentes. Isto sem ir buscar à força dinheiro a uns para dar a outros. Isto gastando o menos possivel e deixando o maximo de recursos nas mãos dos cidadãos para que estes possam exercer livremente as suas escolhas.

    mau : “Numa coisa concordo consigo, é preciso melhorar o sistema, existem muitos compadrios e corrupção, e não é só na cultura.Não estamos é de acordo acerca do caminho que deve ser feito.”
    Concordo perfeitamente consigo quanto ao acordo e quanto ao desacordo !!…-:)
    De resto, parto sempre do principio de que as intenções de uns e de outros são boas.
    Mas, veja o seguinte. Como se evitam os compadrios e a corrupção ? Com critérios mais justos e objectivos, com pessoal politico mais competente e idoneo, com maior fiscalização e sancionado os prevaricadores ?… etc… Mas continuamos no campo da subjectividade e continuamos a alimentar o sistema burocratico que permite todos os defeitos do sistema. O melhor é pura e simplesmente acabar com um sistema publico de subsidios. Deixa de haver campo (dinheiro e poder) para os compadrios e para a corrupção.

  50. mau

    João Luís Pinto
    Tem razão, não faz diferença nenhuma em termos de argumento, eu não o ataquei, só apontei. Fez questão de escolher o único filme financiado pelo director da Playboy em UK, porque playboy é uma marca mais sonante, e enganou-se no título. Podia ter escolhido outro título, igualmente de financiamento privado, mas tudo bem.

    “wishful thinking” ou no da “história alternativa”
    Não gostou, eu refaço – A obra dos Monty Python foi feita graças à BBC, subsidiada. Está melhor assim?

    Eu respondi-lhe principalmente por causa da frase “obras “de autor” em grande parte masturbatória”.

    Se não conhece ou não percebe o cinema que não é feito para “agradar a um publico”, é problema seu. Mas na minha opinião, se a razão do filme for agradar o público, é fácil reparar, normalmente não tem qualidade. (Eu disse normalmente).

    Fernando S.
    Rendimento per capita não reflecte a qualidade de vida. Se lhe juntar o coeficiente de Gini, já podemos começar a conversar. Eu sei você não acredita no coeficiente de Gini. Não se enquadra na sua ideologia.

    “e não prejudique o crescimento da riqueza”
    Mais uma diferença ideológica, assim como a maior parte do post, podíamos continuar mas as nossas diferenças ideológicas não nos permitem chegar a um acordo

    A sí respondi-lhe essencialmente por causa do uso pejorativo da expressão “elite cultural”, à qual depois admite pertencer, mas não se coíbe a voltar a usar da mesma forma negativa.
    Aos meus olhos, isto é demagogia, peço desculpa mas é a minha opinião.

    Muitos dos filmes “privados” até tem apoios públicos, praticamente todos os filmes de guerra dos EUA, que são éxitos de bilheteira, ou não, tem apoio do departamento de defesa. Normalmente são uma treta, os bons filmes de guerra dos EUA, não tem direito a esse apoio, Hurt Locker, por exemplo.

    Conclusão, para vocês o cinema deve-se avaliar pela bilheteira, para mim, boas bilheteiras muito raramente significam bom cinema. Manias de “elite cultural”.

  51. Fernando S

    Caro “mau” (que raio de nick vc arranjou !!),

    Como já referi, o conceito de qualidade de vida é globalmente muito subjectivo. E não tem apenas a ver com “modelos economicos”. Quanto à dimensão economica penso que é preferivel raciocionar na base de indicadores mais objectivos e quantificaveis. O rendimento per capita é certamente um dos mais relevantes, talvez mesmo o mais relevante. Admito que possa ser completado, e até qualificado, com outros. Incluindo o “seu” coeficiente de Gini…(como vê a minha “ideologia” é mais aberta do que o “mau” imagina !). Levando naturalmente em conta as permissas e as limitações deste indicador. Trata-se portanto de ter presente uma certa forma de desigualdade de rendimentos. Naturalmente que, em linha de principio, sendo tudo o resto igual, uma maior igualdade é preferivel a uma maior desigualdade. Mas a igualdade de rendimentos não é um fim em si. Pelo menos não deve ser o principal. Por exemplo, os regimes comunistas, sobretudo numa primeira fase, apresentaram niveis de igualdade maiores mas à custa da falta de liberdade e de uma pauperização (pelo menos relativamente ao mundo capitalista ; e muitas vezes até absoluta), da maioria da população. Uma certa desigualdade do rendimento pode reflectir um maior dinamismo e uma maior flexibilidade na economia e na sociedade e pode traduzir-se por um nivel geral de riqueza e de satifacção mais elevado. Como nos EUA, onde a diferença entra os mais ricos e os mais pobres é grande mas onde a grande massa da população vive melhor do que noutros paises com menor desigualdade (caso de Portugal e de um grande numero de outros paises menos desenvolvidos no mundo). De qualquer modo, de um modo geral, os paises com economias mais livres (incluindo eu aqui os “seus” paises escandinavos “de estimação”), são também os que teem niveis de igualdade mais elevados. Ao contrario do “mau”, por razões que já expliquei, eu não contraponho os paises escandinavos aos outros paises com economias de mercado relativamente livres e abertas. Dou mais importancia ao que os aproxima neste plano do que a certas diferenças relativamente “marginais” na dimensão e natureza dos respectivos “Estados Sociais”. O que penso é que, nuns como noutros, num mundo cada vez mais global e interdependente, é desejavel que todos eles façam evoluir progressivamente as respectivas estruturas socio-economicas no sentido de uma maior liberdade dos agentes economicos e de um menor peso condicionante do Estado. O que é válido para estes paises mais desenvolvidos é ainda mais importante para paises que, como Portugal, teem um atraso maior a recuperar em termos de dinamismo e eficiencia economicas.

    Quanto à expressão “elite cultural”. Sinceramente, não há nada de pejorativo na utilização que dela faço. Antes pelo contrário. Mas também não menosprezo todos aqueles que a ela não pertencem e que têm gostos e preferências diferentes. Os quais, no fim de contas, são uma grande maioria da população e, em particular, as categorias menos instruídas e com niveis de rendimentos mais baixos. Como também não considero que os critérios “culturais” das “elites”, a começar pelos meus, sejam superiores ou dignos de maior consideração e reconhecimentos do que os gostos das “massas” (as telenovelas, os futebois, a musica pimba e “comercial”, os filmes de “série B”, etc, etc). Eu sou por uma sociedade onde todos os gostos e preferências sejam aceites e respeitados. Cada um tem a sua ideia do que é ou não “bom”, do que é ou não “de qualidade”, do que é ou não “cultural”. Perfeitamente normal e legítimo. Mas o que não é legítimo e aceitável é que cada um queira impôr aos outros o que ele considera como sendo melhor. Contra a vontade dos outros. E, o que é pior, fazendo-os pagar, através dos impostos de onde saem os subsidios, por aquilo que não sentem necessidade ou desejo de consumir. A referência à “bilheteira” é apenas uma maneira simples de dizer que a maneira mais objectiva de determinar se uma produção cultural responde ou não a uma larga procura social é vêr quantas pessoas estão dispostas a deslocar-se e a pagar o respectivo preço de mercado. Não é nenhum critério absoluto de definição do que é ou não “bom” !

  52. “Fez questão de escolher o único filme financiado pelo director da Playboy em UK, porque playboy é uma marca mais sonante, e enganou-se no título.”

    Bem, não foi bem fazer questão, foi mais o primeiro exemplo que me veio à cabeça. Mas olhe que o George Harrison não me parece ser menos sonante que a Playboy…

    “A obra dos Monty Python foi feita graças à BBC, subsidiada. Está melhor assim?”

    É sempre algo que ficará no domínio da conjectura. O The Wire e o Lost foram feitos graças à HBO e à ABC serem privadas? Teriam existido numa lógica de subsídio ou patrocínio público?

    “Se não conhece ou não percebe o cinema que não é feito para “agradar a um publico”, é problema seu.”

    “Mas na minha opinião, se a razão do filme for agradar o público, é fácil reparar, normalmente não tem qualidade. (Eu disse normalmente).”

    O corolário será portanto que filme de qualidade “normalmente” é aquele que é feito para não agradar ao público. Voltamos portanto à masturbação do autor.

    Há públicos e públicos, e há muitas maneiras de agradar. Eu diria que qualquer cinéfilo tem esse objectivo de agradar ao público. Pode não ser o mainstream, pode ser o “seu” público, por ser por provocação ou por outras estratégias mais tortuosas, mas é sempre o publico o seu objectivo final.

    O problema é que esse público alvo teima em ser em Portugal a clique da “inteligenzia” que rodeia o autor, o circulo fechado da “casta” dos auto-proclamados “missionários da cultura”. Veja o exemplo da nossa vizinha Espanha, também com os seus subsídios. Veja os exemplos de realizadores espanhóis como o Álex de la Iglesia ou o Jaume Balagueró que conseguiram dar o salto de carreiras iniciadas em nichos difíceis como o cinema fantástico (com filmes independentes de baixo orçamento e de recursos limitados) para o mainstream, pela sua preocupação em fazerem filmes para agradar ao “seu” publico (progressivamente maior).

    Mesmo o caso do Almodóvar teve contornos semelhantes. Todos acumulavam valores significativos de bilheteira mesmo antes de granjearem carreira internacional.

    Se vir os nórdicos, com exemplos como o Lars von Trier ou o Thomas Vinterberg, os franceses Jeunet & Caro, o já mencionado Guy Ritchie ou o Neil Marshall, vê realizadores que começaram essencialmente por fazer filmes independentes, todos eles com cunho pessoal fortemente vincado mas sempre produzindo filmes com a clara intenção de, de uma forma ou de outra, agradarem com qualidade a um público alargado (mesmo que não necessariamente mainstream, pelo menos de início).

  53. João Neto

    “É conhecida a célebre fórmula final de «Esquisse d’une Psychologie du Cinéma», de André Malraux: «De resto, o cinema é uma indústria.» O que é para Malraux, aparentemente, a verificação de uma evidência, torna-se no espírito de alguns, a afirmação de um vício redibitório.
    Evidentemente que o cinema é uma indústria, mas concordar-se-á que a construção das catedrais foi quase também, materialmente falando, uma indústria pela vastidão dos meios técnicos, financeiros e humanos que exigiu e tal facto não impediu a ascensão destes monumentos no sentido da beleza. Mais do que o seu carácter industrial é o carácter comercial que constitui um grave inconveniente para o cinema, pois a importância dos investimentos de que necessita torna-o tributário das forças económicas para as quais a única regra de acção é a rentabilidade e que acreditam poder falar em nome do gosto do público, em virtude de uma hipotética lei de oferta e procura, cujo jogo é falseado na medida em que a oferta influencia a procura a seu belo prazer. Resumindo, se o facto de ser uma indústria pesa gravemente sobre o cinema, as implicações morais deste conceito de indústria, mais do que as materiais, é que são responsáveis por isso.
    Felizmente que tal facto não impede a sua instauração estética e que, na sua vida ainda curta, o cinema produziu suficientes obras-primas para que se possa afirmar que é uma arte, uma arte que conquistou os seus meios específicos de expressão, e que está totalmente livre das influências das outras artes (em especial do teatro), para desenvolver as suas possibilidades próprias em plena autonomia.”

    páginas 18 e 21 de Le Langage Cinématographique de Marcel Martin (edições 1955, revisões de 1985 e 2011) Tradução de Lauro António e Maria Eduarda Colares Editora DinaLivro (Dezembro de 2005)

  54. Pingback: Subsídios, eu?! « O Insurgente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.