Acerca do “Imposto Cristas”

“A reforma do Estado da socialista Cristas” de António Costa (Diário Económico)

A ministra Assunção Cristas, ao melhor estilo socialista, decidiu resolver um problema de despesa pública – de saúde pública e segurança alimentar – com mais um imposto que, necessariamente, acabará por ser pago por todos os consumidores. Ai está um bom exemplo da nossa história, pelo menos, na última década.

Apenas um comentário. Contrariamente ao que afirma António Costa (e outros comentadores) não acredito que o imposto seja passado aos consumidores. A competição pelo preço no sector da distribuição é demasiada para o permitir. Pelo contrário, quem o irá pagar serão os fornecedores da grande distribuição (a que é visada por este imposto). Em especial os mais pequenos (e quando falo em “pequenos” estou a considerar a escala continental) que têm menos possibilidade de diversificar a colocação dos seus produtos. A ministra agricultura dizia querer repartir os encargos com a saúde pública e a segurança alimentar com a distribuição ignorando deliberamente que esta já é obrigada a implementar medidas que a garantam no seu lado da cadeia de distribuição. Pois bem. Palpita-me que o tiro lhe vair sair pela culatra.

28 pensamentos sobre “Acerca do “Imposto Cristas”

  1. Luís Lavoura

    acabará por ser pago por todos os consumidores

    Nem por todos – somente por aqueles que compram em hipermercados. Não é o caso de muita gente…

  2. tric

    A Taxa Cristas é um não tema!! podem inventar as taxas que quizerem…o grande problema em Portugal é a escassez de crédito e o que o pouco que existe é absorvido pelo estado…ou em negócios escandalosos, apiados pelo Governo dos Banqueiros, em que a Banca em vez de financiar a ecónomia real se entretem a financiar OPA´s e a brincar na Bolsa…
    .
    P.S.- esse António Costa ainda é jornalista!!??

  3. Luís Lavoura

    A competição pelo preço no sector da distribuição é demasiada para o permitir.

    Não creio. A maior parte dos consumidores não tem tempo nem paciência para andar a comparar preços entre diversos supermercados para todos os produtos. Aliás, é bem sabido que os hipermercados não fazem os preços mais baratos, os quais são mais provavelmente encontrados nas lojas discount. Os hipermercados competem tanto ou mais pela conveniência como pelo preço.

  4. Miguel Noronha

    “Aliás, é bem sabido que os hipermercados não fazem os preços mais baratos, os quais são mais provavelmente encontrados nas lojas discount”

    1. Parece estar convencido que a taxa apenas será paga pelas cadeias de hipermercados. Informe-se melhor
    2. Por alguma razão se verificou uma perde de cliente dos hipers para os discouts. Aconselho-o a verificar quais as cadeias com maiores aumentos de vendas. Parece que os consumidors andam mesmo atrás dos preços mais baratos.

  5. Luís Lavoura

    ignorando deliberamente que esta já é obrigada a implementar medidas que a garantam no seu lado da cadeia de distribuição

    Creio que a segurança alimentar que está aqui em causa é diferente. O que está aqui em causa são os custos inerentes ao controle de pestes (epidemias) que afetam setores inteiros da produção. Por exemplo, a epidemia das vacas loucas, a dos frangos com dioxinas ou a recente epidemia dos legumes espanhois. Essas epidemias (verdadeiras ou falsas, reais ou inventadas) levam a enormes quebras no consumo, com enormes perdas para os produtores e distribuidores. São essas epidemias cujos custos não se encontram ainda internalizados.

  6. Miguel Noronha

    ” dos frangos com dioxinas ou a recente epidemia dos legumes espanhois”
    Dois casos em que o alarmismo das autoridades causou um pânico injustificado e apontou culpados sem qualquer fundamentação provocando inumeros prejuízos.

    “São essas epidemias cujos custos não se encontram ainda internalizados”
    Imputem-nas aos produtores.

  7. Luís Lavoura

    Miguel Noronha,
    a taxa será paga por superfícies comerciais com áreas superiores a 4.000 metros quadrados. Essas áreas só afetam hipermercados (ou supermercados mesmo muito grandes).
    As lojas discount têm tipicamente superfícies muito inferiores (1.000 metros quadrados ou menos).

  8. Miguel Noronha

    “Creio que a segurança alimentar que está aqui em causa é diferente”
    Embora assumindo aspectos diferentes ao longo da cadeia, o conceito de segurança alimentar é sempre o mesmo. É claro que os controlos não serão iguais porque dependendo da ciclo de produção as ameças são diversas mas o objectivo é sempre o mesmo.

  9. Luís Lavoura

    Miguel Noronha (#6)

    Eu não digo que o pânico tenha sido justificado. Digo é que esse pânico causou enormes prejuízos, os quais tiveram que ser parcialmente ressarcidos, e os quais não estão ainda internalizados. É este tipo de prejuízos que se pretende agora internalizar, e não os problemas vulgares de higiene alimentar que já hoje se encontram tratados.

  10. Miguel Noronha

    “a taxa será paga por superfícies comerciais com áreas superiores a 4.000 metros quadrados”

    Então explique-me lá porque é que a Jerónimo Martins (que já não tem hipermercados) se está a queixar? As lojas Pingo Doce não são assim tão grandes.

  11. Miguel Noronha

    “Eu não digo que o pânico tenha sido justificado. Digo é que esse pânico causou enormes prejuízos”
    Nos casos que referiu que deveria pagar era o estado. Nos outros deviam pagar os produtores que são os beneficiados directos.

  12. Miguel Noronha

    Para esclarecer acerca das cadeias que irão pagar o “imposto cristas”

    “O valor da taxa será fixado por portaria, mas não deverá ultrapassar os cinco a oito euros por metro quadrado/ano, revelou a ministra da Agricultura. Segundo o ministério, a medida abrange “entre 1.600 a 1.800 estabelecimentos comerciais”, ou seja, os hipermercados com mais de 2.000 metros quadrados se superfície e as cadeias de supermercados que tenham, a nível nacional, uma área de de venda acumulada superior a 6.000 m2.”

  13. Luís Lavoura

    “as cadeias de supermercados que tenham, a nível nacional, uma área de de venda acumulada superior a 6.000 m2”

    Miguel Noronha,

    isto explica por que motivo a Jerónimo Martins se queixa.

    Mas tem razão, isto quer dizer que não serão apenas os hipermercados a pagar.

  14. Luís Lavoura

    que deveria pagar era o estado

    (Uma frase deveras estranha vinda da boca de quem defende um Estado mínimo.)

    Não vejo porque deva ser o Estado a pagar. As vacas loucas não foram culpa do Estado. Os frangos com dioxinas também não. Os legumes espanhois tampouco.

    Em todos esses casos houve uma efetiva contaminação da cadeia alimentar, a qual não foi culpa do Estado. E o Estado também não tem culpa (exceto no caso dos legumes espanhois) do escândalo mediático que foi montado.

    Mas há outros casos, como por exemplo o célebre nemátodo do pinheiro que afeta a produção portuguesa de pinho. Mais uma vez, aí ninguém tem culpa, mas o facto é que os produtores de pinho são afetados por custos acrescidos (toda a madeira de pinho portuguesa tem que ser fervida antes de exportada). Casos similares podem surgir a nível alimentar.

  15. JS

    Como muitas “pequenas” superfícies também se abastecem nas “grandes” vai acabar tudo no mesmo: o consumidor. Bruxos.
    A única explicação racional é que, à boa maneira socialista, a Sra Ministra quer verba para mais uns tantos funcionários públicos. Só nos sai disto.

  16. Miguel Noronha

    “(Uma frase deveras estranha vinda da boca de quem defende um Estado mínimo.)”
    Mas foi o nosso “estado máximo” quem fez asneira. È mau que sejam os contibuintes a pagar pela vaidade de alguns funcionários e responsáveis políticos mas a não ser que lhes queiram imputar pessoalmente os danos deveria ser o estado a assumir esses encargos.

    Pela última vez. Os encargos deverão ser assumidos por (1) os responsáveis pelos riscos e/ou (2) pelos beneficiários directos. Se quiser argumentar que outros também beneficiam dessas medidas nesse caso deverão pagar também os consumidores que serão os benefeciários últimso e maiores.

    Mais uma vez, convinha informar-se previamente dos assuntos que pretende comentar.

  17. ricardo saramago

    Não sei para que pagamos impostos tão altos, se o Estado por qualquer serviço (ou pseudoserviço)nos quer cobrar taxas.
    À semelhança de qualquer imposto, quem o vai pagar será quem tiver menor elasticidade/ preço (na linguagem anglosaxónica:pricing power) na cadeia de valor
    Explicar isto a qualquer ministro ou funcionário do Ministério seria pura perda de tempo.
    O minimo que seria de esperar seria que fossem prestadas contas deste dinheiro, mas isso seria numa democracia a sério.

  18. lucklucky

    O único Objectivo é aumentar o Poder do Ministério da Agricultura. O Poder do Estado. Mais Clientela. Mais regras e leis para atirar a quem for incómodo.

    “a taxa será paga por superfícies comerciais com áreas superiores a 4.000 metros quadrados. ”

    Discriminação eh?

  19. lac

    o post contém um erro lógico. a ser verdade que a competição pelos preços é feroz então eles já são o mais baixos possível . sendo assim os hipermercados não têm a opção de não passar o acréscimo de custos para o consumidor.

  20. Miguel Noronha

    “semi-aparte: o problema não foram os «legumes espanhóis», mas os germinados (rebentos de soja e afins) biológicos alemães.”
    È verdade.Quem ficou com a (má) fama e o prejuízo foram os espanhois. Mas os produtos biologiocos é que são seguros, não é?

  21. Miguel, é simples de perceber. Se a competição pelos preços é feroz, os preços vão cair até ao ponto em que igualam os custos. Se os custos aumentam se as empresas mantiverem o preço passarão a ter prejuízo, pelo que os preços terão mesmo de aumentar.
    Um bom exemplo do que acontece quando há uma feroz competição pelos preços pode ser encontrado aqui: http://www.nytimes.com/2012/03/31/nyregion/in-manhattan-pizza-war-price-of-slice-keeps-dropping.html
    Penso que não é preciso andar a recorrer a conceitos como elasticidades preço da procura (e da oferta) num simples comentário a um ‘post’. Corre-se o risco de que quem nos lê não perceba os argumentos que, na essência, são bastante simples.
    Forte abraço
    LA-C

  22. Miguel Noronha

    Eu falava em elasticidade porque ao contrário do que foi dito mais atrás o consumidores sãp sensíveis ao preços e mudam para onde for mais barato. Mas o ponto fulcral aqui é que a distribuição tem a capacidade para passar os custos para os fornecedores. È cer o que aconteceu com os aumentos do IVA e que quem efectivamente os “absorveu”.

  23. Miguel Noronha

    Lembrei.me agora que apenas estou a pensar nos fornecedores de produtos vendidos pelos retalhistas. Mas pode também acontecer que sejam outro tipo de fornecedores (limpeza, segurança, etc ou mesmo os prórprios funcionários).

  24. Acerca da elasticidade, é um bocado complicado – a elasticidade da procura de produtos de uma cadeia especifica é muito elevada, como o Miguel Noronha nota (e eu por vezes dou uma volta pelo Continente e depois pelo Lidl antes de decidir onde vou comprar fruta; eu sou uma pessoa um bocado estranha, mas já ouvi falar de muita gente que faz o mesmo ou ainda mais – estilo tirar um dia por semana por correr os supermercados de Portimão a comparar preços – logo não deve ser um comportamento tão raro assim); mas já não tenho certeza que a elasticidade total da procura seja assim tão elástica (isto é, se um aumento geral do preços das maçãs vai reduzir a procura global de maçãs), e à primeira vista tenho alguma dificuldade em definir qual a elasticidade que conta para ver sobre quem vai incidir o imposto (a elasticidade da procura de maçãs no Continente, ou a elasticidade da procura de maças em qualquer sitio?).

    Além disso, penso que essa taxa vai ser sobre a área (e não sobre o volume de vendas, ou coisa do género), o que a torna, pelo menos no curto prazo, um custo fixo (pelo que até é possivel que, no curto prazo, não tenha efeito sobre os preços).

  25. Estou de acordo com estes últimos comentários. Penso que também estamos todos de acordo que mais esta medida neoliberal é uma palermice.

  26. Pingback: Acerca do “Imposto Cristas” (2) « O Insurgente

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