No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Titanic

Recordar o naufrágio do Titanic é homenagear as vítimas daquela que terá sido a primeira das muitas catástrofes do século xx

Em “À Procura de Sir Malcolm” (Meribérica), Jean Claude Floc’h e François Rivière falam-nos da dolorosa recordação que Francis Albany tem da viagem feita, quando criança e com os pais, a bordo do Titanic. O que se conta é muito mais que a história real do Titanic, cujo naufrágio serve de pano de fundo a uma intriga belíssima, com desenhos dignos da linha clara da banda desenhada franco-belga. Mas está lá tudo: o embarque, o fascínio de um grande navio, a travessia do Atlântico, o ambiente que uma viagem daquelas pressupunha e, claro está, os icebergues. O terror, o choque, o pasmo e o silêncio que se abateu sobre aquela gente num espaço de pouco mais de duas horas. Tudo aconteceu faz esta noite 100 anos.

O interessante no Titanic não é apenas o aviso simbólico do fim de uma época, que terminaria em 1914. É um acontecimento impressionante que, de tantas vezes estudado e contado, se tornou um momento de paragem na história, num seu ponto de referência. Assim sendo, e na medida em que a percepção que cada um tem do que seja justo e injusto, certo e errado, do que espera e deseja da vida, muda, mesmo que não de forma essencial, com os tempos, percebemos como os que estavam no Titanic foram dos primeiros que pensavam como nós. No meio da evolução intelectual, de valores e sentimentos, aqueles homens e mulheres foram os primeiros do século xx com as vidas registadas ao pormenor. Sabemos quase tudo o que se passou naquela noite. Se lermos o que deles se diz concluímos que nos revemos no que eram e naquilo em que se queriam tornar. Alguns dos que sobreviveram chegaram às décadas de 70 e 80. Deram o seu testemunho e viveram a nossa época. Contrariamente ao cidadão comum do século xviii, que é para nós um estranho, que ainda não conhecia a democracia, o conceito das liberdades e o liberalismo, os que viviam há um século tinham o nosso código de valores. Foram pessoas por quem sentimos empatia e de quem nos sentimos cúmplices.

Isidor Straus era um norte-americano de origem germânica, dono dos armazéns Macy’s em Nova Iorque. Ele e a mulher, Isadore, iam para os EUA, vindos da Alemanha. Ao contrário do habitual, não viajaram num barco alemão. Embarcaram no Titanic em Southampton, Inglaterra, rumo à América. Dois anos depois este mundo estava em guerra. Algo inimaginável para este casal sexagenário que se sentiria em casa no século xxi. Depois do choque com o icebergue e de se ter percebido que os botes de salvamento não chegavam para todos, Isidor recusou–se a ocupar um lugar, preferindo deixá-lo aos mais novos. A sua mulher não aceitou afastar-se dele. De acordo com os testemunhos, terá dito que da mesma forma que viveram juntos juntos morreriam. Perante esta decisão, Isidor ordenou à empregada da sua mulher que embarcasse. O que Ellen Bird fez e lhe permitiu viver até 1949. Houve outros actos heróicos, muitos desconhecidos, mas todos praticados por homens e mulheres sem treino militar, com amor à vida, alguns ricos, outros pobres, todos a sonhar com a vida que tinham pela frente. Homens e mulheres que aceitaram o inevitável quando, pouco tempo antes, tudo era expectativa e promessa de bem estar.

Se há um momento semelhante a este, terá ele ocorrido a 11 de Setembro de 2001. Também aí, e ainda hoje, vamos conhecendo actos heróicos e generosos de pessoas comuns. Talvez daqui a 90 anos alguém ainda lhes reserve uma crónica num jornal. O importante é a percepção do choque que deve ter sido idêntico para nós, que assistimos à queda das torres em directo na televisão, e para os que souberam do naufrágio do Titanic nos dias seguintes pelos jornais. O mesmo sentimento de impotência e de incompreensão. O mesmo assombro. A mesma aceitação. A história conta-nos que o mar estava calmo, não havia luar nem nuvens. O céu estava estrelado. Vinte minutos depois de o Titanic ter submergido, os gritos dos que caíram à água terminaram. O silêncio imperou de então para cá, faz esta noite 100 anos.

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