O Governo Nazi, o zé povinho e as tácticas do Salame

Dividir para conquistar, a velha táctica romana que presopunha lançar os inimigos uns contra os outros e enfrentá-los separadamete. Pouco a pouco dominá-los sem que estes se apercebessem e sem que tentassem unir esforços que poderiam contornar um trágico destino. Salami Tactics, a velha estratégia soviética de destruír, lentamente, adversários e liberdades, de uma maneira tão subtil que quando estes “acordam para a vida” – como diz o zé povinho – já é tarde de mais.

O Nanny State que vem sendo implementado pelo mundo ocidental é fruto deste estilo de estratégia. O que me leva, se me permitirem a viagem, a um fabuloso episódio do Yes Prime Minister. Às mãos do PM, Jim Hacker, chega uma proposta de acabar com o fumo. Como ? Sabendo que seria brutalmente impopular a proíbição imediata, sugerem-se restrições graduais e aumentos de impostos “gota a gota” até os preços se tornarem proíbitivos. De forma alguma se chega proíbir o fumo, proíbem-se sim todas as condições para o cidadão comum poder desfrutar de um cigarro. Ninguém consentiria, decerto, uma lei que que aumentasse a idade mínima para consumir bebidas alcoólicas, que proíbisse a publicidade das mesmas, que restringisse o grau de alcool das mesmas, que impedisse que fossem vendidas -ou até bebidas – na maioria dos locais em que hoje é possível e que ao mesmo tempo aumentasse brutalmente os preços. E digo ninguém, seja aqui, seja num vilarejo no Arkansas. Haveria protestos, abaixo-assinados, desobediência civil. Senhores de barba e com currículos – supostamente – releventes, que nunca ninguém viu na vida, iriam às televisões dissertar sobre a legislação. O CDS ia brincar aos conservadores e rejeitá-la. AJS e Francisco Louçã insurgir-se-iam. Não porque discordassem da questão, mas simplesmente porque gostam de se insurgir e vão ganhando a vida com isso. O Professor Marcelo pediria moderação e Barra da Costa, o ilustre convidado das manhãs com Manuel Luís Gocha, chamaria coisas ao Governo que o tasqueiro da esquina não seria capaz de proferir.

No entanto, todas estas medidas têm sido aplicadas de certa forma e em determinados casos o legislador até tem ido mais além. Como ? Salami tactics. Uma proíbiçãozinha aqui, um aumento de impostos aculá. “Com moderação, sempre com grande moderação”. É claro que se eu furar a minha parede com moderação e não interromper o acto, acabarei por chegar à casa do vizinho. Mas para grande parte da classe política e para a população bem pensante, isto não aparenta ser tão óbvio. Outro exemplo das salami tactics, que utiliza descaradamente a hipocrisia popular, é o facto de virar constantemente fumadores contra não fumadores, pais contra pais e contra filhos, produtores contra consumidores, donos de mercearias contra donos de clubes nocturnos, etc etc. Um dono de um ilustre estabelecimento “da Timeout” – ler o excelente artigo do João Campos –  com boa dose de capital no bolso, é bem capaz de ter beneficiado com a lei do tabaco em vigência. Usufruíndo de uma capacidade de adquirir equipamento que o café da esquina não tem, rebenta facilmente a concorrência. O não-fumador comum pouco se importa – e até o ouvimos inúmeras vezes defender isto – que aumentem o imposto ao tabaco para 500%. Mas é bem capaz de apelar a um novo 25 de Abril se lhe subirem 1% o imposto à sempre agradável superbock. Ao dono do bar na Baixa do Porto ou no Bairro Alto dá-lhe um jeitaço que se extinga a venda de bebidas alcoólicas nas lojas de conveniência e bombas de gasolina. A indústria da cerveja pode muito bem aguentar com uma proíbição do consumo antes dos 18  e até o vai apoiar a ideia para ficar bem na figura. Não só sabe que existirá sempre quem compra para outrém ou um bar mais permissivo, como sabe que se a polícia puser a mão no assunto são esses que acarretam com as consequências.  Já os produtores de vinho – cujo lobby é fortíssimo em Portugal – simulam uma mini-revolução sempre que se fala em aumentos de impostos, mas aplaudem, serenos, a fiscalidade proíbicionista com que os restantes produtos, em especial as “bebidas brancas” são afectados.  E lá está a hipocrisia da classe política que recusa aumentos do IVA neste caso. Aos pais que se dão ao respeito e sabem ter mão nos filhos, soam a ultrajantes as regulações alimentares que a bancada do PSD se lembrou de propôr. Até porque muitas das vezes é com aval dos mesmos que os miúdos têm autorização para saír da escola e até têm uns troquitos a mais para comer um panique ou umas ruffles a meio da manhã. E não é por isso que saem obesos – alguns, com estes hábitos, hão-de saír em melhor forma que grande parte dos que se sentam na AE. No entanto, muitos dos pais – nem todos – que não tem paciência ou habilidade para domar a miúdagem ou aqueles que fazem do lar uma ditadura dos seus hábitos (alimentares, religiosos, etc) agradecerão de bom grado uma mãozinha do Estado. E recordo também que grande parte deste tipo de legislação – no álcool e na alimentação – envolve jovens com uma idade superior 16 anos, no Ensino Secundário, que não são propriamente crianças de colo sem pensamento própria, estando certamente melhor informados – a propaganda escolar  é um mimo – dos malefícios do álcool, do tabaco, do fast-food, do aquecimento global e da falta de cidadania – seja lá o que isso signifique. Na JSD, que ruma à esquerda a uma velocidade mais estonteante do que o bêbedo que ruma à bagaçeira – uoops, não se diz bêbedo, é alcoólico ou indivíduo com problemas – está patente o double standard se exigir o voto aos 16 mas tirar o bolicao, o panique, o cheeseburguer, o Rebull ou até o finito. Mas se as acções de umas juventudes e bancadas são condenáveis, a inacção de outras, perante este tipo de “brincadeiras”, não lhe fica atrás.

Estas medias – e outras pérolas que constituem atentados à liberdade económica ou de expressão – travestidas de boas intenções carregam, a passos lentos, a estrutura de um Estado Totalitário. Começa no tabaco, que costuma ter um censenso maior e vai-se alargando. Nos EUA já se discute, por esta altura, o viagra e a cafeína ( não foi uma piada). Não, caro leitor. Não estou alcoolizado. Nem estou a afirmar que amanhã vamos estar dentro de um Big Brother. Mas ninguém terá coragem – ou argumento – para negar que estamos bem mais próxims que há alguns anos atrás e que daqui a uma década para lá continuaremos a caminhar. Tijolo a tijolo, pedra a pedra. E alguns só repararão quando o carpinteiro estiver na parte dos acabamentos. Foi o triste destino das vítimos do Nazismo, das vítimas do Comunismo na Europa do Leste. Foram consentido, por um motivo ou outro, a perda das suas liberdades e foram apoiando, vincadamente, a perda das liberdades dos outros. Não falaram por eles, falaram contra eles. Mas quando foram eles a vítima, já não restavam quem por eles falasse.

Nota:  os exemplos da quantidade de pólen e erva que entra no mercado, dos cigarros que ja se vendem a bulso, dos jovens que, mais lei menos lei, arranjam maneira de fumar e beber, dos cafés e bares que desobecem à lei e do nosso espírito latino que dá sempre um jeitinho ao fechar os olhos – Santa Catarina numa tarde de verão, mesmo com polícia no meio, chega a parecer um concerto de Reggae, para quem entende a comparação – deixam-me bem mais descansado que no UK ou nos EUA, onde o Estado é bem mais eficiente e a poupulação tende a ser menos relaxada.

Nota 2: Não referi as questões de saúde pois não considero que sejam as mais relevantes. No entando, a entrarem no debate, só vão confirmar a debilidade do SNS nos seus moldes actuais e a vantagem de estabelecer um verdadeiro sistema de utilizador-pagador, com seguros de saúde – admitindo que possa vir a ter mão do Estado – como defendiam personagens tão radicais e neoliberais como Francisco Sá Carneiro. Mas o mais importante é que a maioria dos “moderados” nas questão da reforma do SNS, são precisamente os que andaram de bandeirinha na mão a fazer campanha pelo programas da AD e citam constantemente o fundador em tudo que é congresso, comício, tertúlia ou debate.

Nota 3: Nunca compreendi porque é que para a esquerda e alguma direita os argumentos de que Friedman “apoiou” Pinochet, de que Salazar era o “campeão da austeridade” ou de que a Merkel copia os passos de Hitler são válidos enquato que, o FACTO de o Regime Nazi ter sido um pioneiro nas campanhas anti-tabaco e juntamente com o Soviético ter sido impulsionador dessa ideia do “trabalhador saudável”, ser considerado um argumento falacioso. Mas como eu, no meu humilde poderio intelectual, não faço questão de compreender tudo que vem ao mundo, ficamos por aqui.

14 pensamentos sobre “O Governo Nazi, o zé povinho e as tácticas do Salame

  1. tric

    “Mas como eu, no meu humilde poderio intelectual, não faço questão de compreender tudo que vem ao mundo, ficamos por aqui.”
    .
    yahp, é melhor ficar por aí! era só o que faltava o poderio intelectual deste país perder tempo com a treta do tabaco, com 15% de desemprego…e uma ecónomia podre…a europa desmoronar…era falta de inteligência!

  2. FD

    Não me diga que por causa da economia e os 15 % de emprego vai demitir uma parte do seu cérebro ? Lamento essa sua limitação. A não ser que esteja a ser vitima de waterboarding, tenho alguma consideração pelo meu cérebro ao ponto de comportar mais do que uma discussão ao mesmo tempo, e, dar-lhe a importância devida.

  3. hcl

    Concordo e subscrevo, mas, que fazer?

    Não há partido que não queira meter a colherada. Mesmo quando fora do poder se dão ares de defensores de liberdade, assim que lá chegam tudo muda.

  4. tric

    ” Não me diga que por causa da economia e os 15 % de emprego vai demitir uma parte do seu cérebro ? ”
    .
    demitir, já está demitida! essa parte do cerebro só servia para desviar atenções do essencial…
    .
    “Lamento essa sua limitação. A não ser que esteja a ser vitima de waterboarding, tenho alguma consideração pelo meu cérebro ao ponto de comportar mais do que uma discussão ao mesmo tempo, e, dar-lhe a importância devida.”
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    não lamente…é a vida! nem todos tem a capacidade de ter um cerebro que funcione tipo a Assembleia Maçónica da Republica Portuguesa…

  5. A Lara

    O mais perverso é que os habitantes mais afortunados do Big Brother civilizado têm de se refugiar durante as férias nos paraísos subdesenvolvidos (cada vez mais rarefeitos) para sentirem que ainda são um pouco livres e não enlouquecerem – o dinheiro permite-lhes esse luxo. Daqui a nada estão todos a querer imigrar para terem a liberdade de passar fome, morrerem de doenças, fumar até à morte, mas viverem sem estarem enfiados em jaulas civilizadas.

  6. lucklucky

    O Estado Ocidental está fora de controlo. A Democracia ao ter servido para destruir o Ancient Regime nessa altura esteve ao lado da Liberdade. Agora essa a coincidência acabou, torna-se ela própria em algo muito pior: Totalitária ao destruir todos os elementos de Republica com que vinha, incluindo os elementos não escritos.
    Tudo está sobre o seu controlo.

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