No Fio da Navalha

Mais difícil que dar a alma por algo, é guardá-la. A Páscoa é também a festa do renascimento da vontade humana e das suas capacidades.

To sell your soul is the easiest thing in the world. If I asked you to keep your soul – would you understand why that’s much harder?

Ayn Rand, The Fountainhead.

Ayn Rand foi uma filósofa e escritora norte-americana, autora de diversos livros, dos quais os mais conhecidos são “Atlas Shrugged” e “The Fountainhead”. Neste último, Rand conta-nos a vida de Howard Roark, um arquitecto genialmente criativo, que adora o seu trabalho e não se rende ao que pelos outros foi convencionado como devia ser a arquitectura. Nem se deixa aliciar pela consagração fácil e rápida dos que trocam a realização pessoal pelo prestígio e uma vida fácil. Roark chegará a ter dinheiro, até um grande atelier, mas este pouco mais é para ele que o resultado do trabalho, uma forma de ser independente e não se sujeitar a quem quer que seja. O que gera a incompreensão dos seus colegas é o não compreenderem porque Roark não escolhe o caminho mais rápido para o sucesso. O não entenderem que para ele, o êxito é, não o reconhecimento social, mas estar liberto dos condicionalismos que tolhem o processo criativo. São muitos os que o receiam porque não valorizam o que apenas alguns conseguem almejar. Por não conseguirem conviver com alguém que busca o que para tantos nem sequer é um sonho. E não suportam o seu silêncio, o facto de não fazer sugestões, de não perder tempo a comentar as decisões dos outros. Não o faz, da mesma forma que agradece que não o façam consigo. Não o faz porque pressupõe que cada um procure viver da forma que lhe agrada, não imaginando que alguém troque a sua realização pessoal pelo reconhecimento alheio. Ou melhor: que alguém se realize por ser o que os outros desejam que seja. Que alguém deixe de ser quem é, desista da sua individualidade, da sua essência, natureza, para agradar a terceiros. A atitude de Roark, que muitos apelidam de egoísta, é tremendamente cristã. E é por essa razão que trago hoje, para este jornal e na Páscoa, a sua história.

Se houve mensagem que Cristo deixou foi a de não julgarmos os outros e não sermos escravos dos bens materiais. A concepção do indivíduo como algo sagrado, porque criado à imagem e semelhança de Deus; a imoralidade que é destrui-lo, não o deixar singrar na vida, ou pior, destruir-se em nome dos outros. A ilusão que é explicar os nossos fracassos, falhas, com os erros alheios. Culpabilizá-los pelo que fizemos e somos. Não assumirmos a responsabilidade de sermos aqueles em quem nos transformámos, porque nem sempre quisemos ser aquilo em que nos poderíamos tornar. O dever de não trocarmos a nossa realização pessoal pela busca do bem estar material, como sinal de afirmação na sociedade. E se encararmos a questão por este prisma, o altruísmo não será prescindirmos de nós em nome dos outros, mas fazermos o nosso melhor. A procura da felicidade torna-se um direito inalienável e a entrega já não será irmos contra a nossa vontade, mas usá-la para algo que nos deixe intimamente felizes. Porque só alguém feliz, realizado por fazer o que gosta, ou por lutar por fazer o que gosta, cumpre o papel divino que lhe foi destinado e é uma referência para quem lhe preste a devida atenção.

Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, nada é mais valioso que a vida humana. Uma vida que só se dignifica com trabalho, independência e em liberdade, com a obrigação de fazermos o melhor, mesmo que desagrade a terceiros. De subirmos a parada dos nossos feitos. Assim sendo, a virtude medir-se-á não pelo que fazemos pelos outros, mas pelo que fazemos por nós. Se acreditarmos nas nossas capacidades, sem termos de pedir ajuda a quem quer que seja, encontramos a razão de ser da nossa existência e confiamos também na dos demais. Se tentamos, eles também podem tentar. O respeito pelo outro passa por este ponto tantas vezes esquecido que é não prescindirmos de nós e seguirmos com a nossa vida. O não nos deixarmos prender pela convenção aparente de entregar a nossa essência por algo que nos seja alheio.

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