Financiamento do Ensino Superior

Todos nos gostaríamos de ver, como diz um mural aqui no Porto,
Ensino Superior Universal, de Graça e de Qualidade“.

Infelizmente, este foco no sonho só torna a realidade pior. Insistir em algo impossível e tentar impô-lo pela força da lei, leva a consequências imprevisíveis e muitas vezes contrárias ao pretendido:

1. O Ensino Superior não deve ser Universal, pois:
a) A sociedade precisa de agricultores, canalizadores, electricistas, camionistas, cabeleireiros, porteiros, cozinheiros, proletários, e de muitos outros trabalhadores que fazem uma Economia funcionar e que não necessitam de um curso superior para cumprir as suas funções;
b) Há um excesso de oferta de cursos sem qualquer utilidade e cujo destino de quem o frequenta é o desemprego;
c) Mesmo nos cursos com utilidade (direito, por exemplo), há um limite até ao qual a sociedade consegue absorver. E com a crise que neste momento existe este limite não se tem expandido;
d) Para algo ser o direito de uma pessoa, tem de haver alguém com o dever de pagar esse direito o que, se acreditarmos no princípio da igualdade, não faz muito sentido.

2. O Ensino superior não pode ser Gratuito porque:
a) Sempre que algo é gratuito, é consumido em excesso. O que neste caso significa que haverá falta de pessoas em empregos técnicos mas não “superiores” (canalizadores, electricistas, …) e desemprego entre licenciados;
b) Como o custo é financiado, quem fornece o canudo sente-se à vontade para fazer investimentos que de outra forma não fariam, geralmente não em capital humano ou em métodos de ensino, mas em edifícios, levando o custo a subir, expulsando alguns alunos e levando outros a contrair empréstimos.
c) Como não há pressão para inovar, muitas ideias inovadoras ficam pelo caminho, como por exemplo ensino online (lembrem-se: para a Esquerda o objectivo do sistema de educação é dar emprego aos professores, e não providenciar educação gratuita ou universal)

3. O Ensino superior não pode ser de qualidade porque:
a) Não há incentivo para a inovação;
(preferem as tradições)
(por isso tantos desistem nos EUA!)
b) Nem sequer há incentivo para dar aulas!
(papers é o que conta para a carreira docente…);
c) A inovação é mesmo bloqueada!
(Veja-se a resistência ao Ensino online nos EUA)
d) A ligação ao mundo empresarial é de evitar
(esta eu gostava que me explicassem)
(neste caso há honrosas excepções, como a FEUP)

Recomendo aqui 2 textos sobre a evolução da realidade das Universidades Portuguesas e como estas foram perdendo as ligações à realidade:
– Ascensão do Formalismo e Burocratização.
– Ensinar a fingir.

“Não importa se os estudantes realmente aprendem, desde que se finja que aprendem e desde que não sejam reprovados. Também não interessa se os professores realmente ensinam, desde que preencham grelhas e formulários infinitos, para dar a impressão de que estão a trabalhar.”

É um problema de base ideológica. Não de falta de meios…

Ao pensar sobre Ensino Superior, há alguns princípios que creio serem relevantes:
1. O ensino só faz sentido se tiver Aplicabilidade e um mercado para esses conhecimentos. Isto é especialmente importante num momento em que a Economia contrai e, portanto, a procura por licenciados reduz-se. Devem prioritizar-se ocupações com saída, sejam elas superiores ou “meramente” técnicas;
2. Para ter uma população mais educada, o que o Estado deve fazer é Desburocratizar a Economia e reduzir Impostos e Taxas sobre empresas e trabalhadores, sobretudo nas áreas que quiser estimular;
3. Os estudos devem ser pagos pelo estudante. Pelo próprio via Empréstimos ou por um Patrocinador. O estado pode patrocinar jovens com boas notas de secundário e de famílias com menos meios financeiros, mas isso levará a que haja demasiados cursos com demasiadas vagas a cobrar demasiado a todos os outros, beneficiando professores, burocratas universitários e construtores civis, o que creio não ser o objectivo.

Ligações Recomendadas: A Conspiração Universitária na AméricaMSNBC sobre o tópicoJohn Stossel sobre valor de um diplomaCharles Murray e o número de diplomasCaso prático: Husky e o “Community College” AmericanoCaso prático: Diva Dish e os custos. E claro, podem sempre rever o post sobre a inovadora Khan Academy – uma academia gratuita on-line.

24 pensamentos sobre “Financiamento do Ensino Superior

  1. Ricardo Campelo de Magalhães

    Falta a parte “Há custos sociais na Educação?”

    E o fim épico da trilogia: “Haverá necessidade de mais educação, ou educação a mais para a Economia que temos?”

  2. Ricardo Campelo de Magalhães

    Ui, tenho leituras para hoje!
    Thx =)

    E ainda por cima com tantas ligações :))

  3. DavC

    Era o que mais faltava, com o balúrdio de impostos que se paga em Portugal, ainda se ter que pagar integralmente os estudos.

    “1. O ensino só faz sentido se tiver Aplicabilidade e um mercado para esses conhecimentos. Isto é especialmente importante num momento em que a Economia contrai e, portanto, a procura por licenciados reduz-se. Devem prioritizar-se ocupações com saída, sejam elas superiores ou “meramente” técnicas;”, um princípio muito pouco liberal, o sentido do ensino deve ser dado pelas escolhas individuais dos estudantes. Se me apetecer fazer um Mestrado em poesia do século XII o problema é meu. O Estado não financia os estudos porque vai ganhar dinheiro com os estudantes no futuro (este é normalmente um argumento muito usado pela esquerda que está sempre a sonhar com as receitas fiscais do futuro), o Estado financia os estudos porque os cidadãos pagam um balúrdio em impostos também para isso. Quando o Estado cobrar menos impostos a conversa poderá ser outra.

  4. Paulo Pereira

    1 – O ensino superior devia ser pago pelos estudantes, depois de reduzidos em média 30% dos professores.
    É conhecido a reduzida carga horários dos professores do ensino superior e a inutilidade de muitas das disciplinas.

    2 – Os estudantes deveriam ter acesso a empréstimos para essas propinas com juros baixos.
    É conhecido que são as familias de maiores rendimentos que mais têm os seus filhos no ensino superior publico

    3 – Os cursos com pouca empregabilidade devem ter as vagas reduzidas e os com mais empregabilidade aumentada
    Num país pobre o estado deve regular a alocação de recursos

    4 – A investigação e os trabalhos dos cursos devem ser orientadas para a economia interna
    Num país pobre não podemos desperdiçar recursos financeiros e humanos.

  5. “É conhecido que são as familias de maiores rendimentos que mais têm os seus filhos no ensino superior publico”

    É? Se compararmos com as famílias que não têm os filhos no ensino superior, provavelmente será; mas se for comparado com as famílias que têm os filhos no ensino superior privado, duvido.

  6. DavC

    As famílias com maiores rendimentos já sustentam via impostos o ensino superior público, e o privado também.

  7. Paulo Pereira

    A questão que se põe no acesso ao ensino superior é a igualdade de oportunidades.

    Um filho não tem culpa da familia a que pertence e não deve ser penalizado por isso.

    Para que todos tenham as mesmas oportunidades então o sistema de empréstimo é o mais simples.

    A redução dos custos estatais permitiria a redução de impostos no mesmo valor , e colocaria as universidades publicas em concorrencia directa com as privadas.

    O mesmo se deveria passar no ensino básico e secundário, que além de universal deve ser de qualidade e centrado na aprendizagem na escola.

  8. JMTavares

    “1. O ensino só faz sentido se tiver Aplicabilidade e um mercado para esses conhecimentos.” Se fosse assim, não estariamos a escrever num computador, a comunicar pela internet… Os computadores (ou melhor a tecnologia que permite ter os computadores actuais) começa na Mecanica Quantica… descoberta ou proposta por quem nem fazia ideia da sua “Aplicabilidade”… A navegacao pela internet, com a concepção do primeiro browser, começou num mega laboratorio que se dedica à descoberta de temas de nenhuma “Aplicabilidade” …

  9. tiago

    Este texto apresenta o problema da argumentação de “X deve ser assim…” – ou seja o problema do planeamento central.

    Porque não pode o ensino superior ser grátis (não estou a falar do “grátis” socialista)? A wikipédia não é grátis, por exemplo?
    Porque tem que ter aplicabilidade? Um canalizador não pode tirar um curso de filosofia? Se o steve jobs não tivesse tido aulas de caligrafia (ou qualquer coisa assim parecida) provavelmente não existia hoje a apple tal como existe…

    E há outro problema. Defender que os alunos devem pagar a própria universidade levanta o problema de que se não existisse Estado a universidade seria muito mais barata. Então o sistema já não é justo por natureza… Era o mesmo que graças à intervenção do Estado não existisse ryanair e termos que pagar pequenas exorbitâncias para ir a Barcelona, sem a possibilidade de voos a 20 euros. Continuaria a não ser um sistema justo… O problema é de que serve pagar um seviço que é público na sua natureza, e que portanto, é pernicioso? Isso só contribui muito provavelmente para o prolongamento do problema. Não me parece que os processos passem por tornar a escola pública o mais eficiente possível, mas simplesmente por destruir todos os seus argumentos falaciosos e destrutivos da sociedade. Enquanto não se chamar os bois pelos nomes vamos andar nestas misturas estatais/privadas sempre pouco aconselháveis que muitas vezes só pioram a visão que as pessoas têm da “iniciativa privada”

  10. Ricardo Campelo de Magalhães

    Naturalmente haveria um correspondente (e significativo) corte nos impostos.
    Conhecendo-me, “that goes without saying it” 😉

  11. Ricardo Campelo de Magalhães

    Tiago,
    Essa do “Este texto apresenta o problema da argumentação de “X deve ser assim…” – ou seja o problema do planeamento central” chega a ser ofensiva =P

    Eu limito-me a pedir o Estado fora do ensino Superior. Não digo como deve funcionar…
    Se eu soubesse, com certeza, como ele deveria funcionar, isso era um argumento a favor da planificação. O que, acredite, não é o caso!

  12. tiago

    Ricardo,
    eu sei que não defende o planeamento central e que concordamos com os mesmos fins (com o mesmo fim) para a Educação para a educação pública. No entanto, parte do que defende neste texto leva inevitavelmente a um tipo de planeamento centralizado, como por exemplo:

    “Devem prioritizar-se ocupações com saída, sejam elas superiores ou “meramente” técnicas”

    ou previsões do género:

    “Sempre que algo é gratuito, é consumido em excesso. O que neste caso significa que haverá falta de pessoas em empregos técnicos mas não “superiores” (canalizadores, electricistas, …) e desemprego entre licenciados;” (a não ser que esteja a falar do “gratuito” socialista- o estado “oferecer”)

    ou

    “O ensino só faz sentido se tiver Aplicabilidade e um mercado para esses conhecimentos. ”

    Só defendo que os processos não se devem preocupar tanto em definir novas estratégias para a educação pública: mas em destruir as ideias por detrás dela (tal como o Ricardo faz em parte) ou então se formos talentosos o suficiente criar programas, tal como a Khan Academy (que é grátis), que tornem os processos actuais obsoletos.

  13. Luís Barata

    É este, precisamente, o grande problema de Portugal: mesmo os que se consideram liberais, como é o seu caso, são socialistas em termos de educação. Para além do socialismo que o Tiago já deu conta no ponto 14, é ainda de assinalar o ponto de vista económico em relação à educação. Podia – erradamente – ser até um ponto de vista económico de tendência liberal, mas é um ponto de vista económico marcadamente socialista. Na educação, ao contrário da economia – que é o reino do interesse – a utilidade não é critério de nada. Muito pelo contrário, só o que não é útil, é que tem valor,como bem viram os Gregos – não estes de agora…:) E o liberalismo económico tem de estar sujeito ao liberalismo educativo ou, com mais rigor, ao liberalismo político. E isto porque a educação é superior à economia.

  14. Ricardo Campelo de Magalhães

    Não tenho tempo para responder a tudo, mas como o Tiago “ofende a minha Honra Liberal”, tenho que responder:
    1. “Devem prioritizar-se ocupações com saída, sejam elas superiores ou “meramente” técnicas”
    Devem… os alunos. Se não ficou claro, peço desculpa, mas a minha ideia era que OS ALUNOS devem dar prioridade a isso.
    Isto é a minha opinião (não certeza) para os alunos (e não para o Estado). Pensei que isso se depreendia. Desculpem.

    2. “Sempre que algo é gratuito, é consumido em excesso.”
    Isto é lógica económica básica. Certo?

    3. “O que neste caso significa que haverá falta de pessoas em empregos técnicos mas não “superiores” (canalizadores, electricistas, …) e desemprego entre licenciados;” (a não ser que esteja a falar do “gratuito” socialista- o estado “oferecer”)”
    Isto é uma previsão com base na lógica anterior. NUNCA uma ordem.

    4. “O ensino só faz sentido se tiver Aplicabilidade e um mercado para esses conhecimentos. ”
    Algo que creio ser um bom CONSELHO. Se os estudantes acharem o contrário, boa sorte.
    Não vou ser eu o papá a obrigá-los a tomar a medida certa…

    5 Sobre a Kahn Academy:
    Eu sou de outras áreas e não sou empreendedor dessa área. Limito-me a admirar a ideia e a ficar safisfeito por ter dado certo.
    E a sugerir que outros procurem lançar outras ideias (que eu não sei a priori quais são, senão lançava-as eu 😉 ).

  15. tiago

    Ricardo,

    nestas questões “conselhos” e “opiniões” confundem-se muitas vezes com “estratégias”, “ordens” e coisas do género. Como não foi esse o caso, então fui eu que extrapolei.

  16. Pingback: II Jornadas Pedagógicas AEFEUP – Quarta-feira, 11 de Abril, no Porto « O Insurgente

  17. Ricardo Campelo de Magalhães

    Estratégias, planos plurianuais, comité central, ordens top-down, … urticária.
    S entrar num organismo desses já sabe qual será o meu objectivo: cortar a coisa =P

  18. Luís Barata

    Ricardo,
    A aplicabilidade, que é outra forma de dizer utilidade, não é, na educação critério de nada. Que hoje em dia para se ter um emprego se tenha de estudar e ir até à universidade é já uma consequência do socialismo e é apenas uma constatação de um facto. A «intimidade» que em nossos dias existe entre ensino e emprego é toda ela artificial e muito socialista… Transformar o ensino num centro de emprego é destruir a civilização Ocidental. O que o Ocidente, desde os Gregos, sempre tem tido, e ao contrário de quase todos os outros continentes, é o culto desinteressado do saber. Transformar o saber numa coisa útil que serve para se arranjar emprego é esvaziá-lo e destruí-lo.
    Foi já uma mentalidade marcadamente socialista que instituiu o ensino universal, o direito – que neste momento é o dever – de de todos irem à escola, a igualdade entre todos os seres humanos etc. Tem já perto de quinhentos anos esta mentalidade que abarca quase todos os grandes pensadores ocidentais. E foi já só no século XX que as suas concepções foram completamente aplicadas e levadas, inevitavelmente, às suas últimas consequências. O resultado para o Ocidente é desastroso. A consciência deste desastre não é fácil nem simples de se observar. Está no entanto muito bem fundamentada em autores como Heidegger, J. monod, Konrad Lorenz, Orlando Vitorino, Ernst Junger, G. Orwell, R. Guénon entre outros.

  19. Paulo Pereira

    A consequencia do ensino universal é o maior desenvolvimento economico e de bem estar de sempre na historia da humanidade.

    E ainda por cima barato !

  20. Ricardo Campelo de Magalhães

    O Paulo Pereira tem noção que essa regra tem limites, certo?

    Ou defende que bom bom era todos os Portugueses (excepto os professores) desistirem dos seus empregos e se tornarem alunos ou professores adicionais e termos uma economia 100% de conhecimento?

    Há um limite para essa regra, Paulo.

  21. Luís Barata

    Paulo,
    O bem estar tenho como sendo uma coisa completamente diferente da felicidade. Creio até que foi a expressão que surgiu no momento em que os portugueses passaram a ser infelizes. Sim, porque a linguagem reflecte e acompanha as mudanças de um país.
    Não quer fundamentar o que disse?

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