No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O clima e a nossa responsabilidade

Enquanto os crédulos acreditam que o clima não muda, os oportunistas utilizam esse facto para fazer valer os seus projectos políticos.

Como não choveu no Inverno são muitas as referências ao aquecimento global, às secas que aí virão e à culpa do homem, que é imensa. Infelizmente, a memória é curta. Caso contrário, recordaríamos as chuvas do ano passado, bem como o Verão, que não foi o primeiro a ser fraco. Também não esqueceríamos como o Inverno deste ano foi rigoroso na Europa, enquanto cá não chovia. Como não choveu noutros Invernos, conforme também bem sabemos, se não quisermos ter memória curta. Mas o tema deste artigo não são as alterações climáticas, mas a responsabilidade do homem como sua causa principal, que tantos tomam por certa e que alguns pretendem usar para ditar políticas restritivas das liberdades individuais.

Em Janeiro de 2011, a “Swiss Federal Research Institute for Forest, Snow and Landscape” anunciou os resultados de um estudo baseado na observação dos anéis de mais de 7200 fósseis de árvores dos últimos 2500 anos, na Alemanha, em França, em Itália e na Áustria. Medindo a largura dos anéis das madeiras foi possível determinar as temperaturas e os níveis de precipitação numa base quase anual. E o que se comprovou foi algo que já se sabia: o clima sempre mudou e as suas fortes alterações terão até influenciado a história da Europa. Os Verões húmidos e quentes coincidiram com as épocas de expansão, enquanto os secos e frios ocorreram nos períodos de crise, como sejam a decadência do Império Romano e as migrações que forçaram a sua queda, a Peste Negra, em meados do século xiv e a Guerra dos Trinta Anos, na primeira metade do século xvii. O que para aqui interessa são as alterações climáticas que foram ocorrendo durante estes dois mil e quinhentos anos. Períodos prolongados de seca, a par de outros frios (que gelaram o Tamisa no Inverno de 1683-84), em contraponto com épocas quentes e chuvosas, que marcaram por exemplo o século xv, coincidentes com a expansão portuguesa e o início do Renascimento. Como se vê, um fenómeno constante e, julgo não estar errado, em nada resultante da actividade poluidora do homem.

Porque é aqui que bate o ponto: na responsabilidade humana. Do comportamento do homem que criou a sociedade industrializada, de serviços e consumista que permitiu o maior desenvolvimento jamais visto na qualidade de vida das pessoas. A atribuição de um sentimento de culpa por algo que tem sido positivo e que nos tem permitido viver melhor, saber e questionar mais, não aceitando de forma gratuita as imposições dos governantes e dos poderosos. Não deixa de ser interessante que seja entre a classe política e os que aplaudem o poder omnipresente do Estado que se encontrem os principais defensores da culpa do homem por algo tão natural e recorrente como as alterações do clima na Terra.

Há dois aspectos que nos devem chamar a atenção. O primeiro é o critério científico colado à tese da responsabilidade do homem quando a ciência se baseia, como nos disse Karl Popper, no confronto entre posições opostas e não na imposição de uma teoria como absoluta. Sendo a ciência a base de investigação por excelência, qualquer utilização da mesma para impor respostas definitivas devia ser uma afronta à nossa inteligência. O segundo é a humildade. Esta é utilizada pelos que culpabilizam o homem pelas alterações climáticas, alegando que se formos humildes percebemos que temos de mudar a nossa vida e não ferir o planeta. Mas se encararmos o fenómeno por outro prisma, se entendermos que as alterações climáticas são naturais, inevitáveis e independentes da actividade humana, nesse caso a humildade será aceitarmos que o homem é insignificante perante as alterações naturais do clima e que pouco ou nada pode fazer para as evitar, que não seja adaptar-se como sempre fez. Talvez parte daquilo a que assistimos não seja ao fim da vida na Terra, mas da crença de que o homem é omnipotente e tudo pode. Até impedir as mudanças no clima, que, por serem naturais, se tornam indispensáveis ao equilíbrio do planeta.

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4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. António Joaquim

    Que coisa mais hipócrita. É evidente que o homem interfere na Terra e é uma estupidez querer que o planeta permaneça estável. Temos é de ser rápidos em lidar com a Terra porque ela não nos dará hipoteses.

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