No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A crítica certeira

Devemos centrar as nossas críticas não nos que ganham dinheiro mas nos que vivem dos fundos públicos.

Quem acompanhe o processo eleitoral para a presidência dos EUA percebe o quanto este está marcado por um preconceito contra a riqueza, até há poucos anos impensável na América. Ser rico é um problema para quem queira ser político nos EUA e está a criar sérias dificuldades a Mitt Romney, o mais provável candidato republicano a correr contra Barack Obama. É fácil prever Obama a colar Romney à imagem de homem rico; uma riqueza de origem dúbia e, na melhor das hipóteses, desconhecida. Algo contrário à própria representação de Obama, nascido numa família sem posses, mas que estudou e chegou onde chegou. Claro que Obama tem mérito. O problema é que Romney também o tem, apesar dos esforços que Obama vai fazendo para lhe negar esse direito. Para Obama, se ser rico é um pecado, ser um político bem sucedido já é uma virtude. É muito interessante como um discurso vindo de Washington, num tempo em que a classe política goza de tão pouca consideração, vingou tão bem.

Este será o teor do discurso de Obama: quem queira o bem público, o único aceitável por pessoas de bem, trabalha para os outros. Como ele o fez quando foi voluntário em Chicago; como ele o faz agora, em comissão de serviço, como presidente dos EUA. A mensagem de Obama é, como foi em 2008, muito subtil, mas mortífera: ele quer ser presidente dos EUA, não porque seja ambicioso, mas porque pretende prestar um serviço. A partir daqui, a sua mensagem voltará a repetir-se: aqueles que trabalham para que o seu negócio cresça, os que estão imbuídos pela ideia do lucro, os que visam apenas os seus interesses devem ser travados. Travados, não no sentido de impedidos de continuarem a fazer o que fazem tão bem, que é criar riqueza, postos de trabalho e receitas fiscais, mas de serem canalizados para o bem comum, precisamente por aqueles que já abraçaram a causa pública. Se a hipocrisia subjacente a este raciocínio lhe faz impressão, peço-lhe que continue a ler o artigo. Caso contrário, por favor, pare. O que aqui está escrito não é para si.

Recomecemos com calma. que o assunto é delicado e sério. Não há nada de errado em seguir uma carreira pública. Ela é desejável e imprescindível num estado de direito. A dignidade que lhe está subjacente é de louvar e respeitar. Aqueles que a seguem devem procurar o equilíbrio, a estabilidade e a segurança de que qualquer sociedade necessita para que viva em liberdade. Este deve ser o objectivo do serviço público. Este. Não ultrapassar as suas funções para, em nome do Estado, ou seja, de todos, direccionar a economia, favorecendo sectores de actividade em detrimento de outros e, dentro desses, alguns empresários, discriminando os que não conseguem, ou não querem, ter “amigos” no poder. E também não passa, apenas porque as contas públicas estão em maus lençóis, por lançar suspeitas sobre os que, de fora da esfera pública, decidiram ganhar dinheiro. Infelizmente, apesar de errada, esta tendência ir-se–á acentuar no decorrer deste ano.

É que não há nada de errado em querer ganhar dinheiro e acumular riqueza. Se achamos que há, saberemos também que quem assim age perde mais do que julga ganhar. Ou seja, é algo que não nos diz respeito se quem ganha dinheiro o faz de forma não criminosa e sem favores políticos. Até porque nós precisamos de quem ganhe muito dinheiro. Precisamos das pessoas que têm o faro para a riqueza, o dito toque de Midas. E precisamos também de centrar a nossa crítica, não em quem enriquece por mérito, mas naqueles que o conseguem devido às boas relações que têm com o poder político. Na verdade, são estes últimos os ricos ilegítimos. Os ricos favorecidos que não merecem o nosso respeito. Se discernirmos esta diferença elementar, mas tantas vezes esquecida, compreenderemos como a luta dos próximos anos não deve ser entre ricos e pobres, mas entre os que trabalham de forma honesta e os que vivem dos dinheiros e dos favores públicos.

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11 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Paulo Pereira

    Muito bom artigo.

    Nos EUA são os fornecedores do Dep. Defesa e da Segurança Interna que mais vivem dos dinheiros públicos. O resto são trocos.

  2. lucklucky

    Ainda falta ter isto em consideração:

    “But the federal budget tells just part of the story. It records only about 60 percent of the public sector’s revenues and 69 percent of its spending. The missing part is the budgets for the state and local sector.

    Much attention, for example, has been given to the level of revenues in the administration’s budget plan (15 percent of GDP) and of spending (24 percent of GDP). However, when looking at the public sector as a whole, total government revenues were 25 percent of GDP in 2010, while spending was 35 percent of the economy. While the total federal deficit was nearly 9 percent of GDP, it topped 10 percent when adding in state and local shortfalls.”

    http://www.governing.com/columns/mgmt-insights/col-federal-budget-state-local-broader-perspective-public-sector.html

  3. António

    Mas o Obama é contra os ricos???

    Ele apenas quis meter todos os cidadãos a pagar o mesmo (igualdade fiscal), acabando com os privilégios de uns poucos. Igualdade fiscal, nem chega a ser imposto progressivos! Porque é que os mais ricos deveria continuar a pagar menos, a beneficiar da protecção excepcional que o Bush lhe sdeu?

    E o Buffet e o Gates (e outros) até pediram! Os capitalistas mais ricos e bem sucedidos também são contra os ricos???

    Por amor de deus, Vocês até já metem o Obama a fazer campanha antes dele a ter começado. Videntes? Foram à Maya???

    Porque raios querem à força inventar um preconceito contra o homem? É para neutralizar o preconceito racial imenso que existe nos EUA?

    Se os EUA não nadassem constantemente em guerras, e a sustentar impérios militares e comerciais globais talvez não fosse preciso cobrar tantos impostos…mas parece que foi o Gov. Bush que delineou a estratégia que o Obama continua…

  4. Paulo Pereira

    LL,

    Despesas sociais são transferencias directas para os cidadãos que depois consumem o que querem.

    No caso de fornecedores (empresas) a despesa federal em defesa / segurança / informações é de longe a maior , nem há comparação possivel.

    De qualquer modo eu não estou contra os gastos dos EUA em defesa, até porque todos benefciamos deles, estou é contra as lengalengas dos deficits (voltem Nixon e Reagan !)

  5. Sebastien De Vries

    1.- Quando se começa a decaír…critica-se a política, depois a ética da política, …depois os ricos…; é um sinal que a política, a ética e uns ricos …

    2.- O ciclo ocidental, como o conhecemos, está a ruír.

  6. JSP

    EUA ( por enquanto mantém-se o “U”…): implosão ou explosão?
    O “countdown” teve início em Nov.2008…e, a partir daí, tem sido a descredibilidade e a impotência em velocidade uniformemente acelerada.

  7. vivendipt

    O Obama que ninguém sabe ao certo onde nasceu, parece ser o peão certo para as três maiores forças de movimentação global.

    – nova ordem mundial
    – movimento islâmico
    – eixo Rússia / China

    E os EUA nunca foram tão pobres e o dólar tão enfraquecido.

    Yes we can

  8. Paulo Pereira

    O que o Obama diz é que não faz sentido os mais ricos pagarem uma taxa menor de IRS que a classe média, nomeadamente os gestores de fundos.

    A campanha de que o Obama aumentou a dimensão do governo é falsa, pois é o unico mandato nas ultimas décadas onde existe redução do numero de funcionários publicos e congelamento da despesa não social.

  9. António

    Vivendipt,

    Você é apenas um eco fiel dos redneck-tea party-evangélico americano. E suponho que para si isso será um elogio.

  10. vivendipt

    António… Está enganado!

    Eu gosto é de liberdade. E não quero ser dominado pelo socialismo nem ter certos movimentos a pensar o que é o melhor para mim.

    E o que defendo para mim defendo para os outros.

    Cumprimentos.

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