A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

Em resposta ao meu texto “Democracia, “Common Law” e Broken Britain” onde abordo o declínio acentuado das tradições britânicas, o Samuel de Paiva Pires escreveu um texto onde tenta explicar com eloquência o ataque contemporâneo à tradição recorrendo a Roger Scruton e John Gray e aos abusos do racionalismo. Adicionalmente, nesse texto deixa-me a seguinte pergunta:

Que papel teve o pensamento da Escola de Frankfurt nesta destruição da “Britishness”?

Naturalmente que a actual situação de perda de identidade britânica pela via da imigração (não-europeia) em massa tem mais do que uma causa e não podem todas ser reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais. Para além do poder destas ideias no poder político, entre outros factores contextuais, juntam-se os lobbies pró-imigração de grupos de minorias étnicas, de activistas humanitários, de instituições supranacionais como o Concelho da Europa ou a ONU e de grandes empresas interessadas em mão de obra barata ou em mercados internos alargados para os seus produtos (e.g. sector da construção imobiliária).

Porém, sem a força das ideias por trás deste processo, nunca se teria chegado a um ponto onde muitas das principais cidades inglesas terão uma minoria de britânicos nativos num curto espaço de tempo. Mas que ideias foram estas?

As mais importantes foram a crença na tábua rasa e os postulados da Escola de Frankfurt.

A Tábua Rasa

A crença na tábua rasa (a ideia de que os seres humanos não têm cruciais pré-disposições comportamentais de origem genética) começou-se a desenvolver na ciência contemporânea com autores como Franz Boas, um judeu alemão que foi para os EUA e que por volta dos anos (19)20 fundou a escola de antropologia na academia americana com mais impacto até aos dias hoje. Franz Boas dedicou a sua vida académica a tentar mostrar que não existiam quaisquer diferenças inatas entre populações e grupos humanos e que as diferenças observáveis eram puramente culturais, esteve ligado a movimentos de extrema esquerda e sempre combateu a ideia de “evolução por meios de selecção natural” como explicação para essas diferenças, temendo que elas fossem usadas para fins políticos (como veio a acontecer na Alemanha). Os seus estudos postulavam que tribos primitivas de Samoa tinham muito para ensinar aos ocidentais (que na altura se julgavam civilizacionalmente superiores), dando assim o pontapé de saída para o relativismo cultural pós-moderno que equipara as obras de Beethoven a estátuas de barro de tribos da Samoa. As bases teóricas para uma nova fundação de um igualitarismo radical estavam assim formadas.

Este pensamento  atingiu um dos seu pontos altos com o precursor do Behaviorismo John B. Watson, académico que proferiu a famosa frase onde afirmava que seria capaz de transformar qualquer criança no que quer que fosse (médico, bombeiro, professor, mendigo, etc…) para mostrar como a educação ou socialização era praticamente tudo o que definia o ser humano e não as suas pré-disposições genéticas.

A crença na tábua rasa alastrou-se a todas as disciplinas das ciências sociais e, com algumas excepções, perdura até hoje. O principal impulsionador desta crença é a ideia reconfortante de que é possível melhorar a natureza do homem e assim transformá-lo em algo novo, algo que o socialismo latente na academia via como vital para os seus ideais.

Com a segunda guerra mundial  e com o uso erróneo das ideias evolucionistas pelos nacionais socialistas, estas foram praticamente ignoradas na academia, ficando até hoje remetidas quase exclusivamente para as ciências naturais, nomeadamente a Biologia.

A Escola de Frankfurt

A Escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento baseada num instituto criado na Alemanha em 1923, constituído por marxistas judeus que visavam aprofundar o marxismo académico. Entre estes, os nomes com mais proeminência foram Herbert Marcuse, Theodore Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. No início, o instituto dedicava-se essencialmente a estudos económicos clássicos marxistas, mas rapidamente virou o seu foco para a cultura. Antes desta viragem, já outros marxistas como Antonio Gramsci e György Lukács tinham notado que apesar da primeira Guerra mundial, o proletariado não se tinha revoltado na Europa e que a razão para tal estava nos valores culturais do ocidente. Com base no conceito de “ideologia” de Karl Marx, eles consideravam que os valores e instituições culturais do ocidente eram resultado de propaganda capitalista destinada a cegar o povo e manter o poder da burguesia (i.e. do grande capital). Lukacs chegou mesmo a perguntar “quem é que nos salva da cultura ocidental?”.

Os académicos da Escola de Frankfurt viram a 2ª Guerra mundial acontecer e chegaram à mesma conclusão; isto é, perguntaram-se como foi possível que o proletariado se tenha entregue ao fascismo e nacionalismo em vez de se rebelar contra o capitalismo? A resposta foi a mesma: eram a cultura e os valores ocidentais que estavam no caminho da revolução comunista. Como tal, lançaram-se numa carreira cujo fim último seria derrubar as instituições culturais do ocidente.

A “arma” intelectual que criaram denominou-se “teoria crítica”. O seu objectivo era em linhas gerais criticar, colocar em questão todas as instituições da civilização ocidental: a família, o papel das mulheres e dos homens em sociedade, os valores cristãos, os conceitos de beleza, etc…

Estes académicos fugiram de Hitler a caminho dos EUA, onde continuaram o seu trabalho, e encontraram por lá aquilo que consideravam ser uma cultura fascista burguesa que reprimia os indivíduos. Recorrendo à psicanálise de Freud, Marcuse usou o conceito de “repressão sexual” para mostrar como os americanos eram controlados pelos detentores do capital via uma doutrina burguesa de repressão sexual e família. Sem surpresa, Marcuse tornou-se no “poster boy” intelectual dos movimentos “paz e amor livre” da “new left” dos anos 60.

Ao aperceberem-se que a classe trabalhadora nunca se iria rebelar e estava satisfeita com o sistema capitalista, o alvo a atingir mudou. Era preciso gerar novos indignados para gerar revolução, e foi neste ponto que o foco se virou para as minorias raciais oprimidas, homossexuais e as mulheres. Marcuse foi muito claro quando revelou que se as mulheres se rebelassem, grande parte do trabalho teria sido feito, pois com mais de 50% da população “em libertação do machismo” seria possível mudar com certeza os valores ocidentais. Assim, boa parte da sua esperança estava no feminismo.

A forma de promover esta revolução baseou-se no aprofundamento da tábua rasa; ou seja, no veicular a ideia de que todas as diferenças entre os vários grupos humanos são “construções sociais” e que devem ser combatidas. Não há raça, não há mulheres nem homens, não há homossexuais ou heterossexuais, o que há são imposições e doutrinações burguesas que fazem com que os indivíduos tenham os comportamentos que têm em sociedade. Nada é natural e inato, tudo é produto da cultura que, no seu entender, tinha de ser mudada para libertar todas essas pessoas das construções sociais para onde foram remetidos.

Com isto desenvolveu-se o relativismo e o pós modernismo, pois nada tem assim um valor objectivo nem qualquer função, e todas as culturas são boas e más ao mesmo tempo. Qualquer juízo de valor é uma forma de intolerância.

Marcuse definiu em particular aquilo que veio a marcar o zeitgeist (espírito dos tempos) até aos dias de hoje quando escreveu que a verdadeira tolerância implica intolerância contra qualquer discurso de direita que se baseie em salientar as diferenças de uma cultura sobre outra, de uma etnia sobre outra, de o mérito de uma pessoa sobre outra, de um sexo sobre outro, etc… Isto transformou-se no que hoje chamamos de doutrina do politicamente correcto ou, como também é conhecida, marxismo cultural. Desta forma, qualquer debate que envolva uma das partes a alegar que existem desigualdades inatas e naturais entre seres humanos é imediatamente encerrado. Em discurso político, não existe liberdade de expressão para quem não acreditar na tábua rasa.

Broken Britain

Esta filosofia acabou por dominar a academia do mundo anglo-saxónico e dos países do norte/centro da Europa. Quando o genial precursor da sociobiologia (agora mais conhecida como psicologia evolutiva) Edward O. Wilson  lançou nos anos 70  a disciplina que estuda as diferenças no comportamento humano à luz da evolução genética e cultural, este foi atacado por grande parte da academia e inclusivamente ,numa conferência, terminou literalmente com um balde de água na cabeça, presente de um grupo anti-racista da new-left americana. Wilson, claro, não incitou qualquer forma de ódio racial, mas o simples facto de ter lançado uma disciplina que rejeita a tábua rasa foi o suficiente para ser atacado pelo “establishment” inquinado à esquerda.

Apesar de este hostil ambiente académico nas ciências sociais permanecer, geneticistas, biólogos, psicólogos evolutivos não têm dúvidas de que existem profundas diferenças entre humanos de natureza inata e evolutiva, que não têm origens na cultura ou na socialização, seja ela burguesa ou de qualquer outro cariz. Porém, são os cientistas sociais que lançam as ideias “políticas” para a sociedade, onde são depois promovidas por jornalistas (“second hand dealers of  ideas”) e políticos (“second hand followers of ideas”), e estes académicos são ainda os herdeiros da escola de Frankfurt, ocupados com estudos de género, estudos africanos, estudos multiculturais, estudos de desenvolvimento, estudos feministas, entre outros. Por outras palavras, estudos marxistas aplicados à cultura, numa era em que quase ninguém acredita no marxismo económico.

Foi neste ambiente intelectual dos últimos 70 anos que se desenvolveu a progressiva perda de identidade britânica, assim como a respectiva balcanização cultural e étnica da Grã Bretanha. Imbuídos nesta nova cultura de rejeição dos valores tradicionais ocidentais, os políticos britânicos promoveram a imigração em massa não-europeia alegando que todas as culturas devem ser encaradas como iguais e que, tal como Marcuse deixou escrito,  tudo o que é necessário é tolerância para com elas e intolerância para com os que se opõem a esta destruição cultural. Para o combate a quem se opunha a este processo estavam (e estão) reservados epítetos de fascista, extremista, racista e a imposição de quotas e multas. Em suma, autoritarismo “anti-direita”. Assim, a direita  política main-stream transformou-se em esquerda, incapaz de contrariar este novo ambiente intelectual e social. Tal como Andrew Neather (o conselheiro de Tony Blair) relevou, a esquerda quis esfregar o nariz da direita na “diversidade”.

Na realidade, como é facilmente observável, diferentes grupos de pessoas geram culturas diferentes e geralmente  de socialização incompatível no mesmo espaço geográfico. Ignorando esta evidência, mergulhados no espírito da tábua rasa, economistas  e demais cientistas sociais continuam a temer o decrescer da população nativa e a incentivar mais imigração para aumentar a extensão do mercado (como postulava Adam Smith) e assim manter o crescimento económico (da mesma forma que temem a deflação monetária). Porém, em sociedade partidas culturalmente, com baixos níveis de confiança e ressentimento entre grupos étnicos, o mercado será sempre primeiro a sofrer e o autoritarismo a recrudescer.

Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais,  na progressiva destruição de uma civilização.

25 pensamentos sobre “A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”

  1. Ramone

    Ou seja, embora o comunismo não se tenha implantado e o capitalismo seja hoje o vencedor a destruição da civilização deve ser imputada ao comunismo. De facto não há limites para a diferença entre o discurso da responsabilidade da direita e a disponibilidade para aceitar essa mesma responsabilidade. Ao culpar o comunismo dentro da vitória contemporânea do capitalismo a direita visa colocar-se na posição infantil de inimputável. Enfim, para a direita quer o comunismo vença quer perca é sempre responsável por tudo.

  2. Ramone

    “Nada é natural e inato, tudo é produto da cultura que, no seu entender, tinha de ser mudada para libertar todas essas pessoas das construções sociais para onde foram remetidos.”

    Não é bem isso. O que é posto é que o natural e o inato é o que é para nós hoje o homem despido de toda a pertença social determinada. Podemos ver este homem puramente natural nos miseráveis a quem nós, no ocidente, enviamos guerra e ajuda alimentar. O homem inato e natural ao fim ao cabo é-nos repugnante. Não conseguimos olhá-lo de frente. Para que aceda à cidadania tem de ao menos estar vestido, calçado e lavado – em estado puramente natural a verdade é que a tendência é a de mantê-los a uma distância confortável. O que acontece então, uma vez que o homem natural e inato é hoje repugnante, é a sua necessária mediação social. Na mediação social, uma vez que o natural e inato é repugnante, nada é verdadeiramente natural e inato senão a luta pelo domínio da substância ética que regula as mediações sociais, ou seja, uma luta de classes onde cada uma tenta ser o sujeito determinante dos valores de mediação.

    Neste sentido nem o proletariado nem a burguesia estão em posse de alguma verdade em-si-mesma mas apenas do em-si-mesmo-para-um-outro, sendo que a luta é fazer do outro o lugar da classe dominante, o lugar do si-mesmo – porque o domínio, enquanto tal, solicita sempre um outro, o dominado.

  3. Ramone

    É preciso dizer ainda que o “vestido, calçado e lavado” já é também sobredeterminado por códigos sociais dominantes – quando numa festa se requer “smoking” e “vestido de gala” já se está a indicar que aquela festa é apenas para uma certa classe. Quando se exige fato e gravata para um qualquer emprego não é tanto que o fato e a gravata seja essencial para a inteligência do indivíduo mas para indicar que essa inteligência é para estar ao serviço de uma sobredeterminação. A inutilidade da gravata, diferente da plena utilidade da farda do operário ou do soldado, diz isto mesmo, ou seja, que não é utíl por si mesma mas para um outro – o grande Outro que está em todo lado e em lado algum (o Capital) para quem devemos sempre estar apresentáveis e disponíveis.

  4. Ramone

    É preciso ainda distinguir em Marx a classe operária em sentido socio-económico do proletariado. A primeira é apenas o conjunto de indivíduos na circunstância do seu trabalho a segunda são esses indivíduos como sujeitos de um processo revolucionário. Então o próprio proletariado começa por ser um lugar vazio, uma pura tensão revolucionária que não é actualizada enquanto não for ocupada por um sujeito. A vitória corrente do capitalismo dá-se na medida em que conseguiu manter esse lugar essencialmente vazio, ou seja, como uma tensão sem um sujeito.

    O capitalismo parece acreditar que essa tensão desapareceu – o fim da história – e com ela o “locus” revolucionário; eu de minha parte tenho dúvidas. Na verdade, de minha parte julgo que cabe aos comunistas nunca esquecerem que ao capitalismo não deve ser deixado de dar aquilo que ele fundamentalmente pretende pois a tese é que nesse caso ele eventualmente se destruirá a si próprio – eu não estou por dentro do PCP mas, a meu ver, é por aqui que se deve compreender a iniciativa do PCP em viabilizar a mais que evidente subida de Passos e Portas ao governo com o chumbo do PEC IV, quer dizer, em dar ao capitalismo aquilo que ele quer. O Capital quis Passos e Portas o PCP viabilizou. Para o PCP o PS é a ilusão de que o capitalismo é domável e essa é uma ilusão que o povo deve deixar cair para que uma mudança de conceito, um trânsito para um pós-capitalismo verdadeiro (e não fascizante) possa ser viável.

  5. anti-comuna

    Claro que a culpa será sempre desses terríveis judeus. Se forem marxistas, ainda pior. lolololol

    Anti-semitismo ideológico?

  6. Erik Ritter von Kuehnelt-Leddihn, em “Leftism: From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse“, a certa altura, oferece uma espécie de sinopse do “Indivíduo” (“Man”) segundo a “Esquerda”, usando a seguinte legenda:

    D – Democracy (National Derrlocracy, Radical Democracy, Jacobinsim)
    NS – National Socialism (Fascism)
    SC – Socialism, Communism

    «The individual is subject to the will of the majorIty (volonté générale). He is a mere number in the “democratic process” (D), who can be added or subtracted. He is embodied and personified by a “leader” (Führer, Duce, Vozhd) (NS) or by a delegate (D). The individual is nothing – the “People” everything (D,NS,SC). The individual is a mere fragment of the “collective masses” (SC). “Nobody is indispensable” (D). Man is a creature of the stomach and wallet (SC), the reproductive organs (NS) or of the larynx (D).»

    Lapidar.

  7. Nuno B. M. Lumbrales

    O PCP tem razão em dizer que a verdadeira linha clivagem política no parlamento é a que separa o PS do PCP e do BE, e não a tradicional dictomia esquerda/direita.
    Não tem razão é em afirmar que isso sucede porque o PS não seja um partido de esquerda.
    A questão é que a linha que separa o PS do PCP e do BE é a que separa os partidos democráticos/constitucionais dos partidos de matriz revolucionária.

    A principal diferença entre uns e outros é que os primeiros aceitam e integram genuinamente o sistema político vigente, considerando os outros partidos adversários (e não inimigos) com quem concorrem, alternam e/ou colaboram no exercício do poder político/público; percebem, por outro lado, que os governos que formam têm que apresentar soluções para os problemas da generalidade da população e dos grupos ou classes sociais que a compõem, procurando por isso bter apoios em todos esses grupos e classes, tendo assim uma perspectiva abrangente, ponderada e flexível. (Este é o conceito – a execução, evidentemente, é melhor ou pior consoante os protagonistas).

    Já os partidos de matriz revolocionária assentam a sua ideologia nos conceitos marxistas de «luta de classes» e afins, considerando a política não como o exercício em comum do governo da cidade/comunidade/sociedade, mas antes como uma verdadeira guerra, em que os opositores não são vistos como concidadãos, mas antes como inimigos.

    Consequentemente, não há qualquer necessidade de honestidade intelectual, isenção ou objectividade na análise de casos concretos, ou sequer de reconhecer direitos aos opositores, como por exemplo aquela incómoda mania de expressar a sua opinião. Trata-se de uma guerra, e de uma guerra em que vale tudo.

    Tendo presente esta origem ideológica, não é de estranhar que as chamadas «causas fracturantes» sejam militantemente suscitadas pela esquerda umas atrás das outras, não porque tenham em si mesmas a relevância política ou social que se lhes empresta nesses momentos, mas antes porque tudo quanto gere conflito na sociedade ocidental é visto como factor desagregador da «sociedade burguesa capitalista», e assim como uma oportunidade de instauração de uma «nova sociedade», de cariz que se adivinha muito pouco democrático.

    Está na natureza das democracias reconhecer, em nome da liberdade de expressão e do pluralismo político, direitos e liberdades a todos os cidadãos, mesmo àqueles que a pretendem subverter, deturpar ou derrubar.

    Com os perigos que comporta para si própria, esta filosofia política exprime uma superioridade ética e uma autoconfiança no juízo que os cidadãos fazem da forma como o poder político é exercido, que qualquer regime autoritário só poderá envegonhadamente observar à distancia.

  8. Ramone

    Nuno, as chamadas causas fracturantes pertencem mais ao BE do que ao PCP. E não é verdade que as democracias capitalistas sejam assim tão abertas. São abertas na medida em que não são postas em causa, na medida em que fundamentalmente se pense como o capital quer que pensemos, na medida, enfim, em que os negócios possam prosseguir.

    Se houver um crescimento do comunismo a ponto de ameaçar o capitalismo este não hesitará em lançar mão do fascismo – como o fez em países da europa ocidental onde houve uma verdadeira fractura entre capitalismo e comunismo.

    Como você verificará no caso da pergunta que a RTP colocou a propósito das palavras de Otelo a democracia, quer dizer, o governo PSD/CDS, quer dizer, o capital, não perdeu tempo em passar à censura. Depois, o capital detém os meios de comunicação, de modo que o acesso à opinião está muito controlado. Você não percebe esta censura porque à sua maneira é um deles e, portanto, para você está tudo bem.

    A incapacidade de se combater a corrupção mesmo quando o povo assim o exige mostra por exemplo como a estrutura política da democracia é independente do povo, a sua ditadura é a da rotatividade centrista de mamões.

  9. Ramone

    “(…) que os governos que formam têm que apresentar soluções para os problemas da generalidade da população e dos grupos ou classes sociais que a compõem, procurando por isso bter apoios em todos esses grupos e classes, tendo assim uma perspectiva abrangente, ponderada e flexível. (Este é o conceito – a execução, evidentemente, é melhor ou pior consoante os protagonistas).”

    Nuno,

    Como presumo que você sabe e que portanto deve estar esquecido isto não é bem assim. A verdade é que nas democracias capitalistas os problemas de todas as classes são resolvidos na medida e só na medida em que são compatíveis com as necessidades do capital – é isso que quer dizer a política actual da UE é isso que é o memorando da troika.

  10. Ramone

    E a ilusão do Nuno e de alguns ideólogos da democracia capitalista é pensar que fala do comunismo de uma perspectiva isenta. Acho que alguns chegam mesmo a pensar que estão em algum assento de onde se contempla desinteressadamente a verdade. Porém, a verdade é que a isenção e honestidade intelectual da democracia capitalista quando se refere ao comunismo é no mínimo a mesma que terá um super dragão a falar do benfica.

  11. Paulo Pereira

    O problema com as ciencias sociais, incluindo a economia, é que a partir dos anos 50 cristalizaram em facções/crenças e perderam praticamente qualquer caracteristica cientifica.

    Na economia inventam-se os modelos imaginários sem sequer ter em conta o mais elementar facto de que a moeda é fiat.

    Na psicologia e sociologia rejeita-se o trabalho de décadas dos biolologos, como E. O, Wilson que demonstram que é precisamente a diversidade de “comportamentos” à nascença que dá a robustez e flexibilidade a uma espécie.

    Clara que sem bases minimas de racionalidade se torna impossivel fazer “boa” politica, as decisões são tomadas de forma quase aleatória, por “instinto”, por “pragmatismo”.

    O que nos vale é que o complexo democracia/ capitalismo tem se mostrado suficientemente robusto para sobreviver a tanta ignorância, muito há custa de uma só nação que assumiu um papel quase omnipotente.

  12. Nuno B. M. Lumbrales

    Ramone,

    Qualquer modelo social e político, capitalista ou não, procura estabelecer uma sociedade próspera (tendo por isso que assegurar a vitalidade da actividade económica, independentemente da forma como a mesma esteja organizada) e procura também defender-se perante ameaças sociais e políticas.

    Não me parece que o capital comande as democracias ocidentais, embora seja evidente que o poder económico tem e faz sentir a sua influência. Mas não é omnipresente nem omnipotente.

    Por outro lado, se uma sociedade democrática pode recorrer à repressão quando se sente gravemente ameaçada, correndo o risco de degenerar em ditadura, esse estado (de ditadura) é o normal e de todos os dias de uma sociedade comunista (v.g. URSS, China, Cuba, etc.).

    Já frase Otelo foi, na minha opinião e salvo o devido respeito, um disparate, o que faz da resposta do CDS uma tempestade num copo de água, mas não um caso de censura.

    A incapacidade de combater eficazmente a corrupção demonstra que o Estado não funciona tão bem como podia e devia, mas não resulta de uma opção ideológica pela democracia em vez da ditadura. As ditaduras também sofrem de corrupção, embora admita que possa ser mais fácil combatê-la em quadros legais que não tenham que se preocupar com os direitos de defesa do Arguido. E mesmo em ditadura, esse combate tende a ser indevidamente «selectivo».

    Quanto à política da UE e da Troika, que tem obviamente muitos defeitos e consequências graves, decorre da necessidade de pôr em ordem as contas públicas ao fim anos a fio de défice irresponsavelmente acumulado. As suas causas repartem-se entre a muita incompetência técnica e também alguma (sempre demasiada) corrupção, mas mais uma vez isso não deriva de uma opção ideológica pela democracia. A performance económica dos Estados comunistas também não tem em regra resultados admiráveis.

  13. Ramone

    Nuno, eu não argumentei com a corrupção para sugerir que ela não exista noutros regimes, o que eu digo é que a permanência da corrupção no poder político apesar da maioria do povo ser contra ela mostra que este poder é independente do povo que o elege. A minha questão, portanto é outra. O meu interesse é começar a desmistificar a ideia de que nas democracias capitalistas os governos respondem ao povo. Respondem muito pouco. E não respondem a sério enquanto o povo não mostra que é capaz de arrasar com tudo.

    Julgo que é preciso declarar abertamente um princípio das nossas democracias ocidentais: o interesse do capital ( e não os interesses económicos, que são mais vastos e incluem pequenas empresas, mão-de-obra, etc que mal é tida ou achada) é o mediador das agendas fundamentais dos governos.

    Por isso respeito o seu esforço intelectual mas julgo que você, querendo ou não, lança uma cortina de fumo que esconde o núcleo de verdadeiro poder que move a vida das democracias capitalistas. O único argumento que eu verdadeiramente respeito é que até agora as pessoas o têm preferido. É o único argumento capitalista que para mim realmente tem valor. É por isso também que eu defendo que fundamentalmente os comunistas num sistema capitalista não devem ser grandes impecilhos ao desenvolvimento da lógica capitalista (embora nunca se devam dissolver nela), devem permitir que esta se explicite, devem lutar para que quem manda mesmo seja exposto – só nesta exposição pode o povo realmente começar a dirigir-se não somente a quem é eleito mas a quem manda nos eleitos.

  14. Ramone

    P.S.

    Eu escrevi: “Julgo que é preciso declarar abertamente um princípio das nossas democracias ocidentais: o interesse do capital ( e não os interesses económicos, que são mais vastos e incluem pequenas empresas, mão-de-obra, etc que mal é tida ou achada) é o mediador das agendas fundamentais dos governos.”

    Para que isto passe de uma mera declaração à forma de um argumento direi que na medida em que o sistema bancário e finaceiro move interesses poderosos devemos levar em conta que no planeamento dos seus negócios que incluem metas de curto, médio e longo prazo se inclui necessariamente o controlo das contingências eleitorais, ou seja, a garantia que a “rotatividade democrática” não introduza demasiada desordem nesse planeamento e na sua execução. E que por aqui passa também necessariamente o controlo, de última instância ao menos, das opções e decisões dos diferentes partidos incluídos nesta rotatividade. Estes partidos são os ditos do arco da governação.

    A força deste argumento é que a própria direita basicamente concorda com ele, enfim, não vai admitir que há controlo dos governos mas concorda que os governos não devem introduzir demasiada desordem no planeamento dos bancos e das empresas financeiras. A direita diz também que não deve introduzir essa desordem nas pequenas empresas e eu aí até concordo mas sabemos que as pequenas empresas não têm realmente o ouvido dos partidos do arco da governação senão durante a campanha eleitoral e que, portanto, o grau de controlo dos governos pelos pequenos empresários é praticamente nulo. Já o dos grandes empresários quem julgar que ele é nulo, quem julgar que ele não é dominante, basta ver quem detém os meios de comunicação – se é o grande capital ou a arraia miuda. E isto é só a ponta do Iceberg.

  15. Ramone

    “Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais, na progressiva destruição de uma civilização.”

    Olhando de novo para esta frase, a que conclui o artigo, não se pode senão sorrir. Veja-se bem. Um grupo de académicos foi responsável pela destruição da civilização ocidental. Digo-lhe uma coisa, uma civilização que se deixa destruir por um grupo de académicos é uma civilização que à partida já não teria força para sobreviver por si mesma. Neste sentido em vez da estúpida culpabilização do grupo de académicos deveria responsabilizar a civilização – por não ter resistido a um grupo de académicos.

    Daqui também se presume uma outra coisa, se um grupo de académicos é posto como capaz de destruir a civilização ocidental a verdadinha que está por trás deste ponto é que para proteger a civilização, se algum dia ela se reerguer é claro, é preciso cuidar para que não hajam grupos de académicos com ideias públicas que possam colocar em perigo o renascimento civilizacional. Na terra da direita isto chama-se ditadura.

    Nós aos poucos chegamos lá.

  16. Ramone,

    Recomendo-lhe que leia o artigo na integra antes de fazer comentários como este: “Olhando de novo para esta frase, a que conclui o artigo, não se pode senão sorrir. Veja-se bem. Um grupo de académicos foi responsável pela destruição da civilização ocidental. ”

    Se o fizer vai encontrar frases como esta: “Naturalmente que a actual situação de perda de identidade britânica pela via da imigração (não-europeia) em massa tem mais do que uma causa e não podem todas ser reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais.” e mesmo a frase final que cita diz apenas que eles tiveram sucesso, e não que foram os únicos responsáveis.

    Quanto à ditadura como solução … enfim .. cada um lê o que quiser… já que leu tanta coisa que não estava lá escrita….

  17. Ramone

    Caro Filipe, só posso citar-lhe novamente a conclusão do texto:

    “Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais, na progressiva destruição de uma civilização.”

    É dito que “não podem ser todas reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais”, mas ao mesmo tempo diz-se em conclusão que “ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve (…)na progressiva destruição de uma civilização”

    Enfim, “não podem ser todas reduzidas (…)” mas são na mesma.

    Daqui a pouco vai ser como a anedota do que disse que tinha visto uma cobra do tamanho de uma árvore para acabar por dizer que na verdade era só uma minhoca.

    Cumprimentos.

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