O Insurgente

Leitura dominical

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Os roteiros do Presidente, de Alberto Gonçalves.

Enquanto, perante os protestos dos “antifascistas” da praxe, a norte Santa Comba Dão lança a marca Salazar para promover vinhos e enchidos, a sul a autarquia socialista de Beja depara-se com a oposição dos comunistas locais ao baptismo de ruas com nomes de presidentes de câmara durante o Estado Novo. Os vereadores da CDU estão contra a homenagem a “indivíduos que foram cúmplices na promoção de políticas de perseguição, tortura e mesmo morte de quem se opunha a um regime totalitário”. Naturalmente, a CDU prefere que as vias do município ostentem a graça de grandes partidários de regimes democráticos: Bento de Jesus Caraça, “Zeca” Afonso, Pablo Neruda, Salvador Allende, Manuel da Fonseca, Mário Castrim e Soeiro Pereira Gomes são só algumas das figuras difíceis de encontrar na toponímia de Chaves ou Figueira de Castelo Rodrigo, por exemplo. Embora pequenino, o país não é tão uno e indivisível quanto o pintam.

Sendo inegável que, além de Santa Comba Dão, existem ocasionais avenidas e pracetas Salazar, Doutor Salazar ou Oliveira Salazar acima do Mondego (e pouquíssimas abaixo), o favoritismo dos nortenhos no que toca a políticos contemporâneos vai inteirinho para Francisco Sá Carneiro, designação de dezenas e dezenas de artérias em Bragança, Viseu, Porto e Aveiro. A sul, as referências são outras.

Álvaro Cunhal, por exemplo, é praticamente exclusivo de Beja, Évora, Faro, Lisboa e Setúbal (há uma rua Doutor Álvaro Cunhal em Gondomar). Vasco Gonçalves predomina nos distritos citados e em Santarém. De qualquer modo, nem o Alentejo acompanha Lisboa e Setúbal em matéria de designações retiradas ao folclore do comunismo internacional. Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Samora Machel são invocações assíduas. Karl Marx espreita aqui (Moita) e ali (Vila Franca de Xira). “Che” Guevara é coutada de concelhos lisboetas (e de Serpa). E o notável Vladimir Ilitch Lenine enfeita uma rua de Vila Franca, talvez o nosso equivalente toponímico da Luanda pós-independência.

A moral da história? Temo que não haja nenhuma. No máximo, há uma curiosa discrepância entre o barulho suscitado pela homenagem a personalidades do salazarismo, que é imenso, e a leveza sem contraditório com que se homenageiam vultos do comunismo. E há uma cisão geográfica normalmente adormecida mas que convém lembrar sempre que criaturas como Otelo Saraiva de Carvalho aparecem a sugerir que o povo saia à rua. Nada indica que o povo ou a rua correspondam invariavelmente às expectativas de Otelo. Ele próprio, aliás, experimentou-o no PREC.

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