Mário Soares e o Humor Negro

Mário Soares escreveu para o DN de hoje uma crónica humorística no estilo mas negra na temática.

Por pura diversão, vou fazer alguns comentários.

1 A ideologia neoliberal desenvolvida pelos Estados Unidos, após o colapso do comunismo,

Na verdade, se se refere a Hayek, o seu desenvolvimento foi anterior. Sei que para alguém da idade dele pode parecer tudo o mesmo, mas…

no final do século passado, teve o seu momento de glória – na América e depois na União Europeia -,

Thatcher e Reagan já sairam do poder há uns anitos. Desde aí o peso do Estado na Economia aumentou imenso, e não o contrário.

mas parece estar a esgotar-se.

Como aliás prova a ascensão recente do Tea Party nos EUA.

O seu grande trunfo cifrou-se numa palavra horrível: austeridade.

Os EUA tem aplicado a austeridade?!? Quem? Onde? Quando?
O que eu vejo é mais e  mais despesa com um défice nunca antes visto!

Para engordar os mercados, valer aos bancos e para tornar mais ricos os magnatas,

Eu sempre fui contra o apoio aos bancos. Posso citar inúmeros liberais com a mesma posição. Foram governos intervencionistas que os salvaram. No caso Português, o seu partido, senhor Soares.

a austeridade está, com as medidas propostas, a destruir as classes médias,

A classe média está a ser destruída com o peso do Estado Social, muito mais caro do que o apoio à banca. Mas números já sei que não é o seu forte.

a aumentar em flecha os desempregados e a criar mais pobreza,

lol. Quem cria pobreza e obriga à intervenção do FMI são governos PS. O PSD é sempre chamado DEPOIS. O que aliás faz sentido: se o PS quer ter mais votos, é natural que defenda políticas anti-económicas que aumente o número de dependentes do Estado, um eleitorado tradicionalmente Socialista.

paralisando a economia real, tornando inevitáveis a recessão e, portanto, atirando cada vez mais trabalhadores para o desemprego.

Está-se a repetir. Não precisa. Não se vai tornar mais verdade por o dizer de formas diferentes.

Os países da Zona Euro estão a perder o sentido do crescimento económico,

Verdade, de um certo modo…

dos valores éticos,

Sim. Uma pessoa habituar-se a viver à custa dos outros e habituar-se à ideia de que tem direito a tal destrói sempre o tecido moral!

da solidariedade

Certo. O Estado eliminou o sentido de solidariedade entre cidadãos. Quem pede ajuda leva com um “Eu pago os meus impostos” e acabou. Se o Estado não ajudar, azar.

e a pôr em perigo o contrato social,

Adoro esta expressão.

responsável por quatro décadas de paz,

Acha mesmo que “ou o monstro burocrático ou o caos”? Please…

de bem-estar,

O seu, presumo.

de democracia pluralista e de progresso.

Sem estas palavras, não seria um texto de Mário Soares.

Tudo isso está em causa, uma vez que os dirigentes europeus aceitaram pôr os Estados ao serviço dos mercados e dos seus serventuários principais, as empresas de rating, que têm por função atemorizar os governantes e manipular os Estados…

Atacar as Agências de Rating está um pouco fora de época, mas é já um clássico. No fundo, toda e qualquer instituição que ouse levantar dúvidas sobre a capacidade financeira do Estado é Inimigo de Estado. Mesmo quando já temos um Estado Europeu que entrou em falência técnica e disse que não vai pagar dezenas e dezenas de milhares de milhões de Euros a quem lhe confiou o seu dinheiro (em última análise, o povo que Soares tanto professa defender).

A União Europeia, de Cimeira em Cimeira, tem dado pequenos passos para tentar emendar a mão

Desconheço. Ainda não vi grandes cortes de despesa pública. Tudo o que vi até agora foi chutar a lata para a frente.

– com a resistência persistente da chanceler Merkel –

Ah, essa safada. Paga e não bufes. Como cidadãos de 2ª, os Alemães têm de pagar as nossas despesas e não fazer perguntas!

, embora o FMI, seguramente por influência dos Estados Unidos,

O elogiozinho da praxe a Obama. Fica sempre bem, apesar de Obama não ter cumprido grande parte do que prometeu em campanha.

e o Banco Central Europeu, desde que tem à frente um italiano de grande gabarito, Mario Draghi,

Que segue sempre a rota fácil: se alguém tem problemas, atira-se dinheiro. É assim que se gerem contas.
Mas também, foi assim que Soares educou o seu filho e parece não ter corrido mal de todo…

tenham finalmente compreendido que a austeridade, por si só,

Falho em ver essa austeridade, quando ainda hoje, 4 anos depois do início da crise, Portugal ainda tem um défice 2x o que tinha no ano anterior à crise…

levará a um desastre, que aliás está à vista.

Gosto de conclusões dadas como óbvias quando falhou em apresentar pressupostos que a sustentem =)

A Comissão Europeia também tem procurado expressar algumas preocupações que vão no mesmo sentido, mas entalada como está entre a chanceler Merkel e o ainda Presidente Sarkozy, a poucas semanas das eleições presidenciais, hesita e não tem dado nenhum contributo favorável.

Sarkozy, esse grande austero que ainda hoje é um exemplo de sapiência, fortaleza e contenção.
Giro como chanceler não tem letra maiúscula e Presidente tem.

O Tratado que há duas semanas foi subscrito por líderes de 25 Estados europeus e está ainda na fase de ratificação pelos Parlamentos nacionais parece já estar ultrapassado, havendo Estados que querem ir mais além.

Espero que a conclusão seja “por isso, isto de resolver problemas de economia privada com práticas e políticas públicas não funciona”.

É evidente!

?!?

Sem um Governo europeu, financeiro e económico (e mais tarde político), não há austeridade que, por si só, valha à União, à beira do abismo.

Ou seja, a Austeridade funcionaria se estivéssemos perante um Estado Europeu unificado.
Mas então, isso não implicaria que a América estaria agora a sair decisivamente da crise?!?
Em que é que um governo Europeu ajudaria a Economia?!?
Quais são os seus planos afinal?!?

É, portanto, imprescindível para vencer a crise mudar de paradigma e ter uma estratégia política, financeira e social concertada e solidária.

Claro. Faça-se um plano Quinquenal, já!
Estabeleça-se já um Comité Central Europeu para desenhar a tal “estratégia política, financeira e social concertada”. E “solidária” claro.

Não se trata só da Grécia, que acaba de receber uma ajuda financeira importante, nem da Irlanda e de Portugal. Hoje, há dois Estados, dos mais importantes da União – Espanha e Itália -, que estão a ser atacados pelos mercados e a esses a solidariedade europeia não lhes pode faltar,

Atacados pelos mercados? A que se refere? Ao facto de terem acabado os papalvos que emprestam a Estados falidos sem capacidade de pagarem. Mas acha que os bancos e os seus depositantes são alguma Casa da Misericórdia?!? Os depositantes esperam ter o dinheiro de volta quando o prazo terminar! Já demasiado arriscaram os bancos!!!

se quisermos que a União não sucumba, como projecto de paz, de democracia social e de bem-estar.

A crónica é grande, pelo que agradecía que não se repita com tanta frequência. Já nos assustou com “ou o Estado Europeu ou o caos uns parágrafos acima.

Para além dos que já estão em lista de espera, como a França, a Bélgica, a Holanda e a Áustria.

Boas contas realmente é uma boa prática Europeia. Engraçado como o Sarkozy aparece agora no lado dos da mão estendida…

Para não falar dos Estados de Leste.

Pronto, escusa de dar mais exemplos.

O Governo alemão não compreende que está a ficar isolado e que não pode – nem deve – germanizar a União Europeia. Abra os olhos, Senhora Merkel, que já não é sem tempo.

Eles realmente não o viram por muito tempo. Estavam a ser roubados e só recentemente se aperceberam.
Eu no lugar deles saía do Euro. Mas como estou em Portugal, Viva o Euro!

2 Portugal não vai bem.

Chatices na Loja Maçónica que antes das eleições o fez apoiar o PPC, presumo.

Infelizmente, é o que sinto todos os dias, pensando no que vejo nas televisões, no que leio nos jornais

A comunicação social é sempre uma boa fonte de análises em profundidade…

e no que oiço às pessoas com quem falo, por todo o País.

Admiradores seus não são geralmente boas fontes… Fica a dica.

A crise global está a fazer estragos imensos que se repercutem em Portugal.

Uma generalidade. Ok.

Mas há também causas próprias, que vêm de longe.

Olhe como sabe.

Contudo, o passado pertence aos historiadores e o que conta, na atual emergência, é o presente e o futuro para onde caminhamos.

Sim, evite falar do passado. Eu no seu lugar faria o mesmo. Gira esta divagação para não dizer nada, num artigo que se pretende curto.

É o que interessa aos portugueses.

Que o senhor tão bem representa, pois é realmente um de nós. Aposto que o seu dia-a-dia é bem parecido com o da maioria de nós…

O actual Governo, como se sabe, é adepto do neoliberalismo.

Por isso que privatizou a RTP, acabou com as PPP e mandou para as calendas o TGV, tudo isto enquanto baixava os impostos.

Não o esconde e está no seu direito.

O PSD agradece que lhe reconheça esse direito. Se bem que me perdi na parte em que ele tinha de ter a sua benção para isso…

Daí o tratamento respeitoso que tem com a troika,

Não foi o seu partido que assinou o memorando?!? Eu sei o que o PS fez no Maio passado…

nalguns casos querendo ir além dela.

A incapacidade de cortes numas áreas (irrealismo Socratiano, sublinhe-se), obrigou a cortar em outras.
Qualquer gestor sabe como isto se faz (embora não esteja com isto a dizer que esperava isso de si)

Daí alguns cortes cegos e precipitados que tem feito

Como os que Soares fez quando lá esteve não é? Ah, o senhor é um sentimentalista!

e depois alguns recuos que as circunstâncias o obrigam a fazer. Os exemplos recentes da TAP e da Caixa Geral de Depósitos, entre outros, são a prova disso.

É verdade. Com muita pena minha, diga-se.

As políticas de austeridade paralisam a economia e estimulam a recessão.

Isto é um disparate. Mas como não o justificou, também não me apetece justificar a minha posição.

O desemprego cresce sem conta como o trabalho precário e a pobreza.

“Sem conta”?!? Há estatísticas… Ah, pois: números não é o seu forte, já sei. Aliás, até agora não usou 1 único!
Seja como for, o interessante era que se debruçasse sobre as causas. Mas já sei que isso também não é o seu forte.

As pequenas e médias empresas estão a falir todos os dias.

Mais uma vez, impunha-se que fosse mais fundo.

Todavia, a procissão vai ainda no adro…

Pena realmente não ir mais a fundo nas questões que levanta…

As privatizações já efetivadas não tiveram, até agora, a transparência que se impunha.

Mister Transparência a falar.

E as que estão para vir, ainda são mais preocupantes, como a RTP 1, as Águas de Portugal, a TAP, entre outras.

Não o preocupam assim tanto, senão nomeava-as uma por uma. Se nem sequer à nomeação têm direito…

Há quem ganhe com essas operações, mas isso não está claro.

Como Soares queria ganhar com o Aeroporto da Ota? Claro, ou acha que só o senhor é que tem direito?!?

O Serviço Nacional de Saúde, com os cortes já feitos

Ah, outro tema recorrente: Soares preocupa-se com o emprego dos burocratas do Ministério da Saúde.

– e os que estão para vir -,

Scare mongering com o que ainda não aconteceu. Muito bom…

está a ser destruído, com o Estado Social,

Quem o destruiu foi quem o fez crescer como um sapo fumador. Ou seja, o PS.

conquista maior dos Partidos de Esquerda, dos Sindicatos e dos trabalhadores.

Ainda a cassete? Já enjoa…

Assiste-se assim a um recuo civilizacional imenso. Porquê?

Será agora que vai aprofundar um tópico?

Porque não há dinheiro, dizem-nos. É caso para, legitimamente, perguntar: onde está o dinheiro que resulta dos cortes? Temos ao menos a esperança de que em dois ou três anos a situação vai mudar para melhor? Não creio. Os próprios economistas que aconselham a austeridade não dão qualquer certeza a esse respeito.

Falso alarme. Continua a falar em “receios” e ausência de “certezas” sem nada concretizar.
Senhor Soares, o dinheiro dos cortes não existe. Se houvesse superavites, então haveria dinheiro para alocar.
Assim, só se pede menos emprestado. Capisce?
Podia pelo menos entender este princípio básico…

O descontentamento está a crescer muito, o que é perigoso.

Já sei, já sei. Pode eclodir uma guerra. Ou pelo menos o caos social.
Lembre-se apenas que deixou o país a precisar de ser intervencionado pelo FMI foram o senhor Soares e o Sócrates.

A criminalidade também, bem como a emigração forçada e os suicídios.

E a Central Nuclear de que agora se fala? Eu juntava tudo…

Há que reagir, patrioticamente.

Vai parar com as suas crónicas?

A União Europeia vai ser obrigada a fazê-lo, como se viu com o caso grego: foram-lhe perdoados cem mil milhões de euros, pela banca europeia.

É esse tipo de reacção que advoga? Para que não nos emprestem mais dinheiro? É essa a solução para todos os devedores crónicos?

Foi um sinal importante.

Para mim foi. “Dívida Estatal, nunca mais!”. Eu aprendi a minha lição.

Com a Espanha e a Itália no estado em que se encontram

Menos repetições dava uma crónica mais curta.

– sem ignorar a França -,

Menos repetições, please.
Nem o facto de se estar a contradizer em relação à França como potência credora importante o faz avançar?

talvez seja o momento de o Governo português renegociar com a troika

O que há a negociar? O que podemos oferecer à Troika? Ou vamos impor e ponto?

e deixar-se de complexos.

Sim, porque o problema é psicológico. Estarmos com absoluta necessidade de fundos não tem nada a haver. É mais um fait-diver.

Não devemos deixar degradar mais a situação!

E que cortes adicionáis propõe então?

Começa a haver medo na sociedade portuguesa.

Sobretudo em quem acreditar em tudo o que o senhor escreve.

As pessoas não têm suficientes explicações do que está a acontecer, todos os dias.

E os “opinion makers” não ajudam…

Há tremendos “buracos”, sem que a população perceba quem foram os responsáveis.

Agradeça. Pois se assim não fosse…

O enriquecimento ilícito não foi, até agora, punido.

Como está o seu filho, por falar nisso?

Os portugueses estão a perder a confiança na política e nos políticos.

Excepto em si, presumo que pense.

E desesperam: para onde vamos? Como e quando vamos sair da crise?

Sim, como vamos? Qual é o seu contributo?

Ora, o desespero é mau conselheiro.

?!?
Sim, e disse isso porque…

Os responsáveis do poder, eleito democraticamente, têm de, com humildade, dialogar com as pessoas e explicar-lhes como sair da crise.

Porque focar que foram democraticamente eleitos? O que está a sugerir?
Quanto À humildade, têm muito a aprender consigo…

Não o têm feito.

Mas são uns amadores do desvio. Já esta crónica, fala no assunto mas não diz nada.
Um comentário a esta crónica é meramente um exercício de humor.
Nada poderia ser dito de concreto pois nada de concreto foi ainda proposto.

A austeridade, com limites claros, é necessária.

?!?
E agora assim de repente desdiz tudo o que disse?!?
Que limites? Quem define esses limites?

Mas é igualmente imprescindível reduzir o desemprego e aumentar o crescimento económico.

Como o governo está a fazer, embora não com efeitos imediatos (lamento mas em economia os efeitos não são imediatos: nem na gestão quanto mais na economia!)

Sem isso, a austeridade não serve para nada.

Certo. Embora receio que se concretizasse (o que se recusa a fazer), eu acho que sairia aí sim uma verdadeira jóia humorística.

E os portugueses sabem-no.

O remate com um momento Maria José Nogueira Pinto. Um excelente remate… se se soubesse do que ele estava a falar.

3 A erosão democrática.

A democracia está em perigo! Fujam para Cuba! Nadem!

Assistimos, na União Europeia – e também em Portugal -, a uma certa e perigosa erosão democrática.

Uma linha perdida. Pelo título eu chegava à ideia…

Aproxima-se a data simbólica do 38.º aniversário da Revolução dos Cravos.

Certo. Como todos os anos acontece por esta altura.

É um bom momento para os portugueses refletirem com civismo

Sim, evitem histerias, por favor.
Acho piada à expressão, porque até parece que os Portugueses não são um povo brando (mais uma vez, agradeça).

– e os Partidos, no poder e na Oposição, os Sindicatos e as Associações Patronais – bem como a sociedade civil,

Sim, porque os outros estão infiltrados pelo MFA.

saírem das rotinas,

?!?

renovarem as suas estruturas

?!? ?!? ?!?

e pensarem nos riscos que a erosão democrática nos pode causar.

Ah, ok. Estamos de volta ao início.

É importante reagir e não só atirar as culpas para os outros.

?!?

No período de emergência que vivemos é indispensável reforçar a coesão nacional, defender a nossa Pátria, com quase nove séculos de uma história gloriosa e não permitir que o niilismo e o pessimismo nos invadam e inferiorizem.

Social-Fascista! Inimigo das Classes Trabalhadoras! Salazarista!

Temos problemas muito sérios – um deles e dos mais importantes – é a maneira como a Justiça tem vindo a deixar-se desprestigiar.

Este ponto 3 não era sobre o poder político? Querem ver que ele não acredita na separação de poderes?

A corrupção é outro e tem a ver com o primeiro.

Ah, já percebi a ligação: a corrupção é a Soares um assunto muito querido e portanto ele junta assim os dois tópicos.

Há outros conhecidos.

É agora: vem aí alguma análise mais profunda.
Vai falar de como em Portugal o Direito à Vida é desrespeitado.
Como o Direito à Propriedade Privada atacado como no tempo do fascismo que tudo considerava seu.
De como o Direito à Liberdade está incompleto sem a Liberdade Económica.

Mas de momento não valerá a pena enumerá-los.

Falso alarme.

O fundamental é recuperar a confiança em nós próprios,

Claro, tudo se resolve com peito cheio à Espanhola.

nas nossas elites intelectuais, científicas e artísticas

Nas quais se inclui, presumo.
Eu pessoalmente gosto que as pessoas pensem por si.

– e sobretudo no nosso Povo, que tem bom senso -, ouvindo as novas gerações, tão inventivas e preparadas, como se tem visto em todos os domínios.

Mas não era este o povo que à pouco precisava de ser incitado ao civismo?
Já agora, o que foi mesmo dito sobre a erosão democrática? Que temos de confiar mais nas elites?
As que nos trouxeram a este ponto, presumo…

4 Vieira da Silva.

Passaram, há poucos dias, quase despercebidos, os 20 da morte de Maria Helena Vieira da Silva, a mais excecional e mundialmente conhecida pintora portuguesa de todos os tempos. Embora haja um Museu, em Lisboa, Arpad Szenes-Vieira da Silva, bem localizado, tem infelizmente poucos quadros do casal. Por falta de apoios e de dinheiro, como sucede, tantas vezes, com o nosso tão rico património cultural.

Soares foi sempre um grande Mecenas. Com o dinheiro dos outros, claro.

Conheci Vieira da Silva e Arpad Szenes quando estava no exílio, em França, pela mão do pintor, amigo do casal, Cargaleiro.

Quando vivia uma vida de rico com a pensão da CIA, portanto.

Visitei-os e fiquei admirador rendido de ambos. Relação que, com o tempo e a convivência, se tornou uma sólida amizade. Vieira era uma pessoa humana extraordinária, com uma enorme cultura e simpatia.Ofereceu-me alguns quadros e bastantes litografias.

Que imagino que estejam no museu Lisboeta. Talvez os vá ver um dia…

Viveu o 25 de Abril com paixão, fez o célebre cartaz com dizeres da sua grande amiga e poetisa Sophia de Mello Breyner. Conquistada a democracia, o casal veio, várias vezes, a Lisboa. Depois da morte do seu marido, húngaro, de origem judaica, de uma bondade e simpatia irradiantes e também um pintor excecional, espaçou as suas viagens.

Trata-se de um casal que não pode ser esquecido nem o Museu que tem o nome de ambos abandonado. Salazar negou-lhes, durante a guerra, a nacionalidade portuguesa. Mas tiveram, no pós-guerra, a francesa… Em ditadura tivemos desses deslizes imperdoáveis.

Imagino que o Presidente Soares tenha oferecido a dupla-nacionalidade, se é uma pessoa consequente.

5 Coimbra veio a Lisboa. Na sala principal do São Jorge, Coimbra, “a encantada e quase fantástica Coimbra”, no dizer de Eça, veio a Lisboa, na noite de 8 de março, oferecer um espetáculo único, “as guitarras, o canto e a poesia”, dirigido por Carlos Carranca. Quando o fado de Lisboa acaba de ser reconhecido pela UNESCO, como património universal, Coimbra cantou, dançou e recitou poemas lindíssimos, quis demonstrar a sua solidariedade e apreço por Lisboa. A sala estava repleta e entusiástica, com pessoas de meia idade e para cima – algumas mesmo idosas – que cantaram, tocaram e dançaram como verdadeiros profissionais, sem o serem, porque quase todos são professores doutores ilustres. Faltaram talvez os jovens, à excepção da vice-reitora e reputada cientista Helena Freitas, que representava a Universidade e falou no início.

Os jovens estão a trabalhar (mesmo a vice-reitora, pois estava em representação oficial).
Pena não termos muito dinheiro de sobra, como deveria ter quem trabalha para manter o país.
Obrigadinho pelo fardo pesado.

Zeca Afonso esteve sempre presente, com as suas canções e poemas e alguns outros, do tempo da resistência, como Adriano Correia de Oliveira, os poetas neorrealistas do Novo Cancioneiro, que a minha mulher recitou, entre outros ausentes mas presentes, como António Portugal e Manuel Alegre.

Mudam as décadas, ficam os nomes.
Explicitando: era bom que para além de se manterem alguns nomes, surgissem outros. Mostrava dinamismo. Vivacidade.
Assim, é mais uma prova da clivagem geracional e da pesada factura que deixou aos jovens para pagar.

Sempre tive um grande fascínio por Coimbra, apesar de lisboeta dos sete costados. Vem isso desde a geração de 70 do divino Eça, que sempre tanto admirei. Permito-me por isso citar Eça: “Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessava (…) o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava (…). Então, perante este céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me considerei na vida.” Antero, “um génio que era um santo”…

Não precisava de confirmar o que disse acima, mas obrigado. Ou não.

Este é o fascínio de Coimbra que marcou sucessivas gerações: o Mondego, o choupal, a lua, a velha novíssima Universidade, construída em cima de ruínas romanas, hoje quase ocupada por estudantes do sexo feminino, que ajudam a dar uma vida nova à velhíssima instituição. Foi essa Coimbra, com as suas capas e canções, que veio a Lisboa. Foi uma noite gloriosa. Adorei o espetáculo, que se prolongou pela noite fora. Obrigado, Coimbra!

Obrigadinha Soares. Mereces bem o dinheiro que te pagamos.

22 pensamentos sobre “Mário Soares e o Humor Negro

  1. Monti

    E quando estava a sair da tabacaria com o DN,
    reparando na página do gajo,
    devolvi o DN. Troquei com o Público.

  2. Ricardo Campelo de Magalhães

    Boicote ao Soares. Acho bem. Se mais pessoas o fizessem ele teria menos oportunidades de ganhar mais uns “trocados”.

  3. “Quem cria pobreza e obriga à intervenção do FMI são governos PS. O PSD é sempre chamado DEPOIS. ”

    Não é que a luta PS/PSD me faça grande diferença, mas penso que este “sempre” se resume a “desta vez” – p.ex., creio que nos anos 80 do século passado foi ao contrário (o governo PSD/CDS, com o Cavaco Silva como ministro das finanças, gerou deficits e o PS veio depois – ainda que aliado ao PSD – e chamou o FMI).

    Atenção que estou apenas a repetir o que sempre ouvi dizer – é possivel que algumas estatísticas de evolução do defict na altura (que não me apeteceu ir à procura antes de escrever o comentário) mostrem que estou errado

  4. Pi-Erre

    Soares não tem nível intelectual para abordar seja que assunto for. Sempre foi um básico. O meu barbeiro ganha-lhe aos pontos, sem dificuldade.

  5. Ricardo Campelo de Magalhães

    O FMI veio 3 vezes:
    – Da 1ª o problema não se resolveu e ele veio outra vez pouco tempo depois.
    – Da 2ª o problema foi resolvido por Cavaco Silva.
    – Da 3ª o problema será (ou não…) resolvido por PPC.

  6. “Da 2ª o problema foi resolvido por Cavaco Silva.”

    Eu tenho certeza quase absoluta que quando a 2º missão do FMI acabou, o Cavaco estava há uns dois meses no poder – recordo que o politico que ficou conotado como “o agente do FMI” foi o Soares, não o Cavaco.

  7. Quero de facto dar-lhe os parabéns por este post.

    Isto é o verdadeiro uso que se deve dar à blogosfera! Para dizer aquilo que os cagões dos jornalistas e cronistas ditos de ‘referência’ sabem mas nunca tiveram (ou têm) a coragem dizer. Coragem, para caso, é um eufemismo claro…

  8. Click to access ANA%20BELA%20NUNES.pdf

    Bem, fazendo uma pequena pesquisa, a segunda intervenção do FMI foi de Outubro de 1983 a Fevereiro de 1985 (acabou 6 meses antes do Cavaco ir para o Governo).

    Aliás, a conotação do PS com o “partido da despesa” e do PSD como “o partido da contenção” é muito recente: nos anos 80, o PS é que tinha a imagem de ser o partido das medidas impopulares – contratos a prazo, suspensão do 13º mês, congelamento de salários, etc. – e o PSD é que era o partido que aumentava as pensões.

  9. Ricardo Campelo de Magalhães

    Miguel, isso é brincadeira, ou quê?
    Então vai brincar comigo com datas?!?
    O problema atacado pelo Cavaco na 2ª intervenção do FMI só ficou enterrado de forma definitiva em 1989 ou 1991.
    Acha mesmo que em 1985 o problema acabou de vez? Isto são políticas com efeitos mais profundos do que defende nesse comentário…

    E desta 3ª vez, Portugal está nisto pelo menos até 2016. Mesmo que o FMI se vá embora em 2013.

    Sem brincadeiras, ok?

  10. Ricardo Campelo de Magalhães

    Paulo Roxo,
    1. O meu salário não depende disto. Depende do modo como ataco a Segurança Social todos os dias. XD
    2. Já vou tarde para procurar favores entre os Soaristas.
    3. A mim tudo o que o Soares me possa fazer não me mete medo. Sou do Norte e sou um tipo frugal.

    Dito isto, Obrigado pelo incentivo. É sempre simpático ter um comentário a favor, dado que a maioria das pessoas que se dá ao trabalho de escrever é para criticar e os que concordam geralmente optam pelo silêncio. Obrigado!

  11. DavC

    Ricardo Campelo Magalhães,

    deixemo-nos de tretas, quem atacou o problema na 2ª vez foi o governo liderado por Mário Soares com Ernani Lopes a ministro das finanças, sobretudo com recurso desvalorizações. Cavaco não teve que tomar praticamente nenhuma medida “impopular” de 85 a 91/92 (pelo contrário, 14º mês para os pensionistas, Novo Sistema Retributivo…etc). Já agora, aconselho-o a ler o livro “A Economia Portuguesa” do Luciano Amaral que conta a história bastante bem.

  12. Ricardo Campelo de Magalhães

    Dav,
    E claro que o problema ficou resolvido de imediato.
    Quando chegou o Constâncio e se fez a Revisão Constitucional já era tudo águas passadas à muito…

    PS: Esse “A Economia Portuguesa” já está na minha reading list, mas ainda não tive tempo.
    De qualquer das formas, não estou à espera que mude a minha opinião em geral, pois se bem me lembro do que li sobre os anos Constâncio…

  13. Não consigo encontrar nenhuma estatística (já feita) do deficit em percentagem do PIB.

    Mas uma estatística quase feita do consumo público em percentagem do PIB consigo – aqui[http://www.bportugal.pt/pt-PT/Estatisticas/PublicacoesEstatisticas/SLEPort/Publicacoes/sl-prod-despnac.pdf]; quase porque a conta não está feita, mas como o PIB está logo abaixo do consumo público, é só fazer as contas.

    De 1979 a 1982, o consumo público subiu, pouco mas regularmente (embora na altura as minhas preocupações tivessem mais a ver com a ursa Grizzly e os seus filhotes, sempre ouvi dizer que o governo AD, sobretudo com o Aníbal nas Finanças, foi bastante gastador); de 82 a 84 desceu; sobe em 85; desce em 86 e 87; e vai subindo de 87 a 95 (a partir daí o quadro acaba).

  14. DavC

    Não ficou resolvido de imediato, mas as medidas realmente impopulares não foram tomadas por Cavaco, que começou a governar em circunstâncias excepcionais, que talvez nem Guterres tenha tido. A parte de “austeridade” foi feita pelo governo PS, embora nem essa austeridade tenha sido grande coisa em termos de orçamento de estado, tendo sido praticamente tudo feito via desvalorizações. Cavaco começou a tomar algumas medidas mais impopulares após 91, sobretudo políticas de desinflação no processo de entrada para a UEM.

    No entanto a proposição inicial era que o PS obriga a intervenção do FMI e o PSD vem depois resolver, ora no caso da segunda intervenção isto não é verdade, uma vez que quem governou nos anos que precederam chamada do FMI foi o PSD. Isto em termos políticos para mim nem tem valor nenhum, não me parece que qualquer um dos dois partidos (e respectivas lideranças) tivesse condições para fazer melhor. O mesmo não se poderá dizer dos governos de Cavaco e Guterres, na minha opinião.

  15. neotonto

    Este Hayek que tanto sabia de economia alguma veç previu que os comunistas chinocas acabariam por tocarlhe nos tomates a economía americana?

    Foi contemporaneo do Deng Xiaoping ou anterior?

  16. Ricardo Lima

    O homem dá mais pantufadas nas datas e nos acontecimentos que o MST.

    Mas concordo com ele no ponto em que austeridade sem políticas de crescimento vai acabar mal. Claro que para ele o crescimento é pegar nuns milhões e construír umas travessias do Douro à Menezes.~

    Campelo, lê. Eu até trouxe uma cópia para o UK para reler. (tenho 2 xD)

  17. Pedro

    Estao os dois errados e os dois certos! A realidade nao é cor-de-rosa nem laranja!
    É um arco-iris! Facam-me um favor… tentem perceber quem sai beneficiado disto tudo!

    Obrigado!

  18. JS

    O sistema político português -como aliás o de outros Países- confere demasiado poder -concentrado- numa só pessoa, o PM. É mau, corroi para os titulares. E é mau, destroi as sociedades, os Países.
    Hoje, Mário Soares, e outros que por aí andam, são apenas vítimas dessa distorção de personalidade que o (ab)uso de poder confere. Nada de novo. Milhares de anos da melhor literatura tratam o tema.
    RCM tem razão. Só dá para uns tristes, negros, complacentes, sorrisos.

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