Existe e não funciona

O João Rodrigues acha que o episódio da falência da Lehman Brothers exemplifica a disciplina de mercado a que eu acho que o sistema financeiro deveria estar sujeito. Não percebo bem: a Lehman foi a única grande instituição financeira internacional que se deixou falir; todas as outras foram salvas. Um caso não faz disciplina de mercado. Diz o João Rodrigues que o caso Lehman deixou a economia mundial à beira do colapso. Presumo que queira dizer que, caso se deixasse o processo continuar para outras instituições, a economia entraria mesmo em colapso. Está por provar, uma vez que não se deixou o processo continuar. Mas admitamos que sim, que haveria esse colapso, para afastarmos um argumento desta conversa. Se isso acontecesse seria a maneira mais transparente de lidar com a “alavancagem” (ou, para usar uma terminologia que julgo que o João Rodrigues prefere: a “financeirização”) da economia mundial. Ou melhor, seria a maneira mais transparente de proceder à “desalavancagem” (ou “desfinanceirização”) que me parece essencial a essa mesma economia mundial. Os diversos apoios públicos que se multiplicaram na altura não foram senão, precisamente, a perpetuação da “alavancagem”.

O João Rodrigues prefere a “socialização” da banca. Mas isto foi a socialização da banca! É por isso que acho que o João Rodrigues entra numa contradição essencial: ele quer a “desfinanceirização” da economia mundial mas ao mesmo tempo apoia a sua perpetuação através de intervenções públicas. A menos que o seu problema seja com o facto de haver lucros privados. Mas eu acho que ele sabe que os lucros são apenas pequenos valores no conjunto da actividade bancária (1% nas melhores hipóteses). O grande problema da “financeirização”, sobretudo graças aos apoios públicos, é a situação de subsídio implícito em que vive o sector financeiro e a colossal desmobilização de recursos para outros fins que daí resulta.

Claro que aqui o João Rodrigues tem razão. Se a banca é uma actividade tão socializada, tão politizada, às tantas de facto não se justifica a ficção da propriedade privada: socialize-se mesmo a banca. Pois eu estou de acordo. O que acho é que não resolvia nada, precisamente porque os incentivos para a “financeirização” continuariam. Não seria a “financeirização” por “privados”. Seria uma “financeirização” assumidamente pública. Coisa que já aconteceu em muita parte do mundo. Só para dar o exemplo mais próximo: aconteceu em Portugal entre 1975 e 1985, e em boa parte esteve na origem das duas intervenções do FMI da altura, graças aos programas de expansão descontrolada do crédito manipulados pelos governos da época.

O João Rodrigues que me desculpe, mas a socialização já existe. Ele dirá que não é a sua socialização. Talvez. Mas a que existe não funciona bem e a dele também não funcionaria.

6 pensamentos sobre “Existe e não funciona

  1. Carlos Novais

    Bem verdade. Os críticos da financeirização devem perceber que é uma consequência da capacidade de expansão de crédito, e como diz o Luciano, tanto faz ser privado como público. No final é mesmo sempre público via Banco Central.

  2. Tiro ao Alvo

    O Rodrigues já levou que chegasse do Fonseca, como se pode ver no comentário que este fez no Ladrões de Bicicletas.
    O que o Fonseca lhe disse, no meu entender, é tudo verdade. Para mim, a CGD, antiga Caixa de Aforro, transformou-se num Banco pior que muitos outros, que, assim como está, não interessa nada ao Estado, antes pelo contrário.
    Portanto, sou de opinião que podia, com grande vantagem para todos nós, ser privatizado aos bocados, criando-se depois uma verdadeira Caixa de Aforro e um verdadeiro Banco de Investimento, aproveitando-se para reduzir a dívida pública e criar condições para se poderem apoiar investimentos produtivos, tão necessários.

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