No estaleiro

“Os Estaleiros de Viana dos Castelo (ENVC) perderam, ontem, a possibilidade de encaixar 50 milhões de euros ao serem excluídos de um negócio, da empresa Douro Azul, que prevê a construção de dois navios-hotel, para operarem já em 2013 (…) Em declarações ao Público, o presidente da Douro Azul, Mário Ferreira, acusou a administração dos ENVC de incompetência e pediu aos políticos para ‘pararem de pagar a gestores que desgovernam’  (…)Mário Ferreira lameta estar a ser acusado de se aproveitar da situação dos ENVC para reduzir o preço dos navios. Explicou que o valor apresentado pela empresa pública foi de 12,7 milhões a unidade, que classificou de “completamente disparatado”. Na Holanda não se fazem navios para perder dinheiro e os estaleiros da De-Hoop apresentaram um preço inferior, em cerca de dois milhões’ (…) Até sexta-feira tomará uma decisão agora limitada aos estaleiros portugueses da Navalria e aos holandeses da De-Hoop”, hoje no Público (página 13).

Nem de propósito! O artigo que hoje assino no Diário Económico parte precisamente dos ENVC, a fim de ilustrar duas evidências: a) que continuamos a subsidiar empresas que não funcionam nem têm condições para funcionar, e; b) que existe em Portugal “savoire faire” (peço desculpa ao meu caro Rb por me ter apropriado de uma expressão que ele tanto gosta de utilizar) numa série de sectores onde hoje somos, infelizmente e desnecessariamente, importadores líquidos…

Ora, nas últimas semanas tenho navegado numa zona que, porventura, muitos colocam fora da zona de conforto de um liberal: o proteccionismo (mas não o nacionalismo) económico que Portugal deveria adoptar. Na minha opinião, seria a forma de estimular o crescimento da procura interna e o combate ao desemprego, que são os domínios dos quais, em última instância, dependerá o sucesso deste programa de ajustamento. E é nesse sentido que tenho vindo a preconizar a discriminação fiscal, a favor da produção nacional (fomentada por portugueses ou estrangeiros) e contra a produção importada, como a avenida certa para retirar o País da cova que, entretanto, vai cavando. Enfim, para concluir, ficaria muito feliz se a Douro Azul adjudicasse o negócio à Navalria!

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15 pensamentos sobre “No estaleiro

  1. Zé da esquina

    Algo me está a escapar: 2 navios vezes 12,7 milhões de euros por navio são 50 milhões de euros? De qualquer forma, o sector da construção naval é um sector em crise em toda a Europa. Apesar da tentativa de especialização nalguns segmentos específicos (militar, Ro-Ro, yachts de luxo), os estaleiros europeus têm todos sentido dificuldades. Ainda por cima, não me parece que os ENVC, dado os exemplos do passado recente, sejam um exemplo de competências diferenciais e know-how superior à concorrência. Se isto fosse escrito num jornal, iriam com certeza vir acusar-me de não perceber patavina do assunto e que os trabalhadores portugueses são muito bons nesta área. Admito que não percebo patavina de construção naval, mas seja culpa dos gestores, do mercado, dos trabalhadores ou da santíssima trindade, a verdade é que os ENVC não são competitivos e aparentemente não podem ser tornados competitivos.

    A sugestão do Ricardo Arroja é proteccionismo selectivo. Mas o que me elude é em que medida o proteccionismo promove a competitividade? Se os ENVC foram protegidos durante 20 anos sem dar lucro e disso não resultou bem maior, em que medida é que outro tipo de proteccionismo mesmo que aplicado a empresas privdas, pode promover uma maior eficiência? Enfim, como disse não percebo patavina disto.

  2. Ricardo Arroja

    Caro Zé da Esquina,

    “ENVC não são competitivos e aparentemente não podem ser tornados competitivos.”

    Pois não. É uma empresa pública, fortemente subsidiada e sobredimensionada. Felizmente, existem outras empresas, como a Navalria (citada no texto), que conseguem ser minimamente competitivas.

    “em que medida o proteccionismo promove a competitividade”

    A teoria diz que o proteccionismo pode promover em casos de “infant industry”. Mas o meu argumento não é esse, aliás, o recurso ao proteccionismo é na verdade, num primeiro momento, para promover a nossa falta de competitividade!! É que é bom nunca esquecer que a nossa produtividade é de apenas 65% da média da UE e menos ainda face à Espanha (nosso principal trading partner). E tudo isso resulta no crescente desemprego e na recessão que todos os dias testemunhamos e que acabará por arrumar (juntamente com os double standards do Governo…) com o programa de ajustamento. Assim, o proteccionismo selectivo teria como objectivos: a) incentivar o investimento (de capital português ou estrangeiro) na produção nacional, reduzindo drasticamente os impedimentos burocráticos (licenciamentos, por exemplo) e a carga fiscal directa (reduzindo a sério o IRS e IRC, não umas pequenas cócegas como se tem feito aqui e acolá), e; b) desincentivar o consumo externo que baixando os preços de quem compra também elimina os salários de quem fica sem emprego! Falta, portanto, o equilíbrio. Falta a válvula de escape que, com mercado único e moeda única, deixou de existir e sem a qual não há esperança.

    Em suma, eu defendo uma solução de sector privado em alternativa à subsidiodependência. Eu defendo a concorrência interna, com entidades de regulação que funcionem como deve ser, mas sem impedimentos burocráticos nem restrições quanto à origem do capital. Eu defendo o emprego e o crescimento. Numa só palavra, esperança (que é coisa que a cada dia que passa vai desaparecendo).

    E se a discriminação fiscal não está prevista nos Tratados, então, mexam-se e proponham alterações ou situações de transição. Façam o possível e o impossível para defender os interesses do País, que é aquilo que se pede a um verdadeiro Governo e a verdadeiros Estadistas.

  3. Guillaume Tell

    Para quê protecionismo económico? As exportações aumentaram de 15% o ano passado, com bons desempenhos tanto entre os países da UE, como entre os emergentes ou os productores de hidrocombustivéis, a taxa de cobertura total ficou com em 91,8%, com um pico a 103% no Verão.
    http://balancedscorecard.blogspot.com/2012/02/superavite-comercial-la-para-julho-de.html

    Eventualemente se estimarmos que não vai depressa suficiente, ou se houver uma surpresa de mau gosto durante o ano, podemos equacionar de aumentar o IVA sobre os produtos importados e obrigar o Estado a escolher o fornecedor português mais barato para as suas tarefas (além de claro do que reduzir burocracia, baixar impostos sobre empresas residentes em Portugal etc.) > e a que fazer algo em relação aos combustivéis e à (in)eficiência da energia, que é isso a maior chaga.

  4. Ricardo Arroja

    “é isso a maior chaga”

    Não é não. As maiores chagas são: a montante, a nossa baixíssima produtividade, e a jusante, o nosso elevado desemprego.

  5. Pingback: Caça ao QREN e rent-seeking na economia portuguesa… « O Insurgente

  6. Ricardo Arroja

    Caro Guilherme Tell

    “A nossa maior chaga no campo do Comércio Exterior”

    ….E que resulta da nossa baixíssima produtividade.

  7. Paulo Pereira

    O governo e muitos seus apoiantes estão a apostar tudo na continuação da melhoria da balança comercial, conseguida sem ajudas fiscais ou protecionistas.

    É um erro que vai continuar a sair caro, porque a procura exterior começou a diminuir em Janeiro significativamente.

    Com um PIB em decrescimo os racios da divida publica vão piorar.

    Um governo cauteloso e responsável teria uma politica de apoio à produção nacional através de incentivos fiscais.

  8. Ricardo Arroja

    “É um erro que vai continuar a sair caro, porque a procura exterior começou a diminuir em Janeiro significativamente”

    Ora, nem mais!

  9. Insurgente

    … Eles falam , falam e não dizem nada … Por um lado , querem receber os donativos da Europa e por outro não querem cumprir a legislação e jurisprudência comunitária ?
    Também não é para admirar pois o Cavaco também diz as mesmas babuseiras !…

  10. Alexandre

    Paulo Pereira, não há crise, já ouvi dizer que os marcianos vão aumentar as importações!

  11. Guillaume Tell

    Paulo Pereira,

    viu o gráfico que apresentai? Verá que a taxa de cobertura das importações é sempre mã nos primeiros e últimos meses do ano, por isso não é de admirar termos notícias de este genro. Se no Verão voltarmos a termos excedentes comerciais a ver se os jornais e notíciarios falarem de isso. Ah e não me venha com “o desacelaramento da procura externa em 2012”. O desacelaramento não devia ter já começado em 2011? O último trimestre de 2011 não foi o trimestre da desacerlaração? Então como é que o saldo ficou tão alto?

    Mas claro quando falamos de Portugal a atitude correcta é sempre ser pessimista não é?

  12. Pingback: No estaleiro (2) « O Insurgente

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