No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o i deste sábado.

O mito do fim

Devemos ler os livros de história antes de levarmos a sério o mito da decadência americana

Robert Kagan é historiador e um comentador habitual da política externa dos EUA. Como bom profissional que é, Kagan analisa os factos não esquecendo as lições do passado. É o que faz num artigo que publicou há dias na “New Republic”, sobre o seu novo livro, “The World America Made” (Knopf). Nele, Robert Kagan questiona a decadência americana, que tantos aceitam como certa, analisando cada uma das ideias preconcebidas que a justificam. Pelo caminho alerta para o perigo de, deixando-nos ir pelo raciocínio fácil, chegarmos a conclusões totalmente erradas.

Quem olhe para os EUA vê o forte endividamento do estado federal, a incapacidade de entendimento entre os membros do Congresso para a redução da despesa pública, os fracos índices económicos e o desemprego. Conclui, como algo inevitável nas sociedades ricas, que a decadência moral se apodera dos norte-americanos. Um declínio comparável ao do Império Romano, como se este não tivesse levado séculos a deixar de ser a potência que era. Olhamos para o que vemos hoje e esquecemos como foi no passado. Que a existência não se torna um paraíso apenas porque se tornou história e a vida não fica fácil só porque termina. Temos de analisar os acontecimentos em perspectiva, comparando-os com o que sucedeu ontem e perceber melhor a dimensão do que enfrentamos hoje.

Um das ideias mais frequentes é a da redução da quota-parte americana no PIB mundial. Que os EUA têm índices de crescimento económico muito inferiores aos das potências emergentes, sendo isso um sinal de cansaço e da falta de entusiasmo que marcou aquele país durante o século xx. Esta é a percepção comum. Mas se olharmos para a história o que vemos é que o PIB norte-americano representa 1/4 do PIB mundial desde 1969. Valores que não se têm alterado, apesar da crise, e ainda que a China e a Índia apresentem resultados surpreendentes. O mesmo tipo de raciocínio terá de ser feito relativamente à política externa. É dado assente que os EUA perderam influência e já não conseguem o que querem, como quando o mundo era um tabuleiro de xadrez, sem um adversário do outro lado da mesa. Novamente, uma análise cuidada do que aconteceu no passado ajuda-nos. Na verdade, e como Kagan lembra, nunca os EUA foram uma potência hegemónica. Até na década de 50, os anos de Eisenhower, do boom económico, os EUA tiveram de aceitar o golpe comunista chinês de 1949, apenas conseguiram meia vitória na Coreia e viram a URSS fabricar a bomba atómica. Houve mesmo o receio de que a URSS estivesse a crescer a um nível superior ao dos EUA. Algo ridículo, agora que sabemos a história toda. Assustador para quem vivia na altura. Algo que nos deve servir de lição quando damos como certo o sucesso chinês. Foi assim na altura e também nos anos 90, depois do fim da URSS, quando os EUA não conseguiram impedir que a Coreia do Norte e o Irão avançassem com o seu programa nuclear, nem sequer impor a paz no Médio Oriente. Para quem punha e dispunha do mundo, é muito pouco. Tal como sempre foi pouco o soft power americano. Ou não eram muitos os que na Europa preferiam o regime soviético ao do Uncle Sam? E não foram os anos 60 o tempo da decadência da juventude sem valores e sem disciplina? Em que Kennedy e Luther King foram mortos a tiro? Se a sociedade está em decadência agora, que nome damos ao que acontecia naquele tempo?

Kagan refere também que os EUA são aliados da Índia e próximos do Brasil, como foram do Japão e da Alemanha nos anos 80, quando estes países, em vez de ameaçarem o poderio americano, o fortaleceram. Sabemos como as boas alianças são importantes para os países dominantes. E para potência decadente os EUA parecem bem acompanhados. Se, como diz George Steiner, um dos axiomas do Ocidente é a consciência do fim, a história ajuda-nos a não tirar conclusões precipitadas. É um instrumento valioso contra a dedução fácil, que devemos ter sempre presente para não cairmos nos lugares-comuns.

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4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. JSP

    Estaria tudo muito certo se os EUA ainda fossem WASP…
    E convém não esquecer que ” do outro lado” estão mais de um milhar de milhÕes de criaturas dotadas de armamento atómico – que são, em simultâneo,os grandes credores do “tigre de papel” de saudosa memória.
    Consta que a propalada retirada das forças americanas da Europa, anunciada para 2013, terá a ver com exigências “creditícias”…e que o Vladimir já terá ido a Kazan em romaria de agradecimento…

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