Direita, Esquerda e QI

Segundo o psicólogo evolutivo Satoshi Kanazawa da London School of Economics, os conservadores são em média menos inteligentes que os sociais democratas (liberals). Os conservadores são aqui definidos como aqueles que desejam impostos baixos e que preferem praticar caridade de forma voluntária no sentido de escolher pessoalmente os recipientes das ajudas. Normalmente estes recipientes são pessoas geneticamente próximas (família, comunidade, raça, etc…). Por outro lado, os sociais democratas (liberals) são aqueles que estão dispostos a redistribuir riqueza via Estado para ajudar também outros que estão geneticamente distantes. Nas palavras de Kanazawa, a ideologia destes define-se “as the genuine concern for the welfare of genetically unrelated others and the willingness to contribute larger proportions of private resources for the welfare of such others.

O estudo de QI revelado por Kanazawa mostra que os conservadores têm em média QIs mais baixos do que os seus antagonistas ideológicos de esquerda. A reacção mais comum dos que se dizem de direita é atacarem imediatamente a validade dos testes de QI. Contudo, isto é apenas a saída mais fácil para uma questão que é muito mais relevante do que parece.

Os testes de QI, apesar de muito criticados (na maioria dos casos por razões ideológicas), não só são abundantes e executados por milhares de cientistas, mas também revelam resultados consistentes ao longo do tempo. A maior dessas consistências é a forte correlação positiva que existe entre QI e sucesso económico-social, tanto nos indivíduos individualmente considerados, como em grupos geograficamente localizados. Isto não significa que estes testes que medem G (General Intelligence) sejam perfeitos na sua capacidade de medição, significa sim que apresentam uma capacidade de previsão fortíssima.

Neste caso, Kanazawa não revela o primeiro estudo que aponta para este resultado, vários outros já apontam neste sentido. Como tal, em vez de atacar cegamente os resultados, parece-me mais lógico tentar perceber porque é que existe esta forte correlação entre altos QIs e o apoiar de políticas estatais ditas de esquerda, principalmente perante a evidência do predomínio do pensamento igualitário nas instituições das elites.

Do ponto de vista evolutivo, no sentido da perpetuação genética,  é bastante mais racional praticar caridade com aqueles que nos são geneticamente próximos (e que como tal partilham mais genes) do que com aqueles que não o são, tal como postula a teoria sociobiológica da Inclusive Fitness. Esta atitude deveria ser suficiente para colocar os conservadores como aqueles que merecem o epíteto de inteligentes; mas o contrário parece ser o que a realidade actual nos revela. Segundo a minha análise, tal deve-se a 2 razões:

A primeira razão passa pelo facto de que as pessoas mais inteligentes têm uma capacidade para o raciocínio abstracto que os leva a acreditar que existem soluções desenhadas racionalmente que podem mudar o mundo via planeamento central. Muitas dessas soluções desenhadas por eles mesmos. Aquilo que F.A. Hayek chamou de “arrogância fatal” (The Fatal Conceit).

A segunda razão prende-se com o facto de estas pessoas de QI mais elevado considerarem que vão ser elas, directamente ou indirectamente, a controlar o processo estatal, seja no governo, ou em instituições públicas ou em fortes grupos de interesse. Tal confere-lhes, como é claro, inúmeros benefícios pessoais, o que acentua o papel do auto-interesse, que em boa parte dos casos termina em alocação de recursos privilegiados aos seus “geneticamente próximos”. Isto é, o objectivo é  tendencialmente o mesmo, mas a estratégia para o atingir é mais “sofisticada” do que a dos conservadores.  Não é assim de surpreender que os estudos mostrem que a academia, a imprensa,  os cargos públicos e outras posições de destaque estejam compostos na sua maioria por sociais democratas (liberals).

Visto que conceitos de direita e esquerda são veículos em permanente mutação, a crescente atracção intelectual pelo funcionamento, não só mercado, mas também da acção humana, poderá dentro de algum tempo alterar estas distribuições consideravelmente. Porém, dados os incentivos e vantagens que o Estado dá às elites cognitivas, não é lógico pensar que a atracção das mesmas pelo Estado irá mudar de forma drástica. Pelo menos não no actual contexto. Por fim, como curiosidade, é importante referir que apesar destes estudos contemporâneos mostrarem que em média, as pessoas de esquerda têm um QI mais elevado do que as de direita, a associação internacional Mensa, que aceita apenas elementos com QI que estão entre os melhores 2% da população, é constituída essencialmente por libertários.

Mensans tend to be a refreshingly and disproportionately independent, free-thinking, (lower-case) libertarian-leaning bunch. This group is intended as a relatively nonpartisan forum for the intelligent, reasoned discussion of liberty-related issues, and how to pursue an environment of philosophically honest and consistent, practical limited government, individual liberty and personal responsibility.”

22 pensamentos sobre “Direita, Esquerda e QI

  1. Lidador

    Interessante.
    O saudoso Raymond Aron escreveu sobre a relação entre intelectuais e ideias de esquerda, num livro impossível de encontrar à venda, em português (eu tentei), mas que está disponível em inglês, via Amazon : O ópio dos intelectuais.

  2. Há também a explicação sugerida pelo Kazanawa (e, pelo que li dele, me parece a base de grande parte das suas teses sobre quase tudo – ele até lhe chama “a Hipótese”, com letra grande): de que, quanto mais inteligente alguém for, menos é afectado pelos instintos ancestrais; como os nossos instintos nos puxam para a direita, quanto mais inteligente alguém for, mais de esquerda será.

    No entanto, imagino outras razões para tal acontecer – nas pessoas de baixa posição social, não é muito difícil perceber a relação entre QI e esquerdismo: as pessoas inteligentes que estão em baixo na escala social são as “cunhas quadradas em buracos redondos”, que não se sentem bem na sua posição e por isso desprezam os seus “superiores” na hierarquia social; nas de alta posição social, não haverá uma razão para as pessoas de alto QI tenderam para a esquerda, mas há para as de (comparativamente) baixo QI tenderem para a direita: essas em principio tiveram que se esforçar mais para lá chegar, logo serão mais resolutos na defesa da sua posição social.

    Diga-se que tenho algumas dúvidas se os dados do Kazanawa estarão certos – lembro-me do Bryan Caplan ter feito uns estudos (que estão algures no site dele) concluindo que as pessoas inteligentes tendem mais para o lado “libertarian” na economia; será que o Kazanawa não pegou simplesmente num estudo dizendo que as pessoas inteligentes tendem mais a ser “liberals” do que “conservatives” e assumiu que era as posições na economia que explicavam isso (quando se calhar são as questões fracturantes que originam essa tendência)?

    Mais um ponto – “A segunda razão prende-se com o facto de estas pessoas de QI mais elevado considerarem que vão ser elas, directamente ou indirectamente, a controlar o processo estatal, seja no governo, ou em instituições públicas ou em fortes grupos de interesse.”

    Há um argumento empírico contra essa explicação – é que se formos ver as várias facções à esquerda, por norma aquelas que mais fazem a defesa da “acção espontânea da classe operária sem dirigentes ou organismos burocráticos” são exactamente as que são compostas quase a 100% por intelectuais e afins, enquanto que são as que mais enfatizam a disciplina, a direcção e a organização que ainda conseguem algum apoio entre o proletariado (em Portugal, compare-se os anarquistas e os “autónomos” com o PCP, ficando o BE a meio caminho). Ou seja, os intelectuais (o que, é verdade, não é a mesma coisa que “pessoas de QI mais elevado”, mas há de certeza uma grande intersecção entre as duas categorias) até tendem desproprocionadamente para as variantes de esquerdismo que menos poder lhes dariam

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  5. Lidador

    A explicação de Nozik ( de resto parecida com a de Aron), é a de que os intelectuais, as pessoas academicamente mais formadas, as pessoas com maior sucesso escolar, aterram geralmente em funções que não lhe são pagas pelo que eles entendem ser o justo valor. E porque o mercado não lhes “paga” segundo o seu conceito de valor ( o mercado paga muito mais a um bom jogador de futebol do que a um génio da ciência), tendem a olhar negativamente o mercado e a aspirar a um sistema organizado e “justo”, em que as suas qualidades sejam valorizadas. Um sistema centralizado, portanto.

    Há uma caricatura que resume esta “inveja”.

    Os melhores alunos de uma escola vão para médicos; os alunos a seguir vão para gestão e mandam nos médicos; os a seguir vão para direito, fazem-se políticos e mandam nos anteriores; os piores alunos vão para a bandidagem e mandam nesta malta toda.

  6. A. R

    Só foi pena não terem conseguido resultados de relevo em nada: nem no bem estar das populações que governaram com abundantes recursos nem na Ciência.

  7. Bem, muita gente de esquerda atingiu resultados de relevo na ciência – Albert Einstein (provavelmente o mais famoso cientista do século XX), Frederic Joliot-Curie, Joseph Priestley, Galois, etc. (o Benjamin Franklin contará? Penso que era da ala radical e populista dos Founding Fathers)

    Suponho que o que o A.R queira dizer seja que os governos de esquerda não tiverem resultados de relevo na ciência, mas mesmo isso não me parece liquido (comparar os EUA com a URSS não vale para isso, porque não eram países simétricos no eixo esquerda-direita; a ciência norte-americana seria muito mais avançado do que, digamos, a sueca? ou a ciência soviética muito pior que, digamos, a saudita?)

  8. A teoria do Nozick é um bocado parecida com a minha das “pessoas inteligentes de baixa posição social” (embora eu estivesse a pensar não tanto nos intelectuais profissionais mas mais em pessoas de alto QI que aterram em lugares como professores de província, empregados de escritório, etc.), mas ambas têm um defeito – creio que o típico “intelectual de esquerda” nasce (por assim dizer) quando anda na universidade ou no final do secundário, não quando entra no mundo de trabalho (muito até se perdem quando começam a trabalhar e a ganhar dinheiro)

  9. Lidador

    Há casos em casos, M.Madeira.
    Há gente extremamente rica e que se considera “de esquerda” ( Soros, por exemplo), pelo que há certamente outros factores em jogo. Mas é necessário reconhecer tb que ser-se de esquerda, foi, durante um século, um sinal de esclarecimento, sofisticação, ideias avançadas, enfim, escol.

    A esquerda começou por ser iluminista, contra o poder clerical e dos absolutismos e é natural que esse élan tenha arrastado para a sua órbita as melhores pessoas das sociedades ocidentais.
    Há imensa gente que se considera de esquerda mas que conduz a sua vida absolutamente nas antípodas do “ser de esquerda” ( Michael Moore, por exemplo). É uma espécie de “má-fé” sartriana. É-se aquilo que não se admite ser e não se admite ser aquilo que se é.

    Um bom insigt para este estado de espírito é este artigo do guionista David Mamet, um , digamos, apóstata da esquerda.

    http://www.villagevoice.com/2008-03-11/news/why-i-am-no-longer-a-brain-dead-liberal/

  10. Lidador

    “muito até se perdem quando começam a trabalhar e a ganhar dinheiro!”

    Claro. De resto uma boa e visível refutação das teorias marxistas da luta de classes, vistas como estanques e em luta.
    Na vida real as pessoas não estão amarradas à sua “classe”. Só o camarada Jerónimo é, na sua cabeça, operário vitalício, apesar de 90% da sua vida profissional ter sido feita como politico parlamentar.
    E claro, a malta do BE que fala da “classe operária” como se pertencesse a ela, como se algum dia tivesse trabalhado numa fábrica a fazer parafusos.

  11. La-c

    Há sempre uma explicação alternatiiva e bastante mais simples. Pessoas mais inteligentes percebem melhor o mundo. Dado que os mais intekigentes são de esquerda, então o mundo está mais de acordo com a representação que a esquerda faz dele do que com a interpretação da direita.
    É apenas uma explicação simples, não sendo necessário dar tantas voltas.

  12. Lidador

    “o mundo está mais de acordo com a representação que a esquerda faz dele do que com a interpretação da direita”

    É justamente o contrário. A esquerda olha o mundo numa perspectiva de mudança. Mudar para melhor, progressismo. Acredita que o que está, está mal e acredita que pode fazer melhor.

    No fundo, a caricatura de Cervantes: de um lado um visionário (D Quijote) que quer mudar as coisas , do outro um pragmático (S. Pança) que aceita as coisas como são e quer tirar o maximo proveito delas.

    Claro que D. Quijote é “mais importante”, é o protagonista, é sobre quem incidem as luzes.
    Mas é Sancho Pança, na sua simplicidade, quem de facto melhor entende o mundo.

  13. Carlos Guimarães Pinto

    Por trás de um social-democrata está sempre alguém que julga saber o que é melhor para os outros (os de inteligência inferior). É portanto normal que alguém com inteligência ligeiramente acima da mediana seja social-democrata. Apesar de serem mais inteligentes que a média, não chegam a ser suficientemente inteligentes para entender as implicações de tudo aquilo que defendem (a tal segunda e terceira derivada). E é aqui que entram os tais 2% que o Filipe menciona no seu post 🙂

  14. Paulo Pereira

    Como o sistema politico-economico social-democrata é aquele que mais sucesso teve e tem desde sempre na historia da humanidade, é racional que seja o sistema mais escolhido , independentemente do QI de cada um.

  15. “Por trás de um social-democrata está sempre alguém que julga saber o que é melhor para os outros (os de inteligência inferior)”

    Como assim? Onde é que achar que o Estado deve cobrar impostos a quem ganha muito para distribuir dinheiro a quem ganha pouco implica achar que se sabe o que é melhor para os outros?

    O CGP poderá responder que seria assim se fosse só uma questão de distribuir dinheiro, mas a partir do momento em que o Estado Social também fornece serviços públicos gratuitos, há aí um certo paternalismo da “elite” sobre as “massas”, mas a questão “o Estado deve dar dinheiro ou serviços?” parece-me largamente transversal à divisão esquerda-direita (no RSI a esquerda quer dar dinheiro e a direita géneros; na escolas a esquerda quer a escola pública e a direita vouchers; a regra parece-me simplesmente ser “defender o contrário do que a outra parte defende”).

    Além disso, se a ideia de que umas pessoas sabem o que é melhor para outras pode estar muito bem escondida no fundo dos textos da esquerda (por baixo de muita retórica a defender o poder do povo, do homem comum, que a história é o fruto das forças sociais e não da acção dos grandes homens, etc. ), está escarrapachada à vista de toda a gente nos textos dos conservadores, portanto parece um bocado contra-intuitivo que alguém que acha sabe o que é melhor para os outros escolha, por isso, a social-democracia em vez do conservadorismo.

  16. Lidador

    MM tanto a esquerda como a direita acham que o estado tem um papel. E é no maior ou menor papel do estado que se alinham todos os posicionamentos, da anarquia, ao comunismo.

    O problema da esquerda social-democrata e, já agora, dos conservadores mais “ancien regime” é que não conseguem deixar de acreditar que homens bons, imbuídos de boas intenções, podem fazer com que as coisas sejam melhores.
    Por vezes acertam, é verdade, mas para que acertassem sempre, era necessário que o sapiens fosse outra coisa que não o sapiens. Os comunistas perceberam que a natureza humana vem sempre ao de cima e fizeram sérios esforços para criar o sapiens “novus”. Sabemos a que isso conduziu.

    Há portanto uma vertente angelical e utópica no pensamento de esquerda. Mas como a natureza humana é o que é, quando no comando central da obra aterra um “mau”, a obra soçobra como um todo.

    E a direita?
    Uma certa direita, na qual me incluo, é terrivelmente céptica quanto à natureza humana. Sabe que todos os homens se peidam, incluindo o Papa e a Scarlett Johanson.
    E tem esta certeza tão arreigada que sabe que todas as boas intenções podem ter efeitos perversos.E uma boa intenção com efeitos perversos, no comando central de uma sociedade, dá um desastre.
    Pelo contrário, pequenos efeitos perversos de pequenas boas intenções, diluem-se no grande mar.
    É esta a razão pela qual, embora eu acredite que se estiver eu a mandar, isto vai ser uma coisa excelente ( é assim que pensamos todos), não quero um sistema onde eu mande em tudo, porque amanhã estará outro ao volante e os homens são como os melões: só depois de abertos se sabe como são.

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