“The Iron Woman”, ou como falsear a memória histórica

Socialists cry “Power to the People”, and raise the clenched fist as they say it. We all know what they really mean—power over people, power to the State.

M.T.

Fui um destes dias ver o filme, “The Iron Woman”, e mais valia ter ficado em casa. De facto, pergunto-me o que leva certas luminárias a sentirem-se no direito de insultar a memória de uma das personalidades mais brilhantes do século XX, ao ponto de a humilharem com um enredo miserável, uma pseudo intelectualidade que envergonha os seus autores, mas também qualquer assistência com um sentido mínimo de pudor. O filme desrespeita o que de mais privado permanece na existência humana, gira até ao vómito em redor de quase tudo aquilo que não nos interessa, fazendo do público, não espectadores, mas voyeurs.

O realizador apresenta-se obcecado, até a náusea, com os últimos momentos da vida de M.T., em particular com os traços de demência, alienação e alcoolismo que a terão atormentado após a morte do marido. M.T. é ainda retratada como uma mulher “teimosa”, com uma tendência marcada para o uso da força, seja contra os sindicatos, seja contra a população em geral, seja contra os argentinos no célebre conflito da guerra das Malvinas. Como se a “teimosia”, por si só – que a aproximaria de personagens repugnantes como Estaline ou Che Guevara – ou a demência no fim da vida, fossem os principais legados que a mulher de ferro deixou para registo da História.

M.T. marcou o século XX, sim, na sua participação na reforma da economia britânica, no modo como lidou com questões de soberania nas Maldivas e com o IRA, mas também na gestão, em conjunto com americanos e alemães, do fim do comunismo que conduziu à Queda do Muro de Berlim. As relações com Reagan, Gorbachev, Khol, Hayek, os seus discursos reformistas, a promoção da prosperidade e a paz, bem como a consolidação dos pilares de uma libra forte – que os Trabalhistas conseguiram destruir nos últimos anos – ou são ignoradas ou ficam reduzidas a passagens insignificantes.

Um filme a evitar. Em qualquer caso, previsível. O que se podia esperar de uma produção financiada com dinheiros públicos?

Rodrigo Adão da Fonseca

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17 pensamentos sobre ““The Iron Woman”, ou como falsear a memória histórica

  1. Paulo Pereira

    Só discordo da Tatcher no que respeita ao seu gosto por impostos altos, o que denota que nunca percebeu como funciona um sistema capitalista moderno.

  2. Toino

    É curioso ver “liberais”, que são visceralmente contra o Estado, a serem fascinados com a grande…Estadista! Uma Estadista mão de ferro, que não só cobrava impostos altos, governou de forma que havia imensos sem abrigo em Londres, fez guerra de Estado aos sindicatos (que são entidades privadas), não resolveu o problema com o IRA (isso foi depois), fez guerra (coisas de Estados…) para garantir uma simbologia de poder colonial (poderia ter promovido um referendo, para ver se os habitantes da ilha escolhiam livremente a quem queria pertencer),etc.

    Ela dizia-se de direita, do bloco ocidental, capitalista…é assim que gostam de a ver . Agora um liberal a elogia-la só pode ser por motivos de politica estética, porque de liberal tinha pouco ou nada.

  3. Lidador

    “porque de liberal tinha pouco ou nada.”

    Bem, já se percebeu que “liberal” é quando um homem quiser. Se a palavra é usado em modo ofensivo, então tudo é “liberal”, desde o despedimento do Domingos Paciência á crise do subprime. Em indivíduos mais exaltados, passa a ser usado o “neoliberal” e até o “ultraliberal”.

    Em modo positivo, é “liberal” tudo que tem a ver com liberdade, até aos limites da anarquia e ainda mais além. Temos para aí “libertários” que estão nessa onda.

    Na realidade, Tatcher era liberal em termos económicos. Hayek e as suas teorias eram-lhe aprazíveis.
    E a Grâ-Bretanha bem lhe deve o ter posto fim a um ciclo de decadência socialista que fazia do país uma anedota, com níveis de riqueza já inferiores aos da França e quase a ser apanhada pela Itália.

    Quanto à guerra, uma verdadeira líder. Fez frente a uns generais argentinos convencidos que as ilhas eram deles porque estão ali perto e deu-lhes uns bons e liberais piparotes nas bimbas.

    É que se a moda pegava, não tardariam países como Marrocos, por exemplo, a reivindicar as Canárias e até a Madeira. Afinal de contas estão também ali perto….

  4. O Toino está mal informado. Durante os anos em que MT esteve à frente do governo britânico o peso do governo em percentagem do PIB baixou, algo nunca visto, tal como os impostos e diversos regulamentos de condicionamento industrial. O Reino Unido passou de economia mais estagnada e decadente da Europa para das mais dinâmicas, livres e com menor desemprego. Se outros países depois liberalizaram, em grande medida isso ficou a dever-se à inciativa e bons resultados de MT. A guerra com os sindicatos, ao contrário do que diz, não foi uma guerra entre estado e privados, foi antes o desmantelar de privilégios legais impostos pelo próprio estado em favor dos sindicatos (nomeadamente obrigatoriedade de pertencer a um sindicato, votações de braço no ar e outras práticas totalitárias). Para acabar o comentário sobre um referendo nas Falklands, com os seus dois ou três mil habitantes, de origem britânica na sua maioria, só pode ser piada. As Falklands têm autonomia governativa total, sendo britânicas apenas na forma, tal como, por exemplo, a Australia, embora ao contrário desta não sejam uma nação independente. Pertencerem à Argentina, que ainda por cima na altura era uma ditadura militar, é coisa que não queriam de certeza…

    MT, como todos os estadistas, está longe da perfeição. Mas dificilmente encontrará melhor exemplo de estadista liberalizador que ela. E digo isto em função dos resultados. Ronald Reagan, em contraste, era “melhor” (mais liberal) no discurso, mas a prática foi menos liberalizadora que MT.

  5. É um filme feito para a Meryl Streep ganhar um Óscar – e nesse sentido o papel é excelente. Ao filme falta política, a meu ver, porque MT foi de uma enorme importância na política a todos os níveis, só chegou ao poder por uma série de acasos (e alguns deviam estar no filme e não estão) e o enredo ganhava muito com toda a tensão que MT criou, na Grã Bretanha e não só. E por isso também eu saí de lá com a sensação de que me faltava aí meio filme

  6. Nuno, o mercado para a estupidez sempre foi vasto, haja quem compre. Basta pensar que um dos ícones mais reproduzidos no mundo, com milhões de t-shirts made in china vendidas por todo o lado, têm no Che Guevara fonte de lucros fantásticos. Gostava de saber em que condições são produzidas essas t-shirts, e se levam uma etiqueta de chancela de “comércio justo”… Enfim.

  7. jorge

    o livro que falei atrás chama-se Os anos de downing street – Memórias. M.T. reformou a economia inglesa que era ineficiente, improdutiva, altamente endividada e na sua maioria nacionalizada ( industria do aço, carvão, automovel etc ). A inflação rondava os 20% e as taxas de juro eram altissímas. Uma situação muito parecida com a situação actual de Portugal no que respeita ao endividamento e ao défice. Os sindicatos tinham um poder brutal , não só votavam de braço no ar , como obrigavam as associações patronais a só contratarem trabalhadores sindicalizados e todos os membros eram contribuintes do Partido Trabalhista ( através de uma subvenção eleitoral descontada para o sindicato financiar o partido que melhor defendia os seus interesses). Um livro muito interessante principalmente pela semelhança na situação do defice excessivo que temos em Portugal.

  8. Paulo Pereira

    A Tatcher tinha uma queda por impostos e juros altos.

    Aumentou o IVA e aumentou os juros mal chegou ao governo e a economia entrou em recessão e o desemprego explodiu e a produção industrial baixou 30%

    Não entendia nada, mesmo nada de macroeconomia.

    A unica politica económica correcta que teve foram as privatizações, o resto foi quase só asneiras.

    O Reagan pelo menos provou que “deficits don’t matter”.

  9. Migas

    Pois claro, Paulo. O sucesso gritante dos governos de MT foram ilusão óptica.
    A coitada da senhora nunca percebeu que spending = income. Uma tristeza.

  10. Paulo Pereira

    Será que algum desse “sucesso” mesmo depois dos aumentos de impostos e de juros terá tido a ver com a produção de petroleo no R.U. que cresceu imenso entre 1979 e 1990 ?

    É capaz de ter ajudado , não ?

  11. Rosa

    Entendo e compreendo o seu sentimento quanto a este deplorável filme.Fui vê-lo com a minha filha de 20 anos.Quando sai-mos o seu comentário foi este:que horror mãe mas da vida de uma Sra considerada como a “Dama de Ferro” só nos dão a conhecer a sua doença pós governação? que terá pensado a família?Que pena não terem mostrado mais partes da governação, ela deve ter sido fantástica.Pois é . Foi e eu que estava furibunda com a falta de respeito lá a consolei dizendo que depois de afagarmos o estômago , lhe falaria melhor do que se não viu.Final da história:Que desperdício de actriz e de tema , foi a resposta de uma jovem de 20 anos e de uma mãe 50tona domingo à noite.

  12. «Será que algum desse “sucesso” mesmo depois dos aumentos de impostos e de juros terá tido a ver com a produção de petroleo no R.U. que cresceu imenso entre 1979 e 1990 ?

    É capaz de ter ajudado , não ?»

    1) Falar em aumento de impostos é desonesto. O IVA e outras taxas foram introduzidas (o que constitui um aumento) para compensar reduções significativas nos impostos sobre o rendimento (o que constitui uma redução). O resultado líquido foi uma redução do nível geral de impostos e a libertação de recursos para o investimento privado. Claro que para si isto não significa nada, pois na sua opinião basta o dinheiro ser gasto, não interessando quem o gasta e em quê…
    2) O principal impacto macroeconómico do pretróleo ocorreu antes de MT chegar ao poder. Mesmo que MT possa eventualmente ter beneficiado de receitas do petróleo, isso foi sol de pouca dura. O preço teve o seu máximo nominal em 81 e depois os anos 80 e 90 viram o preço do petróleo reduzir severamente, tornando o Mar do Norte pouco competitivo. Por outras palavras, o aumento de produção não foi acompanhado por aumento de lucros (e receitas de impostos) numa proporção minimamente aproximada.
    3) Dito isto, é evidente que as receitas do petróleo ajudaram a equilibrar a balança de pagamentos. Isso não explica, contudo, a transformação que ocorreu na economia britânica, com o crescimento de Londres enquanto praça financeira e de serviços, com o enfoque em novos sectores industriais versus outros onde o RU tinha perdido competitividade, etc.

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  14. De fato, o filme é muito ruim e não faz justiça à figura histórica que foi MT. O filme só a desmerece e deforma seu papel histórico.
    Ela reduziu o peso do Estado na vida pública, mas como Reagan empenhou muitos recursos na parte militar…
    Filme muito ruim, pelo roteiro, a despeito de ter uma grande artista no papel principal.

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