No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A força do Atlântico

Depois de David Cameron ter vetado a proposta de alteração dos tratados europeus, o “Wall Street Journal” publicou, no final do ano passado, um artigo que defendia uma aproximação entre o Reino Unido e os EUA. Os seus autores, ambos norte-americanos, entendem que a integração do Reino Unido na Europa foi feita à custa dos laços naturais que partilha com os EUA e demais países de língua inglesa. Foi algo que trouxe benefícios aos britânicos, mas, com a crise do euro e as propostas de aprofundamento da União Europeia, implica um custo muito elevado.

A CEE, dentro da qual o primeiro- -ministro Edward Heath conseguiu fazer admitir o seu país, que visava um mercado de livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, e sem um poder supranacional não eleito, já não existe. Pelo contrário, transformou-se num muro que cerca a Europa, por se ter querido fazer dela um paraíso kantiano fechado a quatro chaves. A União Europeia, pressionada pela crise do euro e pelas decisões políticas de Merkel e Sarkozy, caminha para a criação de um megaestado centralizado, que visa controlar a vida política dos países-membros. O que sucede na Grécia e na Itália, onde o governo eleito foi substituído por líderes próximos de Bruxelas, o desejo de colocar em Atenas um comissário europeu que vistorie as contas gregas, aprove ou chumbe as decisões do seu governo, apontam para o possível fim das democracias e das soberanias nacionais. Que estados recentes como a Grécia e a Itália, habituados ao longo da sua curta história a vergar-se à vontade de potências estrangeiras, aceitem as imposições que lhes estão a ser feitas, não é de estranhar. Mas que outros, como a Espanha e o Reino Unido, o façam, já será muito difícil. Se o aprofundamento e o alargamento da União foi conseguido com relativo sucesso quando havia dinheiro, o que se quer levar a cabo para salvar o euro conduzirá o velho continente ao desastre. Uma federação criada numa época de crise, em que a capacidade negocial é mínima, em que qualquer solução é imposta, não tem futuro. Só criará ressentimentos que conduzirão ao colapso daquilo que tantos anos levou a construir.

Continuando o raciocínio do artigo referido no primeiro parágrafo, a solução preconizada não é assim tão descabida. Na verdade, o Reino Unido tem outras soluções além da Europa. Bem vistas as coisas, a Europa também. Aliás, a resolução dos problemas europeus foi sempre encontrada noutros continentes. O que foram os Descobrimentos senão uma abertura dos europeus ao mundo, buscando outras formas de obter os produtos de que necessitavam? O que foi o desbravamento de novos territórios senão a procura de espaços para se viver? O que seria da Europa sem a entrada dos EUA nas duas guerras mundiais? Onde está hoje a força de alguns países europeus, se não entre os países que falam as suas línguas? Que seria de Portugal sem o Brasil, Angola e Moçambique? Do Reino Unido sem os EUA, o Canadá e a Austrália? Da França sem a sua influência no Magrebe, no Sudeste Asiático e no Pacífico? Da Espanha sem o continente sul-americano?

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou há dias que, com a procura de investimento angolano, o futuro de Portugal é o declínio. Apesar de não agradar a forma como os empresários angolanos fazem dinheiro, para alguns países europeus o regresso ao Atlântico é uma alternativa natural. Por isso já há tantos portugueses em Angola. Durante anos o aprofundamento dos laços com o Brasil foi preterido devido ao risco que tal implicava para a Europa, como aconteceu com a obtenção dos vistos. Precisamos todos de dinheiro e sangue novo. Uma vez mais, ele está lá fora e vai ter profundas implicações no equilíbrio europeu. Quais, não podemos prever. Como no passado, o mundo bateu à porta da Europa e vamos ter de a abrir.

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4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Carlos Novais

    Pode vir a acontecer num cenário caótico monetário para a Libra,,,

    “O que seria da Europa sem a entrada dos EUA nas duas guerras mundiais? ” Ó não….outra vez. nãooooo……mas em princípio, não teríamos tido estados totalitários na Europa, com sorte ainda teríamos um Kaiser, um Habsburg e quem sabe um Czar.

  2. Paulo Pereira

    Basta a manutenção do R.U. fora do Euro e fora do novo acordo de austeridade para demonstrar o falhanço da ideia da pseudo-omeda única que é este Euro.

    É esse falhanço que a Alemanha e seus aliados próximos querem evitar que seja desmascarado.

    O R.U. continua com um deficit publico elevado, o BoE tem em curso um QE de 25% do PIB e a Libra está estável após ter descido em 2008/9 para niveis normais, com juros de divida publica baixissimos, demonstrando a falsidade das teorias Neotontas.

  3. Existem muitos “portugueses” em Angola?Contam com aqueles que têm dis amores?Como por exemplo a viúva do pai fundador da República Popular?É que para mim existem “portugueses” que nada me dizem.Nem nunca vão dar um cêntimo de lucro à nação.Não se esqueçam de ir “riscando” os enforcados e os assassinados…

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