As forças imperiais como explicação para o que acontece na Síria

Um ano e dois dias depois da revolução golpe militar no Egipto, o que permanece, pelos piores motivos, na ordem do dia da política internacional do Médio Oriente é a carnificina a que se assiste na peculiar Primavera árabe síria. Apesar de algumas almas progressistas acreditarem que se trata de uma repressão contra as forças imperiais (cuja duração irá completar o primeiro aniversário em breve), confesso não ter tamanha confiança na bondade humana em geral e, muito menos, na personificada pelo senhor Assad. Apesar da complexidade que envolve a questão e salvo melhor opinião, a Síria é o palco principal de uma guerra que opõe xiitas a sunitas. No meio deste palco, aparecem quem mais paga, os espectadores: os mortos, feridos e oprimidos. São as gerações perdidas.

Ficam algumas sugestões de leitura:

A Primavera árabe; O apoio divino a Assad; As duas faces da mesma moeda e as ligações externas: I, II, III,IV e V.

12 pensamentos sobre “As forças imperiais como explicação para o que acontece na Síria

  1. CN_

    O eterno confronto entre sunitas e xiitas e ainda a rivalidade entre persas e árabes expressa bem a fraqueza do argumento do perigo islâmico e em principio faz prever uma instabilidade continua e crescente no mundo árabe libertado. Os regimes seculares caiem, vamos ver o resultado, “cuidado com o que desejas porque poderás obtê-lo”.

  2. O que o assunto expressa é o mito doentio que aponta A simples existência de Israel como a fonte de todos os males do Médio Oriente, incluindo a repressão crónica dos regimes que por lá existem.

  3. Fernando S

    Eu também não percebi no que é que (1.CN)”[] o eterno confronto entre sunitas e xiitas e ainda a rivalidade entre persas e árabes expressa bem a fraqueza do argumento do perigo islâmico …” !…

    Será que este « confronto entre sunitas e xiitas» e esta « rivalidade entre persas e árabes” evitou e evita os frequentes ataques terroristas de matriz islâmica, sunita ou xiita, com a conivência e o apoio de alguns regimes árabes e do regime iraniano, contra interêsses ocidentais onde quer que estejam e contra todos aqueles que nos próprios paises muçulmanos desejam e favorecem sociedades mais livres, mais tolerantes, mais abertas, mais pacificas ?!…
    A verdade é que os extremistas islamistas, sunitas ou xiitas, árabes ou persas, existem e são um real perigo para a liberdade, a paz e a prosperidade no mundo,… e não é por se confrontarem e se matarem entre eles que deixam de o ser !… Antes pelo contrário !!

    Em contrapartida, já perceberia melhor uma frase do género : “O eterno confronto entre sunitas e xiitas e ainda a rivalidade entre persas e árabes …[tirar a referência à “fraqueza do argumento do perigo islâmico“] em principio faz prever uma instabilidade continua e crescente no mundo árabe libertado. Os regimes seculares caiem, vamos ver o resultado,… (mas, como o Rui Carmo sugere, poria “mundo árabe libertado” entre aspas).

  4. Carlos Novais

    basicamente não existe perigo islâmico, eles próprios fazem um bom trabalho a matarem-se uns aos outros, e pelo caminho a queda acelerada (e induzida externamente) de regimes pode vir a provar-se um mal pior

    “A verdade é que os extremistas islamistas, sunitas ou xiitas, árabes ou persas, existem e são um real perigo para a liberdade, a paz e a prosperidade no mundo”

    ai, ai ..esta conversa de candura ideológica,…as lutas entre protestantes e católicos na Europa eram “um real perigo para a liberdade, a paz e a prosperidade no mundo”? Talvez o Império Chinês na altura se tivesse tido capacidade devia ter invadido ou meter-se na Europa para parar com a coisa.

    ” o apoio de alguns regimes árabes e do regime iraniano, contra interêsses ocidentais ”

    os regimes ocidentais não fizeram outra coisa no século 20 do que se meter nos nos regimes e nos estados (árabes e persas), pondo e dispondo…até têm 2 países ocupados (outra vez… no mesmo espaço de 100 anos). PS: A guardo as explicações complexas sobre porque obviamente tudo isso teve muitas boas razões (como destronar um Presidente eleito no Irão) e como nada disso se pode associar unintended consequences e reacção por parte das populações.

  5. Digna do stand-up comedy é um resultado em mortos sem sequer se aproximar do “perigo”. É algo de inovador. Se calhar morrem de doença ou outros acidentes, tudo não perigoso, pacífico.
    No caso da Síria , quais são as “forças vivas” que induzem ou induziram à repressão? Onde estão os impérios, ao menos os EUA, Israel? Ou lá vem a historieta que os EUA não deveriam ter aparecido nas duas guerras mundiais e que daí resulta o regime dos Assad?

  6. Carlos Novais

    Síria está já em guerra civil (alguém descarta apoios a oposição? não há maneira de saber, sabemos que muitos intervencionistas o defendem porque defendem sempre…). a sua reacção dura é o que se podia esperar de observarem que têm de tentar evitar à nascença que oposição ganhe status quo como na Líbia.

    A intervenção na Líbia é isso que ensinou a todos os regimes: prevenir é esmagar,não que o consigam. Aliás escrevi isso na altura. De resto, os “friedly regimes” na zona com problemas de oposição crescente (desta vez xiita) fez isso mesmo com mais sucesso que os Sírios, mas também porque são “friendly”.

    Mas os que apoiaram a intervenção na Líbia vão reconhecer qualquer consequência (indução de aumento de dureza em early movimento de oposição) nesse sentido? Não. Nunca há consequências.

  7. “Síria está já em guerra civil”

    De acordo.
    Sendo que o único apoio de um intervencionista capaz de decidir é o da Rússia.Com as consequências que o futuro ditar mas que passará – se a Rússia assim o entender – por uma possível transição política mas que levará sempre à queda do regime da família Assad.

    Não consigo descobrir a lógica na análise de exemplificar a realidade da Líbia para depois transportá-la para a da Síria.

    Quanto à “vizinhança” os iranianos não deram por perdido o Bahrein.
    Onde andará, nestas histórias, o império da entidade zionista?

  8. Fernando S

    CN : “basicamente não existe perigo islâmico, eles próprios fazem um bom trabalho a matarem-se uns aos outros,..”

    Os atentados de matriz islamica cometidos no Ocidente e em muitos paises muçulmanos não são um perigo ?!!…
    Antes de mais, um perigo para as pessoas.
    Um perigo para a segurança das pessoas por razões evidentes.
    Um perigo para o bem-estar das pessoas ao perturbar as actividades economicas e o comércio em muitos paises e no plano mundial.
    Um perigo para a liberdade das pessoas ao impor regras e modos de vida anacronicos e ao opor-se à democracia politica.

    CN : “…pelo caminho a queda acelerada (e induzida externamente) de regimes pode vir a provar-se um mal pior.”

    Neste aspecto, como ja referi antes, até reconheço que a queda de certos regimes autoritarios e corruptos, mas relativamente moderados em termos de laicidade e outros direitos humanos, e opondo-se inclusivamente aos islamistas, como diz o CN, “pode vir a provar-se um mal pior”.
    Noto de passagem que o CN, ao falar em “mal pior”, acaba por reconhecer que o reforço dos islamistas, favorecido pelo enfraquecimento ou queda daqueles regimes, até é “um mal”, suponho que consequentemente “um perigo”.
    Voltando aos regimes autoritarios e corruptos, sou dos que pensam que os paises ocidentais, em parte sob a pressão de opiniões publicas mal informadas e mal formadas, não deviam ter adoptado, de repente (depois de terem durante muitos anos tolerado e de certo modo até apoiado alguns destes regimes), posições fortemente criticas destes regimes e fortemente favoraveis aos contestarios, mesmo quando a natureza e os objectivos politicos destes não eram suficientemente claros ou eram claramente de tipo anti-democratico e iliberal (com destaque para grupos de inspiração islamica).
    Isto não significa que considere que os paises ocidentais devessem e devam apoiar esses regimes incondicionalmente. Deviam e devem continuar a pressionar, utilizando os mais diversos meios, para que abram os respectivos sistemas politicos e, sobretudo, respeitem as liberdades individuais e os direitos humanos.

    CN : “… as lutas entre protestantes e católicos na Europa eram “um real perigo para a liberdade, a paz e a prosperidade no mundo”?”

    La vem o CN com paralelos historicos despropositados …
    As “lutas entre protestantes e católicos na Europa” foram episodios terriveis e lamentaveis e não contribuiram certamente para “a liberdade, a paz e a prosperidade” “no mundo” da altura. Muito embora, em muitas situações, essa luta também tivesse sido parte de um processo de mais ou menos dialético de evolução e transformação do cristianismo e tivesse tido um papel no progresso da liberdade individual no mundo ocidental.
    O que é certo é que estas lutas aconteceram numa época e num contexto historico muito diferentes dos das lutas no seio do mundo muçulmano a que o CN fez referencias.

    De qualquer modo, o CN manipulou o meu comentario e interpretou abusivamente o que eu escrevi.
    Eu não disse nem pretendi que as “lutas entre sunitas e xiitas e entre arabes e persas” fosse ““um real perigo para a liberdade, a paz e a prosperidade no mundo”.
    O perigo é o islamismo. Independentemente de onde vem e independentemente de certos conflitos “internos”. Enfatisei inclusivamente que, ao contrario do que diz o CN, estes conflitos não excluem o perigo islamista, não enfraquecem o perigo islamista, quando muito até o tornam mais complicado e mais dificil de controlar e combater.
    Quanto ao “Império Chines” da altura, que eu saiba, mal sabia da existencia da Europa, tinha mais com que se preocupar, e não tinha sequer capacidades que permitissem uma qualquer intervenção no outro lado do mundo para por fim a uma guerra de religiões.
    Mas, sobretudo, estamos a falar de um sistema bem mais fechado do que o europeu e muito mais atrasado no que se refere ao processo de formação de uma sociedade capitalista e liberal.
    Por vezes, quando o CN faz este género de considerações visceralmente “anti-ocidentais”, pergunto-me onde deixou entretanto ficar as suas convicções formalmente liberais !!

    CN : “… os regimes ocidentais não fizeram outra coisa no século 20 do que se meter nos nos regimes e nos estados (árabes e persas), pondo e dispondo…”

    Os “regimes ocidentais” fizeram muitas outras coisas no século 20…e antes disso !…
    Pelo que vejo, o CN continua a fazer o processo da historia do mundo ocidental, partilhando com a esquerda mais marxista e ortodoxa a ideia de que os paises capitalistas ocidentais dominaram o “terceiro mundo” pela força e pelo dinheiro com o objectivo de explorar ao maximo os seus desgraçados povos. Nisto tudo aparece naturalmente o colonialismo, o imperialismo, a 1a guerra mundial, a 2a guerra mundial, a “guerra fria”, e, “the last but not the least”, a “guerra ao terrorismo islamico” !!…
    Claro que os “regimes ocidentais” fizeram muita coisa ao longo de todo este tempo. E fizeram certamente muita coisa discutivel sob diversos pontos de vista. Inclusivé de um ponto de vista humanista e liberal, que preza a paz e a liberdade das pessoas e dos povos em qualquer parte do mundo. Eu não sou naturalmente nenhum advogado de defesa encartado do que os paises ocidentais andaram a fazer pelo mundo fora durante todo este tempo. Por tantas e obvias razões …
    Agora, dito isto, estou convencido de uma coisa : ainda bem que nos ultimos séculos o poder economico e militar esteve mais do lado “ocidental” e que foram por isso os paises ocidentais quem mais “pos e dispos” por esse mundo fora … ainda bem para nos proprios, naturalmente,… e ainda bem do ponto de vista de todos aqueles que pensam que o melhor para o mundo e para todos os seus habitantes é que, no fim de contas e apesar de tudo, progrida a liberdade individual, o sistema politico democratico, e a economia de mercado e capitalista !

  9. “6.Digna do stand-up comedy é um resultado em mortos sem sequer se aproximar do “perigo”. É algo de inovador. Se calhar morrem de doença ou outros acidentes, tudo não perigoso, pacífico.”

    “Não perigoso” para o resto do mundo (penso ser esse o ponto do CN – como é que eles algumas vez vão implantar um califado mundial, reconquistar o al-Andalous, ou lá o que anseiam, se se matam uns aos outros à primeira oportunidade?)

  10. Carlos Novais

    Na altura da Líbia escrevi

    “March 30, 2011 consequências humanitárias

    Os regimes duros ou por exemplo as nações não-duras com casos de separatismos, aprenderam que não podem deixar o poder ir para a rua e pegar em armas, porque nesse ponto, a coligação de humanitários militaristas e os militaristas humanitários podem intervir para “proteger população civil” e na prática favorecer a oposição.
    O que têm a fazer é mesmo esmagar com toda a força bruta os primeiros sinais de revolta.
    Mandem estas as consequências para os humanitários, embora como sabemos, nunca perdem uma hora de sono com elas.”

    É descabido?

  11. Onde páram os imperialistas na guerra da Síria? Em Damasco? Homs? Talvez em Tripoli? Em Teerão e/ou em Moscovo? Como se sabe tudo gente nada militarista e muito menos intervencionista. Uma chatice isto não andar à volta de Jerusalém, Londres, ou Washington.

    “É descabido?”
    A comparação entre a Síria e a Líbia é. Os países são diferentes: na geografia, nas populações, nos regimes, nas elites que ocupam o poder, na religião, no ouro negro, no contexto dos apoios internacionais. Quem decide – a não decisão é ela própria uma decisão – de intervir sobre o evoluir da guerra da Síria é a Rússia.
    Mas claro que é livre para poder valorizar ou desvalorizar o lado humanitário e a protecção da população civil síria por parte… dos interesses russos. Entretanto, perdeu-se pelo meio da “narrativa” o enquadramento da visão de uma guerra que faz também parte de um medir de forças entre sunitas e xiitas.

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