Quando acaba a mama?

Ricardo Arroja, no Diário Económico:

Em Portugal, a despesa pública representa oitenta mil milhões de euros, ou seja, 47% do PIB, em média cerca de oito mil euros a cada português.

Daqueles oitenta mil milhões de despesa, quase metade é originada nos chamados Serviços e Fundos Autónomos. (…) Note-se que, aqui, não me refiro aos gastos do Governo nem dos seus ministérios; refiro-me “apenas” aos institutos, às agências, às comissões, às entidades, às direcções, aos centros, às fundações, às administrações, aos serviços e fundos autónomos que, com estas ou outras designações, fazem parte do chamado Serviço Público.

Imaginem agora como estaria a economia portuguesa se, este ano, não confiscassem a cada português, em média, 4 mil euros… 16 mil euros para um casal com dois filhos!

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22 pensamentos sobre “Quando acaba a mama?

  1. Bom, se o Estado “gasta” 47% do PIB, isso significa que se o Estado reduzisse a sua despesa a metade, por exemplo, o PIB teria uma queda de 23,5%… basta ver o que é o PIB (http://pt.wikipedia.org/wiki/Produto_interno_bruto).

    O que mais me espanta na iliteracia económica nacional, normal quer em políticos quer em economistas é não perceberem o que é o PIB.

    Se a despesa de um Estado for de 50% do PIB faz tanto sentido dizer que o Estado consome 50% da riqueza nacional como dizer que o Estado contribuí com 50% para a riqueza nacional.

    Além de que dizer que o PIB é a riqueza nacional é uma frase sem sentido.

  2. E é por isso que eu não compro o DE. Se o objectivo do artigo fosse o de esclarecimento geral, então mais importante do que gritar sobre os 80 biliões de euros – oito mil por cabeça – seria referir que despesa pública é um conceito diferente de consumo público. O primeiro inclui transferências para as famílias e o último salários e despesas, por exemplo, em medicamentos e hospitais. A partir desta observação, o resto é só sensibilidade para os números. A volta de metade da despesa pública são transferências (pensões, subsídios de de desemprego, e rendimento mínimo). Da parte do consumo público, metade é para despesas com pessoal e, um quinto para despesas de capital (juros). Fazendo as contas temos 60-70 biliões só para transferências, salários, juros. Mas então de que é que afinal está a falar o Ricardo Arroja e o BZ, que até refere o confisco de 16 mil euros para um casal de 2 filhos – comentário com a densidade intelectual de uma andorinha.

    Já agora, talvez seja melhor que o Ricardo deixe de colocar muito significado nas classificações nominais para que encontra nas rubricas do orçamento de estado e começar a fazer a distribuição económica dessas rubricas.

  3. “Se a despesa de um Estado for de 50% do PIB faz tanto sentido dizer que o Estado consome 50% da riqueza nacional como dizer que o Estado contribuí com 50% para a riqueza nacional.”

    Ai ai ai… esses cálculos! O Raio esqueceu-se que o Estado, para fazer despesa, tem de confiscar riqueza ao sector privado.

  4. Palamedes, não lê o DE, não leu o artigo de opinião do Ricardo Arroja e nem sequer leu o excerto publicado acima.

    Vou facilitar-lhe esse grande esforço e colocar aqui a parte relevante (com destaque!):

    “Note-se que, aqui, não me refiro aos gastos do Governo nem dos seus ministérios; refiro-me “apenas” aos institutos, às agências, às comissões, às entidades, às direcções, aos centros, às fundações, às administrações, aos serviços e fundos autónomos que, com estas ou outras designações, fazem parte do chamado Serviço Público.”

  5. “O Raio esqueceu-se que o Estado, para fazer despesa, tem de confiscar riqueza ao sector privado.”

    Certamente que BZ não leu o artigo da Wikipedia que linquei.

    Não me esqueci de nada. O Estado recebe impostos e gasta-os, em consumos ou investimentos. De qualquer forma, serviços para os cidadãos.

    Quando o Pingo-Doce, por exemplo, gasta dinheiro, de onde veio esse dinheiro? Do que os cidadãos pagaram quando compraram produtos no supermercado.

    É assim, o dinheiro nunca se gasta, o dinheiro circula de mão em mão. E é isto uma coisa que os economistas parece não perceberem… mais uma.

  6. O Raio… só confusões! 😦

    Na Contabilidade Nacional tem três formas de cálculo do produto mas, para simplificar, veja o exemplo da óptica da despesa:

    Redução do consumo público (G) -> menos impostos -> mais consumo privado (C) e/ou investimento (I)

    Logo, não faz sentido o que escreveu: “isso significa que se o Estado reduzisse a sua despesa a metade, por exemplo, o PIB teria uma queda de 23,5%”

  7. BZ, quando associa gastos a “agências, comissões, entidades’, etc. está a passar a mensagem que esses gastos são administrativos e como tal desperdícios administrativos. Na realidade a componente de Fundos e Serviços Autónomos faz um uso economico que se reparte principalmente em transferências para as famílias e salários.

    É evidente que a despesa pública é hoje um problema grave em Portugal. Mas não se pense que a sua solução seja apenas no corte de desperdícios administrativos. A redução da despesa pública só pode ser realisticamente equacionada reduzindo a massa salarial do estado e as transferências para as famílias (pensões e subsídios vários).

    Pela média que utilizou no seu post, dos 16.000 euros confiscados por família, 8000 são devolvidos em transferências para os reformados e desempregados da família, 2000 substituem parte da despesa da família em educação e saúde, 2000 são recebidos pelos elementos da família que trabalham para o estado, e 500 são para pagar juros aos credores. O verdadeiro problema que devia debater não é o confisco, mas as distorções que todas essas transferências e consumos públicos geram numa economia de mercado.

  8. cfe

    “Se a despesa de um Estado for de 50% do PIB faz tanto sentido dizer que o Estado consome 50% da riqueza nacional como dizer que o Estado contribuí com 50% para a riqueza nacional.”

    Boa piada.

  9. Ricardo Arroja

    “BZ, quando associa gastos a “agências, comissões, entidades’, etc. está a passar a mensagem que esses gastos são administrativos e como tal desperdícios administrativos. Na realidade a componente de Fundos e Serviços Autónomos faz um uso economico que se reparte principalmente em transferências para as famílias e salários.”

    Caro Palamedes,

    Qual é a utilidade económica (já nem falo para o contribuinte) associada à existência de 23 (por extenso, vinte e três) centros de formação profissional distintos (até há um para a Formação Sindical…) que coexistem ainda com o Instituto de Emprego e Formação Profissional? Só aqui tem 1000 milhões de despesa…

  10. Palamedes, releia sff o excerto publicado no post. As despesas nos Fundos e Serviços Autónomos não são “transferências para as famílias”. Trata-se, por exemplo, de 662 milhões gastos na falida RTP.

  11. A tendência natural da burocracia estatal é crescer, crescer e crescer, e tudo à custa dos espoliados, extorquidos e ignorantes pagadores de impostos.

    Se o objetivo da economia de mercado é o lucro, o objetivo da burocracia é o crescimento.

    O principal grupo beneficiado pelos burocratas, obviamente, são os próprios burocratas.

    A existência de uma burocracia estatal cria na sociedade duas grandes classes de conflito: os pagadores líquidos de impostos e os consumidores líquidos de impostos. Quanto maior a dimensão dos impostos e do governo, maior será o inevitável conflito de classes criado na sociedade.

    Quantos investimentos e empregos foram perdidos, quanta corrupção foi estimulada, pela burocracia?

  12. Paulo Pereira

    Os pseudo-liberais que defendem o capitalismo pobre e de alto desemprego são os grandes aliados dos estatistas burocratas.

    Com pobreza e desemprego crescentes o estado tende a aumentar , tal como se comprova nos ultimos 25 anos, ao contrário do que apregoaram os profetas do Neotontismo (também conhecido por neoliberalismo).

  13. “Se a despesa de um Estado for de 50% do PIB faz tanto sentido dizer que o Estado consome 50% da riqueza nacional como dizer que o Estado contribuí com 50% para a riqueza nacional.”

    Ora, aqui usando a álgebra tão querida ao keynesianismo e partindo do axioma acima posso afirmar que:

    – Se o estado aumentasse a sua despesa em 100% isso iria então aumentar o PIB em 50%. Como o défice é cálculado com base no valor total do PIB eu iria conseguir duplicar a despesa sem aumentar o percentual do défice; Se a isto juntarmos o incremento de impostos recebidos pelo aumento do PIB o estado conseguiria mesmo um almoço grátis.

    Estamos agora a perceber a verdadeira idiotice da frase acima!

  14. Paulo Pereira

    O que importa mais é o deficit comercial / corrente quando se está num sistema de moeda externa como é este Euro.

    No caso Português um aumento do deficit publico aumenta em geral o deficit comercial/ corrente a menos que a despesa publica fosse orientada de uma forma diferente da actual.

    De qualquer modo , impostos elevados e burocracia devem ser abolidos, porque retiram iniciativa e competitividade ao sector privado.
    Não vemos neste governo grande intenção de reduzir a máquina inutil do estado.

    Mas é muito importante distinguir despesa em burocracia inutil, da despesa em educação , saude e segurança social, até porque nessas áreas estamos abaixo da média da OCDE em % do PIB .

  15. Caro Ricardo Baptista,

    Vê-se mesmo que é economista…

    “Se o estado aumentasse a sua despesa em 100% isso iria então aumentar o PIB em 50%.”

    Certo.

    “Como o défice é cálculado com base no valor total do PIB eu iria conseguir duplicar a despesa sem aumentar o percentual do défice”

    Certo.

    Bom, o problema começa aqui. Tem significado calcular o deficit como percentagem do PIB?

    “Se a isto juntarmos o incremento de impostos recebidos pelo aumento do PIB o estado conseguiria mesmo um almoço grátis”

    ???? Bom, para o Estado duplicar a despesa teria de começar por cobrar o dinheiro para essa duplicação, isto é, teria de começar por subir os impostos o que daria uma diminuição do consumo e investimento privado e, portanto o PIB até não subiria assim tanto.

    Quanto ao almoço grátis, não vejo onde estava. Quanto muito teria havido uma alteração nos valores do deficit, PIB, etc. Na prática isso não significava nada para o cidadão comum, quanto muito significava algum empobrecimento pelo aumento dos impostos. Só para os economistas, políticos, etc. é que teria algum significado.

    “Estamos agora a perceber a verdadeira idiotice da frase acima!”

    ????
    O que eu percebo é que fugiu ao que eu estava a discutir sem dizer porque é que ele estava errado.

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    Comentário por Ricardo Batista — Janeiro 25, 2012 @ 19:29

  16. BZ escreveu:

    “Redução do consumo público (G) -> menos impostos -> mais consumo privado (C) e/ou investimento (I)”

    Primeiro isto não tem nada a ver com a situação que coloquei.

    Depois é uma equação errada!

    O mais correcto seria escrever:

    Redução do consumo público-> Menos impostos -> Menos serviços fornecidos pelo Estado + Maior consumo privado ou mais investimento privado ou mais saída de capitais para o estrangeiro.

  17. Ricardo Arroja,
    Concordo consigo quando à existência de desperdícios administrativos que decorrem principalmente da desorganização global do sistema. Concordo que 23 organismos de emprego é excessivo. No entanto esse não é o meu ponto. Repare que a designação que o executivo dá à despesa pública não é relevante. Incluir hospitais em rubricas ‘serviços autónomos’ ou ‘estado’ é completamente irrelevante se o que se pretende é uma análise económica dessa despesa. E o grosso da despesa pública encontra-se concentrado em salários, transferências e juros. Numa situação de aperto, não espere grande consolidação devido a cortes nos custos administrativos (por um lado, não são uma fatia tão importante do orçamento, e por outro levam tempo a ser implementadas com eficácia). Restrições no financiamento da economia implicam que a consolidação terá de ser feita através da redução das transferências e da massa salarial (neste último seria muito mais eficaz o despedimento de funcionários do estado). O bilião de euros que referiu é uma soma importante, mas de certeza que não representa uma parcela de puro desperdício administrativo; se esses 23 serviços não existissem, provavelmente outra rubrica da despesa inflacionaria numa quantia equivalente (ex. ‘Segurança Social’). Mas vamos supor que era possível eliminar esse bilião de euros. Acha que seria possível eliminar os restantes 39 biliões da mesma maneira.

    BZ,
    O meu comentário ao BZ deverá esclarecer parte daquilo que eu queria dizer. No entanto deixe-me acrescentar que nessa rubrica da despesa pública, para além da RTP (que deveria ser vendida ou liquidada) têm ainda hospitais, universidades, e outras parcerias públicas e privadas.
    E já agora um esclarecimento quanto às implicações que faz (-G=>-T=>+[C+I]). Primeiro a redução do consumo público (que é diferente de despesa) não implica uma redução das receitas do estado – lembre-se que neste momento temos um défice de 10 biliões. Não é com uma convenção contabilística (DC+G+I) que chega à conclusão -G=>+[C+I]. Para isso precisa de uma teoria económica. Exemplos incluem teorias Keynesianas clássicas, nova Keynesiana e neoclássicas (as duas primeiras têm graves inconsistências lógicas). Utilizando esta última teoria, uma redução temporária do consumo público leva a um aumento do consumo privado próximo de 0 (o rendimento permanente das famílias não se altera). Como tal, para uma taxa de juro fixa, a procura agregada reduz-se no mesmo valor do consumo público e a oferta agregada não se altera já que as famílias continuam a oferecer a mesma quantidade de trabalho. Para reequilibrar o mercado de bens, a taxa de juro real cai (investimento aumenta devido ao efeito crowding-out) e, por motivos de substituição intertemporal, a oferta de trabalho diminui arrastando consigo o produto. Ou seja temos um multiplicador do consumo público que poderá ser inferior ou superior a 1. A ser superior, uma redução de 1 milhão de euros de consumo público implicaria uma redução do produto superior a 1 milhão de euros. Não estou a tentar defender que este modelo é uma boa aproximação da realidade, mas apenas a exemplificar que a análise das implicações de política económica não é feita através de identidades mas de teorias económicas; na realidade, uma simples extensão do modelo acima descrito por forma a incluir impostos distorcionários e mercados financeiros incompletos implica que uma redução dos impostos sobre o trabalho e capital, acompanhado por uma redução das transferências teria um impacto francamente positivo no produto de uma economia.

  18. Paulo Pereira

    “Exemplos incluem teorias Keynesianas clássicas, nova Keynesiana e neoclássicas (as duas primeiras têm graves inconsistências lógicas). Utilizando esta última teoria, uma redução temporária do consumo público leva a um aumento do consumo privado próximo de 0 (o rendimento permanente das famílias não se altera)”

    Esta é a teoria da austeridade expansionária que nunca existiu em lado nenhum e que a Merkozy advoga.

    Estamos mesmo a ver em Portugal ou em Espanha que a redução da despesa pública em 2011/2012 vai aumentar o consumo privado !!!

  19. Paulo Pereira

    http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2012/01/imfs-latest-forecast-3

    The fact that markets are focusing in 2011 on short-term growth developments may reflect strong risk aversion after four years of market turmoil. The unpleasant implication of this short-termism is that a tightening of fiscal policy may raise rather than reduce spreads if it is accompanied by a decline of GDP (with respect to the baseline). Indeed, the estimated coefficients imply that this would happen for a fiscal multiplier higher than 1.2-1.3 (in this case the primary balance would improve, but the debt to GDP ratio and the CDS spreads would increase).

    Got that? Cut the deficit too aggressively, and the negative impact on growth and the rise in the cost of debt service from higher spreads could result in a higher, not lower, debt-to-GDP ratio.

  20. “a despesa pública representa oitenta mil milhões de euros, ou seja, 47% do PIB”

    Recebi um artigo sobre este tema que coloquei em:

    http://cabalas.blogspot.com/2012/01/acerca-do-peso-do-estado-em-portugal.html

    Note-se que quando se diz que o Estado representa 47% do PIB isso significa que os privados representam 53% e a que conclusão se deve chegar? Que o Estado é grande ou que os privados são pequenos?

    Se os privados aumentassem a sua participação no PIB de 20%, isso significaria que o Estado passaria de 47% para uns 42%.

    Conclusão: Para diminuir a participação do Estado no PIB é mais importante (e porventura fácil e menos gravoso), aumentar a participação dos privados no PIB do que diminuir a despesa pública.

  21. Quim João

    “O Raio”, o dinheiro que o estado gasta é dinheiro tirado aos privados através de impostos. O estado tem despesa. O estado não tem investimento com rentabilidade, ou a pouca que há é marginal. A despesa do estado não está sujeita ao livre arbítrio que terá a despesa privada, de promover competitividade e concorrência no mercado. Pelo contrário, a despesa do estado que não faça parte das rubricas principais (admin central, saúde, educação, etc.. vs. PPPs, BPNs) é sempre feito segundo interesses individuais de grupos de influência, e com muito pouco interesse público ou estudos de rentabilidade. Veja-se o BPN, as dezenas de milhares de milhões de euros das PPPs, dos quais muitos vão para empresas amigas do PS, como a Mota-Engil. O estado em vez de ter uma lógica de distribuição da riqueza taxada, teve um lógica de desviar os fundos para alguns, criando mais injustiças, recessão e descapitalização da economia real. Nós estamos a sofrer as opções políticas do socialismo saloio do PS. Basta.

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