Natalie Portman e as formas (de governo)

De atenienses apreciadores de sodomia “man on boy”, a suíços negligenciadores da prole, passando por fazendeiros americanos donos de escravos, durante séculos a questão de “qual a melhor forma de governo?” atormentou os mais variados filósofos. Uns preferiam o “filósofo rei”, outros o “governo do povo”, outros uma estranha combinação a que deram o nome de “governo representativo”. Insatisfeitos com a resposta de pensadores que dedicaram a sua vida a pensar sobre o problema, académicos portugueses decidiram buscar iluminação no povo português. Num estudo recentemente divulgado, 56% dos inquiridos responderam que a democracia era “preferível” a qualquer forma de governo. Mais ou menos a percentagem de pessoas que passa a vida a queixar-se dos políticos que eles próprios elegem. 15% das pessoas, no entanto, afirmaram que “em algumas circunstâncias”, um governo autoritário seria preferível. Estas pessoas têm em tão pouca conta a sua opinião, que são da opinião de que ela não deve contar para nada, e acham importante dizê-lo apesar de acharem que ninguém os deve ouvir. Coisas da democracia que abominam.

O problema de qual o melhor regime possível é apenas uma questão das muitas que se podem colocar acerca do governo dos homens, e para dizer a verdade, uma que pouco me entusiasma (entusiasmos, só os tenho de cada vez que vejo Natalie Portman). Quanto perguntamos “qual a melhor forma de governo?”, estamos a perguntar quem é que deve governar, sem colocarmos a questão de o quê é que o governo deve fazer: estamos a dizer quem é que deve tomar a decisão, e não qual é que deve ser a tal decisão. E ao contrário do que os sodomitas e os negreiros (para não falar no desprezível suíço abandonador de crianças) nos poderiam levar a pensar, o número de pessoas que toma a decisão dificilmente melhora ou piora a qualidade da dita.

Se há coisa que a História da Humanidade (ou este texto) nos mostra, é que a estupidez humana não tem limites. Ela abunda na espécie, e em cada um dos seus membros individualmente, passando de geração em geração. Todos tomamos decisões erradas, todos fazemos asneira. Alguns senhores nas terras da velha Pérsia dirão que esse problema é resolvido pela sua forma de governo directamente proveniente de um tal de Allah, mas até Deus, caso exista (coisa de que duvido), comete os seus pequenos erros (o maior deles, obviamente, o de não ter assegurado que Natalie Portman se apaixonasse por mim). Por isso, seja qual for a forma de governo, a decisão acerca de o que é que o governo deve fazer será muitas vezes errada. A estupidez irá comandar, independentemente do número de pessoas a exercê-la. A democracia representativa apenas garante que todas as formas de estupidez serão ouvidas. E dá a oportunidade de ao fim de uns anos, corrigir a que tiver sido seguida, mesmo que estupidamente ninguém aproveite essa oportunidade: nenhuma estupidez será descriminada.

É por isso que as respostas mais sensatas ao inquérito do estudo foram as das cerca de 26% de pessoas que disseram que “não sabiam” ou que eram “indiferentes” à questão de qual é a melhor forma de governo. Porque realmente, há coisas mais importantes sobre as quais pensar: o que deve o governo fazer, por exemplo. Ou, quem sabe, na Natalie Portman. É o que eu faço, pelo menos.

Anúncios

17 pensamentos sobre “Natalie Portman e as formas (de governo)

  1. Claro que não. Apesar de o facto de alguém ter considerado viável a hipótese de eu dizer alguma coisa de substancial indicar que o “argumento” (para ser simpático comigo próprio) do post talvez esteja certo…

  2. Subscrevo, excepto a parte que a Natalie Portman devia apaixonar-se por ti. Eu estou na fila ha mais tempo e não peço tanto 🙂 (muito bom)

  3. Joaquim Amado Lopes

    “15% das pessoas, no entanto, afirmaram que ‘em algumas circunstâncias’, um governo autoritário seria preferível. Estas pessoas têm em tão pouca conta a sua opinião, que são da opinião de que ela não deve contar para nada, e acham importante dizê-lo apesar de acharem que ninguém os deve ouvir.”

    Num texto que se pretende irónico (objectivo que este falha completamente), o autor com pouco talento para a coisa (como parece ser o caso do Bruno Alves) por vezes tem que recorrer à superficialidade ou a falácias lógicas para fazer passar um ponto pré-determinado. Case and point, a citação acima transcrita.

    A vantagem da democracia é que nenhuma opinião tem à partida mais valor que as outras e, como as decisões afectam todos, todos merecem ser ouvidos (eventualmente através dos seus representantes). Mas “nenhuma estupidez será descriminada” tem alguns problemas. Por exemplo:

    1. Quem sabe que a sua opinião é minoritária e não se importa de actuar de má-fé para impedir que a opinião da maioria vingue, tem o “direito” de impôr a discussão ad eternum dos argumentos mais estapafúrdios e das falácias mais flagrantes, conseguindo dessa forma bloquear a actuação de quem tem que resolver os problemas;

    2. Essas mesmas minorias, não aceitando que as suas opiniões não vinguem, testam (e frequentemente violam) os limites da Lei para bloquear a acção de quem foi legitimamente eleito para gerir a “coisa pública” (por exemplo, através de manifestações que, apesar o efeito mediático, não representam mais do que uma pequena minoria e de greves “gerais” que normalmente mais não são do que greves de transportes públicos articificialmente empoladas através de piquetes de greve que actuam contra a Lei e contra os direitos dos outros).

    Defender que, em situações de emergência e em que a maioria já se pronunciou sobre o que quer que seja feito, poderá justificar-se um Governo autoritário que possa impôr o cumprimento do espírito da Lei com prejuízo do respeito pela letra da Lei e que possa actuar de forma célere e decisiva contra quem actua de má-fé e prejudicando os outros de forma ilegítima (novamente, os piquetes de greve, p.e.) não é de forma alguma o mesmo que ter a sua própria opinião “em pouca conta” e achar que esta “não deve contar para nada”.

    Pelo que me diz respeito, prefiro a democracia à autocracia porque só a garantia de que as ideias estapafúrdias dos outros serão ouvidas garante que as minhas ideias geniais e profundas também o serão. Até porque, normalmente, são as minorias que normalmente impõem o autoritarismo.
    Mas também prefiro que o espírito da Lei (no sentido de que a liberdade de uns acaba onde começa a liberdade dos outros) não fique refém da letra da Lei e que a Lei não possa ser usada para nos impôr precisamente aquilo de que é suposto proteger-nos.

  4. “Pelo que me diz respeito, prefiro a democracia à autocracia porque só a garantia de que as ideias estapafúrdias dos outros serão ouvidas garante que as minhas ideias geniais e profundas também o serão.”

    Certíssimo.

    “Mas também prefiro que o espírito da Lei (no sentido de que a liberdade de uns acaba onde começa a liberdade dos outros) não fique refém da letra da Lei e que a Lei não possa ser usada para nos impôr precisamente aquilo de que é suposto proteger-nos.”

    Certíssimo também. A democracia permite-nos pelo menos expressar essa nossa opinião e tentar fazer com que a maioria (ou uma minoria especialmente activa que consiga momentaneamente obter mais votos) não elimine essa realidade. Mas, e é aqui que terei de discordar um pouco, um poder de excepção que numa situação de emergência nos retire esse direito, por muito legitimamente que o faça, poderá depois (ilegitimamente) continuar a negá-lo muito depois da emergência ser ultrapassada. E ao contrário do que acontece numa democracia, aí dificilmente teremos uma oportunidade, considerada legítima aos olhos desse regime, de corrigir o erro. A democracia dá-nos essa oportunidade, mesmo que nós não a aproveitemos (como tem sido o caso em Portugal, aliás).

  5. “Se há coisa que a História da Humanidade (ou este texto) nos mostra, é que a estupidez humana não tem limites.”
    Facilmente se pode constatar na leitura deste post.

  6. Joaquim Amado Lopes

    Bruno Alves (5):
    “um poder de excepção que numa situação de emergência nos retire esse direito, por muito legitimamente que o faça, poderá depois (ilegitimamente) continuar a negá-lo muito depois da emergência ser ultrapassada”

    Daí o “em algumas circunstâncias”.

  7. Eu percebo, mas o problema está em que essas circunstâncias se podem verificar, o problema ser resolvido, e o poder excepcionalmente “atribuído” nunca mais ser devolvido

  8. Joaquim Amado Lopes

    Bruno Alves (5),
    E não acha que o ponto a que chegámos e o facto de uma pequena parte da população (particularmente vocal e activa) estar a fazer o possível para bloquear qualquer tentativa de alterar o rumo justifica que uma outra pequena parte da população comece a considerar a possibilidade de aceitar correr esse risco, como uma forma de não se perder tudo, sem que isso signifique que essas “pessoas têm em tão pouca conta a sua opinião, que são da opinião de que ela não deve contar para nada, e acham importante dizê-lo apesar de acharem que ninguém os deve ouvir”?

  9. Joaquim Amado Lopes

    Bruno Alves (12),
    Devo reconhecer que pessoas como o Bruno Alves e muitos outros opinadores (autores e comentadores de blogs) me levam a concordar com a sua última afirmação.

    De qualquer forma, não lhe perguntei se concorda com que, em algumas circunstâncias, um governo autoritário seria preferível. É capaz de responder ao que lhe perguntei?

  10. perguntou-me se não se justifica uma parte da população querer uma solução autoritária e os riscos que acarreta para não se perder tudo, certo? Em certo sentido, sim, porque qualquer opinião é “justificável”. Se acho que essa opinião está certa? Não, não acho. Mas isso não quer dizer que não ache que as pessoas não devam ter a sua opinião: como digo, acho que nenhuma estupidez deve ser descriminada…

  11. Joaquim Amado Lopes

    Bruno Alves (14),
    Não foi isso que lhe perguntei. A pergunta (ver comentário 11) é longa mas até o Bruno a deve conseguir perceber, se quiser e ler com cuidado.

    E não, nem todas as opiniões são justificáveis. O que não é o mesmo que dizer que as que não são “justificáveis” devam ser proibidas uma vez que opiniões não são acções. P.e. alguém achar que todos os que não aderem a uma determinada religião devem ser mortos não é “justificável” sob qualquer ponto de vista mas, desde que não passe à acção, não se pode proibir que tenha essa opinião.

    Assim como nem todas as ideias têm o mesmo valor nem merecem a mesma consideração. P.e. um funcionário de uma qualquer empresa achar que a sua opinião sobre a forma como a empresa deve ser gerida deve ter tanto peso quanto a opinião do dono e gestor dessa mesma empresa não merece sequer ser discutida.
    Na realidade, a estupidez deve ser discriminada (para que não se concretize em resultados que se sabe à partida serem maus) embora isso levante dois problemas: (1) quem é que decide o que é ou não estupidez e (2) só se pode avaliar o nível de estupidez de uma ideia se se a ouvir.

  12. A opinião das pessoas vai deixar de contar a partir do momento em que a “solução” autoritária for posta em prática. Pode continuar a insultar-me à vontade se isso o faz sentir melhor, mas acho que se percebe bem o que eu disse.

  13. Joaquim Amado Lopes

    Bruno Alves (16),
    Numa tentativa falhada de fazer humor, o Bruno pretendeu ridicularizar alguém que defende uma opinião com que o Bruno não concorda. Creio ter ficado claro que o que escreveu é um disparate.
    Além disso e na mesma linha do seu post, respondeu com banalidades “politicamente correctas” e não percebeu o que lhe estava a ser perguntado.

    Percebo que considere os termos que usei como um insulto. Lamento.
    Pela minha parte, sinto-me insultado que alguém com um pensamento muito superficial quanto o que demonstra no post e nos comentários tente ridicularizar alguém que tem uma opinião diferente da sua. Mas as coisas chegaram ao ponto a que chegaram porque não gosto de deixar uma conversa a meio e, pelos vistos, o Bruno também não. Se acha que se justifica um pedido de desculpas da minha parte, então peço desculpas pelos termos que usei.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.