sem coragem

“Existe uma pergunta que para mim antecede todas as outras: por que você quer entrar na política? Ou melhor, para quê? Digo-lhe que só vale a pena dedicar sua vida a uma actividade tão difícil e sujeita a tantos contratempos se você acreditar em alguma coisa. Pode ser idealismo da minha parte, mas eu continuo pensando assim (…) Antes de tomar sua decisão, pense muito bem se você está realmente disposto a se jogar de cabeça por uma causa. As causas podem ser várias: contra a corrupção, contra a violência, a favor do mais pobres, a favor da igualdade racial, a favor da liberdade, contra os abusos do mercado, contra o excesso de burocracia do governo, pelo respeito aos contratos e às leis, ou o que seja. Há mil razões para se entrar na política. Mas é preciso ter alguma razão maior do que a vontade de se dar bem.”, Fernando Henrique Cardoso em “Cartas a um jovem político”.

Há dias alguém me dizia: “esta geração de hoje está atemorizada, está sem coragem”. Quem me afirmava isto, fazia-o por oposição à geração dos nossos pais, aliás, sendo a pessoa em questão uns anos mais velha que eu, por oposição até à geração dos nossos avós. Enfim, confesso que é uma avaliação da qual partilho. Hoje, apesar do descontentamento geral, não se vislumbram em Portugal heróis nem heroínas. Portugueses como Humberto Delgado, Henrique Galvão, Mário Soares ou Álvaro Cunhal. Homens que, independentemente das suas convicções e da simpatia que estas nos pudessem merecer, estavam disponíveis e desejavam o confronto em prol de um ideal político – no caso de Galvão, capaz até de acções espectaculares; “um herói português”, como Teixeira da Mota, o descreve numa excelente biografia. Hoje, pelo contrário, não há nada disso. Não há audácia. E o situacionismo, o pensamento “mainstream”, é a nota dominante. Perdeu-se o romantismo. Perdeu-se o idealismo. Acobardámo-nos, física e espiritualmente.

Ora, é neste sentido que as palavras de Fernando Henrique, um homem brilhante, me parecem valiosas. Sem idealismo, a política, que deveria ser feita de altruísmo, mesmo quando na defesa de direitos das minorias, transforma-se em egoísmo; torna-se, pois, um mero trampolim para você se dar bem. É isso que temos visto em Portugal, nomeadamente, no culto das “jotas” que atravessa o circuito político partidário da esquerda à direita. Gente sem profissão, como lhes chamou (e bem) Medina Carreira, que uma vez na (pequena) política se dão bem. E é isso que, certamente, acontecerá noutros países também. Enfim, eu tenho 33 anos de idade e gosto de política – mas não gosto de partidos e dos partidos portugueses menos ainda. E, infelizmente, com excepção de Nigel Farage, Ron Paul e uns tantos outros no estrangeiro, não encontro hoje muitas mais personalidades políticas, por esse Ocidente fora, capazes de me empolgarem com os seus ideais e o seu idealismo, porque a esmagadora maioria simplesmente não os têm. Andam por lá e pouco mais. Sem alma nem rasgo. Uma tristeza.

Assim, termino este texto com uma referência à autobiografia de Mário Soares, “um político assume-se”. Lido o ensaio autobiográfico político e ideológico, como o autor lhe chama, percebe-se uma coisa: havia ali, apesar de uma certa megalomania, a defesa de duas causas, isto é, a liberdade e o pluralismo político partidário, por um lado, e a abertura de Portugal à Europa, por outro. Estas foram as suas razões para entrar na política e será por elas que um dia Soares será recordado. Por mais que discordemos do horrível, porquanto manifestamente incorrecto, diagnóstico que faz da actual crise portuguesa, bem como do modelo económico, estatizante e socialista, que preconiza. Por mais que partes da história possam estar mal contadas. E por mais que o seu enorme ego nos incomode. Existiam ali causas…que hoje vão rareando, mesmo que, cada vez mais, não faltem motivos para as ter. O problema é que, infelizmente, faltam também os heróis.

3 pensamentos sobre “sem coragem

  1. Completamente de acordo.
    Quanto a FHC foi um dos maiores líderes brasileiros, senão mundiais. A ele se deve a Potência Económica de hoje, com equilíbrios, controles e travões. Tornou-a um Estado de Direito.
    Aquilo que com que Sócrates & friends acabaram por aqui.

  2. Não sou tão ambicioso.Só queria que a “Política” fosse a arte do possível.Com as decisões tomadas medidas as vantagens e inconvenientes para o bem comum.Política feita por gajos que tanto fazem uma coisa como o seu contrário algum dia nalgum lugar resultou?
    O deslumbramento do poder dos ex lava pratos foi-nos fatal porque interpretaram tanto que se julgaram deuses…e capazes de fazerem milagres com as “letras” das merdosas leis que foram fazendo…

  3. raio verde

    até que enfim vejo alguém a dizer o óbvio em relação a Mário Soares.
    Apesar de muita coisa, sem dúvida que existia ali causa e convicção. E devemos ter consciência da sua importância no travar do comunismo.

    cumprimentos

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