Sistemas de saúde e casos hipotéticos

É interessante que, neste caso hipotético, o apresentador americano tenha escolhido usar um jovem saudável com bom emprego e bom ordenado. O objectivo é o de demarcar que as pessoas são incapazes de se distanciar dos seus interesses do momento (no caso o jovem pensava não precisar de um seguro de saúde), pelo que é necessário que, para dar conta da falibilidade dos processos de decisão dos indivíduos, o Estado assuma universalmente e abstractamente os interesses de todos.

Este debate gerou polémica porque a dado momento a plateia grita “yeah!” à pergunta do apresentador sobre se se deve deixar morrer o jovem, uma reacção que teve obviamente como fim ridicularizar o jornalista mas que foi entendida como um grito sincero de vontade homicida.

Não podemos fazer uma analogia com Portugal dado que estamos muito longe de poder ter debates que incluam o tema dos sistemas de saúde e o tema da escolha individual, e os nossos casos hipotéticos tratam sempre de velhos que imaginamos automaticamente serem pobres, indefesos e abandonados para melhor chantagear quem se sinta tentado a trazer a questão da responsabilidade para o debate. Mas seria interessante saber o que se diria por aqui sobre o caso de um bem empregado com bom ordenado que tivesse optado deliberadamente por assumir os riscos de se manter isolado de um sistema de saúde universal. A julgar pela recente indignação crucificadora, imagino que os “yeah!” da plateia se mantivessem, mas com um sentido totalmente diferente.

Um pensamento sobre “Sistemas de saúde e casos hipotéticos

  1. Por acaso acho que a MFL não disse exactamente isso…

    Independentemente de a questão dos cuidados de saúde serem ou não gratuitos no momento da utilização ser algo que tem de ser discutido face à evolução demográfica, estagnação/recessão económica e introdução crescente de tecnologias e fármacos ainda sem estudos suficientes para atestar a sua custo.efectividade.

    A questão deveria ser colocada de outra forma: que prioridade deve ser dada à prevenção versus cuidados mais diferenciados? Que nível de cuidados poderemos exigir face à situação económica do país e de que forma poderemos reduzir custos sem diminuir a qualidade? Estaremos demasiado dependentes dos profissionais de saúde?

    Acho que muitos dos custos actuais seriam evitáveis se as pessoas não recorressem tanto aos serviços de saúde, particularmente casos de menor gravidade e que elas próprias resolveriam e/ou a própria evolução natural da doença não justifique atendimento por médico.

    Outra questão é perceber se um modelo de saúde centrado na doença e não na capacidade inata da pessoa ser saudável é promotor de bem estar social e melhor/mais barato desempenho do sistema de saúde.

    Veja-se, por exemplo, o caso paradigmático de ser mais fácil o acesso a uma ressonância magnética do que uma hora de educação para a saúde a um familiar que cuide de um doente por parte dum enfermeiro. Quantas idas desnecessárias a um serviço de saúde se poupariam (por exemplo uma pneumonia resultante de má alimentação num doente com dificuldade em engulir) se esse familiar o soubesse fazer correctamente?

    É mais cómodo para o sistema, actualmente, financiar esta ida à urgência por esta complicação, do que poder dispensar uma hora dum enfermeiro para ajudar um familiar nesta actividade…

    Deixo para leitura também este gráfico sobre a percepção do próprio estado de saúde dos portugueses… a forma negativa como vêem a sua saúde é o resultado duma hipocondria alimentada por todos…

    http://saudeeportugal.blogspot.com/2011/12/os-portugueses-estao-doentes.html
    Cumprimentos

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