A mártir

Admito que possa não estar a interpretar bem Manuela Ferreira Leite, que não tem propriamente o dom da palavra, mas parece-me que está novamente a ser injustiçada pela praça pública.

O que diz é que o SNS não pode continuar a ser «gratuito para toda a gente», o que, no óbvio estado do país levará inevitavelmente «Então, [que o SNS seja] nem para ricos, nem para pobres»: ou deixa de ser «para toda a gente» ou então «nem para pobres» conseguiremos mantê-lo. A conclusão «então, nem para ricos, nem para pobres» indicia claramente que o SNS não se pode manter gratuito para ambas as classes sob pena de falir ou ter a sua qualidade totalmente degradada, o que vai dar ao mesmo. Trocado por miúdos, MFL não defendeu o fim do SNS – pelo contrário, propôs uma solução para o manter: estamos aqui perante uma proposta evidentemente socialista em que quem pode pagar suporta o sistema, pagando pelo SNS mas deixando de o usar gratuitamente. Quando diz «fora disso não é possível gratuitamente», MFL quer dizer que para haver algum grau de gratuitidade («para os pobres»), «os ricos» têm então de pagar duplamente, via impostos e aquando o tratamento – essa coisa do «para toda a gente» tem de acabar. Os socialistas da praça deviam louvar MFL por defender que se sacrifique um conjunto de cidadãos para que se mantenha, e só assim, essa criação do Estado Social que é o SNS.

Outra coisa curiosa é que, no caso hipotético que deu para iniciar o debate, Ana Lourenço não referiu se a pessoa era rica ou pobre, mas sim apenas que era velha. Imaginemos que o maior de 70 anos em causa é Alexandre Soares dos Santos, o caso ainda seria «abominável» (para usar as palavras da jornalista)? Os media ainda falariam de um «abandono dos velhos à sua sorte»? Ainda haveria quem rogue pragas a MFL?

Manuela Ferreira Leite, que não soube detectar o apelo à emoção na pergunta da jornalista, é uma espécie de mártir do socialismo, um estudo de caso sobre como um social-democrata se pode tornar totalmente incompreendido e lançado à fogueira devido ao seu óbvio défice de politiquês. Socialismo e racionalidade decididamente não combinam.

7 pensamentos sobre “A mártir

  1. hcl

    O problema é que ,em Portugal, é-se rico com muito pouco dinheiro. Uma família com 2000€ de rendimento líquido está fora de todos os benefícios, portanto, no fundo, é equiparada ao Soares dos Santos.

    A interpretação das palavras de MFL faz parte do jornalismo/país que temos. Não há nada a fazer. Eu não gosto do estilo MFL, mas, por cá, a forma interessa muito mais que o conteudo.
    A invenção de controvérsia, a criação de mal-entendidos é um modo de vida.

  2. jp

    Quem viu Alfredo Barroso na SICN com Mário Crespo percebe logo como se controem estes casos pré-fabricados nas fundações do PS, sempre bem abastecidos de parte da realidade. É a velha questão da verdade, toda a verdade, nada mais do que a verdade.

  3. Pingback: Ferreira Leite Superstar Blogosférica « A Educação do meu Umbigo

  4. Eu vi o programa em que a Manela, nitidamente, meteu a pata na poça.

    Mas que disse o que disse, disse! Quem tem mais de setenta anos tem direito à hemodiálise desde que a pague.

    Ora como a hemodiálise custa cerca de €2000 por mês, se formos ver quanto ganham os reformados (http://www.cga.pt/PubDR/200408.pdf) e se partimos do princípio de que um reformado para pagar a hemodiálise do seu bolso tem de ter pelo menos €2500 mensais (2.000 para a hemodiálise e 500 para um ordenado mínimo), vemos que pouco mais de 5% dos reformados do Estado (incluí juízes, generais, etc.) eé que recebem mais de €2.500. E os da Caixa Nacional de Pensões ainda ganham menos.

    Assim, quantos hemodialisados é que podem pagar a hemodiálise?

  5. Paulo Pereira

    A Manuela F. Leite ainda não percebeu que o Estado Social é uma espécie de seguro obrigatório, como o dos automóveis :

    todos têm de pagar mesmo os que não o usam.

    e por incrivel que pareceça , assim fica mais barato para a sociedade em geral, porque estimula o consumo.

  6. Pingback: Manuela Ferreira Leite: uma social-democrata honesta « O Insurgente

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