No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

A bolha chinesa

Em 2012, podemos assistir ao início do fim do milagre chinês.

Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou ‘Monsoon’ (Random House). Um livro sobre os equilíbrios estratégicos no Oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar, voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar numa potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.

Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.

Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, inevitável quanto mais o estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis, que nunca serão pagas, nem cujas perdas serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio, tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, cerca de 2 a 3 por cento do crescimento económico chinês é excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, de que nada servem, mas que consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam melhor aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam o surgimento da inflação. Gastos supérfluos que estão a criar muitas bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.

Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de incitarem o sentimento nacionalista, tudo controlam, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o estado pouco intervenha, são feitas através de um diálogo diário e silencioso, entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o partido comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga para a frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências, porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.

Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012, a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.

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16 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. ««No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país.»»
    .
    É uma previsão com 10 anos. Entretanto o ocidente já passou por 2 crise e meia, e uma delas limpou do mapa os grandes bancos de investimento.

  2. Maria João Marques

    Estou a ler um livro de ensaios de um autor chinês de Beijing, Yu Hua, que também diz precisamente que os dirigentes chineses afectam tanta energia à revolução económica como fizeram com o grande salto em frente e tanta volência (nas expropriações, por exemplo).

    Em todo o caso, o colapso da China parece-me apenas um cenário que só quem tem provavelmente grandes razões de queixa do governo chinês pode prever. E mesmo para o fim da bolha, é mais provável que a bolha dure mais cinquenta anos do que se esvazie agora. O furor das obras públicas bate o socrático, é certo, mas na fase de crescimento em que está a China isso cria-lhes bem menos constrangimentos do que cria à Europa actual, até porque, de facto, a China tem necessidade de infraestruturas que a Europa – e até nós em Portugal – colmatou há algum tempo.

    O livro que referes foi escrito há mais de dez anos, pelo que não deve estar muito actual, mas 2 ou3% de excesso de produção não me parecem nada excessivos tento em conta a forma de trabalhar da grande maioria das fábricas chinesas, que produzem para exportar e só iniciam a produção quando recebem a confirmação bancária da letra de crédito; se têm uma encomenda de 10000 unidades do produto x e 15000 unidades do produto y e…, não vão produzir as unidades certas, produzem sempre com algum excesso, mesmo que nenhum outro cliente lhes tenha encomendado aqueles produtos específicos. Se só há desperdício de 2%-3%, então têm sido bastante eficientes na venda destes stocks resultantes de excessos de produção.

  3. Pingback: No Fio da Navalha « Magna Opinione

  4. JSP

    Um pormenor : trata-se de um Ocidenral, a raciocinar em termos ocidentais, prevendo reacções e consequência tìpicamente ocidentais.
    O homem não desconhece a existência da Coreia do Norte , certamente.
    E não tira ilações da permanência e continuidade desse “regime”?

  5. Paulo Pereira

    Será que a China simplesmente não poderá continuar a crescer a 5% ao ano em vez de 9% ao ano, conseguindo assim uma redução da inflação ?

    Que dificuldade tem esta meta em ser modelizada numa economia mista como a chinesa ?

  6. Cordon Chang arriscou no título que deu ao seu livro, mas a economia chinesa vai cair, como caíram todas as economias planificadas. A falta de infraestruturas da China, mais a sua dimensão que é gigantesca, só fazem adiar o inevitável. O pior é que quanto mais este for adiado, pior será.

    Outro dos problemas que o autor refere, e que não mencionei no artigo, é o risco de desintegração. A China não são os EUA (um país com algo de único que une os seus habitantes, mesmo que oriundos de diferentes zonas do globo). Por isso, até a dita dimensão chinesa pode ter pés de barro.

  7. ricardo saramago

    A China tem pela frente o grande obstáculo, que outros, tal como o Japão, só conseguiram superar com sucesso atravès de grandes catástrofes, guerra e destruição:
    Passar de uma economia planeada e dirigida centralmente, para uma economia descentralizada, criativa e com utilização eficiente de recursos.
    O modelo actual baseado em recursos artficialmente valorizados a preço zero (mão de obra, recursos naturais) e ditadura política vai esgotar-se pela lei dos rendimentos marginais decrescentes, pelo esgotamento dos recursos naturais e com as ambições de liberdade das classes médias e dos empreendedores.

  8. lucklucky

    A Economia Chinesa não é planificada. Não no sentido tradicional comunista. Portugal deve ter muito mais preços falsos – distorcidos- na sua economia e tanto ou mais planificação que a China.
    Que a China vai ter um solavanco é bem provável até porque os EUA e Europa o têm e ninguém num mercado fica imune à sorte dos outros. E no crescimento a 10% há sempre bolha.
    Quanto vai ser esse solavanco depende também da riqueza que os Chineses ambicionam e do que estão dispostos a trabalhar para o obter- além das interferências que o Governo Chinês vai fazer para corrigir o problema e que o só vão agravar- se os Chineses quiserem trabalhar para obter mais riqueza que aquela que têm então ficarão mais ricos.

    Estou mais preocupado com as reacções do Governo Chinês à eventual crise que do que com a dita.

    “Por isso, até a dita dimensão chinesa pode ter pés de barro.”
    Não há pés de barro nenhum – a dimensão chinesa é a sua população. A China tem menos riscos de desintegração que os EUA e no Ocidente pois ainda não evoluiu para a pós-nação. A esquerda odiou a direita nestes últimos trinta anos e o Estado nação ocidental e trinta anos depois a direita já começa a responder finalmente ao nível. Mais tarde ou mais cedo vão verificar que é melhor estarem separados.

  9. Paulo Pereira

    A China , assim como qualquer país industrializado pode crescer indefinidamente a uma taxa pelo menos igual ao crescimento da produtividade.

    O crescimento da produtividade na China pode ser elevado, dado o seu baixo valor comparativamente à média da OCDE.

    Basta para isso que o estado continue a investir em infraestruturas de transportes, produção de energia, educação e saúde.

  10. Há realmente um perigo de desintegração da China. Mas não é o perigo citado num livro já escrito há mais de dez anos.
    O problema da China é haver uma grande diversidade nos seus níveis de vida.
    Cidades como Xining (na província de Qinghai) ou Lhasa (Tibete), não têm nada a ver com Xangai, Beijing ou mesmo Nanquim. As diferenças de nível de vida são de tal ordem que até parece estarmos em países diferentes.
    Esta disparidade acabará por ter efeitos globais na China.

  11. Maria João Marques

    ‘Outro dos problemas que o autor refere, e que não mencionei no artigo, é o risco de desintegração’
    André, a China tem uma tradição antiquíssima de governo central, que se desenvolveu muito antes e com maior perenidade do que em qualquer outro império da antiguidade. Além da governação centralizada, a mariz autoritária pode-se dizer mesmo fazer parte do ADN chinês e que, goste-se ou não, lhes permite conviver melhor com uma ditadura brutal do que o faríamos na Europa.

    E não é verdade que uma economia planificada por si só falhe. A planificação limita e destroi o crescimento económico, mas pode haver outros factores que mais que compensem a planificação e possibilitem o crescimento. No caso da China existe: têm mão de obra mais barata e abundante, têm iniciativa, têm um mundo inteiro à espera de consumir os produtos baratos que vêm da China, têm cada vez mais liberdade para exportar,… Além de que a China está no caminho da desregulação – foi isso que permitiu o crescimento dos últimos 30 anos – enquanto que Europa e EUA me parecem estar no caminho inverso.

    Claro que a China terá crises graves de crescimento. Não estão é nada ao virar da esquina.

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