1492

Hoje, em Granada, celebra-se a tomada da cidade pelos Reis Católicos: no dia 2 de Janeiro de 1492, Boabdil, o sultão, entregou a Alhambra a Fernando e Isabel e partiu. Diz a lenda que o último Nasrid da Andaluzia, na sua fuga rumo ao Sul, parou por uns momentos numa colina, olhou para trás, para o reino perdido, e chorou. A mãe, implacável, disse-lhe: agora choras como uma mulher sobre aquilo que não pudeste defender como um homem. (Presume-se que a brigada do politicamente correcto perdoa esta blasfémia multiculturalista.)

Passaram mais de quinhentos anos desde esse “suspiro do mouro”. Houve um breve período de exílio nas Alpujarras, mas logo os Reis Católicos trataram de terminar o processo de expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. Ficaram os genes e os hábitos, factores pouco receptivos a limpezas étnicas. E passaram os tais quinhentos anos. Parece muito tempo, mas na realidade, é um instante. O legado mourisco continua bem vivo na Andaluzia Oriental: na gastronomia, no idioma, nos costumes e até na religião. E como a Andaluzia é uma caricatura da cultura latina, um esboço simplificado de traços exagerados, quem quiser perceber essa mesma cultura tem que olhar com muita atenção para este pedaço de terra encravado entre a Europa e África. Quem o fizer vai perceber que os conceitos de “catolicismo” ou “europeu”, isolados, não têm lugar aqui, são apenas atalhos escuros e sinuosos para um conhecimento deturpado do Mediterrâneo Norte. A Andaluzia, e, consequentemente, a cultura latina, só são compreensíveis quando se introduz o al-andalus na equação. Sem juízos de valor.

25 pensamentos sobre “1492

  1. Pinto

    Os conceitos de “catolicismo” e “europeu” andam sempre de mãos dadas. O catolicismo está para a Europa como o camarão para uma marisqueira. Embora haja quem insista em querer apagar essa matriz cultural a toda a força.

  2. Carlos M. Fernandes

    Já “catolicismo”, “europeus” e “Andaluzia”, não é tão óbvio. Ou, pelo menos, e para ser mais claro, um catolicismo ortodoxo (chamemos-lhe assim).

  3. xico

    Já alguma vez assistiu à semana santa em Granada? Os traços do Islão só se vêm nos actuais imigrantes. Só na Andaluzia é possível ver uma mulher rezar em voz alta à virgem, no meio da rua, junto àquelas capelas fechadas com grades, ralhando com ela por não satisfazer os pedidos. Curiosamente a Andaluzia hoje identifica-se muito mais com a comunidade cigana, do que com as comunidades mais ancestrais. E os ciganos chegaram a Espanha já no final do século XV, ao mesmo tempo que os mouros eram expulsos.

  4. Carlos M. Fernandes

    “Já alguma vez assistiu à semana santa em Granada?”
    Quatro vezes, e a caminho da quinta.

  5. Luís Lavoura

    as saetas têm, muito provavelmente, raízes árabes (e judias)

    Mais uma vez, aqui, o Carlos confunde “árabe” com “muçulmano”.

    A maior parte dos muçulmanos que estiveram na Península Ibérica (descontando os próprios naturais da Península que se converteram ao Islão) nem sequer eram árabes, eram berberes.

  6. Luís Lavoura

    O legado mourisco continua bem vivo na Andaluzia Oriental […] até na religião

    Em que é que se observa esse legado muçulmano na religião dos andaluzes?

  7. xico

    As saetas terão provavelmente raízes semitas, como quase tudo entre nós. Mas daí a afirmar que existe ainda um legado muçulmano na Andaluzia vai um grande passo. É que eu nunca o percebi! Mesmo apesar do peso da imigração actual em Granada, a presença islâmica é mais visível em Londres ou Paris do que na Andaluzia.

  8. Carlos M. Fernandes

    #7
    E mais uma vez o Luís Lavoura tenta dar contornos precisos a conceitos difusos. A não ser que defenda que a mais importante contribuição do Mediterrâneo meridional para as Três Culturas foi berbere.

  9. Carlos M. Fernandes

    #9
    O grau da presença islâmica pode ser discutido, obviamente. Pode até ser uma camada morta, escondida por séculos de Cristianismo. Mas que existe, existe. No rabo de toro cordobés e nos caracóis, nos olés das corridas de touros, na música, na língua, nos pátios, no catolicismo profundamente anti-clerical, na (des)organização social, na arquitectura (passear entre Almeria e Murcia é como estar na Tunísia). Hoje, a Europa uniformizou-se e a Andaluzia mudou muito depressa, mas não se esqueça que ainda há um século passavam por aqui viajantes de toda o mundo em busca de um enclave do Oriente na Europa. As fotografias de Laurent, Clifford, Hielsher, Garzón mostram um “sonho” das “mil e uma noites”. O carácter feérico, exagerado, colorido da Andaluzia é, muito provavelmente, uma manifestação de uma prolongada presença oriental na região. A relação com a religião, que combina um catolicismo fervoroso com uma recusa à submissão cega a regras e rituais, pode muito bem ser o resultado de quase um milénio de presença moura na Andaluzia Oriental. Ou não. É apenas uma hipótese.

  10. Luís Lavoura

    uma recusa à submissão cega a regras e rituais

    A mim parece-me que o islamismo tem mais regras e rituais do que o catolicismo.

    No islamismo a oração é ritual e segue um conjunto de regras, e há regras sobre a peregrinação a Meca, a esmola, o jejum, etc. O catolicismo – pelo menos na sua versão atual – parece muito menos ritualizado e com muito menos regras.

  11. Carlos M. Fernandes

    #12
    Estou a falar do catolicismo atípico da Andaluzia. O convívio entre litros de álcool e as procissões da semana santa, com os costaleros a “descansar” enquanto bebem cinquenta cañas. Ou aquele bar onde, à meia-noite, se faz silêncio para uma oração á virgem de Rocío que está num canto discreto da sala, e logo volta o barulho, o vinho e a cerveja (e, suspeito, a cocaína nas casas-de-banho). Podemos encontrar causas para este catolicismo anómico no calor do sul, no sol, no isolamento, na pobreza crónica da região. Ou podemos meter na equação 800 anos de domínio islâmico. Eu vou mais pela segunda hipótese.

  12. Luís Barata

    Um outro ponto de vista que me ocorreu enquanto lia estes comentários: Nestas latitudes, sempre o espírito que aí dominar estará marcado pela ambiência e, mais do que influência histórica, a andaluzia é o que é, primeiro porque é castelhana, depois porque está naquele lugar e só por fim por influência árabe. O castelhano é o que mais pesa porque tem a língua e porque a andaluzia pertence a Espanha. No dia em que o castelhano não for o elemento primordial a Espanha desintegra-se. Naquele lugar sempre haverá características como as já descritas nos comentários acima. O elemento árabe e muçulmano parece-me de pouca importância. Tirando o peso pesado do elemento castelhano, o andaluz é o sul de portugal sem a lucidez que o atlântico nos confere.
    Ortega y Gasset defende na sua teoria de Andaluzia que a Andaluzia domina a Espanha. Parece-me que esta teoria é indefensável. Mas há contudo uma característica que não lhe dando a supremacia da Espanha lhe dão um lugar de relevo: é a enorme imigração inglesa – consta que foram perto de 200 mil – que refrescou a raça nesta zona de espanha no século dezanove. Este elemento, muito visivel em cidades como Xerez é de grande importância, principalmente em países idosos como espanha e portugal.
    Assim como no pólo norte – para dar um exemplo de um caso extremo – sempre o lugar determinará parte significativa dos caracteres da sua população, na andaluzia a latitude também pesa. O mundo árabe e muçulmano estão parados no tempo há mais de oito séculos e é por isso que não me parece que sejam elementos de grande importância a ter em conta.

  13. xico

    É evidente a influência mourisca na Andaluzia, mas isso não se estende à religião. Durante quase 8 séculos o Islão foi a religião do poder na Andaluzia, resta saber se era maioritária. Julgo saber que a população moçarábe, portanto cristã, era maioritária somando-se depois a judaica. Seja como for, não vejo onde possa encontrar na religião dos andaluzes traços de islamismo, para além de características culturais na forma devocional. Para além da recitação cantada do Corão e do chamamento do muezin, não me parece característico dos muçulmanos o canto e as danças no culto liturgico, como o fazem os andaluzes com clara influência gitana.
    No contexto mediterrânico julgo que há um sonho do al-andaluz por parte das populações do Norte de África, mas isso esconde um propósito religioso/político e não por questões culturais de património material ou imaterial. E esse sonho julgo que seria recusado liminarmente pelos andaluzes. É claro que os oito séculos se referem ao reino de Granada, porque nas restantes regiões da Andaluzia a presença islâmica foi de menor tempo.

  14. Carlos M. Fernandes

    #15
    Isto não é uma ciência exacta, claro. É impossível definir a importância do domínio islâmico na Andaluzia de hoje. Penso que a influência cultural é indiscutível: no idioma, principalmente, na gastronomia, sem dúvida, e…a partir daqui é discutível. Os hábitos familiares? A relação com a religião? Não sabemos. Mas um estrangeiro que tenha um contacto permanente com a cultura andaluza sabe que há um factor extra, uma “cor”, em oposição à Castilla cinzenta. (Já agora, a teoria de Ortega y Gasset não é assim tão ridícula, na minha opinião; no seu exagero, a Andaluzia acaba por ser o retrato – caricatura? -de Espanha, pelo menos para o exterior). Se isso é ou não o legado islâmico, não posso responder. Mas posso dizer que quanto mais conheço a cultura andaluza mais acredito que há nela um corpo estranho ao resto do mundo latino.

  15. Carlos M. Fernandes

    #16
    “No contexto mediterrânico julgo que há um sonho do al-andaluz por parte das populações do Norte de África, mas isso esconde um propósito religioso/político e não por questões culturais de património material ou imaterial. E esse sonho julgo que seria recusado liminarmente pelos andaluzes.”
    Sem dúvida. O meu comentário/texto não se referia a esses maluquinhos que acham que a Andaluzia é apenas um país árabe adiado. Mas também me parece, por experiência pessoal e por interesse no tema, que é um erro deixar de lado o factor islâmico quando pensamos a cultura latina e católica, da andaluza pelo menos. E quando perguntamos: por que razão é o sul do sul da Europa uma região cronicamente pobre?

    “Para além da recitação cantada do Corão e do chamamento do muezin, não me parece característico dos muçulmanos o canto e as danças no culto liturgico, como o fazem os andaluzes com clara influência gitana.”
    Mas atenção que o flamenco pode ter raízes mouriscas…

    Nota: outro país “exagerado”, desconcertante dentro do contexto europeu, ainda que cristão, é a Sérvia, que também esteve ocupada por uma cultura islâmica (até há pouco tempo, é certo…). Curiosamente, a sua cultura musical popular também se confunde com a música cigana.

  16. Antes de ler este comentário do CMF, ia mesmo escrever (e vou escrever à mesma…) que o estereotipo “espanhol” fora de Espanha é muito o andaluz: as touradas, as mulheres com o xaile…; até filmes como o Zorro parecem-me largamente a Andaluzia transplantada para a América

    Não sei se o CMF, que percebe mais disto que eu, concordará…

  17. Carlos M. Fernandes

    Sim, concordo, claro. É uma cultura muito forte, caricatural, como já disse, com um exotismo (oriental?) que fez a imagem de Espanha além-fronteiras. A Castilla de Miguel Delibes, por exemplo, árida, triste, profundamente centrada na morte, não passou (apesar de a morte ter também um papel central na cultura andaluza). Nem o país basco de Unamuno e Zuloaga, tão espanhol!

  18. Luís Barata

    E quando perguntamos: por que razão é o sul do sul da Europa uma região cronicamente pobre?
    Talvez em parte porque esse Sul pertence a uma região de povos já velhinhos. Em parte por opção. E em parte por inadaptação e rejeição da filosofia moderna que é a mentalidade que domina o Ocidente. É que em países de bom clima, a filosofia moderna, através da ciência moderna, da técnica e da tecnologia funciona como uma espécie de socialismo aplicado a estes povos. A vida no Sul nunca foi tão dura como no Norte. E foi no Norte que a ciência moderna se desenvolveu com uma determinada concepção de ciência. Ora uma das consequências desta concepção foi o aumento do conforto. Mas este conforto e as facilidades que com ele se produziram, corrompem em demasia os povos do Sul que, por natureza, já têm a vida facilitada. Nos nórdicos, os prodígios da ciência moderna apenas atenuam a dificuldades da existência. No Sul, funciona como uma espécie de subsídio, que nos corrompe e amolece. A única salvação dos países do Sul é a de rejeitarem a filosofia nórdica e proporem uma filosofia mais de acordo com a sua natureza. Foi isso que em parte foi feito pela filosofia espanhola recente e pela filosofia portuguesa. Se vão ter força para se baterem com o racionalismo francês, o ideísmo inglês, e o idealismo alemão é o que vamos ver nos próximos tempos. Neste momento, apesar da força da mentalidade nórdica, está-se a desenvolver no seu próprio seio algo que nos favorece muito: falo dos movimentos ecológicos. São, ao contrário do que possa parecer, um grande aliado do liberalismo e procuram combater a artificialidade que a ciência moderna instaurou.

  19. xico

    Numa coisa concordo. A Espanha (quase toda) e a Andaluzia em particular, são completamente exóticas no contexto europeu, ou latino como diz o bloguer.Há mais diferença entre Portugal e Espanha do que Portugal e França por exemplo.Seria interessante procurar esse exotismo ainda mais longe. A diferença entre visigodos e suevos, que explicariam a diferença entre Castela/Andaluzia e Galiza/Portugal)???!!! E aqui parece-me que o elemento islâmico não conta pois seria um elemento aglutinador e não separativo.

  20. Os muçulmanos ficaram muito mais tempo em Espanha do que em Portugal, poderia ser por aí.

    Mas eu também não “compro” muito a explicação muçulmana (que nem me parecem grandes amigos de beber durante as celebrações, para dar um exemplo).

    No entanto, há quem diga que os povos pastoris têm uma personalidade diferente dos agrários (mais indisciplinados, mais aventureiros, mais dados ao dramatismo, ao heroísmo, à generosidade com os amigos e a ódios mortais com os inimigos, etc.); talvez os muçulmanos (sendo originalmente pastores nómadas) tenham deixado esse espírito? (mas repito que me parece uma tese fraca)

  21. Carlos M. Fernandes

    É como eu disse, não há certezas nem eu as tenho. Mas pegando no comentário do Miguel Madeira, é bom recordar que há notícias destes hábitos muito andaluzes de misturar religião, festa, comida e bebida, pelo menos desde o século XVI (recordo que os muçulmanos saíram de Granada no final do século XV). E deixo também aqui (sem ser como argumento de autoridade) uma interessante observação do conhecido hispanófilo Gerald Brenan (o melhor, de acordo com outro hispanófilo, Ian Gibson):

    Por ende, y como justificación de aquellos que no lo eran, conviene aclarar por qué el celibato sacerdotal no ha sido siempre tan estrictamente observado en España como en los países del Norte. Originalmente, si Marcel Bloch está en lo cierto, esta regla se estableció a causa de la creencia popular de que una misa celebrada por un sacerdote cuyo cuerpo hubiese sido mancillado por la relación sexual, perdía eficacia; pero los españoles no aceptaron esto, a causa de la influencia del punto de vista musulmán, según el cual el sexo no constituía impureza espiritual alguna.

  22. Carlos M. Fernandes

    Brenan tem mais observações relevantes neste contexto, sobre a presença de antigas práticas muçulmanas na religião católica andaluza (no seu livro Al Sur de Granada, que está muito longe de ser um manifesto sobre a presença moura no sul da Europa): os rituais de San Juan, as relações entre homem e mulher, o clero, a adoração da Virgem (especialmente em Almeria), etc. Em tudo isto se encontram vestígios da presença moura em Granada e nas Alpujarras (que é desta região que o livro trata).

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