“Homossexuais no Estado Novo”

Mesmo considerando que a autora é São José Almeida e que em Portugal quase tudo é permitido à extrema-esquerda, isto é mau demais: Irei cuspir-vos no túmulo. (via Paulo Marcelo)

Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». E isto, note-se, em tempos democráticos, onde a tolerância social face à homossexualidade é muito maior. Mesmo agora, em nossos dias, muitos optaram pelo anonimato. Que alguém não queira assumir em público a sua orientação sexual é perfeitamente legítimo. Mas quem assim procede não pode – ou não deve – dizer que Beltrano e Sicrano eram homossexuais.

Em síntese, António de Oliveira Salazar, no fundo, no fundo, era um liberalão para os seus compinchas gay. Daí que Paulo Rodrigues fosse homossexual «publicamente» (Ruben de Carvalho dixit), Pedro Feytor Pinto «assumidamente homossexual» e Gustavo Cordeiro Ramos, enfim, um ver-se-te-avias de meninos em pensões e urinóis. O regime fechava os olhos ao facto de Robles Monteiro ter uma inclinação ardente por soldados da paz e de sua mulher, Amélia, se atirar forte e feio às actrizes mais novitas que se iniciavam nas artes de palco. Fernanda de Castro e António Ferro, outro casal-maravilha do Estado Novo, apadrinhavam um grupo que era «claramente um círculo de relações homossexuais» (pág. 128). Anafado e bonacheirão, Ferro protegia Leitão de Barros, que era homossexual, como homossexual era também um tal de Francis, bailarino famoso do Verde Gaio (pág. 129). A casa do declamador e actor João Villaret era conhecida por «Alfeite» (pág. 129), porventura devido à quantidade inusitada de marinhagem que por lá atracava a desoras. E, em 1952, lá temos a misteriosa morte de Carlos Burnay, descrita como «homicídio», sendo a vítima, claro está, «homossexual» (pág. 133).

14 thoughts on ““Homossexuais no Estado Novo”

  1. JM

    Sinceramente, who cares?

    Não percebo esta cruzada contra a esquerda ou extrema-esquerda ou o que quer que seja…

    Pergunta:
    Ao dar-lhes importância, não estaremos somente a extremar posições (o que eles tanto gostam) e a dar-lhes tempo de antena?

    Se em questões políticas até compreendo, neste tipo de questões acho mesmo desnecessário. Who cares if Salazar’s fellows were faggets? Deixem lá os Leninistas divirtir-se com isso.

  2. Luís Lavoura

    Discordo deste post, não entendo a sua lógica.

    “Dizer que Beltrano e Sicrano eram homossexuais” não é ofender essas pessoas (já falecidas, mas mesmo que ainda fossem vivas) nem insultá-las nem difamá-las. Ser homossexual não é crime nem delito. Ser homossexual é uma caraterística da personalidade, nada mais.

    Não se está a cuspir em ninguém nem no túmulo de ninguém. A afirmação de que Beltrano e Sicrano foram homossexuais pode, naturalmente, ser falsa. Mas em caso algum pode ser encarada como uma difamação ou um insulto.

  3. PedroS

    “A afirmação de que Beltrano e Sicrano foram homossexuais pode, naturalmente, ser falsa. Mas em caso algum pode ser encarada como uma difamação ou um insulto”

    Aquilo que alguém acha “normal” pode por outro ser considerado um insulto (p.ex., um estalinista acha louvável chamarem-lhe “comunista”, mas um conservador pode sentir-se insultado se fôr alvo do mesmo epíteto, assim como um comunista se sente insultado se alguém lhe chamar “um perfeito fascista”, epíteto este que seria concerteza considerado altamente elogioso por um qualquer ministro do Mussolini) …

    De qualquer forma, sendo ou não um insulto, dizer que alguém é homossexual (ou que traiu a mulher, ou que é bígamo…) sem razões ponderosas de interesse público é uma devassa da sua vida privada, e a reserva da privacidade é um dos direitos plasmados na Constituição.

  4. Joaquim Amado Lopes

    O Luis Lavoura “não reparou” num pormenor: os homossexuais que “relevaram” a ALEGADA homossexualidade de quem já não pode confirmar ou negar tal ALEGAÇÃO fizeram-no “a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato”. Se “Ser homossexual não é crime nem delito. Ser homossexual é uma caraterística da personalidade, nada mais.”, por que razão não o assumem eles próprios?

    Como o PedroS refere, esta é também uma questão de privacidade. Se as pessoas ALEGADAMENTE homossexuais não o assumiram em vida e essa condição não crime nem delito, que direito têm esses anónimos, por definição (em algo que afirmam natural e não condenável) cobardes e hipócritas, de o revelar?

    É curioso que, cada vez mais, os direitos (à privacidade, à liberdade de opinião e de expressão e até à greve – o que implica o direito a a ela não aderir) são apenas de alguns que os reclamam para si próprios mas não os reconhecem aos outros.

  5. Luís Lavoura

    Pedro S,

    as razões ponderosas de interesse público é a historiografia ou a ciência histórica. Trata-se de figuras públicas. Não se trata de estudar a sexualidade do Pedro S ou a minha, mas sim de figuras relevantes da política, economia, cultura, etc. Para a história de Portugal interessam as pessoas e as suas idissincracias.

    Quanto à reserva da vida privada, ela existe para pessoas vivas e anónimas. É discutível que exista para personalidades públicas, mas podemos aceitar que sim, pelo menos quando não são essas próprias pessoas públicas que andam a expôr em público a sua intimidade. Já quando se trata de pessoas já falecidas, não existe reserva de vida privada.

  6. Luís Lavoura

    Joaquim Amado Lopes,

    há uma distinção evidente entre revelar pormenores da vida privada de pessoas já falecidas e de pessoas ainda vivas.

    As pessoas ainda vivas têm, em princípio, direito à reserva da vida privada. O mesmo não se aplica a pessoas já falecidas, especialmente se se trata de figuras públicas (da política, economia, cultura, etc).

    Ademais, quando a pessoa X, viva, testemunha sobre a vida privada da pessoa Y, já falecida, não é obrigada por isso a revelar também a sua própria vida privada. Porque, como dito acima, a pessoa X, viva, tem direito a manter a reserva da sua vida privada.

    Por exemplo, após a morte do presidente francês Miterrand foi publicamente revelado, por variados jornais, o facto consabido que Miterrand tinha uma filha “ilegítima” (fora do casamento). Os jornalistas que revelaram esse facto não tiveram por isso que desvendar a sua própria vida privada. Os filhos ilegítimos de uma pessoa pública já falecida podem ser revelados. Quem os revela não tem necessariamente que revelar se também tem filhos ilegítimos.

  7. Anónimo

    Acrescento ainda mais: a pertinência da revelação aumenta quando considerado o facto da homossexualidade ser crime na altura do Estado Novo.

  8. Joaquim Amado Lopes

    Luis Lavoura,
    1. O que é privado é privado, independentemente de a pessoa em causa estar viva ou ter falecido.
    2. Um aspecto da vida privada que não se justifique vir a público durante a vida da pessoa em causa não tem qualquer importância histórica. Figuras públicas ou não, os apectos da sua vida privada que não estejam relacionados com a sua vida pública são privados e assim devem continuar.
    3. A suposta homossexualidade de alguém baseada em “testemunhos” anónimos não tem qualquer valor e não pode ser assumida como verdade.
    4. Fazer revelações sobre a vida privada de quem já não se pode defender da eventual calúnia é cobarde.
    5. Se a alegada homossexualidade dos visados não tem qualquer importância, não se compreende a “revelação” e muito menos se compreende que os “reveladores” não assumam publicamente a sua própria homossexualidade.

    Quem fez essas “revelações” escudado no anonimato é cobarde e hipócrita. Merece que TODOS os aspectos da sua vida privada sejam expostos.

  9. joao carlos

    estes ditos “homosexuais anónimos” são como aquelas prostitutas que têm orgulho em o ser, mas lá no fundo sentem-se diminuidas, razão pela qual passam a vida a dizer que têm clientes advogados, médicos, juizes, policias, politicos etc, como forma de se sentirem um bocadinho mais prestigiadas em termos morais.

  10. eu emigro

    A questão do dito amontoado de papéis até me parece outra: a encomenda da D. São é um panfleto, uma canhestra e contraproducente apologia da homossexulidade. Aquela medonha cabeçorra só um aborto desses podia parir, tão desprovida é, coitada. Aparece assim infectada de bastardia, como um Alegre sem versos, indigna-se com discriminações e desigualdades e de caminho evoca inocente as ‘criadas’ lá de casa. Que nada de inteligível sai daquele bestunto comprova-o insistentemente no Púbico. Aliás desde que dirige o pasquim, dia sim, dia sim, afifa-lhe um artiguelho de propaganda panasca.

  11. Miguel Barros

    Como sois básicos e pueris. Pareceis adolescentes a discutir. Então não se pode falar da vida privada dos mortos? Meu Deus, como é possível? Então e as grandes obras da literatura inspiradas na vida privada (de mortos)? Não interessa nada se a Cleópatra foi ou não amante de Marco António. Não o discutamos, é cobarde!!! Ela já cá não está para se defender. Ou, para estas mentes brilhantes só contam mortos recentes? Os outros não têm direito à sua privacidade? Faço aqui um apelo – uma petição JÁ – pelo direito à vida privada de todos os mortos (a ser discutida publicamente no próximo dia 1 de Novembro). Bem hajam, inteligentes de Portugal.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s