Um país de meninos (2)

A culpa, segundo Milan Kundera, é de Homero, quando glorificou a nostalgia por meio de uma coroa de louros e estipulou assim uma hierarquia moral dos sentimentos. Isto é, Ulisses preferiu voltar ao conhecido (Ítaca, Penélope) e deixar a exploração apaixonada do desconhecido (Calipso). E assim nasce uma cultura mediterrânica colada à terra: partir com a volta em aberto é apenas o último recurso de um desesperado. Chora-se a distância do pastel de nata e do pastel de bacalhau, do sol e do mar. E a terra, a família ou os filhos servem de escusa, ou mesmo argumento de autoridade, para a imobilidade e passividade (como na patética e arrogante carta ao Primeiro-Ministro que anda por aí, na qual se pede que todos paguem as opções pessoais de alguns, como se estas opções fossem inerentemente acertadas, uma “estrada real” que leva à glória e aos “direitos adquiridos). Os filhos, coitadinhos, não podem ser afastados dos seus amigos, das suas raízes, da sua escola, e se calhar o melhor é procurar já uma casinha para o petiz, no mesmo bairro e, de preferência, no mesmo prédio dos papás, não vá ele um dia sentir a falta do calor das coisas familiares. É um cenário muito ternurento, sem dúvida. Mas há um problema. A tragédia, para toda esta gente, é que o mundo não pára e ao nível das sociedades e das culturas também há uma co-evolução darwinista e um efeito Rainha Vermelha. E uma cultura, ou se adapta, ou morre. Por muito que gritem e esperneiem os meninos mimados.

28 pensamentos sobre “Um país de meninos (2)

  1. maria moutinho

    oh meu amigo! e meter isso na cabeça do meninos e dos progenitores? infelizmente fui sempre muito criticada por dar asas e ensinar a voar aos meus rebentos porque tive o previlégio de ter uns Pais que assim já mo ensinaram……… mas nem todas as pessoas têm esse previlégio e, tal como me aconteceu, a minha prol há anos que é alvo de inveja.

    resta-me acrescentar que sou da colheita de 56 e a prol de 79 e 80………e os pais são de 33 🙂

  2. o fantasma

    Gostei do que li:Apenas acrescentar:Não é por amor á juventude,aos mais qualificados aos professores que o primeiro ministro pede para se irem embora procurar trabalho noutros países.Não Não é! Durante dezenas de anos os emigrantes mandaram milhões de contos para Portugal.Agora e,não só de agora as remessas dos emigrantes desceram muitissímo.
    Dois Mais Dois são quatro.Há que incentivá-los a emigrar novamente.Isto não tem nada com crise.Isto é politica.suja politica.\A primeira emigração teve outros motivos.Esta que os politicos pedem tem outros muito mais preversos.

  3. Luís Lavoura

    “na [carta] se pede que todos paguem as opções pessoais de alguns”

    Li a carta e não vi nela tal pedido.

    Não vi na carta nenhum pedido de emprego, de subsídio, etc.

  4. Joaquim Amado Lopes

    Luis Lavoura,
    Eu li a carta e vi muita arrogância (” Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale.” e “aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais.”), queixas (“Ganhei, claro, infinitamente menos.”) e muita falta de senso.
    A sugestão de que seja o Primeiro-Ministro e o resto do Governo a emigrar é realmente patética.

    Se o Luis acha que toda a carta não é mais do que uma expressão de revolta por o Estado não lhe garantir um rendimento à altura das suas muitas habilitações, então devia aprender a ler.

  5. Ramone

    Pois é caro Joaquim, se for uma cartinha de banqueiros a reclamar que o Estado isto, o Estado aquilo…já não é arrogância, já devemos escutar com atenção, levar em conta, etc. Que um cidadão qualquer o faça, que reclame, é porque já é algum parasita.

  6. Pedro S

    Ramone, não me recordo de alguma vez o Joaquim nestas caixas de comentários ter “aplaudido” uma qualquer “carta dos banqueiros”… Recordo-me, pelo contrário, de várias vezes os Insurgentes clamarem contra o “salvamento” dos Bancos à custa do erário Público.

  7. Ramone

    Já agora, julgo que devem saber que para Marx o capitalismo teve um momento em que foi libertador. No Manifesto Comunista Marx faz uma descrição acutilante do processo libertador do capitalismo em relação a formas anteriores que eram ainda mais opressivas.
    O que tem acontecido é que o capitalismo, que começou por ser um momento dos regimes políticos mais liberais, inverteu a sua relação com estes regimes, e são agora os regimes liberais que são um momento do capitalismo – e isto não aconteceu sem intervenção dos partidos liberais sobre o Estado e a economia.

    Mas aconteceu um outro movimento dentro do próprio capital. O capital financeiro começou por ser um momento do capital industrial, no entanto o desenvolvimento do capitalismo está a levar a uma inversão desta relação, onde, portanto, o capital industrial passa a ser um momento do capital financeiro que, dessa forma, passa a alfa e ómega do capitalismo.

    Uma vez que o capitalismo já tinha subsumido a democracia liberal acontece agora que o financeiro subsumindo o capital industrial, se tornou o senhor dos povos, das economias e dos regimes políticos liberais. Quando depois de uma reunião ao mais alto nível dos governantes da UE se diz ter de se esperar pela reação dos mercados financeiros para avaliar o trabalho que foi feito, julgo que se percebe o que estou a dizer.

  8. tainha

    Quando o assunto é o PPC o sr Joaquim chama a factos arrogância… como se as habilitações literárias fossem sujeitas a opinião ou o CV do PM não fosse o espelho dos politicos do centrão(+PP): das jotas para os cargos politicos, dos cargos politicos para os conselhos de administração, e destes para mais conselhos e outras ‘politicas’. É destes “meninos” que o país precisa não é?

  9. Ramone

    Pedro S, não se trata de aplaudir ou deixar de aplaudir, trata-se da atenção com que são recebidos uns e outros – concorde-se ou discorde-se.

    Você já viu alguma marcha de rua de banqueiros a reclamar a atenção do governo? Nunca. Não precisam, têm os canais abertos.

  10. Joaquim Amado Lopes

    E o Ramone alguma vez me viu aqui defender que o Estado deve salvar bancos/banqueiros?
    Na realidade, a minha opinião é precisamente a oposta: os bancos que arrisquem falência devem ser deixados falir, para purgar o mercado de irresponsáveis e incompetentes. Portanto, quando não gostar daquilo que aqui escrevo, responda com contra-argumentos e não invente acusações parvas.

    Já agora, lembra-se de qual foi o último Primeiro-Ministro que nacionalizou bancos, enterrando neles milhares de milhões de euros dos portugueses para nada?
    Duas pistas:
    1. Não foi Pedro Passos Coelho.
    2. Também comprometeu o Estado com dezenas de milhares de milhões de euros em Parcerias Público-Privadas, só para enriquecer ainda mais os amigos dele, anunciar obra sem a pagar e deixar a factura para quem viesse a seguir. Mesmo assim, conseguiu duplicar a dívida pública em apenas 6 anos.

  11. Ramone

    “Já agora, lembra-se de qual foi o último Primeiro-Ministro que nacionalizou bancos, enterrando neles milhares de milhões de euros dos portugueses para nada?
    Duas pistas:
    1. Não foi Pedro Passos Coelho.”

    Desculpe mas, objectivamente, isto é conversa da treta. Se a direita estivesse no governo e tivesse percebido no BPN um risco sistémico teria tomado um rumo idêntico, tanto assim é que em face da necessidade de recapitalizar a banca privada o actual governo já se desponibilizou a colocar lá dinheiros públicos.

  12. PedroS

    “Se a direita estivesse no governo e tivesse percebido no BPN um risco sistémico teria tomado um rumo idêntico”

    Falta provar esta afirmação …

    “actual governo já se desponibilizou a colocar lá dinheiros públicos.”

    Correcção: O actual governo “convidou” os bancos a aceitar o financiamento que a Troika lhes reservou. Não consta que os bancos tivessem aceite.

    PS: Estranhamente (ou talvez não) enquanto os bancos portugueses compravam a dívida portuguesa o PS e respectivos apoiantes não os criticavam 😉

  13. Ramone

    PedroS, este é um debate virtualmente infinito. No momento julgo que é melhor simplesmente tomar nota de suas considerações e não comentá-las directamente. Não tome isto como quaquer desconsideração mas apenas que no essencial já explicitei as minhas posições de fundo, nomeadamente no comentário #10.

    Concerteza que nos encontraremos novamente por aqui e que teremos, caso assim o entendamos, oportunidade de voltar a debater.

  14. Joaquim Amado Lopes

    Ramone,
    Essa do “risco sistémico” tem muita piada. O Ramone também deve acreditar que o TGV era sustentável, que as SCUT’s não iam custar nada aos contribuintes, que o Magalhães é mesmo um computador português, que as Novas Oportunidades estão realmente a qualificar os portugueses, que os estádios de futebol e as PPP’s foram uma boa ideia, que a crise não ia atingir Portugal, que a crise ia atingir Portugal mas que o impacto ia ser mínimo, que Portugal foi o primeiro país a sair da crise, que uma dívida pública que duplicou em 6 anos estava controlada, que manter um deficit público perto dos 3% do PIB um único ano e à custa de (muitas) receitas extraordinárias é manter as contas públicas em ordem, que a crise em Portugal é toda culpa da crise internacional, na Fada dos Dentes e no Pai Natal.
    A única coisa “sistémica” no BPN foi que o (des)governo so-cretino, afirmando que não ia custar mais de 700 milhões de euros, arranjou maneira de lá enfiar muitos milhares de milhões para fazer sair boa parte deles para as contas off-shore dos amigos e família.

    Mas tem razão numa coisa, não vale a pena discutir consigo. De cada vez que tiver vontade de criticar este Governo por alguma coisa, lembre-se do seu próprio argumento: se lá estivessem outros, fariam exactamente o mesmo.
    Para mim esse argumento não vale nada mas há so-cretinos que ainda têm a lata de usar essa “defesa” para justificar os crimes cometidos pelo “querido líder” e respectivo bando.

  15. Joaquim Amado Lopes

    Meu caro Ramone,
    A sua argumentação, particularmente a do comentário 10 que é suposto “explicitar” as suas posições de fundo e que pelos vistos nem sequer era para publicar neste thread, é que nem a si o deve satisfazer.

    A única “argumentação” que lhe li foi inventar posições que outros nunca defenderam (comentário 8), o “risco sistémico” do BPN (um insulto à inteligência dos portugueses, considerando a dimensão do banco e o facto de a SLN, proprietária do banco, ter manifestado querer assumir as suas responsabilidades e recuperá-lo) e a insinuação de que outros governos teriam cometido exactamente o mesmo disparate (comentário 15).

    A nacionalização de bancos em dificuldades só é uma boa ideia para quem julga que todos os bancos deviam ser públicos e instrumentos da política governamental. Para os capitalistas, os bancos que deixam de ter condições para funcionar abrem falência e os accionistas e gestores respondem pelas consequências da sua incompetência e irresponsabilidade. O problema complica-se quando os banqueiros se viciam no socialismo e se viram para o “pai Estado” quando as coisas lhes correm mal.

    Quem salva os maus banqueiros e faz com que valha a pena ser mau banqueiro (ganancioso, irresponsável e incompetente) são os socialistas, não os “neo-liberais”.

  16. Ramone

    Caro Joaquim,

    A razão de eu ter dito que este debate é virtualmente infinito é fácil, julgo, de perceber.
    Você diz que Sócrates tinha alternativas. Sócrates diria que na altura não tinha. Ok.
    Mas agora Passos diz que não há alternativas à sua política e o PS diz que há.
    Passos desculpa-se com a Troika e com o PS. Antes Sócrates desculpava-se com a crise internacional.

    Por isso eu remeti para o meu comentário 10, que na altura foi colocado aqui por engano mas que dada a evolução da discussão para fora do tema estrito da emigração e para dentro de questões mais sistemáticas de relação dos governos e Estados com a Banca faz algum sentido aqui, agora.

    Você discorda de mim eu discordo de você. Pois bem. Não seria de esperar outra coisa, é por isso que você é de direita e eu sou de esquerda.

    Vocês agora estão no governo, de modo que podem inserir retrospectivamente a vossa narrativa no percurso causal que vos trouxe ao poder e assim justificar as vossas posições – é o que fazem os vencedores, todos eles, à esquerda ou à direita. É isso que significa a tese actual de não haver alternativas às decisões do governo, ou seja, faz-se de uma constante retrospecção da história de tal modo que cheguemos todos os dias à necessidade das medidas presentes de Passos Coelho. Afinal há que justificar de qualquer forma, enterrar por todos os meios possíveis, a crua realidade de um Passos que mentiu descaradamente na campanha sobre o que ia fazer no governo.

  17. Joaquim Amado Lopes

    Ramone,
    Em primeiro lugar, não estou no Governo. Votei no PSD (sou até militante desse partido) mas não exerço qualquer cargo partidário ou público.
    Devo mesmo dizer que votei no PSD a contra-gosto devido a muito do que Pedro Passos Coelho fez e disse durante a campanha mas, se soubesse o que ele ia fazer como Primeiro-Ministro, nem sequer consideraria a possibilidade de votar de outra forma.

    Quanto ao que escreveu, confesso que me é muito difícil acreditar que alguém que consegue escrever frases minimamente coerentes (em termos de gramática) escreva coisas como “Passos desculpa-se com a Troika e com o PS.”.

    O Ramone tem alguma noção do que se passou neste país nos últimos anos? Acompanhou as notícias e registou o que José Sócrates foi dizendo ao longo do tempo em que exerceu o cargo de Primeiro-Ministro? Tem noção de como a dívida pública evoluiu ao longo desses anos, desde muito antes de quando José Sócrates dizia que a crise internacional nem sequer ia atingir Portugal? Faz ideia dos compromissos financeiros com PPP’s que os dois últimos Governos deixaram para pagar nas próximas 3 décadas?

    Quem mentiu descadaramente durante os últimos anos foi José Sócrates. Neste momento temos (finalmente!) um Primeiro-Ministro que nos apresenta a realidade como ela é, o primeiro passo e o mais importante para podermos lidar com ela. Não está a fazer tudo bem nem fez tudo o que podia e já devia ter feito mas pelo menos temos um Governo que assume aquilo que os socretinos (também se pode ler sem o “so”) continuam a fingir que não vêem: que Portugal viveu durante demasiado tempo acima das suas possibilidades e que vamos todos ter que viver com menos e produzir mais.

    A crise internacional afectou-nos mas apenas acelerou o que os desvarios socretinos já tinham tornado inevitável. A “crise internacional” foi e continua a ser uma desculpa mas as imposições da troika (que foi chamada pelo Ministro das Finanças de José Sócrates e sem a qual não haveria dinheiro para manter o Estado a funcionar) e o estado calamitoso das finanças públicas que o PS deixou são realidades incontornáveis.

    As “mentiras” que Pedro Passos Coelho tenha dito durante a campanha eleitoral são brincadeira de meninos comparadas com os autênticos crimes contra Portugal e contra os portugueses cometidos por Sócrates e respectiva quadrilha. Os socretinos, incapazes da decência de o reconhecer, deviam ter no mínimo suficiente vergonha na cara para não abrirem sequer a boca.

    Esta não é uma questão de direita ou esquerda. É uma questão precisamente de não deixar que ser de direita ou de esquerda nos impeça de reconhecer o estado em que os socretinos deixaram o país e aceitar o que é necessário fazer para tentar salvar o que ainda puder ser salvo.

  18. Ramone

    Joaquim, você apenas traz como resposta a propaganda eleitoral do PSD. Precisamente aquela mediante a qual apresentou propostas (o PSD) mentirosas. Julgo que não é difícil perceber que na medida em que as propstas, uma vez no governo, são perfeitamente diferentes daquelas da campanha – que eu seu comentário aqui revive – também o diagnóstico da crise só pode estar mal feito. Você recusa-se a entender que temos um conjunto de instituições financeiras internacionais cheias de activos tóxicos derivados da crise americana e que do que se trata essencialmente é de cobrir esses activos com resgates do FMI/UE e com o aumento das taxas de juro das dívidas soberanas. É por isso que faça o que fizer o mentiroso do Passsos Coelho o regresso de Portugal aos mercados está fora das mãos dele. Julgo que por muito que sejam os esforços da propaganda dos orgãos do governo como o Correio da Manhã, o Sol, a Tvi, o povo não vai demorar muito a perceber isso e a correr com esta alforreca que foi eleita sob falsos pressupostos.

  19. Joaquim Amado Lopes

    Ramone,
    A dívida pública portuguesa ter passado de pouco mais de 40% para quase 100% do PIB em apenas 6 anos não é “propaganda eleitoral do PSD”. É uma parte da realidade, já que uma grande parte da dívida real foi escondida nas empresas públicas.
    As PPP’s (através das quais o Estado fica comprometido a pagar muito mais do que o custo das obras, juros e lucros das empresas) não são “propaganda eleitoral do PSD”. São a realidade.
    As SCUT’s (que foram um péssimo negócio para o Estado e algumas delas “renegociadas” nos últimos meses do desvario socretino para serem ainda um negócio pior) não são “propaganda eleitoral do PSD”. São a realidade.
    Os PEC’s sucessivos, cada um deles que resolveria todos os nossos problemas mas que não resolveram nada, não foram “propaganda eleitoral do PSD”. Foram realidade.

    A bolha da especulação imobiliária, fomentada pelo crédito fácil (já agora, lembra-se de qual foi o Primeiro-Ministro que incentivou os portugueses a consumirem mais e comprarem casas e carros a crédito porque os juros estavam baixos?) e potenciada pela criação de “produtos de investimento” deliberadamente complexos para esconder a sua fragilidade e os passar para outros bancos, tinha que rebentar. Mas o problema de Portugal não é esse, é o de ter um deficit público crónico, o que implica numa dívida pública crescente.
    Quem deve cada vez mais dinheiro tem cada vez menos capacidade de pagar as suas dívidas e, por isso, tem cada vez mais dificuldade em se financiar e tem que aceitar pagar juros cada vez mais altos, o que transforma numa bola de neve. E é esse o verdadeiro problema de Portugal.

    Quanto a Portugal “regressar” aos mercados, vê-se o quanto o Ramone percebe do que fala. Portugal nunca saiu dos mercados e continua, a par do dinheiro que recebe emprestado da troika, a vender dívida pública. Não estivesse cá a troika e não estivesse o Governo a fazer o que está a fazer e os juros que teriamos que pagar seriam muitíssimo mais altos.

    O que depende de Pedro Passos Coelho é mostrar à troika e aos mercados que está a fazer o que é necessário para que as contas públicas voltem a estar controladas, o que só acontecerá quando o deficit público passar a superavit e exigirá muitos mais sacrifícios do que aqueles que estão agora a ser impostos.
    Devo dizer que, com a falta de senso revelada por pessoas como o Ramone (representantes de uma esquerda que julga que podemos exigir aos outros países que nos continuem a sustentar), tenho cada vez menos esperança que isso seja possível.

    Veja se entende de uma vez: Portugal não tem dinheiro para sustentar o Estado que tem e, se a torneira dos crédito externo se fechar (o que acontecerá se deixarmos de cumprir os compromissos que assumimos), ficaremos muitíssimo pior.

  20. Ramone

    “A dívida pública portuguesa ter passado de pouco mais de 40% para quase 100% do PIB em apenas 6 anos não é “propaganda eleitoral do PSD”.

    Joaquim, eu pensava que tinha sido de 60% para 100% – mas não deixe que um erro de 20% incomode o seu argumento.

    Lembro ainda, em nota de roda pé, que o PSD, em 3 anos, de 92 a 95 aumentou a dívida pública em 46%.
    Mais tarde, no anterior PSD/CDS foram outros 15% em menos de um mandato.

    Mas é assim, na narrativa do PSD o PS é que é o despesista. Isto apesar de nunca ter dado o exemplo.
    Agora, que está determinado a dar o exemplo, vai fazê-lo arruinando por completo o país, ou seja, criando condições para um maior peso da dívida sobre o PIB.

    Tenho esperança, no entanto, que o povo perceba ao que vem Passos antes ainda dele consumar a miséria total do país e tome o lugar dele alguém mais sensato – que até pode ser do PSD. Alguém cujo interesse primordial é o povo e o país e não algum imperativo moral qualquer relacionado a uma actividade onde a moral não tem lugar nenhum como é a finança.

  21. Joaquim Amado Lopes

    Ramone (25),
    Pois eu tinha a ideia de que a dívida pública em 2004 era de cerca de 42,5% do PIB. Erro meu. Mas mantenho a conclusão.

    Portugal está comprometido a manter a dívida pública abaixo de 60% do PIB. Segundo o Ramone, esse limite estava a ser respeitado quando José Sócrates assumiu o cargo de Primeiro-Ministro. 6 anos depois, a dívida pública passou para 100% do PIB.

    Não me vai dizer que foi culpa da crise internacional, pois não? É que, segundo os dados fornecidos por Eugénio Rosa (link seu), de 2004 a 2008 a dívida pública passou de 84 para 110 mil milhões de euros. 26 mil milhões de euros, que correspondem a um aumento da dívida pública em 30% em 4 anos.
    Em contrapartida, os dois Governos maioritários de Cavaco Silva (1987 a 1995) aumentaram a dívida pública de 19 para 54,4 mil milhões de euros. Um aumento de 186% no valor da dívida e que corresponde a 35,4 mil milhões de euros.

    Ou seja, mesmo sem contar as receitas das privatizações (média anual de cerca de 745 milhões “para” Cavaco Silva e de cerca de 929 milhões “para” José Sócrates), o aumento anual da dívida pública durante os Governos de Cavaco Silva foi menor do que durante o primeiro mandato de José Sócrates (Eugénio Rosa só apresenta valores de 1987 a 2008).
    E isto não inclui todas as receitas extraordinárias irrepetíveis (p.e. incorporação de fundos de pensões privados na Segurança Social) e não se consideram as PPP’s, que diferem despeza para o futuro.

    Além de que o ponto de partida de cada Governo é completamente diferente. Ou acha que aumentar uma dívida de 40% do PIB em 25% (para 50% do PIB) é igual a aumentar uma dívida de 80% do PIB na mesma proporção (para 100% do PIB)?

    Quanto ao “imperativo moral” a que se refere, que tal o imperatico que é o Estado português poder continuar a aceder a financiamento externo sem o qual não poderá pagar as reformas, os ordenados dos funcionários públicos e as contas das escolas e dos hospitais? Financiamento externo esse que seca no momento em que Portugal der razões aos mercados para estes acreditarem que as dívidas já não vão ser pagas.

    Por acaso o Ramone julga que, se Portugal ameaçar não pagar as suas dívidas, os investidores vêm a correr dar-nos ainda mais dinheiro?

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