No Fio da Navalha

 

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A ferida da Europa

A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal, não há euro que lhe valha.

A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.

George Steiner

Até à segunda guerra mundial, existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como que de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.

Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (A Ideia de Europa – Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local conspirativo, de convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus Judaico, conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça, como sendo algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias tem disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim, é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.

Foi esta diversidade que desapareceu no século XX. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia é mais sobre estados que sobre povos. Um processo que culmina na Segunda Grande Guerra, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje, políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem-no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou.  Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.

Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas para os problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo aos homens darem um salto gigantesco no caminho do desenvolvimento humano. Quem sabe, não pode novamente ser esse o papel da Europa. Um espaço de liberdade, de livre circulação de pessoas, bens e serviços; de bem estar, mas também de utilização da herança cultural como modo de contestar o que existe. De reflectir, tornando-nos a todos, dignos de viver.

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4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Ramone

    Pensei que para a direita os governos devem apenas administrar assuntos correntes. Não percebo como é que agora, e afinal, querem dos governos medidas de alcance civilizacional.

    Enfim…haja saúde.

  2. Paulo Pereira

    Este Euro fantasista é o fruto de uma aliança entre Estatistas de esquerda e de direita, que não entendem como funciona o sistema capitalista moderno.

    A ideia de criar uma Mega-Estado Europeu rigido está condenada ao fracasso, e servirá para empobrecer os cidadãos europeus.

  3. agfernandes

    André

    O problema é que “esse papel da Europa” está desde logo condicionado à formatação das actuais lideranças políticas ou zonas de influência.
    Concorda?
    Ana

  4. Cidadão de 5ª

    Gay.

    Quem escreveu isto sem se aperceber das contradições, do quão errado está, e do Nilismo que está subjacente a isto tudo… parece até um companheiro do outro do blog do Arrastão…

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