A Inglaterra

 

A decisão de Cameron vetar a alteração dos tratados europeus terá sido difícil e trará sérios problemas para o Reino Unido. O isolamento britânico vai deixar mossas, até porque o Reino Unido já não é o principal aliado de Washington. Pior ainda: sem o império, a própria existência do Reino Unido, como já tive oportunidade de mencionar aquando das eleições escocesas em 2007, pode deixar de fazer sentido quando a Escócia perceber que o acesso aos mercados internacionais, que procurou em 1707 quando se ‘juntou’ à Inglaterra, será mais fácil dentro da União Europeia, que no próprio Reino Unido.

Os riscos são muitos, pelo que se torna fácil criticar a decisão de Cameron que, aliás, tem muitos críticos no seio do seu próprio país. Sucede que, como já referiu Vasco Pulido Valente, o Parlamento britânico nunca aceitaria submeter-se aos ditames de Berlim, de Paris e da eurocracia não eleita de Bruxelas. Não o fez no passado, não o fará agora. Por muitos que sejam os riscos e as dificuldades. Por muitas que sejam as críticas e apreensões dentro da própria sociedade britânica, elas sempre existiram em situações como a presente. A democracia, a verdadeira democracia parlamentar, quando não é apenas uma palavra, mas um modo de vida, vale por isso e muito mais.

Da mesma forma, Cameron protegeu a praça financeira que é Londres, como no passado a Inglaterra defendeu os seus comerciantes. O poderio inglês, e depois britânico, cresceu com o liberalismo económico que nasceu entre os negociantes e os lojistas. Foram eles que exigiram um Parlamento que os protegesse contra o poder absoluto do rei e o despotismo das potências continentais. Olhando para o passado, facilmente se compreende a decisão de Cameron. E quem não tirar ilações do passado, condenando sem perceber a razão de fundo do governo britânico, acaba por, não querendo ouvir a história, cometer os erros que a história ditou.

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9 thoughts on “A Inglaterra

  1. Luís Lavoura

    “o Parlamento britânico nunca aceitaria submeter-se”

    Haveria uma forma simples e direta de testar esta teoria: apresentar o tratado europeu à aprovação do parlamento britânico, para este o aprovar ou rejeitar.

    Ou seja, fazer o mesmo que a República Checa, a Hungria e a Suécia disseram que fariam: apresentar o assunto aos seus respetivos parlamentos.

    Cameron rejeitou a priori o tratado europeu, sem sequer dar ao parlamento britânico oportunidade de se pronunciar. Por isso, nunca saberemos se o Parlamento britânico aceitaria ou não submeter-se.

  2. Lionheart

    A “Europa” está a deixar de ter acesso aos mercados e a Escócia ia ter acesso aos mercados através da “Europa”?? A “Europa” vai deixar de “sustentar” a Irlanda, Portugal e a Grécia e ia agora aguentar a Escócia? Uma coisa são as eleições regionais, outra é o apoio à independência, porque nem todos os eleitores que votaram SNP nas últimas eleições a defendem. A maioria quer um governo regional nacionalista, mas não quer deixar a União. Seria até fora de tempo, numa altura em que o sentimento pró-britânico na Irlanda nunca esteve tão alto, por causa da desilusão com a UE. Mas não duvido que há forças continentais a financiar o SNP, há muito tempo. Certamente que há.

    A posição de Cameron traz riscos e dificuldades, mas alinhar pelo “consenso” europeu traria ainda maiores problemas. Desde logo a ingovernabilidade do Partido Conservador, além de que não ganharia NADA. Não me admiro nada que o “toff” se atire para a frente e entale toda a gente. Se convocar eleições antecipadas, o tema central será a “Europa”, a grande maioria apoia o governo contra Bruxelas e aí os “Liberals” e o seu europeísmo serão reduzidos a nada. Já com o novo mapa eleitoral em vigor, Cameron pode ganhar com maioria absoluta e ainda obrigar o Alex Salmond a ir a jogo antes de tempo.

  3. P.P.

    Para ter acesso aos mercados internacionais, a GB não precisa do bloco socialista da UE para nada; pelo contrário, pode beneficiar da eliminação de barreiras alfandegárias a que atualmente está obrigada por participar no bloco socialista da UE.

    Para ter acesso ao mercado europeu, a GB precisa apenas pertencer ao EEE (Espaço Económico Europeu), tal como a Noruega ou a Islândia; o mesmo se passa com a Suiça que nem sequer pertence ao EEE. Entre os países referidos e a o bloco socialista da UE existe livre circulação de pessoas, mercadorias e capitais.

    Se os britânicos tiverem a sorte de ver o seu país sair do bloco socialista da UE, poupam cerca de 50 milhões de libras/dia extorquidas aos contribuintes como comparticipação do país no financiamento da monstruosa burocracia socialista da EU.

    Se a GB sair da UE passa a ter a mesma influência que tinha antes, isto é, nenhuma; o bloco socialista da UE é um cavalo alemão montado por um joker francês.

  4. Paulo Pereira

    A decisão do Cameron foi além de tudo correcta do ponto de vista económico, pois os maluquinhos germânicos com a sua austeridade sincronizada vão dar cabo da economia da zona euro.

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