Crowding-out for dummies

Situação inicial: Uma economia produz e consome um só produto (peixe). Na situação actual, a economia poupa 4 peixes por período de tempo. Abaixo estão representados os fluxos de recursos em 4 cenários diferentes:

1º Cenário: Economia não monetária, sem estado

Os investidores utilizam as poupanças da economia, ficando em dívida para com os aforradores.

2º cenário: Economia monetária, sem estado

Os investidores utilizam as poupanças da economia, ficando em dívida para com o sistema bancário.

3º cenário: Economia monetária, com estado, sem expansão do crédito monetário

Os investidores privados e o Estado partilham as poupanças da economia. Há menos crédito monetário disponível para os privados (crowding-out), que se reflecte num menor número de recursos disponíveis para o investimento privado.

4º cenário: sistema bancário expande o crédito monetário, sem correspondente aumento de poupança real na economia (número de peixes não consumidos é o mesmo)

A poupança real da economia mantém-se a mesma, pelo que o estado e o privado têm que dividir o mesmo montante de peixes. Com o crédito monetário extra recebido, o estado pode comprar mais peixes do que o privado. Apesar de receberem o mesmo montante de crédito monetário que no cenário 3, os investidores privados têm acesso a menos recursos.
Independentemente do aumento de criação de crédito monetário, só os recursos reais efectivamente não consumidos (poupados) podem ser usados para investimento. Qualquer aumento da utilização desses recursos por parte do estado, significa obrigatoriamente uma diminuição da quantidade disponível desses recursos para os privados. Apenas com o aumento da poupança real na economia é possível aumentar o montante total de recursos disponíveis para investimento.

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77 thoughts on “Crowding-out for dummies

  1. Paulo Pereira

    Na economia em que eu vivo e que existe há 200 anos, a produtividade é crescente e para pescar 4 peixes só é necessário 1 pessoa.

    As outras estão a descansar, a estudar ou a produzir barcos que pescam 5 peixes só com uma pessoa.

  2. Carlos Guimarães Pinto

    Se quiser, em vez de 4, assuma 4 milhōes. Não muda nada. A questão fundamental permanece: se não existir poupança real de recursos, estes não estão disponíveis para investimento.

    Ou seja, se todo o peixe for consumido, não haverá peixe para alimentar aqueles que querem investir na construção de um barco.

  3. Paulo Pereira

    Muito bem dito. Ainda bem que esse problema foi resolvido há 200 anos.

    Estar a bater na tecla de que os alimentos , ou a habitação ou outros bens essenciais são escassos deve ser distração.

  4. Carlos Guimarães Pinto

    Sim, assumo que a explicação do post não se aplica à economia dos jardins do Éden.

  5. Paulo Pereira

    Pronto, na vossa economia não existe evolução tecnológica, nem inovação na gestão de processos.

    Pesca-se á linha .

    É a tal economia de subsistência de manual (mau ) de economia .

  6. Paulo Pereira

    Modelo Real :

    Empresa A que pesca peixes

    Empresa B que produz barcos para pescar peixes

    Banco que fornece crédito á empresa A

    Consumidores que consomem peixes, dos quais 3 trabalham na Empresa A e 1 na empresa B, porque sobram sempre no final da pesca 1 peixam, que serve de comida para o gato.

  7. Vasco

    PP você é socialista concerteza!
    Se lhe perguntarem qual o resultado da soma 2+2, como é que iria responder??
    Calculo que tudo menos 4…

  8. Paulo Pereira

    Vasco, é o capitalismo pá !

    Os capitalistas arranjam maneira de pescar 6 peixes porque gostam de gatos.

  9. Ausência de crowding out for dummies:

    Versão I

    Primeiro, temos uma produção de 10 peixes, dos quais 4 são poupados e, através da banca, investidos pelo sector privado.

    Depois o Estado* decide comprar mais 2 peixes, a crédito. Devido a terem mais encomendas, os pescadores vão mais um dia ao mar e apanham 12 peixes em vez de dez (com a procura a criar a sua própria oferta). Com o aumento da produção e do rendimento, poupa-se também mais, passando a poupança de 4 para 6 peixes.

    Ou seja, produção 12 peixes; poupança privada 6; investimento privado 4; deficit público 2.

    Nenhum crowding out face à situação inicial.

    [Concordo que, na prática, este exemplo de um crowding out nulo é bastante improvável; mas acho que também o é o exemplo de crowding out total apresentado no post]

    *em alternativa, o “Banco Popular Associativo” local distribui entre os seus associados 2 “vales de trabalho” dizendo “vale 1 peixe; este documento perde o valor ao fim de 6 meses” – penso que vai dar ao mesmo

    Versão II

    Ao verem que o Estado está a incorrer em deficit, que vai ser pago com impostos no futuro, os habitantes pensam assim “nós não temos realmente uma popupança de 4 peixes; estamos a poupar apenas 2 porque os outros 2 vão ser para pagar os impostos daqui a um tempo – logo, para pouparmos realmente 4 peixes, vamos ter que poupar 6”

    Assim, passamos a ter:

    Produção: 10 peixes; poupança privada 6, investimento privado 4; deficit público 2

    De novo, não temos crowding out do investimento privado (embora o consumo privado se reduza de 6 para 4; não sei se a isto também se chama crowding out)

    [Acho esta hipotese ainda menos provável que a anterior, mas palpita-me que será mais popular neste blog]

  10. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel, tanto num caso como noutro, o desvio de recursos para o estado só não gera crowding-out porque há um efectivo aumento de poupança (na versão I com aumento de produção e na versão II com redução de consumo). Parece-me então que neste ponto estamos de acordo: investimento=poupança.

    Em relação à versão 1 , parece-me mais uma procissão de fé assumir que a emissão monetária criará a sua própria oferta. Se a economia como um todo valorizasse os 2 peixes extra acima de 1 dia de lazer já os teria pescado antes. A procura é infinita por natureza, não funciona por estímulos. A economia como um todo quer comer um número infinito de peixes. A escassez está sempre do lado da oferta.

    Claro que podes sempre questionar a questão do desemprego e do capital parado. A resposta teria que ser dada recorrendo a um modelo com mais produtos em que as preferências se alteram, e, por essa via, factores de produção se tornam obsoletos e necessitem de ser reciclados para se adaptarem às novas preferências. No período transitório haverá sub-utilização dos factores de produção (desemprego, perdas de capital). Investir nos produtos obsoletos para evitar que os factores de produção estejam parados, só prolongará o período de transição e a alocação sub-óptima de recursos.

  11. Pingback: Convém perceber minimamente dos assuntos (4) « O Intermitente (reconstruido)

  12. “Miguel, tanto num caso como noutro, o desvio de recursos para o estado só não gera crowding-out porque há um efectivo aumento de poupança (na versão I com aumento de produção e na versão II com redução de consumo). Parece-me então que neste ponto estamos de acordo: investimento=poupança.”

    Penso que ninguém discorda que “poupança=investimento” (bem, às vezes nestas caixas de comentários parece que há quem discorde…), até porque tal iria contra as leis da física. A discussão é qual é a variável exógena e qual a endógena (é a poupança que determina o investimento, ou é o investimento que determina a poupança?).

    “Em relação à versão 1 , parece-me mais uma procissão de fé assumir que a emissão monetária criará a sua própria oferta. Se a economia como um todo valorizasse os 2 peixes extra acima de 1 dia de lazer já os teria pescado antes. A procura é infinita por natureza, não funciona por estímulos. A economia como um todo quer comer um número infinito de peixes. A escassez está sempre do lado da oferta.

    Claro que podes sempre questionar a questão do desemprego e do capital parado. A resposta teria que ser dada recorrendo a um modelo com mais produtos em que as preferências se alteram, e, por essa via, factores de produção se tornam obsoletos e necessitem de ser reciclados para se adaptarem às novas preferências.”

    Imagina uma economia com três produtos – peixe, percebes e dinheiro (a longo prazo o objectivo do dinheiro é gastá-lo, mas pode haver muitas razões para querer ter dinheiro a curto e médio prazo); a tua explicação para o desemprego é que pode haver uma fase em que as pessoas querem mais percebes e menos peixe do que queriam antes, pelo que, durante uns tempos, vamos ter alguns pescadores desempregados, até se transferirem para a apanha do percebe (ou então, acrescentaria eu, até o preço relativo do percebe e do peixe se alterar, fazendo diminuir a procura de percebes e aumentar a de peixes).

    Mas então pode-se imaginar uma situação muito parecida com essa, com uma pequena diferença – em vez de aumentar a procura por percebes, aumenta (por qualquer razão) a procura por dinheiro e diminui a procura por peixe e percebes. Então penso que se aplicará um raciocínio semelhante – durante algum tempo, tanto entre os pescadores como entre os apanhadores de percebes haverá desemprego, até, ou aumentar a produção de dinheiro (poderá ser esse o papel do tal “Banco Popular Associativo”, embora normalmente isso seja um monopólio mais ou menos estatal), ou o preço do dinheiro subir (que é como quem diz, o preço das outras coisas baixar). E pronto, já temos uma situação (que, formalmente, pode ser considerado um “caso notável” do modelo geral do CGP sobre a origem do desemprego) em que a tal expansão monetária, ou então um deficit, cria a sua própria oferta.

  13. Ramone

    Já que o autor do post está a querer interpretar os dias de hoje com exemplos dignos de estágios etnográficos, imaginemos uma economia com 4 pessoas, 1 capitalista e 3 trabalhadores. O captalista para 20 conchas aos trabalhadores para pescar mas quer ter lucro nas vendas do peixe, que, naturalmente, só pode vender aos três trabalhadores. Ora o dinheiro que os três trabalhadores têm é 20 conchas cada um, que o capitalsta lhes pagou. Pergunto ao autor do post como é que o nosso capitalista vai lucrar se o máximo que ele consegue dos trabalhadores foi o que já lhes pagou?

  14. Reparo que no meu comentário 17, um parágrafo meu ficou parecendo como se fosse uma citação; era este:

    Penso que ninguém discorda que “poupança=investimento” (bem, às vezes nestas caixas de comentários parece que há quem discorde…), até porque tal iria contra as leis da física. A discussão é qual é a variável exógena e qual a endógena (é a poupança que determina o investimento, ou é o investimento que determina a poupança?).

  15. Ramone

    “Penso que ninguém discorda que “poupança=investimento””

    Eu discordo. Se só houver poupança o investimento não tem retorno, de modo que muita poupança pode diminuir o investimento.

  16. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel,
    “Mas então pode-se imaginar uma situação muito parecida com essa, com uma pequena diferença – em vez de aumentar a procura por percebes, aumenta (por qualquer razão) a procura por dinheiro e diminui a procura por peixe e percebes. Então penso que se aplicará um raciocínio semelhante – durante algum tempo, tanto entre os pescadores como entre os apanhadores de percebes haverá desemprego, até, ou aumentar a produção de dinheiro (poderá ser esse o papel do tal “Banco Popular Associativo”, embora normalmente isso seja um monopólio mais ou menos estatal), ou o preço do dinheiro subir (que é como quem diz, o preço das outras coisas baixar).”

    O que estás a descrever é basicamente uma situação em que aumenta a propensão à poupança. Ou seja, as preferências alteram-se entre consumir bens no presente em favor de os consumir no futuro. O sinal certo a dar à economia é uma redução do custo do investimento, por via do aumento da poupança, o que fará com que haja mais bens disponíveis para consumo no futuro. Ao injectar dinheiro na economia para manter o actual nível de produção de bens de consumo (peixes e percebes), o que estado está a fazer é contrariar as preferências da economia. Ao injectar dinheiro, mais não está do que a tornar os bens futuros mais caros (através da inflação), para contrariar as preferências dos consumidores.

  17. Carlos Guimarães Pinto

    Ramone,

    “Já que o autor do post está a querer interpretar os dias de hoje com exemplos dignos de estágios etnográficos, imaginemos uma economia com 4 pessoas, 1 capitalista e 3 trabalhadores. O captalista para 20 conchas aos trabalhadores para pescar mas quer ter lucro nas vendas do peixe, que, naturalmente, só pode vender aos três trabalhadores. Ora o dinheiro que os três trabalhadores têm é 20 conchas cada um, que o capitalsta lhes pagou. Pergunto ao autor do post como é que o nosso capitalista vai lucrar se o máximo que ele consegue dos trabalhadores foi o que já lhes pagou?”

    O Ramone está sob influência da ilusão monetária descrita no post. Pelo seu comentário em 22, parece-me que não o percebeu.

    O lucro do capitalista não é o número de conchas mas o número de peixes que ele consome e foram pescados pelos trabalhadores. Imaginemos que o capitalista detém o barco e que, usando esse barco, os pescadores pescam 15 peixes. O capitalista come 5 peixes e vende os outros 10 pelas 20 conchas que pagou de salário. O lucro do capitalista são os 5 peixes. No próximo período volta a pagar as 20 conchas e comer 5 peixes.

  18. “Estar a bater na tecla de que os alimentos , ou a habitação ou outros bens essenciais são escassos deve ser distração.”
    Só pode estar a gozar, certo? Ou então não sabe o que quer dizer “escasso”.

  19. Carlos Novais

    “Mas então pode-se imaginar uma situação muito parecida com essa, com uma pequena diferença – em vez de aumentar a procura por percebes, aumenta (por qualquer razão) a procura por dinheiro e diminui a procura por peixe e percebes. Então penso que se aplicará um raciocínio semelhante – durante algum tempo, tanto entre os pescadores como entre os apanhadores de percebes haverá desemprego, até, ou aumentar a produção de dinheiro (poderá ser esse o papel do tal “Banco Popular Associativo”, embora normalmente isso seja um monopólio mais ou menos estatal), ou o preço do dinheiro subir (que é como quem diz, o preço das outras coisas baixar). E pronto, já temos uma situação (que, formalmente, pode ser considerado um “caso notável” do modelo geral do CGP sobre a origem do desemprego) em que a tal expansão monetária, ou então um deficit, cria a sua própria oferta.”

    O aumento da procura por moeda faz baixar os preços (e não as taxas de juro). Em si próprio não tem de alterar nada, nem quantidade de produção, nem a relação entre consumo e poupança/investimento.

    Para existirem alterações com relevância na procura por moeda é preciso algo estranho ao sistema económico como:

    – as bolhas (inflação em bens de capital, activos reais e financeiros) e crises num sistema bancário de reservas parciais que põe em perigo a própria moeda sob a forma de depósitos à ordem conduzindo à “preferência por liquidez”
    e/ou
    – inflação nos preços de consumo final

    ou seja, essa alteração na procura por moeda é uma consequência, não a causa. E mesmo assim, o melhor é deixar os preços cair e o stock de crédito liquidar (via falências) até ao ponto que os actuais saldos monetários ganham poder de compra e a expectativa de rentabilidade é restabelecida. Quanto mais rápido for este processo, mais depressa o equilíbrio se restabelece.

  20. Carlos Guimarães Pinto

    “O aumento da procura por moeda faz baixar os preços (e não as taxas de juro). Em si próprio não tem de alterar nada, nem quantidade de produção, nem a relação entre consumo e poupança/investimento.”

    Sim, parece-me que é a isso que o Miguel se refere, e não a um aumento da poupança como eu refiro no comentário 23. O comentário 23 só se aplica no caso de um aumento de poupança.

  21. Paulo Pereira

    Os pseudo-modelos apresentados não são validos numa economia industrial tecnológica , como a que existe desde há 200 anos.

    Neste tipo de economia o credito para compra de máquinas ou barcos aumenta a produtividade e cria a própria poupança , que sao mais peixes pescados.

    Não existe escassez de recursos numa economia industrial avançada, excepto quando o desemprego é zero .

  22. Carlos Guimarães Pinto

    Paulo Pereira, continuamos a discordar, mas confesso que gostaria que tivesse razão. Gostaria de viver no mundo que descreve, onde não existe escassez e aumentos de produtividade ocorrem com um simples premir de botão da impressora dos bancos centrais.

  23. Carlos Novais

    “Neste tipo de economia o credito para compra de máquinas ou barcos aumenta a produtividade e cria a própria poupança , que sao mais peixes pescados. Não existe escassez de recursos numa economia industrial avançada, excepto quando o desemprego é zero .”

    Pois, é este o grave e simples problema da ilusão monetária.

    Sim, a economia cresce porque o investimento (acumulação de bens de capital) permite a redução de custos por unidade produto.

    Mas todo o investimento necessita de recursos disponíveis durante todo o tempo que não é sustentado pelos consumidores finais (enquanto o cash-flow é negativo).

    Com quantidade de moeda estável, o crédito ou capital social inicial investido na empresa assegura que alguém abdicou de despesa noutras alternativas e está disposto a esperar N tempo pelo seu retorno, em princípio, precisamente o tempo que é preciso esperar para se tornar auto-financiado por receitas próprias.

    Com injecção de moeda as coisas baralham-se e temos as bolhas e crises. Isto porque os seus efeitos não são neutras nem imediatos. Se todos os preços subissem no momento da injecção e a taxa de juro real fosse inalterado, o problema seria menor. Mas não é assim.

  24. Ramone

    “O lucro do capitalista não é o número de conchas mas o número de peixes que ele consome e foram pescados pelos trabalhadores. Imaginemos que o capitalista detém o barco e que, usando esse barco, os pescadores pescam 15 peixes. O capitalista come 5 peixes e vende os outros 10 pelas 20 conchas que pagou de salário. O lucro do capitalista são os 5 peixes. No próximo período volta a pagar as 20 conchas e comer 5 peixes.”

    Você está a pensar em géneros mas se o capitalista quiser conchas para poder ir a outra economia que vende caranguejos e que não quer peixes em troca mas queira conchas para por sua vez comprar noutra economia lulas, aí os peixes de lucro não lhe servem a não ser que ele os venda por conchas. Mas se cada capitalista de cada uma das economias só receber dos trabalhadores aquilo que ele já lhes paga então mesmo não querendo peixes, ou lulas ou caranguejos em troca mas conchas os capitalistas vão ter de trocar géneros. Ou seja, para que começe a haver circulação de conchas e não de géneros é preciso aumentar os preços dos géneros e oferecer crédito aos trabalhadores para que sobrem conchas para os capitalistas, ou seja, terá de haver sempre um excedente de conchas a circular em relação à poupança dos trabalhadores para que os preços possam aumentar acima dos salários e as mais valias serem realizadas.

    Para chegarmos aos dias de hoje, nós sabemos que vamos ao banco tiramos o saldo e temos lá o que poupámos mas que se todos forem no mesmo dia levantar o dinheiro os bancos não o têm. Onde é que anda esse dinheiro em falta?

  25. Carlos Guimarães Pinto

    Ramone, mais uma vez, cai na ilusão monetária. Para conseguir ir a outras economias comprar os seus produtos, o capitalista tem que poder oferecer algo em troca, ou seja, vender peixes por troca da moeda dessas outras economias. Com o dinheiro recebido pode comprar os seus produtos. A moeda facilita a troca, não é o factor gerador dessa troca.

  26. Paulo Pereira

    Caros,

    Enquanto nao perceberem o que é o capitalismo industrial, onde o empreendedor é o motor do crescimento económico real , o tal que leva o mundo aos ombros, vão ficar presos na economia de subsistência , o feudalismo pobre .
    O capitalismo industrial inventou-se para enriquecer e disfrutar da ciência e da tecnologia e 200 anos comprovam isso.

  27. ricardo saramago

    Continua a grande ilusão de que dinheiro é riqueza.
    Dinheiro é uma ferramenta de troca, de cálculo, e um título de crédito sobre bens e serviços.É uma representação abstracta baseada na confiança.
    Riqueza é Valor acrescentado.

  28. Ramone

    “Ramone, mais uma vez, cai na ilusão monetária. Para conseguir ir a outras economias comprar os seus produtos, o capitalista tem que poder oferecer algo em troca, ou seja, vender peixes por troca da moeda dessas outras economias. Com o dinheiro recebido pode comprar os seus produtos. A moeda facilita a troca, não é o factor gerador dessa troca.”

    Só queria saber a quem é que o capitalista industrial vende os seus produtos – isto quando não falamos de produtos de luxo que os capitalistas vendem a outros capitalistas – mas dos produtos que vendem às massas digamos assim?

    Não são as massas os assalariados? E não são os salários pagos pelo capital? Isto numa economia sem funcionários públicos. Ora de onde é que o capital concretiza a mais valia se as massas, pagas pelo capital, só gastarem aquilo que ganham?

  29. CGP,

    Isso é a falácia da composição. Se eu ganho 1000, poupo 100 e quero poupar o 200, posso tomar essa decisão de forma unilateral. O rácio consumo/rendimento passa de 90 para 80%. A minha poupança aumenta para o valor desejado: 200.

    Mas se todos os outros agentes económicos fizerem o mesmo, o equilíbrio é restabelecido por uma redução da actividade. Mesmo que aumente efectivamente a taxa de poupança para 20%, esta é atingida para um valor real mais baixo.

    Isto é a teoria. Na prática, constata-se empiricamente que o investimento é rubrica do PIB mais sensível nas recessões. A ideia de que a redução no consumo é imediatamente absorvida (via redução da taxa de juro?) pelo aumento do investimento não tem suporte empírico nenhum.

  30. Paulo Pereira

    Claro que os empreendedores capitalistas precisam de consumidores e um consumo crescente para viabiliazarem a sua actividade.

    O que Keynes demonstrou na GT em 1936 é que nao existe a dicotomia marxista porque os interesses do capitalista industrial e dos trabalhadores são coincidentes , para que todos beneficiem da ciência e da tecnologia.

    A GT refere explicitamente que a influencia das taxas de juro dentro de limites razoáveis é pequena no que se refere ao investimento em bens de capital, ou seja antes da questão monetária esta a questão da procura agregada.
    Ou seja o investimento em bens de capital é pro-cíclico com o consumo, o que leva à instabilidade intrinsica do sistema capitalista industrial.

  31. Ramone

    “A GT refere explicitamente que a influencia das taxas de juro dentro de limites razoáveis é pequena no que se refere ao investimento em bens de capital, ou seja antes da questão monetária esta a questão da procura agregada.”

    Mas se a procura agregada for igual aos salários que auferem na produção da demanda e, portanto, não antecipar salários através do endividamento, logicamente não há possibilidade da oferta agregada concretizar a mais valia em lucro. Daí a necessidade das exportações. Mas se em todo o lado acontecer a mesma coisa, ou seja, se a procura for igual aos salários auferidos na produção da demanda em princípio temos um problema de excedente de produção, ou, se a oferta for igual aos salários que pagam à demanda, de perda de valor do capital por exemplo pelo desgaste do uso e custos de manutenção.

    Isto para dizer que sem endividamento não há capitalismo.

  32. Paulo Pereira

    Exacto.
    Numa economia capitalista industrial tecnológica , a produtividade é crescente, tal como se demonstra nos últimos 200 anos.

    Como o consumo é sempre inferior a 100% dos salários pelo menos no médio prazo (existe poupança monetária) , o capitalista industrial (o que carrega o mundo ) só consegue viabilizar agregado o seu investimento se a procura agregada acompanhar o aumento da produtividade.

    Os marginalistas primarios são na pratica moralistas puritanos e anti-capitalistas e na pratica defendem uma economia de subsistência , tão bem explicita nos bonecos
    deste artigo.

  33. Carlos Novais

    “Como o consumo é sempre inferior a 100% dos salários pelo menos no médio prazo (existe poupança monetária) , o capitalista industrial (o que carrega o mundo ) só consegue viabilizar agregado o seu investimento se a procura agregada acompanhar o aumento da produtividade.”

    Correctamente formulado:

    Só porque ambos consumidores e capitalistas (uns e outros são os mesmos em boa parte) não consomem tudo o que produzem, é que esses recursos podem ser dirigidos para sustentar o tempo necessário à formação de bens de capital que ao diminuir os custos por output permite a produção e consumo de bens adicionais no futuro.

    A moeda é apenas um meio de troca. A sua manipulação tem efeitos reais de distorção de preços e sinalização, tal como o seu uso em estabilidade não-manipulada permite que o seu uso faça corresponder correctamente os seus efeitos reais às preferências materializada no seu uso monetário (consumo versus poupança, preços, taxa de juro, etc).

    PS: ou seja, só a infantilidade de pretender que manipular tal meio permite mudar a realidade física nos conduz aqui.

  34. Ramone

    “A moeda é apenas um meio de troca”

    Não. A moeda é o que as trocas procuram para se repoduzirem. E isto é diferente do que você diz. Estritamente, os meios de troca são as vias de comunicação – estradas, comboios, aviões, internet, etc, ou seja, os meios mediante os quais as trocas se operam para que gerem a moeda necessária a prover a sua reprodução e desenvolvimento. Tal como os meios de produção são, hoje, acima de tudo o conhecimento (e a mão-de-obra), sendo que a moeda serve também para reproduzir os meios de produção.

  35. Carlos Novais

    Caro Ramone

    O que conduziu ao aparecimento de uma moeda comum (essencialmente ouro e prata) foi a necessidade (procura) crescente de eliminar a troca directa seleccionando um bem real comum que as pessoas crescentemente aceitavam como — meio de troca, entre o que produziam e o que pretendiam adquirir. Facilita as trocas e cria rácios de troca (preços) que permitem o cálculo.

    Já agora:

    “Mas se a procura agregada for igual aos salários que auferem na produção da demanda e, portanto, não antecipar salários através do endividamento, logicamente não há possibilidade da oferta agregada concretizar a mais valia em lucro. Daí a necessidade das exportações.”

    O planeta precisa de exportar para Marte?

    “Isto para dizer que sem endividamento não há capitalismo.”

    Crédito não é diferente de capital próprio.Ambos devem significar abstenção de consumo, recursos disponíveis para suportar o investimento em vez de consumo. Crédito criado, sim, é benéfico mas não é para o capitalismo que não ganha nada com isso. Os bancos, estados, empresas com recursos a essa fonte sim, à custa do poder aquisitivo dos outros, mas que em última análise induz as bolhas seguidas de crises.

    O capitalismo não precisa de crédito criado. Mas de acumulação de capital real.

  36. 26 – CN: O aumento da procura por moeda faz baixar os preços (e não as taxas de juro). Em si próprio não tem de alterar nada, nem quantidade de produção, nem a relação entre consumo e poupança/investimento.

    27 – CGP: Sim, parece-me que é a isso que o Miguel se refere, e não a um aumento da poupança como eu refiro no comentário 23. O comentário 23 só se aplica no caso de um aumento de poupança.

    É mesmo a isso que eu me refiro (o CN já tem mais prática de debater comigo…).

    Mas o meu ponto é que vossa teoria sobre o desemprego parece-me ter implícito que os preços não se ajustam automaticamente para equilibrar a oferta e a procura – se assim fosse, poderia diminuir a procura por peixe e aumentar a por percebes e ninguém mudar de sector de actividade que não havia problema: o preço do peixe baixava e o do percebe subia até ao consumo de peixe e percebes corresponder à capacidade de produção respectiva (no fundo, teríamos uma deslocação para a direita da curva de procura por percebes e para esquerda da por peixe, sendo as curvas da oferta verticais – os preços mudariam, mas não ficariam recursos por aproveitar).

    Ou seja, para haver o tal desemprego por mudanças de preferências, temos que assumir, não apenas que seja díficil os factores (como o trabalho) mudarem de um sector para outro, mas também que os preços não se ajustem instantaneamente.

    Mas então o mesmo se aplica a um aumento da procura por moeda em vez de por percebes: nos dias/semanas/meses/… que demoram até os preços se alterarem, haverá excesso de procura de moeda e deficit de procura por peixe e percebes, e alguns pescadores e mariscadores não terão trabalho.

  37. Ramone

    “Crédito não é diferente de capital próprio”

    Não sei bem o que quer dizer com isto. O crédito que é oferecido e que espera ser pago com juros antecipa o futuro, ou se quisermos investe o futuro no presente. A questão é que o futuro não é o presente e portanto o crédito é risco. Risco é o que se chama no capitalismo à antecipação do futuro sem garantias plenas, por ser o futuro, que o futuro venha a encontrar-se consigo mesmo tal como ele se presumiu no presente. Por isso a dinâmica do capitalismo é estar sempre à frente e atrás de si mesmo. Num momento, quando se pede crédito e se antecipa o futuro ao se fazer o plano de investimento, o capitalismo, na mais valia concretizada e não apenas presumida, corre à frente de si mesmo, quando se aplica o crédito, quando se começa a produzir, para realizar a mais valia, o lucro que vem do futuro, o capitalismo corre atrás de si mesmo.

    Se não houver crédito, endividamento, só há o presente – lá onde o capitalismo se estagna e não consegue respirar.

  38. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel, uma alteração de preços relativos leva também a uma necessidade de ajustamento da alocação de recursos e respectivas consequências. Se o preço do peixe baixar, compensará a alguns pescadores dedicarem-se a(o) percebe.

  39. Ramone

    Diria ainda que a poupança, que é o presente, não é portanto a base do capitalismo, mas um meio de gestão do risco que, como gestão, não anula o risco apenas o tenta manter gerível. Mas como não anula o risco a sua geribilidade (se é que isto é uma palavra) é ela mesma arriscada.

  40. Ramone

    “Não sei bem o que quer dizer com isto. O crédito que é oferecido e que espera ser pago com juros antecipa o futuro, ou se quisermos investe o futuro no presente. A questão é que o futuro não é o presente e portanto o crédito é risco. Risco é o que se chama no capitalismo à antecipação do futuro sem garantias plenas, por ser o futuro, que o futuro venha a encontrar-se consigo mesmo tal como ele se presumiu no presente. Por isso a dinâmica do capitalismo é estar sempre à frente e atrás de si mesmo. Num momento, quando se pede crédito e se antecipa o futuro ao se fazer o plano de investimento, o capitalismo, na mais valia concretizada e não apenas presumida, corre à frente de si mesmo, quando se aplica o crédito, quando se começa a produzir, para realizar a mais valia, o lucro que vem do futuro, o capitalismo corre atrás de si mesmo.

    Se não houver crédito, endividamento, só há o presente – lá onde o capitalismo se estagna e não consegue respirar.”

    P.S. A poupança, que é o presente, não é portanto a base do capitalismo mas serve acima de tudo para gerir o risco. Mas gerir o risco não é anular o risco de modo que a gestão do risco é ela mesma arriscada.

  41. Carlos Novais

    “Mas então o mesmo se aplica a um aumento da procura por moeda em vez de por percebes: nos dias/semanas/meses/… que demoram até os preços se alterarem, haverá excesso de procura de moeda e deficit de procura por peixe e percebes, e alguns pescadores e mariscadores não terão trabalho.”

    Mas sim certamente. O ajustamento a mudanças de preferência implica atrito. Por isso todas as “leis de protecção de emprego e salários” são contra o emprego e salários. Todas as mudanças ficam mais penosas.

    “Risco é o que se chama no capitalismo à antecipação do futuro sem garantias plenas, por ser o futuro, que o futuro venha a encontrar-se consigo mesmo tal como ele se presumiu no presente”

    Seguramente, tudo verdade, o papel do empreendedor é antecipar e criar o futuro melhor que os outros. Nada isso obsta que o investimento precisa de recursos reais no presente enquanto o futuro não se materializa (que será a auto-sustentação sem capital adicional).

  42. Ramone

    “Seguramente, tudo verdade, o papel do empreendedor é antecipar e criar o futuro melhor que os outros.”

    A questão é essa, criar por antecipação. É aí que, como se diz, a porca torce o rabo. O que é que se cria quando se cria por antecipação? Que eu saiba não é mais que o desejo. Ou seja, o desejo é o que se cria por antecipação. Basta até ver a palavra inglesa “anticipation” e a conotação que tem com o desejo.

  43. “Miguel, uma alteração de preços relativos leva também a uma necessidade de ajustamento da alocação de recursos e respectivas consequências. Se o preço do peixe baixar, compensará a alguns pescadores dedicarem-se a(o) percebe.”

    Acho que não (não confundir “necessidade” com “vontade”). Penso que, para não haverem recursos por utilizar, basta que se verifique uma de três condições 1 – preferências estáticas; 2 – mobilidade perfeita dos recursos de um sector para outro; 3 – preços que se ajustem instantaneamente

    Se o preço do peixe baixar, isso aumentará a procura por peixes, logo não ficarão pescadores no desemprego, mesmo que não se consigam transferir para a apanha de percebe (medo de alturas, p.ex.).

    Claro que esse baixa de preços levará mais pescadores a quererem transferir-se para o percebe, mais não irão ficar desempregados se não o conseguirem.

    Note-se que o meu ponto não é “com preços totalmente flexíveis não há mudanças na alocação de recursos”, é “com preços totalmente flexíveis não haverá desemprego, mesmo que haja barreiras à re-alocação de recursos”

  44. “com preços totalmente flexíveis não haverá desemprego, mesmo que haja barreiras à re-alocação de recursos”

    Para falar a verdade, não estou totalmente convencido disto que acabei de escrever – reformulo para

    “com preços totalmente flexíveis uma mudança das preferências dos consumidores não criará desemprego, mesmo que haja barreiras à re-alocação de recursos”

  45. Fernando S

    Ramone #35. : “Ora de onde é que o capital concretiza a mais valia se as massas, pagas pelo capital, só gastarem aquilo que ganham?”
    .
    A “mais valia” é uma mera categoria ideologica : a-riqueza-é-toda-criada-pelos-trabalhadores-mas-o-capitalista-da-lhes-apenas-uma-parte-e-fica-com-o-resto.
    Até pode ser uma grande descoberta para a humanidade mas não nos diz absolutamente nada sobre o funcionamento da economia capitalista.

    As empresas produzem e distribuem os rendimentos obtidos pela venda da produção pelos detentores e fornecedores dos diferentes factores produtivos.
    Estes rendimentos são ou gastos em bens de consumo final ou poupados para serem investidos, isto é, no final, utilizados de novo na mobilização de factores produtivos.
    (É principalmente aqui que intervém o financiamento às empresas e aos diversos agentes económicos. Mas o endividamento de uns tem como contrapartida a posição credora de outros. Não há nenhum milagre.)
    O entesouramento de algum rendimento é relativamente marginal e compensado pelo desentesouramento de rendimentos anteriores.
    No fim de contas, e no computo global, toda a produção pode ser comprada pela totalidade do rendimento distribuido.
    Ou seja, não existe nenhuma tendência inerente ao capitalismo para uma sobre-produção (ou sub-consumo) geral.
    O que podem existir são sobre-produções em certas empresas e em certos sectores. Do mesmo modo que podem existir sub-produções noutras empresas e noutros sectores. Porque no momento da produção os empresários não previram correctamente a evolução da procura e da oferta nos respectivos mercados e investiram de mais ou de menos.
    Numa economia de mercado suficientemente livre estes desajustes são detectados em resultado da deficiente rentabilidade de uns e dos ganhos excepcionais de outros e rápidamente corrigidos pelos próprios mecanismos do mercado.
    Mas numa economia “entravada” os mecanismos correctores não funcionam e estes desajustes tendem a durar e a acentuar-se ao longo do tempo.
    Estes processos são ainda mais cumulativos quando há manipulação monetária, no sentido expansionista ou contraccionista. A tendência normal das autoridades monetárias é para o expansionismo destinado a estimular a economia (em particular por via do endividamento público).
    No fim de contas, são as diferentes formas de intervenção do Estado no sentido de condicionar e determinar o funcionamento dos mercados que acabam por acentuar os processos de expansão e ajustamento da actividade, bolhas especulativas seguidas por crises de expurgação.
    A principal consequencia para o conjunto da economia é a curto prazo uma aplicação menos eficiente dos recursos existentes e a médio/longo prazo um atraso no aumento e na melhoria da eficiencia de novos recursos produtivos.

  46. “O entesouramento de algum rendimento é relativamente marginal e compensado pelo desentesouramento de rendimentos anteriores.

    No fim de contas, e no computo global, toda a produção pode ser comprada pela totalidade do rendimento distribuido.”

    Não há nenhuma razão ex ante para que assim seja – claro que no fim toda a produção acaba por se comprada pela totalidade do rendimento, mas apenas porque:

    a) as mercadorias produzidas e não vendidas contam como “investimento” (sub-rubrica “variação de existências”)

    b) se a mercadoria nem chega a ser produzida por não ter encomendas, não conta como “produção”

    Mas se, por qualquer razão, os agentes económicos decidem aumentar o seu entesouramento (ou, pelo menos, o desejo de alguns entesourarem é maior do que o de outros desentesourarem), a economia terá que funcionar abaixo da sua capacidade (afinal, se toda a gente está a tentar ganhar 100 e gastar ou investir apenas 90, haverá mais oferta que procura na maioria dos sectores), pelo menos enquanto não haver uma baixa de preços (fazendo subir o valor real da moeda que as pessoas têm guardada e por esse meio satisfazer o tal desejo de entesourar mais) suficiente para por as coisas a funcionar outra vez (ver comentários 17, 44 e 48)

  47. Fernando S

    miguelmadeira :
    “Não há nenhuma razão ex ante para que assim seja – claro que no fim toda a produção acaba por se comprada pela totalidade do rendimento, mas apenas porque:
    a) as mercadorias produzidas e não vendidas contam como “investimento” (sub-rubrica “variação de existências”)
    b) se a mercadoria nem chega a ser produzida por não ter encomendas, não conta como “produção”
    .
    Não percebo…. Não disse que existia uma “razão ex ante”. Na verdade, não me incomodam as considerações (contabilisticas) que faz.

    miguelmadeira :
    “Mas se, por qualquer razão, os agentes económicos decidem aumentar o seu entesouramento (ou, pelo menos, o desejo de alguns entesourarem é maior do que o de outros desentesourarem), a economia terá que funcionar abaixo da sua capacidade…”
    .
    Também não disse o contrario. Embora a minha suposição seja antes a de que este efeito é relativamento neutro ou marginal.

  48. Ramone

    Fernando,

    A “mais valia” é uma mera categoria ideologica : a-riqueza-é-toda-criada-pelos-trabalhadores-mas-o-capitalista-da-lhes-apenas-uma-parte-e-fica-com-o-resto.

    Na idade média talvez fosse assim. Hoje não é.

    “No fim de contas, e no computo global, toda a produção pode ser comprada pela totalidade do rendimento distribuido.”

    Não me parece. Julgo que não é polémico que os bancos não detêm a totalidade das poupanças em caixa, precisamente porque parte das poupanças estão aplicadas em empréstimos.

    E se a produção é toda comprada pelo rendimento distribuído o lucro do capitalista é em géneros, o que significa excedente de produção.

  49. Ramone, parece-me que continua confundir riqueza com moeda. No seu exemplo específico, como só existe um produto, o capitalista não tem outra forma de utilizar os seus lucros senão no consumo do bem que produz, daí a aparência de o lucro ser em gêneros. Se quiser, façamos uma pequena alteração. Imagine que os trabalhadores, pescam 20 peixes e recebem 15 conchas (o capitalista fica com 5 conchas para si). Os 20 peixes são colocados no mercado a 1 concha. Os trabalhadores compram 15 peixes e o capitalista compra 5. Todo o rendimento (trabalho+lucro) é utilizado no consumo.
    Acho que onde lhe falham as contas é quando assume que o rendimento do capitalista não é utilizado para o consumo (ou investimento).

  50. PR,

    Uma alteração na propensão à poupança, despoletará o seguinte processo:
    1. Queda nos preços dos bens de consumo pela menor procura (absorvendo em parte a variação real no consumo)
    2. Desemprego e sub-utilização dos factores de produção nos bens de consumo
    E, em simultâneo:
    1a. Queda no custo do investimento por via do aumento de poupança
    2a. Aumento da procura de bens de investimento
    3a. Aumento dos preços dos bens de investimento
    4a. Realocação de recursos na direcção da produção dos bens de investimento

    Eu nunca disse que o ajustamento era imediato. Haverá sempre sub-utilização de recursos friccional ( o período entre 2. e 4a.). Este período será tão mais longo e doloroso, quanto menor for a flexibilidade de preços, salários e taxas de juro. O grande problema actualmente é que a taxa de juro não é definida pelo mecanismo de mercado, fazendo com que alteraçōes na propensão de poupança não sejam imediatamente sinalizadas. Por forma a reduzir os custos de fricção, 1 e 1a devem ocorrer simultaneamente. Com o actual sistema, 1a ocorre apenas depos de 2, prolongando o ajustamento. Governantes e economistas, mesmo que bem intencionados, ao tentarem absorver os choques só ajudam a prolongá-los

  51. Ramone

    “57.Ramone, parece-me que continua confundir riqueza com moeda.”

    Carlos,

    Não sou eu que confundo riqueza com moeda, é o capitalismo que o faz. Isto é a base da minha argumentação aqui. Os sistemas de crédito actuais, as bolsas de valores, o sistema financeiro se quisermos generalizar, vive disto que você chama uma confusão. Hoje, como se sabe, tanto se transacionam produtos industriais como expectativas, expectativas até sobre estes produtos, e com ritmos diferentes, isto é inegável. Quando uma expectativa é um produto é evidente que a sua riqueza só se pode traduzir em moeda.
    Talvez você pense que eu esteja a dizer que se pode resolver os problemas imprimindo dinheiro, sem produzir nada, mas não é isso que eu digo, digo, primeiro, que o dinheiro já é imprimido mas em geral de acordo com o valor que os poderes querem auferir a cada momento ao dinheiro que circula. Aliás se a riqueza não se confundisse com a moeda aí sim não haveria problema em imprimir dinheiro. E em segundo lugar que o endividamento, o crédito, é mesmo uma forma de manter o valor do dinheiro – no fundo, disponibiliza-se o dinheiro mas em forma de dívida para que, precisamente, não deixe de se confundir a moeda com riqueza.
    A riqueza do capitalismo é a sua capacidade de se reproduzir e a moeda é o meio principal, ou um deles, de assegurar essa reprodução. É na moeda que a viabilidade do capitalismo se reproduzir assenta. É por isso até que países pouco desenvolvidos, vamos dizer pré-capitalistas, que queiram entrar a fundo no capitalismo muitas vezes chegam durante algum tempo a permitir que as trocas internas se façam em moeda estrangeira, mais credível.

    Quanto ao lucro do capitalista, em absoluto, vamos dizer à escala planetária, são as massas assalariadas que providenciam o lucro ao capital. Se estas massas gastarem o que o capital lhes paga não há lucro. Não nos iludamos dizendo que a moeda não e riqueza. A moeda é o que todos querem. É o produto mais desejado. Não necessariamente para acumular mas para movimentar, para dar movimento às economias e é por aqui que eu vou defendendo que o endividamento é necessário pois é ele que faz correr atrás, que movimenta. O capitalismo está cheio de contradições. Pode não se ser marxista mas não sei se o lirismo é uma alternativa melhor para abordar as dinâmicas lógicas do capitalismo.

  52. Fernando S

    Ramone : “Na idade média talvez fosse assim [A “mais valia” é uma mera categoria ideologica]. Hoje não é.”
    .
    Na Idade Média também era. Muito embora seja mais facil ver a existencia de uma espécie de “excedente” do produto agrícola que os camponeses entregam aos senhores feudais. Se numa primeira fase da existencia do sistema feudal a contribuição dos senhores feudais para a organização produtiva (protecção, exercicio da justiça, potenciamento de terras agrícolas, prestação de serviços, etc) se justificaria (sem eles as condições de produção seriam muito mais desfavoraveis) ja numa fase mais final esta contribuição era praticamente nula e se poderia então falar de uma forma de expropriação da riqueza.

    O capitalismo altera fundamentalmente a organização do sistema produtivo, os senhores feudais e os servos desaparecem da cena, o papel do capitalista torna-se indispensavel para a criação de riqueza.
    O marxismo e a sua teoria da mais-valia foi uma tentativa ideologica de negar radicalmente este papel mas a verdade é que cada vez menos o senso comum é receptivo a esta ideia (mesmo os “anti-capitalistas” de hoje não defendem uma sociedade sem capitalistas).
    Para esta evolução ideológica contribuiu certamente a circunstância de as experiências históricas em que se procurou dispensar ou reduzir a função do capitalista (e de outros fornecedores de serviços produtivos para além dos “trabalhadores”) se terem revelado autênticos desastres económicos.
    Ou seja, hoje toda a gente percebe hoje que sem “capitalistas” a produção de riqueza seria de longe inferior ao necessário para que os trabalhadores tivessem rendimentos minimamente aceitáveis.

  53. “58.PR,

    Uma alteração na propensão à poupança, despoletará o seguinte processo:
    1. Queda nos preços dos bens de consumo pela menor procura (absorvendo em parte a variação real no consumo)
    2. Desemprego e sub-utilização dos factores de produção nos bens de consumo
    E, em simultâneo:
    1a. Queda no custo do investimento por via do aumento de poupança
    2a. Aumento da procura de bens de investimento
    3a. Aumento dos preços dos bens de investimento
    4a. Realocação de recursos na direcção da produção dos bens de investimento”

    Eu acresentaria:

    1.1a – aumento da procura por moeda (como os juros baixam, o custo de oportunidade de ter dinheiro “líquido” em vez de aplicado diminui)
    1.2a – no caso do efeito acima ser muito forte e “de surpresa”, todos os efeitos que eu referi nos comentários acima acerca do resultado de um aumento de procura de moeda

  54. Paulo Pereira

    Miguel Madeira,

    O seu New Keynesianismo é uma das razões da força do Neotontismo, por causa das pontes que faz com partes do neo-classissismo, que são desnecessárias e contraproducentes para uma correcta interpretação da macroeconomia.

    O que Keynes diz é só isto :

    A causa do desemprego elevado não é o facto dos preços dos produtos de consumo e dos salários serem semi-rigidos, mas sim porque a rentabilidade do Investimento é impossivel de calcular e porque o Intestimento em bens de capital é pro-ciclico.
    Assim, o Investimento sobe numa expansão e desce abruptamente numa recessão, cuasando desemprego nas empresas de bens de capital que depois por baixa do rendimento agregado se propaga par todos os sectores económicos.

    GT- Capitulo 18 – Parte II que fecha a seguir com :

    “The above is a summary of the General Theory. But the actual phenomena of the economic system are also coloured by certain special characteristics of the propensity to consume, the schedule of the marginal efficiency of capital and the rate of interest, about which we can safely generalise from experience, but which are not logically necessary.

    Ou seja existem outros factores de menor importância que dão cor , mas que não são lógicamente necessários à correcta formulação da GT.

    Por isso é fundamental perceber a dinãmica de ums sistema capitalista industrial com dois sectores , bens de consumo e bens de equipamento e o fluxo do crédito, antes de discutir ramificações secundárias.

  55. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel, como o CN refere acima, um aumento do nível de entesouramento, simplesmente reduzirá o nível geral de preços (sem afectar os preços relativos e a alocação de recursos). Mesmo assumindo que isso causa alguma fricção na economia, achas mesmo que alteraçōes no nível de entesouramento são frequentes ao ponto de justificarem a existência de políticas monetárias intervencionistas?

  56. Carlos Guimarães Pinto

    Paulo Pereira, o investimento em bens de capital é parcialmente pro-cíclico porque as taxas de juro não reflectem imediatamente os aumentos de poupança (redução de consumo). Caso contrário, assim que a redução de consumo presente (aumento de poupança) acontecesse, as taxas de juro baixariam e o investimento em bens de capital compensaria essa queda. Os ciclos seriam suavizados.

  57. CGP,

    Duas notas.

    Primeiro: acho que há alguma ambiguidade na utilização do termo “poupança”. Se a poupança é o conceito de contabilidade nacional Rendimento – Consumo [que é igual ao Investimento], então por definição uma redução do consumo tem de ter como contrapartida um aumento do investimento. Ceteris paribus, menor consumo -> tx. juro mais baixa -> maior investimento. [E claro, há custos de transição].

    Mas se por poupança entendemos a procura de saldos monetários – que acontece nas famílias que consomem mas que pode alargar-se às empresas que investem – então não há nenhuma razão para supor que menos consumo signifique mais investimento, porque a sensibilidade das empresas à redução do juro pode não ser suficiente para contrariar a procura por moeda. Ou seja, neste caso nem sequer há o problema de “custos de transição”, mas sim o risco de que a economia fique “travada” num nível de rendimento permanentemente mais baixo.

    E agora pegando na sua resposta ao MM: eu não acho que um aumento do nível geral de entesouramento seja comum; mas como a economia está interligada, “fogos” localizados podem propagar-se e gerar uma espiral de entesouramento. O caso da reacção do investimento à evolução do consumo parece-me o exemplo mais óbvio. Eu não conheço nenhum registo histórico de uma quebra do consumo a ser seguida por uma explosão do investimento.

    Segunda nota: o que é que é exactamente “intervir” no mercado de juros? É o BC fixar a taxa de juro? É que a política de reduzir a taxa de referência quando o consumo diminui tenta precisamente emular o que seria feito pelo regime de mercado, caso não houvesse banco central. Podemos discutir a intensidade deste efeito (será que devia descer mais ou menos, ou subir mais ou menos?) mas não o seu sentido.

  58. Paulo Pereira

    Carlos G. Pinto,

    Se verificar o histórico, as taxas de juro do crédito não variam assim tanto, isto por causa de mais um efeito pro-ciclico, que é o risco de crédito, o qual aumenta com a diminuição do consumo e com a diminuição do investimento (recessão económica).

    Ou seja , uma economia com crédito privado, é ainda mais pro-ciclica que uma economia sem credito, ou generalizando, quanto mais crédito privado mais fortes são as recessões, se deixadas às forças da economia privada.

  59. Carlos Guimarães Pinto

    Priscila,

    Não existe evidência empírica de aumentos do investimento em bens de capital a seguir a quebras de consumo, exactamente porque as taxas de juro são definidas centralmente. E não é apenas uma questão de direcção e intensidade, mas principalmente de timing. Se as taxas de juro se alterassem em real-time por mecanismos de mercado, um aumento de poupança resultaria imediatamente num aumento de investimento em bens de capital.

    O efeito do entesouramento, com preços fléxiveis, é basicamente a diminuição do nível geral de preços. Não há nenhuma razão para afectar o produto real.

  60. Carlos,

    “Não existe evidência empírica de aumentos do investimento em bens de capital a seguir a quebras de consumo, exactamente porque as taxas de juro são definidas centralmente”

    Não. Este padrão de colapso simultâneo do investimento e do consumo também se verificava nos EUA antes de ser criada a Fed. Os EUA são um bom case study porque têm boas séries de dados para o século XIX e criaram um banco central relativamente tarde. Mas presumo que sejam apenas um entre muitos a refutar essa ideia.

    Mas o mais importante é que mesmo teoricamente não há nenhuma razão para esperar isso. A priori é de esperar que a descida da taxa de juro aumente o investimento face a um cenário de manutenção da taxa de juro, mas não há razões para esperar que a descida da taxa compense a variação das outras variáveis. Se eu queria investir 100 e devido a más perspectivas de negócios só quero investir 10, dificilmente será a taxa de juro a convencer-me a investir 200. Até porque há um limite abaixo do qual ela não pode descer.

    Finalmente, o BCE manipula as taxas de juro semanalmente. Parece-me difícil de engolir que um lagging de 6 ou 7 dias faça a diferença entre ver a Zona Euro a crescer segundo a sua tendência ou cair numa recessão de 4 ou 5 anos. [Outro argumento: o BCE não fixa bem uma taxa de juro, mas um intervalo de oscilação. E muitas vezes a taxa é descida antes que a taxa de mercado tenha tocado na parte inferior da banda, o que sugere que não é o BCE a agir tarde].

  61. Ramone

    “O marxismo e a sua teoria da mais-valia foi uma tentativa ideologica de negar radicalmente este papel mas a verdade é que cada vez menos o senso comum é receptivo a esta ideia (mesmo os “anti-capitalistas” de hoje não defendem uma sociedade sem capitalistas).”

    O pensamento maxista também se renova. Hoje há alguns autores que de facto consideram que neste momento não se vê propriamente um horizonte de supressão do capitalismo mas que ainda assim encontram vias de resistência à pura absorção das relações económicas na perspectiva do capital. Karatani, por exemplo, diz que os assalariados, a mão-de-obra. hoje em dia tem a possibilidade de se tornar sujeito nas relações económicas – e não apenas meio e objecto – através da posição essencial de consumidor. É aqui que o capital tem de sair do conforto para seduzir as massas a consumir os seus produtos e é aqui também, no consumo, que as massas têm um momento de poder sobre o capital. Podemos bem imaginar que se houvesse uma perpectuação da poupança por parte da mão-de-obra, das massas, por muito investimento que o capital fizesse o seu retorno sempre dependeria de terminar com aquela “perpectuação” da poupança por parte da mão-de-obra.

    Por isso eu até acho engraçado alguns que sendo defensores do capitalismo ao mesmo tempo defendem a poupança como um espécie de virtude inscrita em algum livro sagrado. Se os portugueses levarem totalmente a sério esta ideia que perpassa hoje em dia de ser a popança uma virtude em e por si mesma e entrarem numa longa era de poupança chegará o momento, porventura mais cedo do que se poderá esperar, em que o capital português que depende do mercado interno comece a estrebuchar, a falir, o desemprego a aumentar e, finalmente, a própria direita moralista a exigir ao Estado políticas de des-incentivo à poupança. Se esta poupança for internacional, se os povos aderirem a esta ideia da virtude em e por si mesma da poupança, podem dizer adeus ao capitalismo tal como o entendemos no ocidente. O estado de conflito social, devido ao aumento do desemprego e a necessidade do Estado intervir na economia como até agora nunca o fez no pós-guerra liberal, será quase de certeza a tónica dominante.

  62. Paulo Pereira

    Carlos G. Pinto,

    Não existe lógica causal nenhuma, nem provas historicas que comprovem a tese de que o aumento da poupança numa economia leva ao aumento do investimento

    As provas históricas que existem e a lógica causal comprovam o inverso. Insistir nessa tese é uma teimosia sem sentido.

    Numa economia industrial tecnologica em geral o Investimento causa a poupança, quer monetária quer real.

  63. Ramone

    Paulo,

    Julgo que a coisa vai mais longe do que isto. Parece-me que a grande ilusão é pensar que o capitalismo, o fenómeno, tem alguma lei interior estável que seja, digamos, um ponto de arquimedes diamantino, indestrutível, que valha em e por si mesmo e que seja, perante a actividade dos homens, uma referência legal perfeitamente objectiva. A meu ver não há nada disto. Dentro do fenómeno capitalista há apenas o que nós lá pomos. Por exemplo, em relação à poupança: se houver demasiada poupança esta chegará a um ponto em que se torna contraprodutiva, se houver demasiado investimento este chegará a um ponto onde se torna também contraprodutivo, de modo que o que as “leis” do capitalismo mostram é que cada uma já tem o germe do seu contrário.

    Que os economistas da praça digam tudo e o seu contrário sobre, por exemplo, os actuais problemas da Europa, é sinal disto mesmo – no entanto este fenómeno não é levado às últimas consequências, ou seja, cada facção, digamos, julga ser ela que está em posse das verdadeiras leis do capitalismo, quando a verdade e que não existem leis nenhumas, pelo menos na concepção comum de lei (da natureza) enquanto uma objectividade em e por si mesma interior aos fenómenos. As leis do capitalismo que existem são, em última análise, as que nós escrevemos, o que é dizer que a lei do capitalismo é a satisfação dos homens. O capitalismo não vale por si mesmo, vale apenas enquanto a maioria das pessoas esteja satisfeita com ele. Esta é a lei do capitalismo. Se há um ponto de arquimedes diamantino dentro do fenómeno capitalista é este, ou seja, somos nós e a satisfação que tiramos dele.

  64. Paulo Pereira

    Nem sequer vale a pena especular sobre questões gerais do capitalismo, quando nem sequer uma economia de dois sectores com crédito é entendida.

    Apesar da extrema complexidade da economia, existem caracteristicas fundamentais provadas historicamente e logicamente, que servem para modelizar de uma forma simples uma economia de dois sectores com crédito:

    – os empreendedores usam o Investimento para aumentar a produtividade continuamente, inovando;
    – a propensão para o consumo é ligeiramente pro-ciclica;
    – indeterminação da rentabilidade do investimento por causa das variações futuras na procura e na tecnologia, tornando-o fortemente pro-ciclico;
    – a concorrência intensa tende a eliminar lucros exagerados, validando as teses marginalistas quando a procura se mantem constante;
    – em geral existem sempre recursos reais disponiveis em excesso da subsistência minima (poupança real) o que permite a realização do Investimento sem “crowding out” real, dentro de limites razoáveis (a inflação é um indicador aproximado );

    Um sistema complexo pro-ciclico (ou seja com realimentação positiva) tende a nunca estar em equilibrio, e apresenta muitas vezes “booms” e “busts” profundos se deixado a si mesmo, sem intervenção exterior.

  65. lucklucky

    “Não existe lógica causal nenhuma, nem provas historicas que comprovem a tese de que o aumento da poupança numa economia leva ao aumento do investimento”

    Obviamente que existe. A poupança aumenta a confiança, aumenta a solidez dos bancos que emprestam. E torna-se mais barato “comprar” crédito.
    É evidente que isto pode ser destruído pela total falta de confiança no sistema político,justiça,propriedade privada e ou na segurança em geral.
    Um país com muito crime, sempre a aumentar os impostos, onde a justiça não funciona, em que o discurso publico é anti capitalista, anti empresário em que a sociedade no geral não tem aspiração de criar algo de novo é óbvio que a poupança não faz milagres.
    Ainda menos intervenções dos bancos centrais que aumentam ainda mais o nível de discricionaridade e a insegurança com inflação.

    Há muito mais variáveis que aquelas que o Keynesianos julgam. Basta a bizarra de que imprimir dinheiro=> crescimento. Como se inflação não fosse recessão.

  66. Pingback: Crowding Out « Ricardo Campelo de Magalhães

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