No Fio da Navalha

 

O meu artigo no jornal i deste sábado.

É o fim do mundo como nós o conhecemos

Se o mundo em que nascemos está a acabar, o que decidirmos e fizermos agora vai definir o que deixaremos aos nossos filhos.

No início do século XX, a vida na Europa era um mar de rosas. Ou assim as pessoas na época julgavam, esquecendo os avisos de perigo que se iam repetindo. O equilíbrio de poder europeu perdera elasticidade e a genialidade de Bismarck não era para todos. Até o naufrágio do Titanic, em 1912, foi um aviso: as máquinas não só eram vencíveis, como se podiam virar contra o homem. E assim foi, dois anos depois, quando milhões correram eufóricos em direcção a uma guerra que, cedo se percebeu, não iria ser como as demais. O século XIX, a ingenuidade e candura daqueles tempos terminaram de repente. Há quem diga que a Europa também. E quem observe as fotografias dos soldados naquela primeira grande guerra, o que vê é o olhar da incredulidade. Como foi possível que o progresso os tivessem conduzido até ali?

Não estamos à beira de uma guerra, mas próximos de uma mudança igualmente abrupta. A vida segura e previsível que tivemos até aqui acabou. O conceito de emprego estável e certo não será para nós. O ensino pago por todos e gratuito para quem dele aufere vai deixar de ser possível. Até aquela ideia de que o Ocidente é o centro do mundo pode passar à história, com esta a ser escrita por potências emergentes como China e Índia. O que até há pouquíssimo tempo era inimaginável será amanhã provável. São mudanças que vão ocorrer, não porque queiramos, mas porque têm de acontecer. Por mera necessidade. Foi a necessidade que criou o Estado social, quando as famílias, que tinham muitos filhos, além de sobreviver passaram a exigir melhores condições de vida. É outra vez a necessidade, porque vivemos mais anos e há menos crianças, que porá ponto final no Estado que toma conta de todos. É a necessidade de enfrentar a concorrência vinda de outros continentes que nos está a obrigar a mudar. A ceder às exigências de outros povos e credos. Vivemos tempos interessantes em que o desconhecido se apresenta aos nossos olhos e vemos o equilíbrio que conhecíamos tão bem desmoronar-se. As fundações nas quais os nossos pais (e falo para os leitores de todas as idades) alicerçaram as suas vidas não servirão mais para nós. E daqui a muitos anos, os nossos bisnetos olharão para estes tempos como nós encaramos a linha de fronteira que foi o princípio da I Grande Guerra. O tempo do fim de um século e o início de outro.

Como vai ser o século XXI, ninguém sabe. Mas sabemos os riscos que corremos. Todas as mudanças abruptas trazem insegurança e esta leva à exigência de ordem que, a maioria das vezes, pressupõe restrição das liberdades. Mário Soares, numa entrevista a este jornal, chegou a referir que os Estados soberanos estão a ser substituídos pelos mercados. Sucede que, devido à sua falência financeira, mais Estado implica uma forte desvalorização da moeda e inflação. Ora, se foi a inflação que acabou com as democracias nos anos 30, a proposta de Mário Soares é perigosa. Veja-se a desconfiança que já mina a Europa, como se no Norte todos fossem excelentes trabalhadores e, no Sul, preguiçosos. Estamos a esquecer as particularidades de cada indivíduo e a generalizar conceitos e características, alargando-os a cada povo. Tal como aconteceu no passado. Como vamos evitar a repetição da História? Como vamos lidar com os mais pobres quando o Estado social acabar?

Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz. Se o Estado não pode, fá-lo-emos nós. Os governos devem trabalhar, quanto antes, com as inúmeras organizações de solidariedade, religiosas e laicas, para que estas alarguem o seu campo de acção. Para que grupos criem mais escolas e um espírito de pertença substitua o de colectividade. Menos Estado não é o caos, mas pode ser mais justiça. Porque se estamos a assistir ao fim de um mundo, presenciamos também o nascimento de outro. O nosso.

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3 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. Paulo Pereira

    Eu também acho que sim, porque um dia destes o BCE fica sem Euros e o FED sem Dolares e o BoJ sem Yenes e a economia vai ao charco.

  2. Pi-Erre

    “Os governos devem trabalhar, (…)”
    .
    Quanto mais trabalharem pior isto fica.
    Os governos devem é desaparecer. E depressa, depressa !!!!!!

  3. ” Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz ”

    eu só assumo quando os Banqueiros tambem assumirem…os banqueiros com a sua politica, apoiados pelo Estado, de embriagarem as populações com créditos agora andam a fugir às suas responsabilidades…la Banck, C´est Le Estad…

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