disciplina orçamental + indisciplina monetária

“Segundo dados do Governo, se Portugal utilizar a totalidade dos 78.000 milhões de euros disponibilizados pela troika, o Estado terá de desembolsar 34.400 milhões em juros, ou seja, cerca de 44% do montante do empréstimo (…) Os empréstimos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ou do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) têm uma duração média de 12 anos, a uma taxa de juro média de 4%. Já os empréstimos do FMI têm uma duração média de sete anos e três meses, e uma taxa de juro média de 5% – mas neste caso “a taxa de juro é variável, à qual acresce um ‘spread’ [diferencial] que depende do montante em dívida e pode chegar a perto de 400 [pontos base] depois dos três primeiros anos”, lê-se no documento das Finanças.”, hoje no Público online.

Ora, façamos umas contas simples. O PIB português é de 170 mil milhões de euros. Tendo em conta que do total dos 78 mil milhões que constituem o pacote de resgate um terço é proveniente do FMI e dois terços da União Europeia, significa isso que o empréstimo externo terá uma maturidade média de dez anos e meio. Ou seja, só em juros, pagaremos anualmente mais de 3 mil milhões de euros (1,9% do PIB). E, como se não bastasse, há ainda que computar a factura anual referente à amortização do capital: 7 mil e quatrocentos milhões (4,3% do PIB) por ano, que algum dia teremos de amortizar. Tudo somado – e sem contabilizar outros juros e amortizações de outros empréstimos tomados pela República Portuguesa e que ainda não estão vencidos –, estamos a falar de mais de 10 mil milhões de euros anuais (mais de 6% do PIB) durante cada um dos próximos dez anos!

Em suma, o País, para suportar tamanha factura, precisa de crescer a uma taxa nominal que seja, pelo menos, superior a 6%. E na ausência de crescimento real, por via da necessária contracção pública e privada que corrija o défice público e externo, a única forma de pôr isto a funcionar – o raciocínio é idêntico para qualquer um dos outros periféricos, incluindo, mais dia ou menos dia, La France – é pôr o Banco Central Europeu a imprimir papel, a fim de gerar uma inflação de, pelo menos, 8, 9 ou 10%. A alternativa é uma Enorme Depressão, mediante a qual qualquer esforço de consolidação orçamental, mais cedo ou mais tarde, ruirá por falta de apoio democrático.

Enfim, não me entendam mal, mas sendo a disciplina orçamental uma prioridade absoluta – para travar o endividamento e gerar a tão almejada poupança –, nestas infelizes circunstâncias, a indisciplina monetária é a outra prioridade (não menos) absoluta! E mesmo assim não vejo como é que conseguiremos passar sem um perdão nominal de dívida…Felizmente, a crise já chegou ao centro da zona euro. Uma união de periféricos – franceses incluídos, mas sem os gregos – é a melhor forma de virar o jogo a nosso favor, sendo, na minha opinião, muito provável que a Alemanha comece por ceder um pouco mas acabe por desistir de tudo, saindo do jogo.

18 pensamentos sobre “disciplina orçamental + indisciplina monetária

  1. Paulo Pereira

    Concordo , excepto no que diz respeito à tese de que a compra de titulos pelo BCE pode aumentar a inflação significativamente.

    A compra de titulos no mercado secundário não tem efeitos inflacionistas duradouros. É apenas papel a mudar de mãos.

    Aliás até terá efeitos deflacionistas porque os juros passam a ser recebidos pelo BCE em vez de pelo sectir privado,

  2. “(…)mesmo assim não vejo como é que conseguiremos passar sem um perdão nominal de dívida…Felizmente, a crise já chegou ao centro da zona euro. Uma união de periféricos – franceses incluídos, mas sem os gregos – é a melhor forma de virar o jogo a nosso favor, sendo, na minha opinião, muito provável que a Alemanha comece por ceder um pouco mas acabe por desistir de tudo, saindo do jogo.”

    a ecónomia portuguesa não aguenta o tempo de decisão da Europa! Portugal deve imprimir moeda imediatamente…

  3. Carlos Duarte

    Se a dívida for em Euros (ou mesmo USD), emitir moeda própria não adianta nada! Só uma desvalorização da moeda da dívida resulta (i.e. o BCE imprimir notas).

  4. “Se a dívida for em Euros (ou mesmo USD), emitir moeda própria não adianta nada! Só uma desvalorização da moeda da dívida resulta (i.e. o BCE imprimir notas).”

    adianta sim…nunca mais Portugal deve entrar numa aventura de perder o controle da sua moeda!

  5. Paulo Pereira

    Existe uma outra opçã para Portugal e todos os países desta pseudo-moeda única sem divida unica :

    – emitir obrigações com uma clausula adicional que diga : “Em caso de incumprimento o portador desta obrigação pode usá-lo para pagamento de impostos em Portugal pelo seu valor nominal acrescido dos juros respectivos “.

    Cria-se assim uma espécie de obrigação / moeda que terá juros muito mais baixos que as obrigações simples .

  6. Fernando S

    Paulo Pereira : “Existe uma outra opçã para Portugal e todos os países desta pseudo-moeda única sem divida unica :
    – emitir obrigações com uma clausula adicional que diga : “Em caso de incumprimento o portador desta obrigação pode usá-lo para pagamento de impostos em Portugal pelo seu valor nominal acrescido dos juros respectivos “.
    Cria-se assim uma espécie de obrigação / moeda que terá juros muito mais baixos que as obrigações simples.”
    .
    Não devo ter percebido bem !…
    Quem é que (para além do Paulo Pereira, claro !) vai comprar titulos de divida de um Estado que representa um risco de incumprimento e com rendimentos “muito mais baixos que as obrigações simples.” ?!!…

  7. lucklucky

    Mais uma tentativa de quadratura do circulo… Imprimir moeda para começar é imoral.

    Depois pune os bons e os maus. O único resultado é os bons irem embora. As empresas vão ter de começar a fazer contas à inflação e inúmeros negócios vão por água abaixo devido à incerteza. Resumindo uma solução de republica de bananas sul americana que se vai reproduzir ad eternum. Só falta o caudilho. Mas já há muitos candidatos.

  8. Paulo Pereira

    Repare que os juros actuais Portugueses andam nos 5 anos pelos 14%.

    mas para um pequeno aforrador que tenha rendimentos em Portugal e que pague impostos cá, poderá valor a penas comprar Obrigações Especiais, por exemplo a 7% porque sabe que as poderá usar para pagar os seus impostos em caso de incumprimento.

    Os bancos podem fazer arbitragem diária com os seus clientes, porque normalmente terão clientes que todos os dias pagarão impostos e poderão usar essas obrigações especiais.

    Ao fim de alguns anos toda a divida estaria convertida em Obrigações Esp. e lentamente os juros iriam descer , dando tempo a uma recuperação económica.

  9. “As empresas vão ter de começar a fazer contas à inflação e inúmeros negócios vão por água abaixo devido à incerteza. ”

    você é um lirico! actualmente em Portugal as Empresas estão a cair que nem tordos e o problema da inflação ainda nem se põe…

  10. Fernando S

    Paulo Pereira : “… mas para um pequeno aforrador que tenha rendimentos em Portugal e que pague impostos cá, poderá valer a pena comprar Obrigações Especiais, por exemplo a 7% porque sabe que as poderá usar para pagar os seus impostos em caso de incumprimento.”
    .
    Afinal tinha percebido bem !!…

    Por absurdo, mesmo admitindo o milagre de que um certo numero de “pequenos aforradores” raciocionaria como sugere o Paulo Pereira, claro que a percepção sobre o risco de incumprimento do Estado portugues seria ainda maior sabendo-se que uma parte das “receitas” fiscais futuras seria constituida por … titulos de divida do Estado falido !…

  11. Paulo Pereira

    Repare que o problema principal não é o deficit anual que deve andar pelos 12 mil milhões ( mas terá de baixar para 5 mil milhões), mas sim o refinanciamento dos 170 + 30 (SEE) mil milhões.

    Portanto , se o refinanciamento for feito com Obrigações Especiais, constantemente, não existe diferença em termos de tesouraria, mas dao o risco ser menor os juros teriam tendencia a baixar, o que reforçaria o rating, criando um ciclo positivo.

    Sobre o financiamento do deficit anual, o raciocinio é o mesmo , ou seja dado que as Obrigações Especiais teriam menos risco , os juros seriam inferiores, etc.

    Ou seja , é sempre positivo emitir Obrigações Especiais, desde que em simultãneo se reduza o deficit anual, gradualmente até zero.

  12. “precisa de crescer a uma taxa nominal que seja, pelo menos, superior a 6%”
    Tal só será possível saindo do Euro e provavelmente da própria UE.
    Um Portugal no EEA (European Economic Agreement), tal como a Noruega, Islândia ou Liechtenstein, ou mesmo na saudosa EFTA (como a Suiça), é que poderia almejar a crescer a taxas destas.

  13. Ricardo Arroja

    “precisa de crescer a uma taxa nominal que seja, pelo menos, superior a 6%”

    E olhe que, depois de escrever o post, estive a fazer mais umas quantas contas e receio que mesmo esses 6% sejam manifestamente insuficientes…

  14. lucklucky

    “Tal só será possível saindo do Euro e provavelmente da própria UE.”
    .
    Porquê que fora já é possivel crescer a 6%? Será por causa de um certo evento chamado desvalorização – que também se pode chamar ficar mais pobre – ocorreu?

    Se você destruir as casas dos portugueses também poderá crescer a 6% nos anos a seguir a reconstruí~las e até terá pleno emprego. Ficou mais rico? Não ficou muito mais pobre.
    Mas já poderá usar a palavra “crescimento” e assim ficam felizes. Crescimento a qualquer custo mesmo que fiquem mais pobres. Brilhante.

  15. Zebedeu Flautista

    “A alternativa é uma Enorme Depressão, mediante a qual qualquer esforço de consolidação orçamental, mais cedo ou mais tarde, ruirá por falta de apoio democrático.”
    .
    E quando cai o apoio democrático e a miséria alastra o resultado não pode ser bonito. Vão ter de pagar a crise os mais pobres que vivem de parcos rendimentos difíceis de acompanhar a inflação e os que não sendo pobres insistem em poupar.Agora é só convencer os alemães.

    Só não percebo ( quer dizer até percebo) o porque de abandonar simplesmente os Gregos à sua sorte por serem o elo mais fraco. A seguir pela lógica não deverão italianos, espanhóis,franceses,etc fazer-nos o mesmo?

  16. “Se você destruir as casas dos portugueses também poderá crescer a 6% nos anos a seguir a reconstruí~las e até terá pleno emprego.”

    essa é a estratégia do Governo e da Troika, no Euro, destruir ao máximo a ecónomia interna de Portugal…e a prova vai estar nos numeros impressionantes de desemprego que Portugal irá atingir…Portugal tem mesmo que sair do Euro, não existe dinheiro a circular na ecónomia nacional e isso estrangula qualquer ecónomia, vamos empobrecer, há pois vamos…quem disser o contrário é aldrabão! a ilusão da riqueza com o Euro, foi …Portugal necessita de uma moeda para a sua realidade e circunstãncias económicas ! Uma das Grandes Reformas que o Estado Português tem que fazer, é no sector Financeiro…Regulamentação da Actividade Bancária, a Reforma profundissima no Banco de Portugal, entidade que irá ter o controlo e gestão da nova moeda nacional e do Tribunal de Contas ( não se admite que este Tribunal tenha um desfazamento com a realidade de vários anos…)

    P.S.- o Banco de Portugal deve estar sob a alçada das hierarquias militares…

  17. economista

    A tese de doutoramento de Cavaco Silva foi a divida publica e o crescimento economico !…
    Que andou a fazer Cavaco Silva estes anos todos ? Justifica os vencimentos que recebeu ?
    Numa empresa bem organizada haveria motivo para despedimento com justa causa …Quanto custou ao País a pretensa estabilidade politica (instabilidade que posterior e tardiamente viria a acontecer) apenas para obter o segundo mandato ? Vendeu a alma e os portugueses pois tinha receio que lhe acontecesse o mesmo que no primeiro mandato em que foi eleito com menos votos do que aqueles que dispersamente votaram para ele não ser eleito !… Mas que vergonha de Democracia e de Pais que segundo Eça , é apenas um Sitio , e ainda por cima muito mal frequentado ..
    P.S.
    Agradecido pelas contas . Os portugueses sofrem de inumerocracia e de iliteracia economico-financeira e social . Têm imensa dificuldade em entenderem estas questões

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