Pilotos fogem da social-democracia

Cerca de três dezenas de pilotos da TAP deverão rumar ao Médio Oriente para integrar companhias locais, como a Emirates e a Qatar Airways, noticia hoje o “Correio da Manhã”, adiantando que melhores salários, mas sobretudo condições como habitação, saúde, transporte e estudos dos filhos pagos, são os motivos que estão a seduzir os profissionais portugueses.
Ao jornal, a saída de pilotos da TAP foi confirmada pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), (…) As companhias estarão a oferecer remunerações de cerca de oito mil euros por mês sem impostos e também benefícios que incluem, para toda a família, casa e transportes, seguros de vida e de saúde e pagamento da educação dos filhos até aos 18 anos.

(Fonte: Jornal de Negócios)

Esta notícia é especialmente relevante se tomarmos em conta alguns detalhes não explicitados:

– Saúde, educação e transporte são gratuitos, mas fornecidos pelo empregador. Não existe sistema público gratuito ou subsidiado de Educação, Saúde ou transporte em qualquer destes países. Também não existe segurança social que lhes garanta reforma ou protecção na doença e desemprego.
– Tal como os restantes empregados, estes pilotos estarão em situação precária. Podem ser despedidos sem justa causa em qualquer altura do seu contrato apenas com um mês de pré-aviso.
– O salário de oito mil euros por mês brutos (e líquidos) que receberão nestas empresas é aproximadamente o mesmo salário bruto que recebem na TAP
– Os pilotos irão trabalhar mais horas do que na TAP e não terão direito à greve

Duas conclusões podem ser retiradas daqui: primeira, quando o estado se abstém de providenciar serviços como educação e saúde, o mercado, caso existam condições económicas para tal, garante esse acesso. Este caso não é excepção, todas as empresas destes países garantem seguro de saúde aos seus empregados e quase todos garantem ou subsidiam a educação para os filhos. Segundo, e mais importante, estes pilotos abdicaram da sua reforma, do sistema de educação e saúde pública, da sua protecção laboral e do seu direito à greve (já para não falar da possibilidade de estarem próximos de família e amigos) apenas para poderem ter acesso ao que o Estado lhes absorve em impostos todos os meses. Ou seja, o SPAC veio a público anunciar que os pilotos não estão mais dispostos a assumir os custos dos “direitos” pelos quais o mesmo sindicato vem lutando. Os pilotos votaram com os pés e votaram contra o socialismo. A marcha lenta para fora do país de mão-de-obra qualificada, escapando ao custo dos “direitos adquiridos” continua e agora até pelos que mais deles beneficiam.

32 pensamentos sobre “Pilotos fogem da social-democracia

  1. Alexandre

    A muito tempo que essa é a minha opção. O que, diga-se, só funciona verdadeiramente se tivermos uma cultura de preparar os «rainy days». E, reconheça-se, isso só funciona verdadeiramente a partir de níveis de remuneração significativamente mais altos do que os se praticam em Portugal, na generalidade das actividades menos qualificadas, sobretudo no que toca à preparação para os «golden years». E, por fim, contra mim falo, mas tb o reconheço, desaparece a função de «solidariedade geracional». Mas, enfim, de forma egoísta, parece-me preferível, sobretudo se compreendermos, e estivermos enquadrados, num quadro familiar alargado em que essa solidariedade é praticada.

  2. Zebedeu Flautista

    Que façam boa viagem e sejam muito felizes. O mais correcto será dizer que estão a fugir de sustentar a social democracia para os que ganham até a mediana e não tanto dos seus próprios “direitos adquiridos”. No lugar deles se calhar fazia o mesmo.

  3. neotonto

    Toma lá essa. E eu que estava em que iam para lá porque gostavam do cheiro do pitroil…

    e) Recruitment of workers from underdeveloped countries in the oil exporters
    The evolution of oil prices in the 70’s was a great growth of the economies of producing countries. Many of them became rentier economies, where the bulk of the population depends directly or indirectly, the income generated by oil exports and most of the jobs are referred to foreign labor. In Libya, immigration policy is closely linked to foreign policy, admissions and expulsions are changing, depending on the alliances and breaks set by the government, the main foreign contingents from Egypt, Tunisia and Palestine. Iraq, in accordance with the pan-Arab ideology of his government, has had an interest in receiving Arab immigrants, who are offered a non-discriminatory legal treatment. Despite these preferences also arrived Asian and Iranian troops. The Gulf War was a failure in this process by causing the flight of many of the immigrants, the subsequent international embargo has prevented economic recovery and demand for labor.
    In the Gulf countries until the second half of the 70 oil production and most of the services by immigrants were Arabs (Egyptians, Yemenis, Palestinians, Jordanians, Lebanese and Sudanese). The government fears the political crisis because of the potential destabilizing assumed these populations, who were legitimately to claim rights, was to enhance the recruitment of Asians, especially women from the Philippines and Sri Lanka for domestic service. In the mid 80’s, with the decline in oil prices, ending the era of mass immigration, there is a tendency to unemployment and the return of immigrants. However, foreign labor remains an irreplaceable structural component to the economy of the region, with over 5 million immigrants.
    After the Gulf War many monarchies in the area do not want Arab immigrants, to those who have lost legitimacy. In 1990 63% of the workforce of the seven member states of the Gulf Cooperation Council was of foreign origin (ranged from 91% in the UAE and Bahrain 53%) 19.

  4. Vasco

    ” E eu que estava em que iam para lá porque gostavam do cheiro do pitroil…”

    Qual o significado desta frase???

  5. Carlos Guimarães Pinto

    neotonto, essa explicação faz pouco sentido, por vários motivos:

    1. Se no caso do Qatar é verdade que a economia vive do petróleo e gás natural, tal não é o caso do Dubai. O Dubai não tem qualquer tipo de recursos naturais.
    2. Ambas as empresas são lucrativas e não pagam aos seus pilotos mais do que a TAP (em termos brutos)
    3. A diferença salarial oriunda da ausência de imposto é compensada pelo facto de o estado não garantir nenhum dos benefícios para os quais o imposto deveria ir. Essa é a questão: entre pagarem o imposto usufruindo dos benefícios e não o pagarem, os pilotos optaram por não pagar.

  6. mts

    “- Os pilotos irão trabalhar mais horas do que na TAP e não terão direito à greve”

    Só uma pergunta, como sabes que vão trabalhar mais horas do que na TAP?

  7. Alexandre

    Carlos Guimarães Pinto,

    Cada um desses pilotos tenciona reformar-se no Dubai? Porque parece-me que o plano é ganhar o mais possivel “lá fora” e depois voltar a Portugal para usufruir dos serviços furto da “extorsão fiscal.” Falo com muitos expats e quase todos, menos os que estão no norte da europa, estão a fazer a vida do emigrante com todos os objectivos de voltar. Ao país do Estado Ladrão…

    Que chatice, nunca mais encontram um Galt’s Gulch onde a malta lá queira ficar…

  8. Tiro ao Alvo

    Estas notícias são inventadas. Os pilotos perderam a vergonha há muito tempo.
    Eles julgam-se acima de todo o mundo, parecendo que não têm pátria, nem família, nem amigos. E, todos, temos que lhe dizer que isso é muito feio, e que, por isso mesmo, os desprezamos. Mesmo quando andamos de avião e tudo.

  9. Paulo Pereira

    Eu gostava de ser piloto e ir trabalhar para um país produtor de petroleo, mas gostava mais que Portugual produzisse petroleo.

    São gostos …

  10. Luís Lavoura

    Ambas as empresas são lucrativas e não pagam aos seus pilotos mais do que a TAP (em termos brutos)

    Em termos de salário bruto as empresas do Golfo não pagam mais; mas na prática pagam (bastante) mais, na medida em que oferecem educação e saúde (e alojamento?) aos funcionários.

    O salário bruto pode ser o mesmo (segundo nos informa o Carlos) mas, uma vez que oferecem outros benefícios, por sinal bem caros, o pagamento efetivo será bastante superior.

  11. Luís Lavoura

    É perfeitamente racional, da parte dos pilotos, irem trabalhar para uma empresa que lhes paga mais. Ninguém se deve surpreender por esse facto. Há montes de profissionais portugueses (médicos, etc) que estão a ir trabalhar para o estrangeiro, para empresas que lhes pagam mais.

  12. Paulo Pereira, mais uma vez não leu o post. Ao irem para lá os pilotos abdicaram dos seus direitos sociais para os quais pagam impostos. Preferiram ter os impostos. O salário bruto é o mesmo, mais educação e saúde.

  13. Carlos Guimarães Pinto

    Alexandre, não é certamente pelo Estado Social que esses emigrantes querem regressar a Portugal. Muitos desses pilotos não se vão reformar no Dubai, mas irão gozar rendimentos na reforma provenientes das poupanças do tempo que lá passaram.

  14. Paulo Pereira

    Carlos G. Pinto, o que é que tem a ver ir trabalhar para um país produtor de petróleo com social-democracia ?

    Se Portugal produzisse petroleo os pilotos podiam ficar cá !

    A maior parte dos cidadãos portugueses vai trabalhar para paises sociais-democratas .

    Portugal nunca foi social-democrata porque não é capaz de ser auto-sustentável há décadas.

  15. Carlos Guimarães Pinto

    Paulo Pereira, o Dubai não tem petróleo, nem gas natural. Tem areia, praias e uma economia sem impostos sobre o rendimento.

  16. “Emirates is a subsidiary of The Emirates Group, which has over 50,000 employees, and is wholly owned by the government of Dubai directly under the Investment Corporation of Dubai.” – Wikipedia

  17. lucklucky

    O Futuro é Seasteading e o Espaço.
    Nessa altura o Estado Soci@lista de Direita e Esquerda mostrará que se transformou na RDA e tentará construir um Muro de Berlim.

  18. Alexandre

    Lucky, a sério: seasteading JÁ!! Sem ironia. O problema das novas teorias liberais é que, de acordo com o que se diz aqui, nunca foram postas em prática. Assim estou ansioso para que surja a primeira. Vai falhar horrivelmente. Mas se não falhar lá estarei eu a fazer o mea-culpa e a render-me ao deus mercado. 🙂

  19. Alexandre, eu diria que há experiências muito próximas. Singapura, hong-kong, Dubai são bons exemplos. Não precisa de exemplos de liberalismo puro, basta observar países um pouco mais liberais que Portugal.

  20. lucklucky

    “Lucky, a sério: seasteading JÁ!! Sem ironia. O problema das novas teorias liberais é que, de acordo com o que se diz aqui, nunca foram postas em prática. Assim estou ansioso para que surja a primeira. Vai falhar horrivelmente. Mas se não falhar lá estarei eu a fazer o mea-culpa e a render-me ao deus mercado.”

    É evidente que só diz isso porque sabe que tecnologicamente ainda é difícil.
    Se fosse algo que acontecesse já amanhã viria o Muro de Berlim e o máximo de sanções a quem conseguisse escapar. Os EUA cada vez mais tirânicos já o fazem indo atrás de quem ganha dinheiro fora do país. Por isso é que cada vez mais americanos têm de abandonar a cidadania.

    Senão qual o problema que tem com um Portugal a la carte? Porque é que quer obrigar os outros a saírem do seu pais para viverem como querem?

  21. vasco

    Hong-Kong? Toda a propriedade de Hong Kong é pertença do governo chinês.

    “The People’s Republic of China owns all the land in Hong Kong , except the land on which St John’s Cathedral stands. The Chief Executive of Hong Kong has the powers to lease and grant state land to the public for ownership for a limited period of time (legally defined as “leasehold” land). The Chief Executive can do so by: i) granting Government leases for a certain period, or ii) granting licences for individuals or corporations to occupy Government land for special purposes for a certain period (usually shorter than a government lease). In other words, a “land owner” actually leases the land from the Government but the relevant lease period can be very long (e.g. 50 years or more).”

    Singapura? Singapura tem um sector de saúde público vasto e universal (ainda q nunca totalmente gratuito, 70 a 80% das pessoas usam o sector público) activa e fortemente regulado. Tem dos impostos mais altos do mundo no que respeita à compra de automóvel (e autorização para o obter).

    Tem contribuições obrigatórias mensais (36%, de empregador e empregado) em 3 níveis: um para casa, seguros, investimentos e educação; um segundo para produtos financeiros destinados à reforma e finalmente um terceiro para cuidados de saúde.

    É este o seu exemplo de experiência próxima do liberalismo? Se o liberalismo é concorrência, regulação forte, saude pública universal, segurança social obrigatória e impostos baixos, se calhar ainda viro ‘liberal’.

  22. Alexandre

    “Os EUA cada vez mais tirânicos já o fazem indo atrás de quem ganha dinheiro fora do país. Por isso é que cada vez mais americanos têm de abandonar a cidadania.”

    Realmente de há uns tempos para cá é só americanos a emigrar… E o ataque dos USA aos off-shores? Acho que o Vasco já disse tudo em relação aos modelos do CGP. Um paladino da liberdade.

  23. neotonto

    Este Guimaraes Pinto e o do tipo daqueis de pinhao fixo e nao querer cair do burro…quanto mais do cavalo como lhe acontesceu aquele santo…que em mehlor gloria esteia.

    Claro, que nunca pensei em Dubai, porque um fala dos Emirates o em Quatar (onde o litro de gasolina va a 19 ctm. Euro. Pensa efectivamente em pitroil. Atençao, pensa como o Barcelona aF.C. “pela é a pela” onde tem a sua Fundaçao…

    Ja, tivemos que interpretar que o Guimares Pinto ESTAVA FALANDO do Dubai, que produce, segundo andam a dizer… a más importante bolha inmobiliaria producidanunca comparavel a japonesa ou americana. A de Espanha em comparaçao debe ser destas de botarse a rir…

    Fiquei pensando…Até agora foi o tigre celta (Irlanda). Deixou de o se passou a gator. Agora andam na búsca do tigre de oriente. Talvez deixara proto de ser tigre para convertirse em camelo. Oriente. Oro, incenso e mirra.

    De aqui a dois ou tres anitos continuamos a falar dos centos de pilotos da TAP que vai rumar e acabar nas lineas aéreas “Dubaitis”.

    Acho que o Guimaraes Pinto nao se referia a Dubai pero aproveitando que o Pisuerga passa por Valladolid…Lá vai…aproveitamos a cojuntura.

    Fique com esto na sua memoria para a melhor memoria e gloria futura. O preço do litro em Quatar (QUATAR) mais barato é o de agua que de gasolina, por nao dizer petroleo !!!!!!!!!!!!!!!

    “Cerca de três dezenas de pilotos da TAP deverão rumar ao Médio Oriente para integrar companhias locais, como a Emirates e a Qatar Airways”

    “Se no caso do Qatar é verdade que a economia vive do petróleo e gás natural, tal não é o caso do Dubai. O Dubai não tem qualquer tipo de recursos naturais.
    1. Paulo Pereira, o Dubai não tem petróleo, nem gas natural. Tem areia, praias e uma economia sem impostos sobre o rendimento.

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  25. Anarca

    vasco,

    “Toda a propriedade de Hong Kong é pertença do governo chinês”
    Isso nada nos diz sobre a condição económica de HK. Não sabe que HK tem independência na maioria dos seus assuntos internos?

    O sistema de saúde na Singapura não tem NADA a ver com o sistema Português, e duvido que seja replicável noutros sítios. Muito menos a sua livre economia de baixíssima taxação. Comparativamente: http://www.heritage.org/index/Ranking.aspx

    “Singapore has relatively low tax rates. The top income tax rate is 20 percent, and the top corporate tax rate has been reduced to 17 percent from 18 percent. Other taxes include a value-added tax (VAT) and a property tax. In the most recent year, overall tax revenue as a percentage of GDP was 14.2 percent.”

  26. joao

    Livre economia de baixissima taxação? Se você acha 36% + income tax baixissimo, são opiniões. Não me venham é dizer q é um estado ‘liberal’.

    Em relação a Hong-Kong, pode ter a economia mais desregulada do mundo (em linguagem heritage, ‘livre’), no entanto n deixa de ser irónico que o simbolo maior da propriedade privada, o terreno, (sendo a propriedade privada o jesus dos liberais) seja todo do governo chinês.

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