Áreas Monetárias Óptimas: Euro e Atlante

Para quem estudou Áreas Monetárias Óptimas*, estes são tempos históricos.

Só hoje, o Negócios fala no Euro só para os ricos, nas discussões Franco-Alemãs para uma Zona Euro mais pequena, num Comissário Europeu a prometer “problemas” para Portugal se não cumprir as metas acordadas com Bruxelas e no desejo de Bruxelas de “inspeccionar as contas da CP, Parque Expo e ANAM.

Se querem perceber o assunto, Mundell explica. Leiam as condições para as OCAs:

The four often cited criteria for a successful currency union are:[5]

  • Labor mobility across the region. This includes physical ability to travel (visas, workers’ rights, etc.), lack of cultural barriers to free movement (such as different languages) and institutional arrangements (such as the ability to have superannuation transferred throughout the region) (Robert A. Mundell). In the case of the Eurozone, while capital is quite mobile, labour mobility is relatively low, especially when compared to the U.S. and Japan.
  • Openness with capital mobility and price and wage flexibility across the region. This is so that the market forces of supply and demandautomatically distribute money and goods to where they are needed. In practice this does not work perfectly as there is no true wage flexibility. (Ronald McKinnon). The Eurozone members trade heavily with each other (intra-European trade is greater than international trade), and most recent empirical analyses of the ‘euro effect’ suggest that the single currency has increased trade by 5 to 15 percent in the euro-zone when compared to trade between non-euro countries.[6]
  • A risk sharing system such as an automatic fiscal transfer mechanism to redistribute money to areas/sectors which have been adversely affected by the first two characteristics. This usually takes the form of taxation redistribution to less developed areas of a country/region. This policy, though theoretically accepted, is politically difficult to implement as the better-off regions rarely give up their revenue easily. Theoretically, Europe has a no-bailout clause in the Stability and Growth Pact, meaning that fiscal transfers are not allowed, but it is impossible to know what will happen in practice. Of course, during the 2010 European sovereign debt crisis, the no-bailout clause was de facto abandoned in April 2010.[7]
  • Participant countries have similar business cycles. When one country experiences a boom or recession, other countries in the union are likely to follow. This allows the shared central bank to promote growth in downturns and to contain inflation in booms. Should countries in a currency union have idiosyncratic business cycles, then optimal monetary policy may diverge and union participants may be made worse off under a joint central bank.
Agora pensem comigo: Quantas OCAs há na Europa?
Bem, na minha opinião, 2:
– A Zona Euro, com a Alemanha, Holanda, Luxemburgo, Áustria, Finlândia, Estónia, Dinamarca e talvez a Irlanda e a Suécia.
– Chamemos à 2ª a Zona Atlante: Portugal, Espanha, França, Bélgica, Itália, Malta, Grécia e talvez Eslováquia, Eslovénia e Chipre.
A 1ª zona beneficiaria de uma moeda forte, que permitiria à população pagar importações a preços baixos e fazer turismo a bons preços.
A 2ª zona beneficiaria de desvalorizações competitivas, permitindo à indústria sobreviver apesar dos hábitos da população.
As balanças comerciais estariam em equilíbrio, mas na 1ª isso seria feito sem esforço, enquanto que na 2ª o Banco Central de Roma (ou Paris…) estaria sempre a intervir. E claro que uma moeda estaria permanentemente a desvalorizar-se face à outra (o que deriva logicamente de tudo o que foi dito antes).
Obviamente o que os divide é uma questão cultural: empenho Vs facilitismo, fortaleza Vs fraqueza, objectividade Vs desculpabilização, meritocracia Vs desresponsabilização.
A moeda é um reflexo do povo. E os Portugueses pertencem ao 2º grupo: melhores amantes, mas fracos trabalhadores.
Ficam com uma imagem do Atlante.
* Esteve para ser a minha Tese de Mestrado, em vez de “Como Lucrar por Ser Liberal”

13 pensamentos sobre “Áreas Monetárias Óptimas: Euro e Atlante

  1. Paulo Pereira

    Muito bem, concordo, mas acrescentaria que qualquer que seja a moeda unica ela não pode existir sem que uma parte substancial, pelo menos 60% da divida publica seja unica, senão acabará por acontecer o mesmo que está a acontecer agora com este Euro fantasista.

    Na verdade o valor de uma moeda ao longo do tempo em relação ao exterior tem muito a ver com as caracteristicas culturais , regime politico, opções económicas , etc..

    Todas as tentativas de engaiolar um país numa moeda rigida acabaram por empobrece-lo.

  2. Carlos Novais

    Para um “austríaco” a zona monetária óptima é a constituída por toda e qualquer pessoa e comunidade que deseja proceder a trocas usando um meio de troca de qualidade, ou seja:

    O mundo,e o ouro e prata. Como o foi até sensivelmente à Grande Guerra.

    Quanto a Mundell, a pergunta,se quisermos ser simpáticos e dar alguma validade (duvidoso):

    Partindo do pressuposto do monopólio de emissão de moedas no domínio de bancos centrais e assim sujeita a factores de decisão políticos e institucionais, qual a zona política que assegura alguma estabilidade racional no uso desse poder administrativo?

    Devo dizer que mesmo no contexto desta pergunta a resposta será, a prazo, também uma moeda mundial. Porque as “fiat currencies” como se pode observar empiricamente e como se pode concluir, conduzem a ciclos e crises bancárias cada vez mais integradas e isso leva a que as operações de resgate dos sistemas bancários sejam produzidos cada vez mais acima. E por isso o FMI tem já uma moeda mundial em funcionamento através dos SDR, que não são mais que um esboço de moeda mundial, para já,com relevância apenas entre bancos centrais.

  3. Paulo Pereira

    Não é necessária nenhuma moeda mundial , nem sequer regional.

    O livre cambio das moedas-fiat nacionais é o único sistema que permite o ajuste de cada economia e o unico que permite que cada sociedade atinja o máximo da sua capacidade produtiza e da sua criatividade, sem estar dependende de recursos exteriores como ouro ou prata.

    As crises bancárias actuais são pequenos acidentes normais num sistema capitalista racional. Descida do PIB de 4% em média é um valor sem significado no longo prazo.

    Bastaria a limitação do crédito á especulação financeira para as crises fossem ainda menores , tal como aconteceu entre 1946 a 1979 no mundo desenvolvido.

  4. Carlos Novais

    Paulo Pereira

    Como a realidade e a teoria mostra que:

    1) O ouro e prata eram a moeda mundial antes de se terminada coercivamente

    2) Depois de assim terem terminado coercivamente as crises bancárias são cada vez mais integradas e existe uma tendência para as pequenas serem obrigadas a ficarem “agarradas” a moedas adjacentes e que o FMI foi obrigado a estender o seu programa de SDR, e que a coordenação entre bancos centrais nesta crise foi enorme (FED e BCE a trocarem acordos de apoio monetário a bancos que não lhe “pertencem”, em concreto o FED a abrir linhas de crédito para os Usd na Europa).

    Acho que tem de reavaliar a sua percepção da realidade económica.

    De resto, deve ser intuitivo que a selecção de um meio de troca tende a escolher apenas uma, porque o processo lento vai determinando qual o bem que tem mais liquidez e com menos impacto nos rácio de troca, e se no início existem vários, a tendência é para um cada vez mais sobressair até ficar só um. Este é o processo de selecção natural num contexto livre, no contexto de moeda-fiat, o argumento também serve (as flutuações cambiais introduzem ineficiência) mas é acompanhado do problema da emissão para suportar um sistema bancário com reservas parciais.

  5. Paulo Pereira

    Carlos Novais,

    As intervenções dos Bancos Centrais entre eles tem um custo zero , são apenas registos contabilisticos, num regime de moeda-fiat, porque o mercado ajusta o cambio continuamente e livremente.

    A insistência de liberais numa moeda exterior como o ouro é um enigma, é um tique de totalitarismo que faz desconfiar das intenções de quem o defende. Parece mais uma cruzada moralista e puritana essa da moeda-ouro, de que o interesse pela liberdade e pelo progresso, ou até a defesa de um certo feudalismo, onde os pobres serão pobres para sempre.

    A instabilidade cambial resulta do excesso de especulação , que pode ser limitada através de restrições ao crédito especulativo , mas que é ferozmente oposta pelo sector financeiro.

    Também me parece suspeita essa imbirração de alguns liberais com o crédito bancário, uma invenção que permite aos empreendedores trazem mais e melhores produtos ao mercado muit mais depressa e sem estarem dependentes dos ricos, podendo assim cada um de nós aspirar a ser rico. Sem crédito bancário estariamos com uma economia e bem estar muito abaixo do actual, talvez 1 século atraz.

  6. Carlos Novais

    Paul Pereira

    “A insistência de liberais numa moeda exterior como o ouro é um enigma, é um tique de totalitarismo que faz desconfiar das intenções de quem o defende”

    Isto é o que se chama inverter a realidade. Uma “moeda exterior” será sempre o que resultará da liberdade económica.

    “defesa de um certo feudalismo, onde os pobres serão pobres para sempre.”

    Não,é ao contrário. No actual sistema os pobres ficam reféns do inflacionismo natural das moedas-fiat que funciona como imposto progressivo, e pior ainda, a expansão de crédito por criação de moeda beneficia uma elite financeira-industrial que tem acesso a crédito artificialmente barato que lhe permite fazer despesa a preços que ainda não reflectem a subida de preços que é transmitida só posteriormente na economia, Adicionalmente este efeito cria bolhas de que os insiders mais tiram partido nos primeiros estágios. É um grande máquina de redistribuição a favor de quem está mais perto das fontes de criação de crédito.

    Uma moeda “exterior” protege os pobres e classe média do inflacionismo com efeitos redistributivos para elites.

    “Também me parece suspeita essa imbirração de alguns liberais com o crédito bancário”

    Nenhuma embirração. Desde que o crédito tenha origem em poupança real. E não fabricado, baralhando por completo o equilíbrio entre investimento e poupança, e alterando estrutura de preços. É isso que provoca as bolhas (a doença) de que as crises são a cura

  7. Paulo Pereira

    carlos novais,

    você parece ser anti-capitalista e anti-liberal , é um moralista puritano.

    o capitalismo e o liberalismo foram inventados para ficarmos mais ricos e livres, não para ficarmos refens de moralismos irracionais.

    a historia dos ultimos 100 anos demonstra a racionalidade da moeda-fiat e a irracionalidade da moeda-ouro, que engaiola a economia e a sociedade impedindo-a de atingir o máximo de bem estar.

  8. Eu sou anti-capitalista de esquerda e consigo compreender e aceitar os argumentos do Carlos Novais. Escrevo este comentário para o aplaudir, porque é preciso dar valor a quem na direita assuma que existe ainda domínio social da burguesia e expor os mecanismos através do qual o faz. O Paulo Pereira é um pseudo-progressista social-democrata que nunca lê os comentários dos outros até ao fim. Sinceramente, chamar “moralista puritano” a uma das poucas pessoas de direita blogosférica com quem a esquerda até pode aprender alguma coisa que não seja mero conservadorismo…

  9. Vasco

    #7

    Vamos ver o que acontece quando limpar o cu às notas for mais “barato” do que comprar papel higiénico…

  10. Paulo Pereira

    Os computadores já se usam para aí há 40 anos nas transações interbancárias, não é preciso gastar papel em notas.

    Essa da hiperinflação dá para fazer para aí uns 30 filmes cómicos.

    Os anarquistas anti-liberais e anti-capitalistas não gostam dos mercados financeiros, porque lhes contrariam as crenças .

  11. Carlos Novais

    “a historia dos ultimos 100 anos demonstra a racionalidade da moeda-fiat e a irracionalidade da moeda-ouro, que engaiola a economia e a sociedade impedindo-a de atingir o máximo de bem estar.”

    Interpretar os factos e a teoria quase no seu exacto inverso tem o seu quê de piada e levanta muitas questões como a história do conhecimento poder recuar significativamente, caso evidente na economia.

    FED foi criado em 1913 (para ajudar os bancos que praticavam reservas parciais) em 1921 a primeira grande crise – curiosamente a qual teve «intervenção e com deflação de preços, descida de salários, redução agressiva da despesa e passou em18 meses passou – depois a expansão operada desagua em 1929,agora sim logo com grande intervenção o que prolongou por mais de 10 anos. Depois da segunda guerra, esse “pós guerra de estabilidade” durou certo tempo,o tempo de reconstrução e porque os EUA se tornam a potência emissora única o que lhe conferiu enorme poder monetário… até chegar os anos 60 e o inflacionismo que virá a provocar a hiper-inflação e estagflação dos anos 70 (década horrorosa) até 80 (várias crises, parte delas para desinflacionar), crahs de 87 e depois grande crise em 91-92 (sistemas bancários perto colapso: Suécia) e depois 97-98 (dívidas Mexicanas, Coreia, Rússia) depois a hiper-bolha 2001e depois 2007. E cá estamos.

    Todo o sistema bancário em falência técnica evitada pela maior injecção de base monetária da história.

    Um esclarecimento: ninguém quer impor o ouro em si, mas a livre escolha recairá no ouro (e prata em menor medida) por razões muito objectivas para além da história o comprovar. Não é uma imposição.

  12. Ricardo Campelo de Magalhães

    Carlos Novais,
    Bem, obviamente sou a favor da concorrência monetária e do direito de todo e qualquer indivíduo poder ter a sua moeda…

  13. Carlos Novais

    Ricardo: Sim, o conceito de “zona monetária óptima”é que me parece ter pouca relevância económica, terá mais a nível cultural-político dado o pressuposto de fiat-money, o que obriga a desenhar institucionalmente o Banco Central respectivo.

    “Os computadores já se usam para aí há 40 anos nas transações interbancárias, não é preciso gastar papel em notas.”

    As conta corrrentes já existem há séculos, isso não põe em causa, que possam (e deveriam) essas contas correntes de depósitos, corresponder a quantidades físicas de commodity money.

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