Cara de pau

O estado está falido. O dinheiro não chega para todas as obrigações. O governo decide implementar uma redução de despesa que incide sobre os vencimentos pagos aos funcionários do estado, a sua maior alínea de gastos. António José Seguro e Rui Rio sugerem um aumento de impostos sobre os trabalhadores do sector privado para a redução de despesa não ter de ser tão grande. Conclusão: Não sabem a diferença entre despesas e receitas, não percebem que o estado está falido e têm um sentido de justiça tão pervertido que acham que se pode continuar ad infinitum a colocar o ónus de financiar um estado falido na minoria de 15% que paga 85% de todos o IRS.

Rui Rio vai mais longe que o próprio Seguro na sua demagogia, ao dizer [negritos meus]:

«Imagine alguém que ganha 10 mil, 20 mil euros mensais, que só por não trabalhar na função pública não paga nada

Existem cerca de 45000 agregados familiares em Portugal que têm rendimentos desta ordem. São cerca de 1% de todos os agregados. No entanto, estes agregados pagam cerca de 20% de todo o IRS. Em cada cinco euros de receita de IRS do estado, 1 euro vem destas 45000 famílias. Dizer que “não pagam nada” é de uma falta de respeito atroz.

19 pensamentos sobre “Cara de pau

  1. Borges

    Concordo inteiramente com o post. Digo mais:
    A comparação entre funcionários públicos e privados não é relevante.
    O Estado não tem dinheiro para pagar os funcionários públicos que emprega. Por isso ou despede – muitas dezenas de milhar como disse o MF; ou corta os salários; ou não paga/ deixa salários em atraso. Aumento de impostos é que não pode ser, seria irmos pelo mesmo caminho que nos levou à ruína – o Estado não pode pesar 50% da economia!
    No sector privado, as Empresas que não têm dinheiro, muitas delas (cada vez mais) vão à falência, deixando os funcionários desempregados (1ª diferença).
    Ou então deixam salários em atraso (vemos notícias todos os dias) e por vezes apenas adiam o problema até fecharem (mais desempregados) ou reestruturarem (alguns, não todos, desempregados). Ou então cortam nos custos / salários como podem (com fortes limitaçoes legais).
    Os funcionários privados que se safam são os que estão em empresas que ganham dinheiro suficiente para lhes pagarem. Ainda bem que há empresas dessas. Mas como as necessidades de financiamento do Estado (em parte para pagar os funcionários públicos) são enormes (alimentar o “monstro”) os bancos estão a secar o crédito às empresas e levam muitas a crises de liquidez, que por seu turna conduzem à insolvência (mais desempregados).
    O que é “injusto” é a situação dos funcionários de empresas “privadas” portegidas da concorrência – nos sectores não transaccionáveis – que repercutem os custos nos clientes (podem fazê-lo devido à falta de concorrência ou a cartelização).
    Quanto ao sector transaccionável (não monopolista, nem cartelizado) não vejo nenhum privilégio dos empregados do sector privado. Quanto mais empresas de bens transaccionáveis houver, que paguem bem aos funcionários e que se cresçam, melhor. Só assim a economia portuguesa se poderá desenvolver. E que os seus funcionários ganhem muito – quanto mais ganharem mais impostos pagam e mais sustentam o Estado. Qual é o problema?
    E, já agora, para os que propoem baixar os salários do sector privado por questões de solidariedade: o que fazer com os empregados de multinacionais que operam em Portugal – i.e. Microsoft, Bosch, IBM, Cisco, AutoEuropa. Obrigamos estas empresas a baixar os salários dos seus funcionários portugueses? E os dos quadros internacionais colocados em Portugal? E aumentams os lucros da casa ãe? Não vejo sequer como poderiamos fazer isso numa economia de mercado!
    Compete ao Estado gerir o seu pessoal. Se tiver dinheiro e orçamento, use-o, senão não resta outrio remédio do que controlar / baixar os custos. Tal como qualquer empresa privada faz (as do sector transaccionável, pois as “monopolistas” podem repassar o custo aos clientes; e isso é que não é equitativo).

  2. Fernando S

    Borges : “os que propoem baixar os salários do sector privado por questões de solidariedade”

    Efectivamente, como diz, esta proposta não é sequer aplicavel numa economia de mercado, por mais entravada que seja. O governo nem sequer pode obrigar as empresas a baixar (ou subir) salarios.
    E mesmo que fosse, não faria qualquer sentido relativamente ao problema do déficit orçamental.
    Apenas se o governo obrigasse as empresas a entregar a diferença ao Estado.
    Mas isso é o equivalente a um aumento de impostos sobre os rendimentos do trabalho. O que ja seria mais facilmente aplicavel.
    A proposta que mais se ve por ai é precisamente a de substituir total ou parcialmente os cortes nos subsidios dos funcionarios e pensionistas por um aumento “igualitario” dos impostos sobre todos os rendimentos, dos publicos e dos privados.
    Mas, como esta bem explicado no poste do MBM e no comentario do Borges, seria desde logo injusto para com os privados que pagam impostos.
    Além de que seria um erro “técnico” na medida em que o déficit deve ser preferencialmente combatido com cortes nas despesas publicas e não com mais impostos sobre os privados, empresas e trabalhadores.

    Um bom artigo sobre esta questão de Manuel Avelino de Jesus no Jornal de Negocios de 7 de Novembro : “A armadilha da equidade nos cortes salariais”
    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=517491

  3. Fernando S

    tric : “so tem dinheiro para financiar a banca”

    Infelizmente o Estado não tem dinheiro para financiar a Banca.
    O que existe é uma fatia do empréstimo da troika para financiar uma recapitalização da Banca. Não pode ser utilizado para outros fins.
    E ainda bem que existe esta possibilidade. Que se espera que chegue.
    Porque se a Banca vai ao charco é o pais e o Estado que vão ao charco !

  4. Disse John Galt em Atlas Shrugged: “I will stop the motor of the world”. Depois tirou à sociedade todos os homens com talento, os tais 1% que pagam 80%. Levou-os para parte incerta e proibi-os de produzirem mais que o mínimo para a subsistência. Assim acabou com a exploração dos desgraçados 99%. E sem os “exploradores” adivinham qual foi o final da história???

  5. Borges

    Artigo de Manuel Avelino de Jesus no Jornal de Negocios de 7 de Novembro : “A armadilha da equidade nos cortes salariais”
    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=517491

    Obrigado por me chamar a atenção para o artigo. É uma excelente análise da questão, sobretudo na dimensão de ajustamento macro-económico da nossa economia. Apenas lhe acrescentaria a necessidade de forçar mais concorrência no sector não transaccionável, questão muito importante e que deverá competir ao Governo / reguladores.

  6. Vasco

    Portugal tem hoje cerca de 800 000 desempregados.
    Quem tiver a oportunidade de perguntar a um dos energúmenos citados no post QUANTOS desses 800 000
    foram dispensados pelo estado agradeço desde já.
    MUITO OBRIGADO.

  7. Se cerca um milhão de pessoas – funcionários e pensionistas – deixarem de receber subsidio de férias e de natal provavelmente a esmagadora maioria dos que trabalham no sector privado é capaz de perder também alguma coisa. Alguns, se calhar, até perdem o emprego…

  8. Joaquim Amado Lopes

    Rui Rio está apenas a demarcar-se de Pedro Passos Coelho e a tentar ganhar a simpatia dos sindicatos da Função Pública, para preparar o caminho para que o “seu” PSD suceda ao PSD “de PPC”.

    O “problema” é que cada vez mais gente está a perceber que o “Estado” que temos não é sustentável e que os trabalhados do privado já mostram “solidariedade” mais do que suficiente para com os trabalhadores do “público” ao pagarem-lhes os salários, o emprego certo independentemente do mérito, as regalias incompreensíveis e o absentismo impune.
    No estado a que “isto” chegou e com o tamanho do Estado que temos, a resposta a “melros” como Rui Rio e António José Seguro só pode ser, “se as reformas garantidas acabaram, então os direitos adquiridos dos funcionários públicos também; quem se sente insatisfeito só tem mesmo é que procurar outro emprego”.

    Rui Rio perdeu uma boa oportunidade para mostrar sentido de Estado. Até agora, António José Seguro não aproveitou uma única.

  9. Euro2cent

    > Disse John Galt em Atlas Shrugged

    Ó camarada, também acredita no Pai Natal, no coelho da Páscoa e no poder das pirâmides?

    Bem dizia o Chesterton que acabavam por acreditar em tudo …

  10. Fernando S

    Ricardo Batista #8. : “Se a Banca vai ao charco temos uma ajustamento abrupto, mas o mundo não acaba. O mundo apenas fica mais difícil para muito boa gente.”

    Claro, o mundo nunca acaba … nem no “Atlas Shrugged” !…

  11. JS

    Ver alguns cavalheiros em lugares de responsabilidade *ainda* a defender este tão elementar, errado e demagógico, conceito, explica claramente porque é que o País está como está.

  12. Ricardo Campelo de Magalhães

    Peço desculpa pela saída do Rui Rio.
    Foi de facto muito infeliz e só mostra que está a descer ao populismo para ganhar lanço para outros voos. Da pior maneira…

  13. Alexandre

    Os 15% têm mais a ganhar com uma sociedade estável que os restantes 85%. É justo que paguem mais. Se é um fardo tão grande e se os restantes é que são uns sortudos esses 15% que mudem para empregos menos remunerados que a carga fiscal baixa logo. Fiquem descansados que outros se levantarão para ocupar o lugar deixado. É que isso é a pequena falha do pastel da ayn rand: it’s a load of bullcrap.

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