Sair do euro

“(…) Nos últimos dois anos, tenho escrito abundantemente sobre desequilíbrios macro económicos, orçamentos de estado e perdões de dívida. Mas como os números relativos ao desempenho económico e financeiro de um país são na sua essência manifestações culturais desse mesmo país, rendo-me hoje à evidência de que não se conseguem prescrever soluções técnicas que sendo boas para uma dada cultura não sejam aceites por outra. E, assim, vejo na Grécia o exemplo acabado do falhanço associado à construção europeia, representada na ideia de que a integração monetária seria o primeiro passo rumo a uma integração política e, naturalmente, cultural também (…) Enfim, dito de outro jeito, como não é possível esperar que os gregos vivam, consumam, trabalhem e gastem como alemães, nem vice-versa, o euro nos seus moldes actuais está condenado ao insucesso (…) A realidade dos factos é a seguinte: mesmo depois de toda a austeridade do último ano e meio, a Grécia continua a exibir um défice na balança de transacções correntes de quase 10% do PIB, encontrando-se o défice público num patamar idêntico. Acresce ainda uma dívida pública que em percentagem do PIB excede 150%. Ou seja, os gregos continuam a importar mais do que exportam, continuam a consumir mais do que poupam, continuam numa trajectória insustentável. Prevê-se, portanto, austeridade para muitos anos (décadas?), numa altura em que o país já não aceita – aliás, nunca aceitou – tantos cortes que, apesar de tudo, pecam ainda por (muito) escassos. Só há uma saída que politicamente seja viável, economicamente faça sentido e que voluntariamente dependa apenas dos gregos: sair do euro e através da desvalorização cambial corrigir todos os desequilíbrios que afligem a economia grega.”, no meu artigo desta semana no jornal Vida Económica (“Sair do euro”).

13 pensamentos sobre “Sair do euro

  1. Luís Lavoura

    O que este post diz contradiz a filosofia deste blogue. O que este post diz é que os gregos só podem ter uma moeda rasca, desvalorizada, com inflação. Ou seja, que eles não podem viver com uma moeda sólida e de valor constante, como em geral neste blogue se defende.
    Este post diz, ao fim e ao cabo, que isso do liberalismo clássico é uma teoria muito bonita, mas só serve para alguns.

  2. Ricciardi

    Não, não desdiz nada. O RA chegou, e bem, à conclusão que as medidas teoricamente certas e adequadas para certos paises, esbarram na sua aplicação com a cultura especifica de cada povo.
    .

    Rb

  3. Ricardo Arroja

    Caro Luís,

    Infelizmente, e é com pesar que afirmo isto, a Grécia (Portugal) revelou-se incapaz de debater e analisar de forma objectiva o que a conduziu à situação actual. E não existindo consenso nacional para entender a origem da crise revela-se agora incapaz de chegar a um consenso para dela sair. Pelo contrário, a Irlanda que tem sido apontada como uma história de sucesso fez um debate introspectivo e de forma estóica uniu-se em redor de um desígnio nacional: fazer o que dela dependesse para sair da crise. E está a consegui-lo; vai consegui-lo.

    Quanto à crítica que me aponta, de não ser liberal por defender o que estou a defender, lamento, mas é precisamente o facto de ser liberal e democrata (gostaria também de sublinhar) que me leva a reconhecer os limites de uma abordagem que, acredito eu ser a via que tecnicamente é correcta, não colhe o apoio popular porquanto exige à mudança de um modo de vida historicamente enraizado. É, aliás, este o ponto central da minha crónica desta semana na VE. E, portanto, como o poder supremo ainda é do povo….de nada ou muito pouco servem as minhas ideias acerca do que, a prazo, poderia ser melhor para esse mesmo povo.

    Em baixo, mais umas ideias relativamente à situação grega:

    http://portugalcontemporaneo.blogspot.com/2011/11/ultimato-2.html

  4. Luís Lavoura

    Ricardo,

    continuo a achar que a sua posição é um bocado estranha. O Ricardo diz que é liberal, que acha que o liberalismo é a melhor solução. Porém, por outro lado, concede que os portugueses não são capazes de viver de acordo com o liberalismo. De onde se deduz, penso eu, que na sua opinião, de facto, o liberalismo não é a melhor opção para os portugueses. Portanto, você não advoga o liberalismo em Portugal, o que quer dizer que, em Portugal, você não é um liberal.
    Ou seja, o Ricardo seria um liberal se vivesse na Alemanha – advogaria um regime liberal nesse país – mas em Portugal não o é, dado que pensa que, havendo um regime liberal em Portugal, o país iria por água abaixo.
    Ora, neste blogue, que eu saiba, advoga-se um regime liberal (clássico) para Portugal (embora de facto neste blogue se fale mais de países estrangeiros, mas enfim…). Coisa que o Ricardo, pelos vistos, não advoga.

  5. Ricardo Arroja

    Luís,

    Não. Do mesmo modo que o Ricardo Arroja seria liberal na Alemanha, também o é em Portugal. Acontece, contudo, que todos os sinais que vejo em meu redor apontam para que a solução preconizada na economia liberal de mercado, que eu advogo, não recolha genuína simpatia junto do eleitorado nacional. E como eu não pretendo, nem defendo, que soluções liberais sejam impostas à força a quem não as quer (como presumo que o Luís também não queira), então, prefiro as soluções que possam agradar à maioria democrática, mas que não são aquelas que necessariamente (e aos meus olhos) seriam as melhores.

  6. Fernando S

    Ricerdo Arroja : “prefiro as soluções que possam agradar à maioria democrática”
    .
    Mas sondagens recentes mostram que 60% dos gregos querem continuar no Euro !!…

  7. Ricardo Arroja

    Caro Fernando S,

    Pois…o problema dos gregos (portugueses?) é que querem o melhor de dois mundos.

    Querem o programa de resgate financeiro e a austeridade associada? NÃO
    Querem permanecer no euro (que obriga ao programa de austeridade)? SIM

    Ora, são duas ambições mutuamente exclusivas. E portanto nada melhor do que responsabilizar os gregos (portugueses?) por isso.

  8. Fernando S

    Caro Ricardo,
    .
    Exacto. E, como dizem os franceses, “não é possivel ter ao mesmo tempo a manteiga e o dinheiro que serve para a comprar”.
    Mas responsabilizar gregos e portugueses não é necessariamente achar melhor que estes optem por fugir aos compromissos actuais e enveredem por uma via errada.
    Uma coisa é achar que o melhor é mesmo que os gregos decidam por referendo :
    – se querem ficar no Euro aceitando fazer os sacrificios que por enquanto parece não quererem fazer ;
    – ou se preferem sair do Euro e seguir outro caminho (que, diga-se de passagem, pode parecer mais facil no imediato mas que terá consequencias muito mais graves).
    Outra coisa é, como me pareceu ser o que o Ricardo faz, achar que o melhor é mesmo que os gregos (e portugueses) saiam do Euro (apesar de eu ter percebido que o Ricardo até acha que “técnicamente” [?!] seria melhor continuarem no Euro e fazerem os esforços necessarios para isso).

    Quanto à questão da democracia e da vontade popular, duas notas.
    Em primeiro lugar, como já disse noutro comentário aqui neste blog, o referendo não é necessáriamente e sempre o melhor instrumento de governação com participação dos cidadãos. Relativamente a esta situação na Grécia, eu não estou convencido de que os gregos saibam neste momento exactamente o que querem. De resto, parece que esta decisão do PM grego surpreendeu e deixou perplexos os próprios gregos.
    É precisamente porque as sociedades são complexas e que a governação democrática não é algo de evidente que a democracia representativa, repleta de mediações, é mais adequada que qualquer forma de democracia directa permanente.
    Em segundo lugar, mesmo admitindo que os gregos querem efectivamente deixar o Euro em vez de se sugeitarem às medidas de austeridade necessárias par poderem continuar, isso não significa que eu ache que fazem bem e que, no fim de contas, é o melhor para a Grécia e para os gregos.
    Como não acharia relativamente a Portugal e aos portugueses.
    Aceitar e respeitar a democracia e a vontade popular não é necessáriamente estar de acordo com essa vontade e deixar de defender e lutar pelas opções que me parecem mais correctas e adequadas, mesmo que minoritárias.

    Quanto à “cultura”. É verdade que a cultura dos gregos e dos portugueses é muito diferente da dos alemães. Mas é ainda mais diferente da dos chineses ou da dos haitianos. E depois ? Nalguns aspectos até é bom que continue a ser assim. Noutros aspectos, até seria bom que houvesse aproximações. Por exemplo, que na sociabilidade os alemães aprendessem alguma coisa com os haitianos. E que em certos assuntos ligados ao trabalho, à economia, etc, todos, incluindo os gregos e os portugueses, se esforçassem por serem mais como os alemães.
    A cultura é algo de muito entranhado e que condiciona os nossos comportamentos. Mas não é uma fatalidade, uma invariável. É desejável e possível fazer evoluir certas mentalidades e comportamentos.
    Por isso eu prefiro que os gregos e os portugueses continuem no Euro e procurem mudar os respectivos comportamentos de modo a serem mais responsáveis e rigorosos, em vez de optarem por uma via de aparente facilidade com moedas desvalorizadas, inflação, despesismo do Estado, etc, etc.
    Neste ponto, parece-me oportuna a chamada de atenção do Luis Lavoura aqui em cima : as ideias liberias são válidas (ou não !) para todos, para os americanos e ingleses como para os afegãos e sudaneses, para os alemães e dinamarqueses como para os gregos e portugueses.

  9. Paulo Pereira

    Porque é que será que nunca é colocada a hipotese de num plano de recuperação como o da Grécia se preferira levar um país quase á falência do que colocar tarfifas alfandegárias temporárias ?
    .
    Existe algum mandamento divino contra essa hipótese ? Será que os deuses dos mercados perfeitos, racionais e eficientes se zangariam muito ?

  10. lucklucky

    “desvalorização cambial corrigir todos os desequilíbrios que afligem a economia grega”

    Não corrige coisa alguma.Mas adiante.

    Ou seja destruir a poupança dos Gregos que o fizeram.
    Qual a legitimidade?

    Como bem diz Luís Lavoura isto é tudo menos liberalismo. É advogar o Poder Total do Estado sobre a Moeda do País.

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