O primeiro default

A versão politicamente correcta é perdão de dívida, mas também lhe podemos chamar um bail-out dos bancos à Grécia ou simplesmente default. Sim, o estado social Grego faliu, agora de forma oficial. Mesmo com todos os cortes, o sector produtivo grego não tem capacidade para cobrir os exageros do passado.

Apesar da reacção positiva dos mercados até ao momento, este poderá ser apenas o primeiro passo numa sucessão de defaults na zona euro. Os partidos de esquerda dos restantes países periféricos irão, com alguma razão, reclamar este default como uma vitória da Grécia e exigir o mesmo para os seus países. Como sempre, a minoria ruidosa, a “rua”, estará com eles. Quem aceitará fazer sacrifícios para pagar uma dívida, quando se sabe que não os fazendo poderá obter um perdão?

Claro que o resultado de mais defaults será que os países periféricos ficarão sem acesso ao mercado de dívida por muitos anos. Depois disso serão três os possíveis cenários. No primeiro cenário, o estado social como o conhecemos deixará de existir porque os países periféricos serão obrigados a apresentar orçamentos equilibrados ano após ano. Sem acesso a mercados de dívida e no limite máximo da carga fiscal, os ajustes terão de ser feitos de uma forma ou de outra. O segundo cenário é o estado se manter como anteriormente, patrocinado por transferências fiscais dos países do norte da Europa que obrigarão a uma equivalente transferência de soberania. Finalmente, o terceiro cenário é a saída da zona Euro de alguns destes países, de forma a colocar as impressoras dos novos bancos centrais a financiar o estado social. A descapitalização da Economia resultante de uma desvalorização cambial forçada

Aproximam-se tempos (ainda mais) interessantes na zona Euro, principalmente para quem, como eu, tem o privilégio de assistir por fora.

10 pensamentos sobre “O primeiro default

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  2. neotonto

    Privilegio de asisstir por fora? de assistir desde fora?

    A ver se comprendo bem este assunto. Mas vc nao é tuga?

  3. Pi-Erre

    O quarto cenário é o estado deixar de meter o bedelho na Economia e passar a tratar apenas da observância geral dos 10 Mandamentos, que é isso, e só isso, que lhe compete

  4. Luís Lavoura

    “os países periféricos ficaram sem acesso ao mercado de dívida por muitos anos”

    Talvez não por muitos, apenas por poucos.

    A experiência passada (resumida num estudo do FMI) de defaults de Estados sugere que em geral os investidores voltam a emprestar-lhes dinheiro no prazo de 2 ou 3 anos.

  5. JS

    Apesar de terem “assumido” perdas significativas, não se vislumbra grande preocupação nos Conselhos de Administração dos Bancos. E vêem-se os políticos, satisfeitos, a proclamar sucessos !
    Sol na eira e chuva no nabal ?

  6. Luís Lavoura

    JS,

    o presidente do BCP explicou ontem na televisão que o seu banco tinha já assumido, há algum tempo, que 21% da dívida grega que detem já estava perdido, e já tinha eliminado esses 21% do seu balanço. E que portanto agora só teria que assumir a perda de mais 29% ou o que fosse, o que era muito dinheiro, mas nada que afundasse o BCP.

    Aquilo que o BP fez muitos outros bancos já terão feito – eliminado do balanço uma parte da dívida grega, considerando-a já irrecuperável.

  7. ricardo saramago

    É a bancarrota da Grécia.
    É uma bancarrota selectiva e fraudulenta que deixa de fora a UE, o BCE e o FMI.
    Serão agora os contribuintes da zona euro a cobrir os prejuízos e os Gregos vão pagar com “língua de palmo” durante décadas.
    A factura dos portugueses acaba também de subir substancialmente.

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