O Desespero das Elites Eurocratas

À medida que o navio do sonho federalista se vai afundando, as elites eurocratas vão mostrando sinais evidentes de autoritarismo que advém da impotência perante a dimensão do problema que eles próprios criaram. Desta vez foi Sarkozy que perante a iminência não só do falhanço do euro, mas também da economia francesa (que será arrastada em breve para o precipício da perda de crédito no mercado), abertamente insultou David Cameron; proferindo que Cameron devia estar calado em relação a assuntos do euro visto que, se detesta a moeda única, não deve pronunciar-se nas questões da zona euro. Segundo o The Guardian, foram estas a palavras do presidente francês:

«You have lost a good opportunity to shut up. We are sick of you criticising us and telling us what to do. You say you hate the euro and now you want to interfere in our meetings»

É já patente o desespero nas palavras de Sarkozy. Mas Cameron não está menos desesperado. O PM inglês teme que se não participar nas discussões sobre o futuro da zona euro não irá conseguir parar os desejos da França e Alemanha de imporem regulações e novos impostos sobre o sector financeiro europeu, sabendo que as principais receitas para a UE viriam da cidade de Londres (o maior centro financeiro da Europa), prejudicando directamente o Reino Unido. Porém, os problemas de Cameron não param aqui; em Londres, ele enfrenta pressões populares e partidárias (especialmente dentro do seu partido) para que um referendo seja lançado no Reino Unido, um referendo que irá permitir à população pronunciar-se sobre a saída da UE. Conhecendo o ódio generalizado à UE por terras britânicas, o resultado mais que provável seria a saída do projecto europeu. Mesmo não querendo um referendo por razões estratégicas, Cameron terá muitas dificuldades em suster a pressão de um eleitorado que espera que os políticos representem as suas preferências.

Contudo, o principal sinal vem do estereótipo eurocrata que Herman Von Rompuy representa. O presidente do conselho europeu é constantemente acusado de ser uma figura sinistra, não eleita democraticamente e que personifica a autocracia que este projecto europeu é na sua essência. Apesar de verdadeiras, estas acusações sempre foram obviamente negadas pelas elites, mas perante a iminência do fim do euro, o desespero toma o controlo e a natureza autoritária dos eurocratas torna-se evidente em todas as declarações. Perante a oposição popular generalizada aos resgates (bailouts) a bancos e medidas de austeridade que significam na sua base sufoco fiscal e destruição económica, Von Rompuy diz que é preciso continuar nesta linha e que mais passos são necessários. Mas diz mais, diz que apesar de estas medidas serem impopulares, ele agradece a todos os políticos pela sua coragem política.

”Some of those steps were and are unpopular; be it measures taken in your countries or our joint decisions taken here as a Union,” he said. “I thank you for your political courage, often underestimated.” Herman Von Rompuy

Ora, coragem é coisa que não abunda entre políticos main-stream; o que Von Rompuy quer dizer é que políticos que tenham atitudes autocráticas devem ser louvados. Revelando com isto a mundividência política da eurocracia.

O desespero obriga a alguma sinceridade, e à medida que este projecto europeu se aproximar do fim, mais sinceridade e mais autocracia teremos. As animosidades entre países irão crescer, os ódios pessoais serão revelados e as culpas serão “disparadas” em todas as direcções. Se os políticos de facto representassem os cidadãos, o projecto do euro terminaria agora e a preparação para uma nova fase pós-euro (com a recuperação das soberanias dos Estados nações) estaria em curso. Como a representação política ao nível da UE é uma fábula de manuais de ciência política, vamos continuar a assistir a um agravar do problema que irá implodir quando a magnitude do mesmo for o dobro ou o triplo do que é agora.

O euro já falhou economicamente e sobrevive devido à vontade política; quando é que a moeda única irá colapsar é impossível de aferir, mas o desespero revelado pelas elites eurocratas sugere que não deverá ser num futuro muito distante.

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8 pensamentos sobre “O Desespero das Elites Eurocratas

  1. JS

    Infelizmente difícil contra-argumentar. Nasceu torta …
    Já estão abertas candidaturas para a “UE – Comissão Liquidatária” ?
    E qual será o “Mapa Cor-de-Rosa” que vamos “perder” (ou ganhar) desta vez? A Madeira? e/ou Os Açores?

  2. Paulo Pereira

    Completamente de acordo.
    Este Euro fantasista tem de ser eliminado o mais rapidamente possivel e os economistas e politicos responsáveis pela sua criação obrigados a reconhecer publicamente a enorme asneira que cometeram.

  3. Euro2cent

    > o Vaticano a favor da Tirania

    “A César o que é de César”. Não é novidade.

    Agora a foto do Rompuy está de morte. “Attack of the killer rabbits” ?

  4. JS

    #4- A tal “autoridade económica supranacional” anti e supra Dólar USA ?
    Joseph Alois Ratzinger, (Marktl am Inn, Alemanha, 16 de abril de 1927).
    Angela Dorothea Merkel (Hamburgo, 17 de Julho de 1954).
    Next: Em vez de “Occupy Bruxela” será “Occupy Vatican” ?.

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