OE2012: um bom OE (2)

“(…) Algumas das críticas às medidas de austeridade agora anunciadas são, no fundo, a rejeição do essencial que urge fazer quer quanto ao tempo (período de reajuste) quer quanto ao modo (corte na Função Pública versus sector privado) e ao âmbito (envolvente europeia). O período de austeridade foi o negociado e é o adequado aos hábitos domésticos. A acção rápida e concentrada – um choque forte – é a mais adaptada à passividade portuguesa, que sempre procura adiar e arranjar desculpas para esticar no tempo o que, na verdade, se quer recusar a fazer. A nossa tradição é só mudar por choque e não por acção lenta e continuada. Alargar o prazo é não fazer (…) Quanto ao modo, temos de que nos concentrar no Estado, abandonando veleidades de orientar o privado. Nesse sentido, a solução encontrada de limitar os cortes salariais ao sector público é a adequada. Encaminhar parte do pessoal do sector público para o privado é essencial (…) O crescimento exige desvio de recursos para o privado, activismo empreendedor de amplos sectores incluindo a regeneração de vários grupos actualmente parasitários do Estado. Na ausência de meios financeiros para emitir incentivos económicos, a política económica dita de crescimento terá que recorrer a instrumentos constrangedores, procurando reverter a austeridade em instrumento de impulso do crescimento. A concentração da austeridade num período curto e no aparelho do Estado é o caminho a seguir. As informações até agora disponíveis indicam que o OE2012 aponta nessa correcta direcção.”, Avelino de Jesus, hoje no Jornal de Negócios (página 45). Destaques meus.

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4 pensamentos sobre “OE2012: um bom OE (2)

  1. Ricciardi

    É o chamado «salto de fé». Intuem que dando prazo adequado os executores iriam se desleixar e adiar as medidas. Pois, não sei o que diga. Quando se tem fé em alguma coisa, não se pode argumentar.

    Mas eu tambem tenho fé, caro RA. Tenho fé de que medidas castradoras da iniciativa, do consumo privado e do investimento, da poupança e da confiança, todas juntas e assim de forma tão rápida, impliquem que as medidas tomadas não sirvam para nada útil e degenerem numa coisa pior. Depressão (crónica). Ora, os Portugueses já sofrem crescentemente dessas doença, dizem.

    Mais a mais, tenho fé noutra coisa: tenho fé que este mesmo governo venha a repôr ainda nesta legislatura os subsidios de férias e natal. Não sei porquê. Mas garanto-lhe que vão repôr aquelas despesas. Se não o fizerem perdem as eleições. É tão claro como a agua. Crystal clear. E eles não vão querer isso, pois não?
    .
    E porquê?

    Porque a despesa não foi cortada. Foi apenas adiada.

    Cortar a despesa é cortar naquilo que não afecta a performance da economia. As gorduras. E o RA já escreveu que era possivel cortar e muito. Renegociar a porra das parcerias, com violencia e dureza. Aqui sim, devia o estado ser duro. Acabar com os institutos da despesa por decreto. Não sei o que esperam. Sinceramente.
    .
    Daqui a 12 anos, a correr bem, estaremos com um PiB igual ao de hoje, atendendo à recessão que se prevê para os proximos anos. Dizem que daqui a 2 ou 3 anos estaremos com um defice melhor. Talvez estejamos. Mas daqui a 4 ou 5 vai piorar outra vez, porque estas medidas são extraordinarias, quer em termos constitucionais, quer em termos fiscais.
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    Eu, confesso-lhe, pelo que oiço de amigos meus daí de Portugal, todos eles estão a procurar sair. Gente de valor. Não vejo alguém de bom senso investir num país aonde de mês a mês se alteram as regras do jogo. Ora muda a legislação laboral, ora a fiscalidade ora outra merda qualquer. Quer dizer, não há estabilidade de metodos, nem garantias de que as coisas não vão mudar outra vez.
    .
    O que eu penso é que daqui a 3 anos, virá outro governo e vai repôr a lei laboral e fiscal noutro patamar qualquer.

    É um país adiado.

    Dou-lhe um exemplo claro da minha experiencia. O grupo aonde colaboro chegou a comprar, em 2008, só a Portugal cerca de 300 milhoes usd ano. Em varios sectores de actividade. Hoje compra metade. A outra metade foi fruto da pesquisa de fornecedores alternativos a um euro demasiado caro.

    Rb

  2. Ricardo Arroja

    “Cortar a despesa é cortar naquilo que não afecta a performance da economia. As gorduras. E o RA já escreveu que era possivel cortar e muito. Renegociar a porra das parcerias, com violencia e dureza. Aqui sim, devia o estado ser duro. Acabar com os institutos da despesa por decreto. Não sei o que esperam. Sinceramente.”

    Caro Rb,

    Já escrevi e reafirmo: nos Serviços e Fundos Autónomos é crucial cortar a eito (custam 1.700 euros por ano a cada português) e nas PPP é revogá-las sempre que tenham existido contratos lesa pátria.

    Ora, concordando eu com a direcção preconizada no OE 2012, vou dedicar os meus posts e artigos das próximas semanas a fazer marcação cerrada às áreas que acabámos de enunciar. Se não existir liderança pelo exemplo, como também já fiz questão de afirmar, este Governo não chegará a 2013.

    Um abraço,

  3. Zephyrus

    As grandes reformas continuam por fazer. O mapa autárquico continua por alterar como deve ser alterado. Neste momento o Governo já deveria ter nomeado um grupo de professores de Geografia (e da área do Ordenamento do Território) das Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra para traçar um novo mapa do poder local, tendo em conta a nova realidade demográfica, os novos meios de acesso, a História e as características geográficas locais e os erros da área do Ordenamento do passado. Algo assim demoraria anos, tempo suficiente para o Estado ir fazendo outras coisas, que incluem a extinção de empresas municipais e a redução de funcionários do poder local.

    Mas o espírito é outro. Fala-se em fusões voluntárias, ora algo do género só poderá correr mal. Somente um mapa do poder local «imposto» por Lisboa e onde os partidos não metam o nariz poderá garantir que o princípio do bem comum não é posto em causa. Fundir é absurdo, pois muitas das fronteiras actuais não fazem sentido. Daí a necessidade de um novo mapa.

    Aqui não está em causa apenas o adiar. Está esta coisa muito portuguesa que é o medo do confronto directo. Em Portugal a maior parte da população receia o confronto, a imposição, prefere procurar o consenso, mesmo que tal implique pôr de lado a Razão. O que se passa é que o Governo não quer confronto com o poder local. Esta postura, esta mania dos consensos, esta falta de coragem irrita-me.

    Apenas pelo meu conhecimento do país parece-me que mais de metade das freguesias e mais de 100 concelhos poder ser extintos sem nenhum prejuízo para os cidadãos da República. Isto pode implicar a longo prazo uma redução do número de funcionários públicos do poder local superior a 50 000 almas. Contudo, a extinção das empresas municipais poderá significar uma redução ainda muito maior, cujo número nem consigo estimar, pois nunca vi dados sobre o número total de funcionários das empresas municipais.

  4. ricardo saramago

    Apesar do discurso, a actuação do governo limita-se a tentar desesperadamente salvar o sistema.
    Sócrates tentou salvar o sistema negando a realidade, este governo tenta fazê-lo sem destruir os males de que padecemos.
    Não se vislumbra nenhuma luz de esperança no horizonte.

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