Hipocrisias e contradições

Um dos argumentos mais utilizados pelos opinadores de esquerda para justificarem a contradição entre o fim que dão aos seus rendimentos privados e a ideologia que defendem, é o facto de terem que se sujeitar à realidade em que vivem. Mais tarde ou mais cedo, acabam por contra-argumentar que também os defensores de uma economia de mercado se aproveitam dos serviços prestados pelo estado. Este argumento esquece a natureza dos serviços fornecidos pelo mercado e pelo estado.
Os produtos disponibilizados pelo mercado garantem sempre a possibilidade de o indivíduo se auto-excluir de os financiar, não usufruindo deles. Quam considerar que uma empresa tem práticas abusivas, pode sempre optar por não contribuir para alimentar essas práticas, excluindo-se do usufruto dos seus produtos e, consequentemente, do seu financiamento. Ao não se excluirem de os consumir, estão a validar moralmente o processo que levou à sua produção. Isto é especialmente válido para os bens e serviços não básicos (falo de iPhones, férias no estrangeiro e outros) ou, que sendo essenciais, o mercado garante uma oferta diversificada (por exemplo, alimentação). Em ambos os casos, um defensor de uma moral socialista pode-se abster de sustentar aquelas empresas que critica e apoiar outras que se regem pelo seu código ético.
O contra-argumento de que os defensores da economia de mercado utilizam bens públicos também faz pouco sentido. Quando um defensor de uma economia de mercado utiliza serviços públicos não está a contrariar as suas convicções, porque, antes e independentemente de os vir a usufruir, já foi coagido a financiar esses mesmos serviços. O usufruto dos serviços públicos que financiou coercivamente é uma questão de justiça, não de hipocrisia moral. Por muito que se argumente, a compra de um telemóvel numa economia de mercado implica um nível de liberdade muito superior a um defensor do mercado aceitar senhas de refeição do regime Cubano para as quais já teve que trabalhar.
Com isto não quero dizer que os defensores de uma economia de mercado nunca tenham a sua moralidade à prova. A moralidade de um defensor da economia do mercado poderá ser questionado sempre que este defender para si, ou para o seu grupo, um tratamento especial do estado não disponível para os outros contribuintes por igual. Ao defendê-lo estará a contrariar as suas convicções, da mesma forma que um socialista as contraria quando decide comprar um iPad depois de criticar a imoralidade da utilização de adolescentes numa fábrica da Apple.

3 pensamentos sobre “Hipocrisias e contradições

  1. Lidador

    “Ao defendê-lo estará a contrariar as suas convicções”

    A argumentação é boa mas a moralidade é um campo movediço. Cada um procurar os seus interesses, é normal, é racional, é aquilo que se espera de cada um e a base segundo a qual uma sociedade se deve , pragmaticamente, organizar. É nessa realidade que assenta a “mão invisível”
    O que cada um define como “interesse” próprio, é que não é igual para todos. Uns procuram interesses, vá lá, estéticos, ( terminologia de Kirkgaard) como boa comida, boas propriedades, bons carros, boas (ou bons) parceira(o)s, etc.
    Outros têm interesses mais éticos e procuram ser reconhecidos como gente que é, e não como apenas gente que tem. Digamos que este tipo de pessoas, mais raras, têm um egoísmo mais palatável, já que o realizam a prover as necessidades básicas de outros.
    Outros ainda, mais raros, vivem num plano religioso, no qual o ser e o ter, pouco significam.
    Na verdade a mesma pessoa pode passar por fases destas, ao longo da sua vida.

    Assim sendo, o facto de alguém, por exemplo, se abster de aproveitar aquilo que percebe como vantagem imerecida, revela apenas que vive num plano mais ético e que se sentem, egoisticamente, bem, resistindo à tentação estética.
    Mas essa é a sua moralidade. A do que aproveita, é outra. O ético, achará que o estético é um aproveitador, um hipócrita. O estético, achará que o ético é tonto.
    Sancho Pança e D. Quixote, em resumo.

  2. lucklucky

    Precisamente CGP.
    Um Comunista pode fazer a sua Comuna e viver como defende – desde que não obrigue outros- uma vez que quer ainda mais regulação. Um Liberal não pode .

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