Um saiu com honra, o outro anda por aí

Esta semana, quando me entretive a analisar os últimos dados da execução orçamental, não pude deixar de dar por mim a pensar no antigo Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. O Governo Sócrates caiu há pouco tempo, mas o pouco tempo que entretanto passou já dá para uma primeira revisão da História. Nesta primeira de muitas revisões que, nos próximos anos e décadas, se farão, e independentemente da existência de outras intrigantes personalidades, os relatos incidirão sobre o então Primeiro-Ministro, José Sócrates, e o seu Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.

Ora, eu fui um crítico contundente desse período governativo. Nos blogues e na imprensa, critiquei severamente a acção governativa, em particular nos três últimos anos (2008 a 2011), quando o navio afundava e a orquestra continuava a tocar como se nada fosse. De Sócrates, confesso, esperava muito pouco. Do Professor Teixeira dos Santos, pelo contrário, esperava muito mais. A sua incapacidade em pôr travões ao endividamento e a sua súbita transformação, de um técnico reputado para um político inábil, foram negativas para o País.

Mas, felizmente, à beira do precipício, Teixeira dos Santos lá acordou da sua hipnose socrática e começou a fazer o que tinha de ser feito: a reduzir na despesa. Os primeiros sinais deram-se em Novembro, quando o saldo primário das contas públicas deixou de se agravar de modo significativo. E mais tarde, por alturas da demissão do antigo Governo, em Junho, os números divulgados pela Direcção Geral do Orçamento relativos ao período de Janeiro a Maio indicavam que finalmente a despesa primária estava a diminuir para além do previsto. Obra de Teixeira dos Santos que o actual detentor da pasta, Vítor Gaspar, tem mantido.

Enfim, sabe-se, é público, que foi a acção redentora do ex-Ministro das Finanças que forçou a queda de Sócrates. E sabe-se também, dos números, que boa parte da consolidação orçamental que hoje, até certo ponto, permite a Portugal diferenciar-se da Grécia está a ser resultado directo da política correctiva iniciada ainda por Teixeira dos Santos, o que, não o ilibando das suas responsabilidades no processo que conduziu ao naufrágio nacional, certamente lhe salva a honra. E é bom que o reconheçamos, porque enquanto o Professor Teixeira dos Santos saiu tranquilamente de cena, José Sócrates anda por aí…

14 pensamentos sobre “Um saiu com honra, o outro anda por aí

  1. vasco Silveira

    É claro que se essa luz lhe tem aparecido 4 anos mais cedo talvez nos diferenciássemos da Irlanda…

    Não matou até ao fim de sua vida, só o fez na juventude! É um homem honrado…

    Por amor de Deus

  2. Joaquim Amado Lopes

    Claramente, o Ricardo é católico. Depois de anos de “pecado”, a “confissão” antes da “morte” justifica a “redenção”.
    Pois eu sou agnóstico e acho que só a “reparação” justifica a “redenção”. E, mesmo com o que fez nos últimos(!) meses(!) do seu consulado, Teixeira dos Santos tem um “saldo” extremamente negativo.

  3. Joaquim Amado Lopes

    “não o ilibando das suas responsabilidades no processo que conduziu ao naufrágio nacional, CERTAMENTE LHE SALVA A HONRA”

  4. Ricardo Arroja

    Sim, caro Joaquim, foi isso que escrevi e que mantenho. O ponto subliminar do post é o seguinte: enquanto Teixeira dos Santos, que na parte final do seu mandato fez a sua parte, não regressará à política activa (provavelmente, também não deve querer), Sócrates, o principal responsável pelo nosso descalabro, emergirá de novo (a imprensa dá-o, sabe-se lá como ou porquê, como presidenciável) e se calhar assim regressará!

  5. Joaquim Amado Lopes

    Qualquer que tenha sido a sua intenção, há DOIS pontos (pouco) subliminares no seu artigo: Teixeira dos Santos saiu com honra, José Sócrates anda por aí.
    Além de o Ricardo dedicar mais espaço ao primeiro do que ao segundo, o que Teixeira dos Santos tenha feito nos seus últimos meses(!) enquanto Ministro das Finanças é claramente insuficiente para limpar a sua honra.

    Quanto à possibilidade de José Sócrates voltar a ocupar um cargo público em Portugal, por muito que a mera hipótese me repugne, temos exactamente o que merecemos. E, por muitos artigos na comunicação social e comentários em blogs, é assustador o quanto pouco nós parecemos querer merecer.

  6. Ricardo Arroja

    Independentemente do resto, alguém desmente os factos apontados? (nomeadamente os dados da DGO publicados em Junho deste ano).

    Enfim, talvez ainda seja cedo para (d)escrever a História…

  7. Joaquim Amado Lopes

    Ricardo,
    Uma coisa é (d)escrever os factos. Outra, completamente diferente, é afirmar que alguém, que foi cúmplice/co-autor de mentiras e fraudes sucessivas e decisões verdadeiramente criminosas, sai com honra porque fez duas ou três coisas positivas.

    Teixeira dos Santos sai sem honra, mesmo que José Sócrates nem sequer saiba escrever essa palavra.

  8. O texto do post é, de facto, muito infeliz. Teixeira dos Santos não merece qualquer tipo de consideração. Objectivamente, foi um dos fautores da desgraça e nunca pôde dizer que não sabia. Soube-o sempre. Não tem qualquer espécie de desculpa. O seu exercício de auto-imolação no altar socratino – se de imolação se tratou – não pode suscitar o mínimo de mitigação da sua culpa objectiva.

  9. oscar maximo

    Não há honra que aguente frases como esta: os contribuintes não vão gastar um centimo com o BPP e BPN

  10. JS

    Ricardo Arroja terá as suas razões, respeitáveis claro -ao escrever este bloguezinho sobre Teixeira dos Santos- mas, não leve a mal, já o ouvi/li defender, com méritos e destreza, causas mais plausíveis.

    Entretanto ficamos, todos(?), à espera das: “Memórias de um ex-Ministro das Finanças de Sócrates”, na primeira pessoa do singular. O homem que se defenda, a si mesmo, com documentos e testemunhos, argumentos coerentes, … se os tem.

    Talvez assim os portuguêses percebam melhor o que foi, é, o PS, e o PSD, os partidos que açambarcaram, e açambracam, a “democracia”!.

    Branquear o imbranqueável, não!

  11. Alexandre

    Eu se fosse má lingua diria que o Teixeira dos Santos ou está prestes a tornar-se um colega ou trabalhar para alguém por quem o Ricardo Arroja tem muito respeitinho! Daí o elogio público do “está a ver como até sou seu amigo.” Mas eu para dizer isto teria mesmo de ter uma lingua, ou uns dedos, viperina.

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