Acordo Ortográfico

Como se não bastasse Portugal estar transformado num circo manhoso, onde já nem os palhaços têm lustre, temos ainda que aturar agora essa farsa chamada Acordo Ortográfico. Dizem os burocratas do acordo e os seus cordeirinhos que houve outros ajustes da língua no passado e que daí não veio qualquer mal ao mundo. Para além de ser sempre divertido ver um burocrata defender a bondade de uma decisão de secretaria evocando outras decisões de secretaria, esta visão do problema revela o quão fora do mundo estão estes mangas-de-alpaca financiados pelo contribuinte. Fechados nos seus gabinetes das nove às cinco, nem repararam que há cinquenta ou cem anos o mundo era muito diferente. Ora pensem lá um bocadinho, meus senhores, e vejam se vai ser assim tão fácil doutrinar, numa geração, uma população habituada a viver num mundo onde as normas aparecem — se é que aparecem! — como resultado de fenómenos emergentes. Vamos ter dois sistemas, um dentro das paredes das escolas e nos jornais oficiais — que, como se sabe, estão em queda acentuada — e outro no dia-a-dia, no Facebook, no Twitter, nas mensagens de correio, nos blogues e nas listas de compras. E tudo isto para quê? Se é para degradar a língua portuguesa, já temos o dialecto éseémeésiano e o portinglês. Não precisamos de mais confusão lançada de forma oficial.

6 pensamentos sobre “Acordo Ortográfico

  1. Na minha escola os zelotazinhos de serviço andam todos ufanos por causa do acordo. Que temos de o respeitar, que temos de incentivar os alunos a aplicá-lo, etc. Eu, sinceramente, já decidi duas coisas: não vou comprar um único livro ou publicação que adopte o acordo e vou continuar a escrever como até aqui e direi aos alunos que façam o mesmo. Agora, naturalmente, haverá o momento em que serei ameaçado com as represálias, como é óbvio. Quanto a isso gostava de colocar aqui uma questão e agradeço se alguém me puder responder. Há meios legais para contrariar o aborto ortográfico? eu posso continuar a escrever como até aqui e invocar desobediência civil, por exemplo, ou essa figura não se aplica aqui? se alguém me puder esclarecer, agradeço. Para estar preparado no dia em que me vierem chatear com com ameaças sobre o emprego.

  2. (Em resposta ao joão)

    Penso que a lei só aceita a desobediência civil em resposta a actos ilegais – como penso não haver nenhuma ilegalidade (poderá haver é ilegitimidade) formal no AO, não há grande base legal para uma desobediência civil.

    Claro que a desobediência civil a sério é exactamente ir contra as leis instituidas, mas a desobdiência civil a sério é ilegal por definição.

    Mas agora imagine uma coisa – que ia ensinar pela norma antiga mas um dos seus alunos respondia a um teste escrevendo pelo novo AO; ia marcar-lhe certo ou errado?

  3. pois, o problema da desobediência é ser isso mesmo. A mim parece-me que há, de facto, ilegitimidade neste aborto. Por isso faço questão de lhe resistir e vamos ver as consequências que daí advirão. Em relação aos alunos, para já não tenho esse problema porque eles escrevem de acordo com o pré-acordo. Mas aparecendo-me um que escreva exceção ou coisa assim não o vou penalizar pelos disparates que outros o obrigam a fazer. Sobretudo em relação aos futuros alunos, que aprenderão a escrever mal. Mas com esses não me preocupo, creio que á data já não estarei a dar aulas. Obrigado pelo esclarecimento.

  4. VSC

    Estão a pedir aos pais que comprem dicionários novos, nesta época de crise.
    É dito aos pais que «isto do acordo é para os pequenos não darem erros. Mentem. O acordo, como cândida e impunemente esclareceu Malaca nada tem a ver com aprendizagens – nem podia ter ( “É que isto não é uma questão linguística, é uma questão política, uma questão muito importante do ponto de vista da política de Língua no âmbito da Lusofonia” http://aeiou.expresso.pt/acordo-ortografico-falta-vontade-politica-para-ratificacao-malaca-casteleiro-cfoto=f254931)
    E é uma questão política de política externa, mas brasileira, a mesmo que levava a que os delgados daquele país recusassem assinar as actas do CPLP escrita no português de Portugal.

    Seria louvável que os professores protegessem os alunos de uma aventura em que o poder político embarcou contra pareceres oficais e à revelia da elite intelectual do país e não apenas aconselhassem os seus alunos a não seguir quanto explicassem as falácias usadas

    O «acordo» não está em vigor, por faltar um vocabulário comum, nele previsto como condição de validade. O que há são interpretações de um texto jurídico nem sempre coincidentes e ainda há poucos dias estalaram discussões no campo dos partidários do dito «acordo».
    É legítimo infererir que se deve escrever «re-escrever» ou «re-eleger», por exemplo. A ortografia em Portugal tornou-se o contrário do que deve ser: algo de fácil e claro.

    A ilegitimidade do acordo é patente e a sua ilegalidade material também. O que o acordo pretende consubstancia um acto de inédita violência e agressividade, que nem mesmo como acto hostil de domínio foi alguma vez tentado*! Nunca passou pela cabeça de ninguém mudar a grafia de perto de 4% do vocabulário de um país, em nome de nada, senão ambições nacionalistas e pouco realistas de um país estrangeiro.
    Promovendo uma inculturação pela força, o «acordo» viola convenções internacionais de direitos humanos e de preservação do património e diversidades culturais.
    * Pode-se pensar a proibição do bretão nas escolas francesas, ou a imposição do inglês no País de Gales, mas em sociedades rurais e analfabetas o impacto era diferente, embora ambas as medidas fossem encaradas já ao tempo como hostilidade

  5. Pergunta: «Há meios legais para contrariar o aborto ortográfico?»

    Resposta: «No pressuposto de que as leis da República têm por finalidades a defesa dos interesses e a regulação das relações entre os cidadãos que são parte integrante e a própria razão de ser dessa mesma República, caberá a estes exercer os seus direitos de cidadania, nomeadamente através de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), caso considerem que houve prejuízo para os seus interesses colectivos ou que foram afectadas as relações entre os indivíduos e/ou entre os grupos sociais.»
    (ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico”)

    http://ilcao.cedilha.net

  6. … e enquanto andamos todos por aqui preocupados (e bem) com este tsunami da Língua Portuguesa outros se preocupam mais em despejar o erário publico nos bolsos da rapina internacional e a aprovação intempestiva do AO é para mim uma manobra politica de pura diversão: o AO converte o mero letrado num ignorante puro, bem prestes incapaz de saber em que língua e termos exprimir o seu protesto e revolta, a nossa expectativa confinada a dolorosa “espetativa”, os mesmos de sempre a repor os “ativos” duma pátria suposta!
    E se “Deos” não me acode irei neste caminho morrer à porta da “Pharmácia”…
    Uma conjugação de ladroeiras e duplas grafias.

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