A crise da imprensa escrita

 

A imprensa escrita está em crise perdendo leitores quase todos os meses. É uma quebra nas vendas que afecta a publicidade e, na opinião de alguns, a qualidade dos jornais. Não creio, no entanto, que a redução do número de exemplares vendidos se traduza num desinteresse pela informação, menos ainda que seja a causa para a má qualidade dos jornais portugueses. Conforme tive oportunidade de referir em Abril do ano passado, um dos motivos para a quebra nas vendas das edições em papel dos jornais  prende-se com o acesso gratuito à informação via internet, que se torna ainda mais fácil com o surgimento dos tablets. Este meio permite a quem quer que seja saber o quiser sobre o que se passa em qualquer ponto do mundo. Sendo a informação internacional quase inexistente na imprensa portuguesa e estando a nacional reduzida às tricas político-partidárias, julgo que esta ‘fuga’ para a internet é facilmente explicada. Mas não chega para perceber a crise. Na verdade, são cada vez mais os que trocam a compra de jornais portugueses por publicações internacionais especializadas, das relações internacionais à literatura, passando pela biologia ou a história, de acordo com os seus interesses e gostos. Assim sendo, as más vendas da imprensa escrita não se podem dever apenas à informação online, mas a um desfasamento com o que os seus leitores procuram. Os jornais portugueses perdem-se no meio de demasiada informação política e corriqueira, esquecendo por completo a grande reportagem e a publicação de artigos mais cuidados e longos. Não deixa de ser curioso como a grande reportagem passou para os telejornais que deviam ser pequenos blocos de informação. Estando a génese da crise no desinteresse dos leitores, que para informação corriqueira a encontram de borla nos sites desses mesmos jornais, pelas notícias publicadas, uma das possíveis soluções parece-me ser o surgimento de novas publicações, mais especializadas, de menor tiragem e projecção, e com custos sempre controlados. Uma descida nas vendas não significa que os potenciais compradores viraram estúpidos. Apenas que procuram outro tipo de produto. Saber qual é, parece-me ser parte da função de quem trabalha na imprensa escrita.

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9 thoughts on “A crise da imprensa escrita

  1. L

    Os jornalistas portugueses trabalham para os políticos, que no fundo é quem lhes paga (sector subsidiado e pouco liberalizado – comissão de carteira / licenças / entidade reguladora) e lhes dá a possibilidade de progressão na carreira (cargos políticos, autárquicos).

    Os únicos jornais que escapam a isto são os locais que vão morrendo aos poucos, ou por falta de pagamento dos empresários que compram publicidade, por gestão amadora, ou por causa das muitas despesas fixas com o Estado e os TOC.

    Há ainda outro problema para os jornais locais. Cada vez há mais profissões reguladas (com ordens profissionais) que estão proibidas de fazer publicidade. São esses profissões que por sinal mais têm interesse em publicidade e que têm mais dinheiro para investir.

    Nos grandes meios de comunicação os jornalistas trabalham só a mudar títulos dos takes da Lusa. O objectivo são os cliques…

  2. asdasd

    Prefiro de longe perceber o mundo no dia-a-dia através de blogs e confrontos de ideias abertamente ideológicos, do que através de informação supostamente objectiva (porque obedece a um conjunto de regras e analisada à lupa por entidades reguladoras) em jornais que são propriedade de grupos económicos chefiados pela conta bancária de diversos burgueses.

    A internet veio ajudar-nos a contornar um mundo infestado de publicidade e mercadorias e estará até contribuído para a decadência da economia de mercado.

  3. Manuel Costa Guimarães

    Da minha parte, que continuo a comprar o Público/I todos os dias, mantenho-me à espera de uma única reportagem cuidada que, infelizmente, não chega. Chega a ser impressionante não haver um único jornal a investigar até ao fim um sem número de casos de possível (!) corrupção que vamos lendo. Por exemplo, o caso de Almerindo Marques e da excelente renegociação com as concessionárias, que passa a dívida, se não me engano, de 180 milhões para 10.000.000.000 de euros e acaba a presidente da Opway, detida pelo GES, assim como o é a Ascendi. Neste momento, confio tanto nos jornais e respectivos jornalistas, como nos políticos. Lixo do mesmo saco.

  4. L

    Na RTP e na LUSA a promiscuidade entre a política e o jornalismo é algo que diz muito sobre Portugal.

    Quando é eleito um Governo dezenas de jornalistas são nomeados políticamente. Numa empresa normal, os jornalistas tinha de se demitir e davam a vaga a outros nas respectivas empresas.

    Na LUSA e na RTP o contrato é suspenso. Quando a nomeação acaba retomam as suas funções…

  5. SC

    A qualidade é, em geral, má, mas leio na internet um jornal que assino e pago.
    Não leio qualquer jornal que use o «acordo ortográfico».

  6. ricardo saramago

    Já fui amador de jornais. Agora não compro nenhum e recuso-me a ler em “pretuguês ortográfico”.

  7. lucklucky

    Fui viciado desde os 10 anos, DN do meu avô. Desde 2003 e a vergonha que foi a cobertura da Guerra nunca mais comprei um jornal.
    Foi o último prego no caixão de um jornalismo esquerdista.

  8. Pingback: O Insurgente

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