Não querem “cortes cegos”?

O “corte cego” anda na praça pública. Deve ser o primeiro caso na história em que um governo que supostamente não corta na despesa é acusado de fazer cortes cegos em tudo quanto é sítio. Talvez isto seja apenas uma espécie de indignação preventiva. Não sei. O que eu sei é que, contra os “cortes cegos” tenho seis letras para oferecer: SIADAP – Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública.

O SIADAP supostamente serviria para fazer uma avaliação “não ideológica” dos serviços, dirigentes e trabalhadores da administração pública. Ou seja, uma avaliação onde, não se questionando a lógica da existência de um determinado serviço, seria analisado o desempenho desse mesmo serviço e dos seus trabalhadores, por muito absurda que a sua missão fosse. Eu não sei bem como é que isto se faz mas parece que “em sede de concertação social” tudo é possível.

O que é certo é que este processo começou em 2008 e três anos depois não serviu para nada. Porquê? Porque não separou bons serviços de maus serviços. Porque não separou bons dirigentes de maus dirigentes. Porque não separou maus funcionários públicos de bons funcionários públicos. É só para isto que serve um sistema de avaliação de desempenho. Não é para identificar “oportunidades de formação”, nem descobrir que funcionários é que têm um desempenho “relevante”. É para saber quem merece ser premiado e que tem de ser posto na rua.

Em Abril deste ano ficámos a saber que 92% dos funcionários da administração central tinham visto a seu desempenho de 2009 (?) avaliado. Não ficámos a conhecer o resultado global dessa avaliação, nem o que se passou na administração local e regional. Na internet só se encontram uns relatórios de avaliação soltos onde, curiosamente, há algumas pessoas “excelentes” e “relevantes”, muitas “adequadas”, mas nenhuma “inadequada”. Suponho que alguém considere que isto serve como informação sistematizada que nos permite saber com que grau de eficiência é que os diferentes serviços e funcionários do Estado andam a desperdiçar o nosso dinheiro. Mas não serve. Só serve mesmo para atirar areia para os olhos de toda a gente.

Eu bem sei que a ideia de que os 650.000 funcionários públicos são uma massa indistinta de pessoas sem vontade própria dá imenso jeito aos sindicatos quando têm de se sentar à mesa para tentar converter votos em dinheiro do Orçamento de Estado. Mas se querem os funcionários públicos todos no mesmo saco, depois não podem é vir reclamar a dizer que os cortes são cegos.

Ou se abre o saco, o que implica uma perda de poder dos sindicatos mas também cortes selectivos e eventualmente menos injustos, ou o saco fica fechado e levam todos por igual. É tramado.

5 pensamentos sobre “Não querem “cortes cegos”?

  1. “Não é para identificar “oportunidades de formação”, nem descobrir que funcionários é que têm um desempenho “relevante”. É para saber quem merece ser premiado e que tem de ser posto na rua.”

    Mas é supostamente para isso que serve o desempenho “relevante” – já que só esses é que podem subir de escalão (claro que como as subidas de escalão estão suspensas o “relevante” acaba por ser irrelevante)

  2. Já agora, essa obsessão do Tomás Belchior com os sindicatos não será um bocado desfocada quando os salários e afins dos funcionários públicos nem sequer são determinados por negociações com os sindicatos (o governo tem conversações com os sindicatos, mas – ao contrário do que penso se passar nas empresas privadas – não precisa da aprovação deles para nada; e, tirando a questão dos professores há anos – ou décadas? – que não tem havido acordos entre governo e sindicatos

  3. Tomás Belchior

    Miguel,

    A parte que eu estranho não é a dos relevantes. É a dos inadequados. Falta aqui uma parte da distribuição ou não? Identificámos que há funcionários e serviços bons mas não encontramos funcionários e serviços maus? Isto não é algo paradoxal?

    Quanto aos sindicatos, eu gostava de acreditar que, em política, só o que está assinado é que é válido mas acho que sabemos os dois que não é bem assim que funciona.

    Mas não se preocupe que as minhas obsessões não se resumem só aos sindicatos. A minha obsessão é mesmo com a parasitagem em geral, e a parasitagem patrocinada pelo Estado em particular. Mas isso já nos levaria para outra discussão…

  4. “A parte que eu estranho não é a dos relevantes. É a dos inadequados. Falta aqui uma parte da distribuição ou não? ”

    A maior parte dos livros sobre gestão diz que o reforço positivo funciona melhor que o negativo :).

  5. Dervich

    O diagnostico é fácil:

    “O que é certo é que este processo começou em 2008 e três anos depois não serviu para nada. Porquê? Porque não separou bons serviços de maus serviços. Porque não separou bons dirigentes de maus dirigentes. Porque não separou maus funcionários públicos de bons funcionários públicos”,

    aliás, o que toda a gente dentro da função pública já há 3 anos previa que acontecesse…

    A terapia é que é difícil:

    “Ou se abre o saco (…), o que implica cortes selectivos e eventualmente menos injustos”

    que é aquilo que neste país aparentemente ninguém consegue fazer,

    “ou o saco fica fechado e levam todos por igual.”,

    que é uma solução bem “à tuga”, fácil e que lixa todos, mas paciência…

    Os sindicatos e a consertação social nada têm que ver com o assunto, nos últimos 6 anos tudo o que tem sido implementado tem sido à sua revelia, portanto agora, seria só continuar, de que se espera?!…Força nisso!…

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