Notícias incómodas sobre um certo “pensamento mágico” (edição irlandesa)

No auge do socratismo, os socialistas e demais adeptos do endividamento público ilimitado, andavam todos contentes com os défices que os irlandeses iam ter de pagar para salvar os seus bancos. Diziam-nos “vocês queria ser como a Irlanda não era? Queriam défices de 32% não era? Ainda bem que nós não fomos na vossa conversa e não passámos dos 10%”. Anunciavam ao mundo que eles é que percebiam da poda porque éramos os campeões do crescimento. Vendiam-nos a ideia de que estava tudo controlado porque a despesa estava a crescer menos. Lembram-se? Pois.

Entretanto o que é que aconteceu na Irlanda? Aqueles malucos fizeram um ajustamento orçamental equivalente a 13% (!) do PIB, quando a Merkl e o Sarkozy os tentaram obrigar a “harmonizar” os regimes de tributação sobre os lucros os irlandeses mandaram-nos à fava porque preferiam ter crescimento do que esmolas e, lo and behold, crescer foi precisamente o que eles fizeram no primeiro trimestre do ano.

Isto quer dizer que a questão está arrumada? Não. Quer dizer que pelos vistos “as lições da Irlanda” só interessam quando confirmam teorias que nos são úteis. Quer dizer que os nossos amigos que continuam a defender as receitas socráticas (e derivados) que nos trouxeram até à situação em que nos encontramos, em vez de andarem à procura do que chamam “pensamento mágico económico” em indicadores de confiança, deviam olhar para o gráfico do que tem acontecido às taxas de juro das obrigações irlandesas a 10 anos:

Ou seja, é uma pena que Portugal não seja a Irlanda porque, como resumiu o Manuel Pinheiro aqui há uns tempos, a verdadeira lição irlandesa é que “os irlandeses entraram nesta crise muitíssimo mais ricos que os portugueses. Vão sair dela muito mais ricos que os portugueses. Pelo meio continuarão muito mais ricos que os portugueses. E depois dela continuarão a enriquecer muito mais que os portugueses”.

Já que estamos a falar no assunto, também podiam ler a resposta do Alberto Alesina ao artigo da Economist que tanto os excitou e que acaba da seguinte forma:

“We already know that one conclusion is in line with many of the previous papers– namely, that spending cuts are better than tax increases to reduce a budget deficit.”

Eu sei que pedir a estes senhores que tivessem juízo (ou mesmo vergonha na cara) é pedir demais. Mas talvez não lhes custasse muito começar a olhar para outros sítios que não para o próprio umbigo.

7 pensamentos sobre “Notícias incómodas sobre um certo “pensamento mágico” (edição irlandesa)

  1. “We already know that one conclusion is in line with many of the previous papers– namely, that spending cuts are better than tax increases to reduce a budget deficit”

    Penso que isso é quase uma falsa questão, porque o que se tem discutido nos últimos anos NÃO É se é melhor reduzir os deficits aumentando os impostos ou reduzindo a despesa; é mesmo se se deve reduzir os deficits (seja como fôr) durante uma recessão.

    Isso é como, no fundo, numa discussão sobre a pena de morte, alguém comentar “tudo indica a injecção letal causa menos sofrimento que a electrocussão”, ao que os adversários da pena capital provavelmente responderão “E o que é que isso tem a ver com a conversa, mesmo que seja verdade?”.

  2. Tomás Belchior

    Miguel,

    Ao contrário de si, eu acho que a questão não tem sido sobre se devemos ou não reduzir o défice porque há um consenso generalizado de que não há grande maneira de fugir a isso. A questão é mesmo sobre se há maneira de ter austeridade e crescimento (ou menos recessão).

  3. «Penso que isso é quase uma falsa questão, porque o que se tem discutido nos últimos anos NÃO É se é melhor reduzir os deficits aumentando os impostos ou reduzindo a despesa; é mesmo se se deve reduzir os deficits (seja como fôr) durante uma recessão.»

    Esta tem sido, digamos, uma sub-questão, ou questão derivada, que decorre da crítica dirigida aos empedernidos keynesianos unidimensionais cuja resposta a qualquer crise económica, independentemente do seu contexto particular, independente das razões que a motivaram, é, sempre, aumentar a despesa pública implicando isso aumento de impostos, presentes ou futuros (a haver acréscimo da dívida pública), explícitos ou explícitos (pela promoção da inflação).

  4. Paulo Pereira

    Será que a recuperação da Irlanda terá a ver com o reduzido deficit corrente que se prevê em 2011 ?

    É preciso insistir na diferença entre os países da Euro Zone e países com moeda própria e câmbios varáveis.

    Nos países da EZ não é possivel usar deficits publicos elevados como politica contra-ciclica.

    Nos países com moeda própria os deficits publicos apenas têm importância quando causam inflação elevada.

  5. “Ao contrário de si, eu acho que a questão não tem sido sobre se devemos ou não reduzir o défice porque há um consenso generalizado de que não há grande maneira de fugir a isso.”

    O o próprio facto de eu discordar não mostrará que não há um “consenso generalizado”? E, já agora, quem é o “nós” implicito no “devemos ou não reduzir o défice”? Portugal? A Europa? O conjunto das economias desenvolvidas (dá-me a ideia que muita da polémica é porque diferentes opinadores estão a pensar em “nós” diferentes)?

  6. Tomás Belchior

    Miguel,

    Tem razão. Não queria menosprezar a sua discordância. Podemos dizer a maioria dos governos (e eleitorados?) dos países que estão (ou estavam) com défices e dívidas descontroladas?

  7. PMP

    Esta malta continua a não querer entender a relação entre o deficit publico e o deficit corrente e o desemprego.
    .
    A Irlanda tem um baixo deficit corrente o que significa que o deficit publico se pode reduzir rapidamente.

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