Eurocepticismo em Português

Para alguém que como eu tem vindo a defender activamente a saída de Portugal do euro, ver uma entrevista como esta onde um português finalmente tem coragem de dizer o que não nos é dito quer pelos responsáveis políticos, quer pela comunicação social embriagada pela eurofilia, é profundamente refrescante.

Gustavo Cudell, empresário e investigador, talvez influenciado pela tradicional independência suíça (onde estudou e trabalhou), mostra nesta entrevista como o euro em particular e a União Europeia em geral estão na origem da nossa crise e como nada irá realmente mudar para melhor enquanto Portugal se mantiver na zona euro. É igualmente o primeiro português que vejo que revela o papel do BCE como redistribuidor e impulsionador das dívidas públicas dos países menos produtivos. Ademais, ataca o mito de que os cidadãos alemães ganham com o euro e, na tradição sociológica da teoria das “power elites” muito usada por Murray Rothbard ou Hans Hermann Hoppe, separa os interesses e vontades das elites europeias (que querem a via da centralização) das dos cidadãos europeus (que a rejeitam cada vez mais). Em suma, uma das melhores entrevistas em português que li nos últimos tempos. Vale a pena ler na integra, mas aqui ficam alguns dos melhores momentos:

O resgate financeiro dos países mais afectados pela crise de dívida tem sido a estratégia mais seguida pela União Europeia. Essa estratégia tem sido a mais correcta ou é desastrosa?
A estratégia que tem sido seguida é desastrosa, porque aumenta as dívidas, os juros e o desemprego e, consequentemente, faz minguar a economia dos países resgatados. Os resgates de bancos e dos países só adiam e aumentam os problemas. E o problema está no euro. No início, também fui um grande apoiante da moeda única, mas hoje acho que o euro é um colete de forças para todos os países que o adoptaram.

Mas a saída de Portugal do euro não teria consequências dramáticas?
Se a saída for gradual e negociada, não é nada dramático. Reintroduz-se o escudo, as importações baixam, as exportações sobem, o desemprego cai, o turismo sobe, os imóveis transaccionam-se, o desemprego e o deficit baixam. Desaparece o colete de forças do euro. Podemos respirar de novo e recuperar a soberania de Portugal (pelo menos em parte), que nos foi roubada de forma gradual.

Se a solução é tão fácil, por que é que esse cenário assusta tanto os líderes políticos portugueses?
Os políticos e banqueiros, com grande poder, não se assustam. Eles querem é assustar os cidadãos, para que estes não lhes tirem o poder. Aliás, nunca se assiste a um político ou banqueiro a apresentar razões concretas para tal e fazem da discussão objectiva tabu. Os políticos e banqueiros são marionetas do poder, que está agregado nas mãos dos bancos, incluindo os centrais, no FMI, no Banco Mundial, nas bolsas e em algumas famílias de alta finança.

A Alemanha tem-se revelado contra a saída de alguns países do Euro. Esta posição explica-se pelo facto de a economia alemã sair beneficiada com a falta de competitividade de alguns países da moeda única?
Isso é o que os media mainstream contam aos cidadãos menos esclarecidos. Quando falamos da Alemanha, temos que distinguir entre a elite do poder (banqueiros e políticos) e a esmagadora maioria dos cidadãos, que são os trabalhadores e os empresários. A elite do poder alemã segue o mesmo caminho da elite do poder dos outros países. Mas não é verdade que a Alemanha beneficie com o euro, e a grande maioria do povo alemão é contra o euro. A Alemanha oferece (através do euro fraco) os excedentes que obtém da sua exportação ao Banco Central Europeu e este financia os défices dos países do Sul. Sem o euro, a Alemanha teria matérias-primas, incluindo o petróleo, e juros mais baratos e seria muito mais rica.

Deve a Europa avançar rapidamente para uma união política, de forma a salvar o euro?
Não. Com toda a certeza que não. Para quê salvar um colete de forças? As populações não são loucas, não precisam de um colete de forças. Uma união que não funciona economicamente, nunca pode nem vai funcionar politicamente. Isso é o desastre total. Mas é isso que os tecnocratas do poder de Bruxelas querem. “

26 pensamentos sobre “Eurocepticismo em Português

  1. Jose Domingos

    Nem mais. Esta situação, só interessa, ao senado, em Bruxelas. A europa, politica, nunca existiu, e não se cria, por decreto.Receio, é a imposição, pela força. Vamos ver.

  2. Joaquim Amado Lopes

    (1) Portugal sai do Euro => volta o escudo => o escudo desvaloriza => …
    … (1.1) … => os bens importados ficam mais caros (em escudos) => os portugueses passam a consumir menos bens de consumo importados
    … (1.2) … => as matérias-primas importadas continuam a custar o mesmo (em euros e dólares) => o custo das matérias-primas para as empresas passa a custar mais escudos => os preços dos bens (para exportação ou para consumo interno) aumenta (em escudos) => os portugueses passam a consumir menos bens de consumo produzidos internamente
    … (1.3) … => os salários mantéem-se nos mesmos valores (em escudos) => os salários são o único factor de produção que se torna mais barato => os preços dos produtos para exportação baixam marginalmente (em euros e dólares) => as exportações aumentam marginalmente
    … (1.4) … => a dívida externa é paga em euros e dólares pelo que passa a ser de mais escudos => …

    … … (1.4.1) … => o Estado passa a necessitar de mais escudos para se financiar => os impostos aumentam => … (1.4.3)
    … … (1.4.2) … => os bancos passam a necessitar de mais escudos para se financiarem => as taxas de juro (para empréstimos) aumentam => o investimento diminui => é cada vez mais difícil criar empresas para encerrar as que encerram => o desemprego aumenta => …

    … … … (1.4.2.1) … => os salários baixam => o consumo interno diminui ainda mais => … (2.1)
    … … … (1.4.2.2) … => o número de pessoas a necessitarem de apoio do Estado aumenta => (1.4.3)

    … … (1.4.3) … => com mais despezas sociais e mais dificuldade em se financiar, o Estado reduz as prestações sociais => o consumo baixa ainda mais => … (2)

    (2) …
    … (2.1) … => o nível de vida dos portugueses baixa de forma dramática
    … (2.2) … => o Estado emagrece substancialmente
    … (2.3) … => a emigração aumenta dramaticamente

    Pergunta:
    Se é para ficarmos (colectivamente) MUITO mais pobres, o Estado ficar muito mais pequeno, consumirmos substancialmente menos e termos que ser bastante mais produtivos, não é melhor fazê-lo dentro do Euro, com o apoio da União Europeia?

  3. “Se é para ficarmos (colectivamente) MUITO mais pobres, o Estado ficar muito mais pequeno, consumirmos substancialmente menos e termos que ser bastante mais produtivos, não é melhor fazê-lo dentro do Euro, com o apoio da União Europeia?”

    Não. O “apoio da União Europeia” foi o eufemismo que nos trouxe até esta situação de dependência.

  4. lucklucky

    Eu sou contra o Euro por razões políticas. Por razões económicas sem Euro temos os nossos políticos com uma impressora nas mãos. Seria educativo se não fosse lançar mais achas para a fogueira.

  5. Sair do euro corresponde a fazer “default” (a divida acumulada continua em euros e impagável com o novo escudo) isso corresponde a deficit ZERO durante vários anos e não existe “negociação” ou “saída gradual” que evitaria este facto. A saída do euro neste momento seria dramática e corresponderia realmente dar ao governo português o poder de seguir a politica monetária zimbabweana.
    As dividas e compromissos acumulados pelas democracias ocidentais só tem uma solução – quantative easing do BCE e spin-off de todo o euro ou saída da Alemanha do Euro (único estado que pode sair sem entrar em bancarrota automaticamente).
    Concordo que uma união federal europeia seria um desastre tão grande que iria provavelmente a caminhos pouco pacíficos (uns por se acharem credores outros por se acharem explorados)

  6. JS

    Se tiver que ser, a “união política da Europa”, é como um remédio intragável: engole-se apertando o nariz.
    Eleições só para deputados Europeus. Acaba o Presidente da República. E uma data de Ministérios. Cria-se um Governador Civil de Portugal … E se trouxer o vencimento mínimo europeu … vai ter muitos adeptos.
    Ou provavelmente mais centralismo e consequente despesa em burocratas/empatas.

  7. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    “O “apoio da União Europeia” foi o eufemismo que nos trouxe até esta situação de dependência.”

    Errado. O que nos trouxe até esta situação de dependência foi olharmos para a União Europeia como uma oportunidade para vivermos como ricos à conta dos outros, em vez de a olharmos como uma oportunidade para passarmos a ser mais produtivos.
    O “apoio da União Europeia” era para sustentar o investimento, não o consumo. Mas foi desperdiçado a fingir que éramos ricos e fomos pedindo cada vez mais dinheiro emprestado para manter a ilusão.

    O que nos trouxe até esta situação de dependência foi a nossa própria estúpidez. O julgarmos que os outros iam continuar a pagar as nossas contas indefinidamente.

  8. “O que nos trouxe até esta situação de dependência foi olharmos para a União Europeia como uma oportunidade para vivermos como ricos à conta dos outros”

    Esta é a mesma lógica que mostra porque subsídios a empresas, indivíduos ou países são a melhor forma de garantir que estes nunca mais serão produtivos de novo.

  9. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    Subsídios a empresas, indivíduos ou países fazem sentido quando se destinam a ajudar a ultrapassar uma determinada conjuntura. Por definição, devem ser excepcionais e temporários e implicar em deveres/condições. O subsídio de desemprego, p.e..

    A analogia que me surge é o de um barco a remos em que um dos remadores cai à água gelada. Os outros remadores têm duas hipóteses:
    (1) deixá-lo afogar-se porque não poderá remar durante algum tempo e é mais um a fazer peso, o que resulta em maior tracção e, portanto, mais esforço para os outros remadores;
    (2) ajudá-lo a voltar para dentro do barco e dar-lhe tempo para recuperar porque, depois de recuperar, é mais um para remar.

  10. “Subsídios a empresas, indivíduos ou países fazem sentido quando se destinam a ajudar a ultrapassar uma determinada conjuntura. Por definição, devem ser excepcionais e temporários e implicar em deveres/condições. O subsídio de desemprego, p.e..”

    Em teoria sim, na prática, como uma vez disse Milton Friedman: “não há nada tão permanente como uma política governamental” ou seja, na prática gera dependência e improdutividade.
    Em relação à analogia, uma coisa é ajuda episódica a uma catástrofe que pode e deve ser feita via caridade e altruísmo, outra é ajuda permanente para promover a irresponsabilidade (que é o caso da relação UE-Portugal).
    Seja como for a ajuda da UE não é desinteressada; a ajuda tem o propósito de gerar uma dependência tal que fará naturalmente o poder passar de Lisboa para Bruxelas. Isto é o que está já a acontecer. Estamos já todos de mão estendida e vergados perante a inevitabilidade do superestado federal.
    Bem, todos não, há uns que estão mais que outros.

  11. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    “Em teoria sim, na prática, como uma vez disse Milton Friedman: “não há nada tão permanente como uma política governamental” ou seja, na prática gera dependência e improdutividade.”
    Podemos discutir a teoria e podemos discutir a prática, não podemos é confundir as discussões.

    A teoria tem a ver com o princípio, que é, por natureza, generalista. A prática tem a ver com casos concretos e, se há demasiados casos em que os subsídios são vistos como um direito adquirido e não como uma ajuda excepcional (p.e. Rendimento Mínimo Garantido / Social de Inserção), outros há em que os subsídios dão exactamente o resultado pretendido, com os beneficiados a usarem a ajuda para deixarem de precisar de ajuda.

    Quando ao propósito da ajuda da UE, não vejo qual é o problema de alguém nos dizer “vocês precisam de quem vos empreste dinheiro e as taxas de juro que vos estão a ser pedidas pelos mercados são muito altas; nós emprestamo-vos esse dinheiro a taxas mais baixas na condição de alterarem algumas coisas na vossa maneira de actuar no sentido que nós acreditamos ser necessário para virem a poder pagar o empréstimo”.
    Se as condições colocadas não são aceitáveis, a resposta é não. Depois é só arranjar maneira de conseguir pagar as taxas mais altas sem fazer o mesmo ou pior do que a UE nos propõe ou então – o melhor – de não precisarmos de pedir mais dinheiro emprestado.

    O Filipe tem alguma sugestão sobre como conseguir uma ou outra, no prazo de um ou dois meses? É que o Estado português pede mais dinheiro emprestado todos os meses, para pagar as dívidas vencidas, os juros das que ainda não venceram e o deficit público.

    Quanto à dependência de Lisboa a Bruxelas, já alguém (claramente) mais inteligente que qualquer um de nós disse “manda quem paga”. Se não queremos estar dependentes de Bruxelas, basta não precisarmos da ajuda de Bruxelas.

  12. “O Filipe tem alguma sugestão sobre como conseguir uma ou outra, no prazo de um ou dois meses? É que o Estado português pede mais dinheiro emprestado todos os meses, para pagar as dívidas vencidas, os juros das que ainda não venceram e o deficit público.”

    Se ler os meus textos sobre o euro (e são imensos) não precisará de me fazer essa pergunta.

    “Se não queremos estar dependentes de Bruxelas, basta não precisarmos da ajuda de Bruxelas.”

    A parte boa é que não precisamos. Precisamos sim de alguma ajuda em forma de negociação para suavizar a transição para fora do euro de forma a deixarmos de precisar. Mas isto nem é preciso eu estar-lhe a dizer; bastava ter lido a entrevista de Gustavo Cudell que está neste post.

  13. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    Leio muitos artigos de diferentes autores e em diferentes blogs. Não posso dizer que os seus textos que tenha lido tenham deixado uma impressão tão vincada que possa identificar de memória a sua receita para os problemas financeiros e económicos de Portugal. Eventualmente não lhes terei dado a importância devida.

    Quanto à “negociação para suavizar a transição para fora do euro”, soa-me demasiado a “cometemos erros (pedimos demasiado dinheiro emprestado) mas assumi-los e gostariamos que esquecessem as nossas dívidas e nos dessem mais algum dinheiro, na *promessa* de que não lhes vamos continuar a pedir (muito) mais”.

    Quanto à entrevista de Gustavo Cudell, li-a com atenção e respondi-lhe logo com o meu primeiro comentário que, pelo que parece, o Filipe não leu. Ou, mais provavelmente, leu-o e preferiu responder apenas ao que podia responder sem dizer nada em concreto.

    Portugal necessita de uma coisa: produzir mais do que consome. Se a saída do Euro contribui para alguma coisa é para tornar isso ainda mais difícil, como eu (acredito que) demonstrei. Se acha que estou errado, agradeço que indique do meu primeiro comentário os nexos de causalidade específicos com que não concorda e explique porquê.

  14. “Quanto à “negociação para suavizar a transição para fora do euro”, soa-me demasiado a “cometemos erros (pedimos demasiado dinheiro emprestado) mas assumi-los e gostariamos que esquecessem as nossas dívidas e nos dessem mais algum dinheiro, na *promessa* de que não lhes vamos continuar a pedir (muito) mais”.”

    Quem falou em pedir mais dinheiro? O objectivo é cortar com a dependência de financiamento da UE através da renegociação da dívida, não é apenas reduzir a dependência (apesar de ser melhor que nada).

    Quanto ao seu comentário inicial, o seu principal problema é metodológico. Tenta jogar com demasiadas variáveis que não são quantificáveis e como muito desse raciocínio causal depende das quantidades em que o escudo desvaloriza, o euro desvaloriza, em que os salários baixam, em quão fundo o default irá (incumprimento da divida), da capacidade do Estado em se financiar de novo, etc etc, a conclusão a que chega não diz nada sobre a realidade futura.

    Tal como referi antes, o euro é um instrumento político e é assim que deve ser tratado. O que há para responder em relação a apoiar ou não o euro é o seguinte: “queremos ou não um Estado federal que transforme Portugal numa província dependente?”. Se sim, basta ficar no euro e sofrer. Se não, vamos encontrar formas de sair dele. Meio termo é que neste caso não existe, como se vê pela insustentabilidade de uma união monetária sem uma união política.

    Como considero que o poder deve estar o mais próximo possível dos indivíduos, sou politicamente contra o euro.

    Seja como for, se quiser saber mais razões para a minha posição, convido-o a ler os meus textos anteriores aqui no blog.

  15. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    JAL:
    “Quanto à “negociação para suavizar a transição para fora do euro”, soa-me demasiado a “cometemos erros (pedimos demasiado dinheiro emprestado) mas assumi-los e gostariamos que esquecessem as nossas dívidas e nos dessem mais algum dinheiro, na *promessa* de que não lhes vamos continuar a pedir (muito) mais”.”

    FF:
    “Quem falou em pedir mais dinheiro? O objectivo é cortar com a dependência de financiamento da UE através da renegociação da dívida, não é apenas reduzir a dependência (apesar de ser melhor que nada).”

    E, exactamente, o que significa a “renegociação da dívida” senão “uma parte da dívida não vai ser paga”, “vamos passar a pagar juros mais baixos” e/ou “o prazo para pagamento da dívida vai ser extendido”? É que todas são exactamente o mesmo que pedir mais dinheiro.

    Quanto à “metodologia” e às “demasiadas variáveis que não são quantificáveis”, é interessente que esse argumento se aplique apenas quando a conclusão não lhe agrada.
    Quando Gustavo Cudell diz “Reintroduz-se o escudo, as importações baixam, as exportações sobem, o desemprego cai, o turismo sobe, os imóveis transaccionam-se, o desemprego e o deficit baixam.” as variáveis são simples e não necessitam de ser quantificadas e o futuro é claro. Quando outros dizem “reintroduz-se o escudo, o escudo desvaloriza, os empréstimos ficam mais caros, as empresas têm mais dificuldade em se financiarem, o desemprego aumenta e o Estado tem menos receitas e mais despezas”, exigem-se valores comprováveis.

    O futuro é sempre incerto e, principalmente em Economia, as coisas acontecerem de uma forma ou de outra depende de muitos factores que não controlamos e que estão em permanente evolução. Por isso é que o que Gustavo Cudell diz mais não é do que “wishful thinking”. Até pode acontecer como ele “prevê”. Mas, se acontecer precisamente o contrário, lá virá ele dizer que o que falhou foi um detalhe qualquer que não foi concretizado da forma que ele recomendou.
    “Um economista é um especialista que saberá amanhã por que o que previu ontem não aconteceu hoje.” Laurence J. Peter

    Quando a uma Europa federal, sou ainda mais céptico do que o Filipe.

    A União Europeia está a caminhar para uma federação socialista, com uma elite incompetente e corrupta a querer decidir sobre todos os detalhes da vida dos cidadãos, sem responder perante ninguém pelos seus erros ou excessos. Mas eu também gostava de ser livre, viajar e só fazer o que apetecesse. Mas as contas da casa têm que ser pagas e eu tenho que comer. Assim, abdico de parte da minha liberdade e abdico de mais de mais de 55 horas por semana (incluíndo transporte) para ter dinheiro para pagar as contas.

    Não vejo problema nenhum em se preferir um Portugal independente da União Europeia. O meu problema é alguns tentarem “adoçar” essa ideia com a fantasia de que a saída do Euro resolve os nossos problemas financeiros e económicos. Porque acontecerá precisamente o contrário.

    “Muito mais pobres mas muito mais livres” é um excelente slogan. Mas com a liberdade vem a responsabilidade e os portugueses têm demonstrado à saciedade quanto responsáveis conseguimos ser.

  16. JAL,

    Antes de mais não me viu a argumentar que a solução do Gustavo Cudell ia de facto gerar os resultados económicos que ele advogou. Eu até os posso achar mais prováveis do que os seus prognósticos, mas ficamos por aí em relação a certezas.

    Depois de passar o último comentário a concordar comigo que não há certezas económicas em contextos onde tantas variáveis estão em jogo, termina a dizer que o slogan “muito mais pobres mas muito mais livres” é um excelente slogan e que os nossos problemas económicos se agravarão com a saída do euro. Mas como sabe que ficamos mais pobres se acabamos de concordar que isso não é possível de aferir?? O que é certo é que fora do euro recuperamos boa parte de soberania e independência. Se com isso ficamos mais pobres ou ricos é apenas especulação da sua parte.

  17. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    Quanto à sua posição relativamente à entrevista de Gustavo Cudell, o primeiro parágrafo do seu post parece-me bastante esclarecedor, pelos termos usados e porque não inclui qualquer ressalva.

    Quanto a ficarmos mais pobres com a saída do Euro, é uma conclusão bastante bem fundamentada nos próprios argumentos usados em defesa dessa opção.
    Para que a saída do Euro resulte em menos importações e mais exportações, é necessário que o escudo seja desvalorizado. Porquê? Com o escudo a valer menos do que 1/200,48 euros, os produtos importados (pagos em euros, p.e.) ficam mais caros (custam mais escudos), portanto passamos a consumir menos, e os nossos produtos exportados (sendo vendidos pelo mesmo número de escudos que antes da desvalorização) ficam mais baratos para quem os compra, portanto é razoável “especular” que a procura aumente.

    Só que a desvalorização do escudo tem mais consequências:
    1. Os patrimónios valorizados em escudos passam a valer menos para o exterior. Consequência: passamos a poder comprar menos com o que temos. Tradução: ficamos mais pobres.

    2. Uma parte significativa das matérias primas e energia usadas na produção são importadas. Consequência: os custos de produção para as empresas aumentam, o que implica que os preços também têm que aumentar. Os preços para os compradores estrangeiros não baixam tanto quanto o valor do escudo e os preços para os compradores internos aumentam. Ou seja, aquilo que os portugueses poderão comprar com os escudos que tenham vai ser menos. Tradução: ficamos mais pobres.

    3. A dívida externa passa a ser de mais escudos (porque o escudo será desvalorizado) portanto o Estado e os bancos necessitam de mais escudos para cumprirem as suas obrigações financeiras para com o exterior. Consequência: os impostos e os juros dos empréstimos bancários (em escudos) terão que aumentar, o que resulta em menor rendimento disponível para as famílias e empresas. Tradução: ficamos mais pobres.

    4. Os preços aumentam e os salários acabam por ter que aumentar também, para compensar (para quem não saiba, chama-se a isso inflação). Consequência: as poupanças e os investimentos vão valer cada vez menos, o que leva as pessoas a gastarem mais e pouparem menos, tornando-nos mais vulneráveis a crises. Tradução: ficamos mais pobres.

    Exactamente, que parte do que escrevi acima é “especulação”?

  18. João Rodrigo

    Gosto particularmente da frase “Os preços aumentam e os salários acabam por ter que aumentar também, para compensar”. Quase que estive tentado a tentar explicar-lhe como há intenção em fazer default à dívida, ou o processo de competição de moeda que contraria a desvalorização desta. Mas depois de uma frase como a que citei ,decidi que o melhor era seguir em frente.

    E é o melhor conselho que lhe posso dar, deixe de delegar sound-money aos eurocratas que tanto fizeram por nós. Siga em frente.

  19. Joaquim Amado Lopes

    João Rodrigo,
    Gosto particularmente das expressões “Quase que estive tentado a tentar explicar-lhe…” e “… decidi que o melhor era seguir em frente.”. Dá a impressão de que o João tem algo de jeito para dizer mas apenas fica que não disse.
    E acho engraçado que a sua primeira e única intervenção na discussão seja para dizer que “decidiu seguir em frente”.

    Só por curiosidade, o João sabe o que quer dizer “fazer default à dívida” e quais as consequências disso, para um país com deficits público e comercial crónicos?

  20. João Rodrigo

    Joaquim Amado Lopes,
    “Só por curiosidade, o João sabe o que quer dizer “fazer default à dívida” e quais as consequências disso, para um país com deficits público e comercial crónicos?”

    Não, não sei, eu limito-me a seguir a receita habitual sem pensar muito. Prefiro aplicar os modelos que se apresentam actualmente postos em prática e adaptá-los às ideias que vão aparecendo sem tentar divergir. Por alguma razão os cenários parecem sempre muito catastróficos dessa forma.

    Por esta altura já deve ter reparado que não vou adicionar nada à sua discussão. Faz-me confusão quem tenta aplicar ideias parciais e depois admira-se que não funcionam. O Filipe Faria já fez mais que o suficiente nos textos neste blog para mostrar que as acções têm mais que o que é aparente à primeira vista e eu não quero fazer ninguém perder tempo a citá-lo e aos seus textos do Replicador e do Insurgente.

    Só não queria ser mal educado e deixá-lo com a sensação que ia realmente responder. Assim já ficou tudo esclarecido, espero.

  21. Joaquim Amado Lopes

    Filipe Faria,
    Reli alguns dos seus últimos textos e respectivos comentários e confirmei o que tinha lido neste seu artigo e respostas:
    1. O Filipe não concorda com uma maior integração europeia (também tenho muitas reservas) e os seus argumentos resumem-se a “ficar no Euro mau, sair do Euro bom”. Tudo o que, mesmo que por demais evidente, se aproxime de “ficar no Euro bom, sair do Euro mau” é por si recusado liminarmente ou desvalorizado (p.e. razão 5 para Portugal abandonar o Euro).

    2. O Filipe acredita que os políticos portugueses (em que se incluem, naturalmente, partidos e centrais sindicais), perante o fim da “mama” da UE e o desastre da dívida acumulada, vão automaticamente passar de politiqueiros (a olhar apenas para os próprios umbigos) a estadistas (a pensar no bem comum a médio-longo prazo).
    O problema é que o desastre da dívida acumulada e insustentabilidade da “mama” não são novidade nenhuma e todos sabemos qual foi a resposta dos últimos (des)Governos, particularmente dos “socretinos” (aumentar o ritmo de endividamento), e a postura das centrais sindicais.

    3. O Filipe acredita que o problema reside na oportunidade para fazer mal e não em aproveitar essa oportunidade (razão 1 para Portugal abandonar o Euro). Um pouco como “a culpa de não poder pagar as dívidas é dos bancos, que me emprestaram dinheiro para comprar casa de habitação, casa de férias e dois carros e ir de férias, e das lojas que me venderam roupas e electrodmésticos a crédito”. Numa palavra: treta.
    Citando João César das Neves (citado pelo Fernando S num comentário ao seu artigo “10 razões para Portugal abandonar o Euro”), “Tivemos um bar aberto e apanhámos um pifo. O mau está no bar aberto? Não, o mal está no pifo.” Termos alguém que nos dá dinheiro e empresta a juros baixos não é mau. O que é mau é comportarmo-nos como se isso fosse um direito adquirido e deixarmos de procurar trabalhar mais e melhor.

    4. O Filipe acredita na inevitabilidade do default (porque não vamos poder pagar a dívida acumulada) e que, depois disso e sem o apoio da UE, o Estado português se vai continuar a poder financiar sem grandes problemas no mercado. Ou então que, automaticamente, vamos todos aceitar viver dentro das nossas possibilidades (mesmo com menos dinheiro) e abdicar dos direitos adquiridos acumulados ao longo de quase 40 anos de irresponsabilidade.

    5. O Filipe é socialista. Acha que o desenvolvimento económico deve ser sustentado pelo investimento público (razão 4 para Portugal abandonar o Euro) e sabe que as regras impostas pela UE para nos ajudar vão precisamente no sentido contrário. Assim, acha que seria bom Portugal abandonar o Euro para o Estado poder investir fortemente (com que dinheiro?) na dinamização da Economia.

    _
    No fundo, o Filipe é como aqueles pais que, porque não têm tempo nem disposição para ensinarem os filhos a nadar, os atiram para dentro de água num local onde não tenham pé e se vão embora, para que os miúdos não fiquem a contar que, se forem ao fundo, há quem os ajude.

    Concordemos em que discordamos. Um abraço.

  22. Manuel Baptista

    Para ler boas noticias e evitar falar de coisas que não sabemos nem controlamos, recomendo a leitura do artigo publicado no Publico de sexta feira 19 de Agosto 2011 assinado pelo reputado Professor Doutor Luís Campos e Cunha. “…Estejamos seguros que muitas coisas desagradáveis nos vão acontecer, … mas o euro continuará a ser a nossa moeda. Estamos condenados a isso. Mais uma vez: felizmente…”

  23. Joaquim Amado Lopes

    António Costa Amaral e quem “rated down” o meu comentário,
    Porquê? Ou não têm argumentos que sustentem as vossas posições?

    Nunca tive qualquer problema em assumir os meus erros. Por favor, apontem-mos.

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