Cegos e surdos mas nunca mudos

O Hugo Mendes descobriu, depois de ter lido um editorial do New York Times, que ninguém fala de reformas estruturais nos Estados Unidos. Eu, que ao contrário do Hugo Mendes não sou um espectador atento da política americana, sugiro que este faça uma pesquisa online por “entitlement reform” para ficar com uma ideia das reformas estruturais que, apesar de “ninguém” as ter “advogado”, nunca andaram muito longe da discussão pública americana nos últimos anos. Talvez por não serem discussões sobre como defender direitos, liberdades e garantias não contem para esse campeonato de quem anda a ser mais prejudicado pela conspiração global para assegurar que os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres. Não sei.

De qualquer maneira, pensava que isto de fazer comparações internacionais era mais delicado do que tirar uns números de um editorial do NY Times e dizer barbaridades. Afinal de contas, ainda sou do tempo em que se usava aquela treta de que a “flexisegurança” não se podia aplicar cá porque não vivíamos num país nórdico para matar qualquer discussão sobre reformas das lei laborais. Um tempo anterior ao aparecimento por estas bandas de um nórdico qualquer a obrigar-nos a flexibilizar as nossas lei laborais.

Mas podemos ir por essa via de meter os Estados Unidos e Portugal no mesmo saco e ver que, por exemplo, no Index of Economic Freedom da Heritage Foundation nós estamos no 69º lugar, precisamente com o mesmo nível de liberdade económica do que a Albânia, e os Estados Unidos estão em 9º lugar. Será que isto quer dizer que os EUA não precisam de reformas estruturais ou apenas que há extrapolações abusivas para todos os gostos? Em alternativa, para usarmos o mesmo tipo de raciocínio que o Hugo Mendes usou, num cenário mais de acordo com as suas preferências ideológicas, será que podemos dizer que na Espanha zapaterista, os 21% de desemprego (sem contarmos com as pessoas que têm empregos em part-time ou que deixaram de procurar emprego que o NY Times usou para calcular a taxa “real” de desemprego americana) provam que afinal é muito fácil despedir por aquelas bandas e que “os mercados” deviam era ler mais editoriais do NY Times?

Enfim, so much to do and so little time…

3 pensamentos sobre “Cegos e surdos mas nunca mudos

  1. Tomás Belchior

    E, por tabela, toda a gente fala. Mas há coisas que incrivelmente passam ao lado das nossas elites…

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