Reino Unido: o medo de viver

Quando me mudei para as ilhas britânicas, uma das primeiras coisas que me chamou à atenção foi a forma como os britânicos pareciam viver permanentemente num filme de terror. Embora existam variações regionais relativamente fortes, é bastante evidente que, até nas localidades onde o crime violento é virtualmente inexistente, determinadas normas culturais diferem muito pouco. A minha primeira surpresa – especialmente porque as câmaras de vigilância nas ruas já não constituem nenhuma novidade para quem segue a imprensa local – foi verificar que até os mini-mercados exibiam vários cartazes com frases do género “Tem menos de 25? Esteja preparado para mostrar uma forma de identificação”. Os avisos referem-se a quem pretenda comprar qualquer bebida alcoólica, cuja venda é proibida a menores de 18. Várias lojas adoptaram este esquema para evitar a compra por parte de menores com um aspecto mais velho – ou seja, quem, neste caso, aparente ter menos de 25, arrisca-se a ter de provar que tem, na verdade, pelo menos 18. Como seria de esperar, estes esquemas, que começaram com um limite de 21, já estão a chegar aos 30 em retalhistas de grande relevo [Tesco, Asda]. O tema é uma espécie de tabu perante estrangeiros porque, tal como a prática do recolher obrigatório que menciono mais abaixo, a intenção não parece sequer ser a de “proteger” os menores do consumo, mas sim de “proteger” a sociedade dos menores que consomem.

Deste modo, qualquer pessoa que queira comprar algo tão simples como vinho de mesa para cozinhar deve ir preparado. Nem vale sequer a pena comentar sobre as dificuldades e os interrogatórios que esperam alguém que pretenda adquirir um frasco de álcool etílico, o qual não se encontra com facilidade em supermercados. E este, mesmo quando se vende nesta ou naquela farmácia, existe quase sempre com uma concentração anormalmente baixa e misturado com outras substâncias (a propósito, recomendo seriamente não mencionar que se está à procura de 96% v/v ou algo equivalente). Comprar algo relativamente comum como um anti-histamínico – mesmo que incrivelmente ineficaz – é também uma epopeia, já que o farmacêutico não perde a oportunidade de nos fazer uma série de perguntas e admoestações irracionais e desapropriadas (Já tomou esta substância anteriormente? Teve alguma reacção adversa? Para além de si, alguém vai tomar isto? Está a tomar ou tomou alguma medicação nos últimos 3 dias? Não pode comprar mais do que uma caixa de cada vez. Se o seu problema persistir, deve consultar imediatamente o seu médico de família, etc.).

Este tipo de restrições não se aplica meramente à aquisição de álcool ou medicamentos inofensivos. Se tentar comprar garfos ou facas (mesmo que rombas e praticamente sem serrilha), verá que nas caixas se encontra uma frase, geralmente bem destacada, que proíbe a venda a menores de 18. O mesmo se aplica a quase todo o género de tesouras, sendo a justificação oferecida pelos locais o facto de que todos estes objectos podem ser utilizados como armas – a única dúvida, portanto, é saber quando começará este argumento a ser aplicado à venda de lápis e canetas. E, eventualmente, a qualquer outra coisa que hipoteticamente possa ser usada como uma arma, tal como um teclado, uma caçarola ou uma lata de sardinhas.

A estas imposições adicionam-se também os recolheres obrigatórios que se encontram em vigor em diversas zonas urbanas – a partir das 9 horas da noite, a polícia tem o direito legal de deter qualquer pessoa com menos de 16 anos (independentemente de esta ter ou não cometido alguma ilegalidade para além do simples facto de se encontrar na rua) e transportá-la de volta à sua residência – e a proibição do uso de bonés ou roupa com capuz no interior de numerosos estabelecimentos.

Todas estas situações são sintomáticas de uma sociedade que vive com medo, um profundo medo de quase tudo o que os rodeia. Os efeitos perniciosos não-intencionais destas medidas, as quais de alguma forma irónica pretendem reduzir a criminalidade e apaziguar este medo, são visíveis. Por um lado, as proibições e restrições conduzem a uma perda generalizada da responsabilidade individual, não sendo, portanto, de admirar que um adolescente que nunca tenha sido responsável por tomar decisões importantes sobre o que ingerir se torne eventualmente dependente de alguma substância, uma vez que o acesso ao seu consumo foi mitificado pela sociedade, ou que tenha uma ideia pouco clara do que é um comportamento nocturno civilizado simplesmente porque não lhe foi dada a oportunidade de sair durante a noite e aprender por si mesmo. Também não é particularmente surpreendente que quem seja regularmente forçado a desrespeitar as leis (e veja outros a fazê-lo sistematicamente), por estas se terem tornado num mar de normas totalmente vazio de significado ou simplesmente impossível de não quebrar – numa sociedade em que existem tantas regras absurdas, toda a gente se habitua a quebrar a lei e perde-se a ênfase em perseguir os verdadeiros criminosos -, se sinta tratado como um criminoso e nunca acabe por assimilar inteira e correctamente, de forma natural ou através de modelos familiares, quais as regras e os princípios realmente importantes a acatar por forma a manter uma co-existência pacífica e estável com os outros elementos sociedade, tornando-se ocasionalmente num marginal que não sente quaisquer obstáculos morais na sua busca por formas de entretenimento fácil.

Como em todos os círculos viciosos, grande parte dos que não se tornam transgressores sérios durante o processo de crescimento, mesmo perante todos os incentivos criados por uma sociedade controlada pelo medo, acaba por a formar a larga maioria da nova geração de amedrontados, aqueles que foram escudados de todos os potenciais males e que, precisamente devido a esse excesso de protecção, parecem ter medo de quase tudo, reforçando a aprovação de medidas políticas semelhantes à da geração anterior, embora, progressivamente, ainda mais restritivas. [Uma excelente ilustração deste mecanismo é dada, precisamente, pela evolução da lei das armas no Reino Unido durante o último século, que passou de ser uma das mais liberais a uma das mais castradoras. Adicionalmente, esta tese oferece uma boa explicação para o facto de que muitos dos vídeos e relatos de resistência que têm estado a surgir na imprensa se referem especificamente a turcos, sikhs e outras comunidades imigradas em Inglaterra]

Por outro lado, a propaganda socialista predominante e o facto de que os sociólogos do costume tenham sempre uma justificação preparada para desculpabilizar os actos de vandalismo e pilhagem, transformando os criminosos em vítimas, não só estimula a ocorrência destes actos como impede que aqueles que demonstram comportamentos inadequados nunca sejam efectivamente responsabilizados, mantendo-os numa situação de adolescência artificialmente prolongada e permanente imaturidade.

Uma sociedade que teme tudo e todos, sobretudo os delinquentes e o que a eles associa, acaba por aceitar e apoiar leis que, por definição, colocam restrições exclusivamente aos cidadãos que cumprem a lei, ou seja, aos que não têm intenções de cometer crimes. Como seria de esperar, o resultado de um enquadramento jurídico em que as vítimas que se encontram indefesas (isto porque quando as coisas apertam, a polícia, mesmo que esteja presente, não move uma palha) não podem adquirir meios de defesa próprios e os criminosos estão armados (porque são criminosos; as proibições legais não preocupam quem tenciona cometer assaltos ou homicídios) é uma sociedade composta por uma imensa maioria de coelhos assustados à espera da matança e uma minoria (em risco de extinção) legalmente impedida de se defender, o que, só por si, já é um extraordinário incentivo à delinquência.

Claramente, não existe qualquer incentivo, por parte do estado britânico, para resolver esta situação. Uma sociedade na qual os indivíduos se encontram armados é uma sociedade que pode mostrar resistência a abusos do governo e insurgir-se quando necessário, mas, acima de tudo, uma sociedade armada é uma sociedade que tem pouca necessidade de serviços policiais. Não existe melhor forma de justificar a necessidade da prestação de um serviço do que impedir qualquer forma de concorrência. Tendo tudo isto em mente, não é particularmente surpreendente observar os diversos apelos que a polícia e os lacaios do regime têm feito nos últimos dias para que os ingleses essencialmente cometam suicídio colectivo e se deixem matar e roubar.

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12 pensamentos sobre “Reino Unido: o medo de viver

  1. Joaquim Amado Lopes

    A potencial vítima de um crime não se poder defender, nem sequer dentro da sua própria casa, apenas se pode compreender se as Leis em Inglaterra estiverem a ser escritas pelos criminosos.
    Caso os 3 indivíduos que foram mortos por tentarem defender propriedades de serem destruídas tivessem sobrevivido, provavelmente acabariam na prisão.

    E parece que as autoridades inglesas já passaram o ponto de “Não existe melhor forma de justificar a necessidade da prestação de um serviço do que impedir qualquer forma de concorrência.” e nem sequer prestam o serviço que impedem outros de prestar.

  2. bob

    Bom post, mas depois de ver vários vídeos dos motins no UK pergunto-me, onde estão as mulheres/chavettes?

    Ficaram em casa com os “pais irresponsáveis” a apreciar o saque, com medo, a comandar ou nada?

    Bob

  3. @Joaquim:

    «E parece que as autoridades inglesas já passaram o ponto de “Não existe melhor forma de justificar a necessidade da prestação de um serviço do que impedir qualquer forma de concorrência.” e nem sequer prestam o serviço que impedem outros de prestar.»

    Sim, mas eu diria que isso já é mesmo por desenho – a qualidade do serviço corresponde ao que geralmente se pode esperar de um monopólio. Paga-se caro, muitas vezes não aparecem e quando o fazem deixam muito a desejar.

    @bob:

    Infelizmente para a imagem do género masculino em geral, no que toca a actividades criminosas as estatísticas não são muito animadoras, por isso presumo que as mulheres estariam sempre em minoria num conflito violento como este. Em todo o caso, esta foi apanhada e de chavette parece ter pouco… lá se vai a teoria dos pobres oprimidos.

  4. JS

    Muita da aparente indiferença da polícia que testemunhava infrações à lei é norma do protocolo de conduta policial baseada no sistema de câmaras de vigilância.

    Se um bando ataca uma rua é melhor um polícia vivo a identificar prevericadores nas gravações vídeo do que mais um ou dois agentes no Hospital.

    E as câmaras, e a posterior localização, seguem-nos não só para onde se irão acoitar, durante horas, dias, semanas a fio, mas também, de onde vieram! horas, dias, semanas antes.
    E resulta, podem ter a certeza.

  5. Joaquim Amado Lopes

    JS,
    Alguns problemas com essa conduta policial:
    1. Os prevaricadores continuam a prevaricar nessa rua e nas seguintes;
    2. Os prevaricadores continuam livres para prevaricarem ainda mais nos dias seguintes;
    3. Como a prevaricação é essencialmente um exercício contra a autoridade, a ausência de reacção dos polícias presentes motiva os prevaricadores a prevaricarem de forma cada vez mais violenta;
    4. A “aparente” impunidade dos prevaricadores motiva outros a juntarem-se a eles;
    5. A esmagadora maioria dos prevaricadores nunca será punida;
    6. A maioria dos prevaricadores que seja punida receberá uma punição meramente simbólica e (quase?) nenhum será obrigado a devolver os frutos das suas prevaricações;
    7. Mesmo que as companhias de seguros paguem a totalidade dos danos patrimoniais causados pelos prevaricadores (o que nunca acontece), as vítimas das prevaricações saiem sempre a perder, pelos incómodos e tempo perdido mas principalmente pela violação que é ser vítima de um crime;
    8. Promove-se a ideia de que se pode prevaricar mesmo à frente da polícia e que as vítimas devem deixar os prevaricadores fazerem o que quiserem.

    Assim, não tenho a mais pequena dúvida de que essa conduta policial apenas resulta em mais motins, saques, agressões e mortes.

    No primeiro motim, a polícia devia ter:
    1. Deslocado para o local todos os agentes disponíveis;
    2. Encurralado os “prevaricadores” numa rua e fechado completamente todas as saídas;
    3. Apanhado, algemado, identificado e prendido os “prevaricadores” um a um, independentemente do tempo que demorasse;
    4. Respondido violenta e implacavelmente a todos os que os atacassem, se necessário recorrendo a armas de fogo.

    A seguir, os tribunais deviam:
    5. Condenar todos os presos;
    6. Fazê-los colectivamente pagar várias vezes todos os danos causados, os incómodos para as vítimas e as despezas policiais e judiciais, num mínimo individual que fizesse mossa.

    Se isto tivesse sido feito, duvido que acontecessem outros motins.

    Já agora, a mesma receita para as claques de futebol que provocam distúrbios.

  6. Pingback: Os criminosos de Londres são filhos do Welfare State e do multiculturalismo? « O Insurgente

  7. JS

    JAL. Boa argumentação e com parte da qual, óbviamento, concordo. Iremos ver o resultado das análises dos vídeos de segurança, inclusivé os do metro, aparentemente bastante “proveitosos”, bem assim como posteriores acções policiais.
    Quanto a procedimentos judiciários e penais lá, como cá, … é outra história.

    Como sabe parte da tibieza inicial da polícia, -além da desproporção numérica- deveu-se a um triste antecendente. Acusados, em actuações anteriores, de “rudeza em excesso”, vários agentes da corporação em causa, foram alvo de penosos processos internos. Não sabemos se justos ou não, nem se justamente ajuizados. Se calhar também teríamos as mesmas hesitações iniciais.? Não. Cordialmente.

  8. @JS:

    “E as câmaras, e a posterior localização, seguem-nos não só para onde se irão acoitar, durante horas, dias, semanas a fio, mas também, de onde vieram! horas, dias, semanas antes. E resulta, podem ter a certeza.”

    Não tenho dúvidas sobre a eficácia das câmaras em invadir a privacidade de toda a gente (criminosos ou não), mas quanto à eficácia em contribuir para as investigações, até a própria Scotland Yard não está tão segura:

    http://www.guardian.co.uk/uk/2008/may/06/ukcrime1

    http://www.telegraph.co.uk/news/uknews/crime/6082530/1000-CCTV-cameras-to-solve-just-one-crime-Met-Police-admits.html

    http://www.thisislondon.co.uk/news/article-23412867-tens-of-thousands-of-cctv-cameras-yet-80-of-crime-unsolved.do

  9. Joaquim Amado Lopes

    JS,
    Podemos esperar para ver o resultado das análises dos vídeos de segurança. Mas há algumas certezas desde já estabelecidas:
    1. Uma grande parte dos prevaricadores não poderá ser identificada por usarem máscaras, gorros, …
    2. Muitos dos identificados nunca o serão de forma que não deixe margem para dúvidas e, portanto, dificilmente irão a julgamento;
    3. Com o número de motins, de prevaricadores envolvidos (muitos milhares) e de câmaras de video-vigilância, nem se se juntassem os meios policiais de toda a Europa seria possível analisá-las todas em tempo útil;
    4. Depois dos motins, a vida volta ao normal. Isto quer dizer que os meios policiais e judiciais voltam a estar ocupados com o dia-a-dia e não estarão disponíveis para o trabalho extra de identificação de dezenas de milhar de prevaricadores de motins e os tribunais já sobrecarregados de processos não poderão lidar com muitos mais casos;
    5. Muitos dos prevaricadores são de classe média-alta e os respectivos papás e mamãs contratarão os advogados que forem necessários para os safar. No limite, acabam a fazer algum serviço comunitário.

    O resultado mais do que certo é que serão acusadas algumas dezenas de prevaricadores, com penas “pesadas” (apenas na boca das autoridades – p.e. “pena de prisão de 3 anos, suspensa por igual período na condição de não reincidir” – e rápida e discretamente revistas e atenuadas), apenas para servirem de exemplo. Exemplo completamente inútil porque os que organizaram e participaram nos motins saiem impunes e com “lucros” significativos, o que fará com que já estejam a pensar na próxima “festa”.

    Li ontem um artigo em que os motins de Inglaterra são enquadrados com outros motins que ocorreram nos Estados Unidos.
    (pode ser lido em http://www.garynorth.com/public/8351.cfm)

    O autor (americano) acredita que os motins “de Londres” vão chegar aos EUA e termina com:
    “The jealous steal. The envious burn. They’re already in a city near you.
    There will be an incident. There always is.
    There may be a riot. If there is, governments will react. Freedoms will be removed. Voters will cheer.
    Violence feeds on itself.
    The victims of banditry will take it for a while. They have been guilt-manipulated for 45 years. But the day will come when they will dig in, the way the Indian shop owners did in London. But, in this country, the victims will be armed.
    Better to be tried by 12 than carried by six.”

    Amen to that.

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